domingo, 30 de dezembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. V - Out of the Darkness

  O seu corpo foi projectado no ar e embateu violentamente de costas numa parede. O impacto que sofrera fora incrivelmente forte e, não fosse aquele reflexo de cruzar a arma em frente ao peito ao ouvir um ruído metálico crescente na sua direcção, provavelmente teria ido desta para melhor. Ergueu-se a custo e o silêncio imperava de novo no meio daquela escuridão que o tornava cego. Segurando a caçadeira com as duas mão em frente ao peito, deu os primeiros passos na busca de um local iluminado, um local onde não fosse uma presa fácil.

Com a audição em alerta máximo, caminhava o mais lento e silenciosamente possível, levando de tempos a tempos, uma das mãos à frente e para os lados, para sentir a parede e se orientar da melhor maneira possível. Sem que pudesse fazer nada, o seu pé assentou sobre um pedaço de chão que, embora ligeiro, libertou um rangido. Arreganhou os dentes e ficou tenso e imóvel por momentos, em alerta. Ao final de alguns segundos, continuava sem ouvir nada e relaxou, preparando-se para avançar novamente. Foi então que, sem ouvir ou sentir fosse o que fosse, uma mão lhe apertou o pescoço de frente, cortando-lhe a respiração. Reagindo por reflexo, impulsionou a arma de baixo para cima contra aquele braço, conseguindo libertar-se e, com toda a força que tinha, libertou um pontapé na mesma direcção, atingindo violentamente o adversário, que chiou de dor. Tentou atingi-lo uma segunda vez, mas falhou, ouvindo um sapateado rápido de fuga. Pensou então, que talvez, seguindo na direcção do som daqueles passos, fosse dar a uma "saída" daquele buraco negro em que se encontrava e começou a correr. Deu-lhe a sensação de correr cerca de dois ou três minutos, de quase chocar meia dúzia de vezes contra paredes, só descortinando em seguida a mudança de direcção que tinha de tomar, até que começou a ver luz ao fundo do corredor, mas também deixou de ouvir os passos. Aquilo era estranho! Pelo que havia constatado ao longo do caminho, só havia uma rota possível, logo, como seria possível deixar de ouvir os passos que sempre se mantiveram na sua frente e não ver nada? Agora que já conseguia ver alguma coisa devido àquele brilho distante, mesmo que o individuo tivesse parado, tinha de estar naquele mesmo corredor, naquele mesmo espaço, à sua frente! Isto não lhe cheirava bem. Algo de muito errado se passava ali.

Não teve tempo de pensar mais no assunto, pois o agressor atacou de novo. Socou-o duas vezes na face, uma vez no abdómen, segurou-lhe o pescoço com uma mão e, com a força do outro antebraço no pescoço, encostou-o à parede, começando a aplicar-lhe joelhadas. Ele tentava proteger-se, colocando os braços cruzados entre os joelhos e o seu corpo e tentava aproveitar uma aberta para respirar e contra-atacar, mas não estava a ser nada fácil. Os ataques do outro eram constantes e demasiado rápidos, mas tinha de conseguir, tinha de conseguir afastá-lo e recuperar a arma que tinha deixado cair. 

Repentinamente, o tipo atrasou um dos golpes, talvez para recuperar o fôlego, e, mesmo estando extremamente dorido e desgastado, ergueu a cabeça velozmente, atingindo-lhe a zona do queixo com a parte de trás do crânio, fazendo-o soltá-lo. Enquanto este cambaleava, pegou-lhe num dos braços, torcendo-o e, com um pontapé nas dobras das pernas, projectou-o violentamente de costas contra o chão. Este contorceu-se e demorou a levantar-se, tempo suficiente para que ele recuperasse a arma e lha apontasse.

  "Mostra-te!" - gritou-lhe, carregando a bomba da caçadeira.

O agressor deu dois passos em frente e deixou que a pouca luz existente o revelasse parcialmente. De estatura média, envergava uma bata branca e ensanguentada e tinha a cara tapada por uma máscara de demónio japonesa, vermelha como sangue. Outro dos pormenores estranhos do personagem era, o enorme golpe que possuía no ombro direito, tão profundo e largo, que tornava visível o osso da clavícula. Aquela figura tornava-se ainda mais arrepiante com aquela iluminação débil e acastanhada.

Embora sério, ele estava admirado com a quantidade de aberrações com que se havia deparado nas últimas horas. Se voltasse agora a casa e contasse aquilo a alguém, certamente acabaria o dia internado no hospital para os dementes. No entanto, ainda não tinha visto tudo o que aquele demónio guardava na manga e, sem tempo para qualquer tipo de reacção, viu-o desaparecer da sua frente numa nuvem de fumo. Ainda disparou uma vez, mas não atingiu nada.

Manteve-se alguns segundos na expectativa, até que, vindos de várias direcções e alternadamente, surgiram os mesmos ruídos de arrasto que ouvira anteriormente. Virava-se constantemente na direcção de cada som, alguns distantes, outros perto, parecendo, por vezes, estarem mesmo em cima de si, mas não via nada. De repente, vindo de nenhures, o demónio vermelho surgiu na sua frente e atacou-o com o que parecia um cutelo gigante, quase do tamanho do seu dono. Só teve tempo de se jogar para o chão, escapando por milagre ao golpe horizontal que lhe foi dirigido, e em seguida, rebolar para longe, evitando o segundo golpe, descendente e que abriu um enorme sulco no chão de madeira. Ergueu-se rapidamente e viu o outro levantar a enorme lâmina e apoia-la no ombro. Estava explicada a origem daquele enorme golpe e do som arrastado, pois via agora o objecto cortante, perfeitamente encaixado entre carne e osso, enquanto ele andava e se dirigia para si, arrastando a perna do lado que suportava o peso.

Sem esperar para ver mais, carregou a bomba várias vezes e disparou outras tantas, vendo aquele verme evitar todos os disparos sem qualquer esforço. Simplesmente se desviava com uma velocidade sobre-humana, mas ele continuava a disparar e a recuar. Sem dar conta, ele desapareceu e no segundo seguinte estava nas suas costas. Ergueu a caçadeira e susteve a lâmina acima da sua cabeça, cerrando os dentes e tremendo violentamente com o esforço. Pontapeou-lhe o abdómen e conseguiu recuar para disparar novamente, mas sofreu nova frustração. Novo desaparecimento e novo ataque pelas costas, desta vez com um golpe horizontal de arrasto, que embora defendido, o projectou por vários metros no ar, fazendo-o estatelar-se brutalmente no chão. O ar fugiu-lhe dos pulmões e contorceu-se de dor. Apoiou joelhos e mãos no chão para recuperar o fôlego e procurou a sua arma. Estacou. O tipo já estava bem próximo e interpunha-se entre ele e a caçadeira. Viu-o levantar o cutelo com ambas as mãos e desesperou.

***

Ela caminhava perdida por aqueles corredores escuros, assustadores e intermináveis. Tomada de assalto por constantes ruídos, gemidos e uivos, que pareciam vir do além, o medo era cada vez mais senhor e dono da sua mente. Não passava de uma cientista e aquilo não era definitivamente o que imaginara fazer, quando se alistara naquela força de intervenção. Tinham-lhe dito que aquela missão seria como todas as outras, para entrar, recolher e avaliar. Não existiriam confrontos e, no caso de existirem, seriam mínimos e de fácil resolução. "Até enviamos os novatos.", disseram, por forma a que se convencesse. Aceitou, e logo nos primeiros instantes se arrependeu. Entraram naquela maldita instituição e desceram uma infinidade de escadarias, chegando finalmente ao laboratório clandestino, onde foram de imediato atacados por uma horda de zombies, que comeram metade da equipa que a acompanhava. Sobreviveram três, incluindo ela, mas que, devido à constante corrente de inimigos, se separaram, para não mais se encontrarem. Não fazia ideia se se encontravam vivos, ou se já haviam sucumbido às criaturas. A única coisa de que tinha certeza absoluta era da fome e da sede que tinha, era que, se não encontrasse uma forma de sair dali rápido, talvez nem fossem necessárias criaturas para a matarem.

De repente, ouviu novo grito, mas este era diferente, era humano. Fora uma manifestação mista de aflição e esforço. A curiosidade falou mais alto e apressou-se naquela direcção.

***

Ignorando a dor no peito, aproveitou o facto de ter as mãos apoiadas no chão e dessa forma, impulsionou-se para o lado. Resultou e escapou, mas não totalmente. A sua mão direita ainda foi atingida, decepando-lhe dois dedos, o mínimo e o anelar e arrancando-lhe um grito a plenos pulmões, como se o ar nunca lhe tivesse faltado. Com aquela injecção de adrenalina na circulação, aproveitou o tempo que o outro demorou a erguer a sua pesada arma e conseguiu recuperar a sua no momento certo, pois imediatamente após a ter agarrado, ele manifestou-se à sua retaguarda e ficou imobilizado, deixando cair o cutelo com estrondo. Ao recuperar a sua caçadeira, pegou-lhe com o cano virado para trás e, mal o viu surgir, disparou rapidamente, abrindo-lhe um buraco no abdómen. Virou-se e olhou o demónio nos olhos. O seu olhar vitorioso contra um olhar de espanto em falência. O som seco daquele corpo sem vida ao embater no chão, foi acompanhado de um grito, cujo foi interrompido a meio. Ele olhou para trás, olhar profundo, sangue escorrendo da mão e arma em punho, apontada ao propagador daquele novo ruído. Deparou-se com uma mulher de baixa estatura, cabelo castanho claro, com madeixas a dar para o ruivo, com ambas as mãos em frente à boca, olhos fechados e vestida com uma bata branca...uma bata como o maluco que acabara de matar.

  "Quem és tu? Afasta as mãos do corpo, para onde eu as veja bem! Rápido!" - disse asperamente, enquanto avançava para ela de arma apontada, tentando esconder as dores que ainda sentia e o debilitavam.
   
  "Oh meu Deus, isto é só doidos! Eu sou só uma simples cientista, enviada para aqui numa missão, supostamente de baixo risco, e que de repente, viu metade da sua equipa ser comida por monstros saídos de filmes de terror. Fugi e perdi-me dos restantes sobreviventes. Não fui treinada para estas coisas e acho que a única sensação que me resta de momento é o medo. Dei por mim, no meio destes corredores e, ao ouvir um som que me pareceu humano, corri na sua direcção, tudo para me deparar com dois loucos a matarem-se e ser ameaçada pelo vencedor. Eu não sou ameaça nenhuma para ninguém, por favor..." - ela disparava informação a uma velocidade alucinante, que acompanhada de um soluçar constante, eram um autêntico atentado à saúde auditiva de qualquer um.

  "Pára,pára! Já chega! - ela calou-se bruscamente e tremeu - Tens de respirar mulher, senão nem é preciso bicharada para que morras. Vou baixar a arma e vamos conversar com calma, ok? - ela assentiu com um gesto nervoso de cabeça e ele baixou a arma - Dizes fazer parte de uma equipa que foi enviada para aqui? Numa missão de investigação...para novatos?"

  "Sim...isso mesmo. Mas...como sabes que eram novatos que me acompanhavam?! Quem és tu afinal?" - a postura dela alterou-se e a curiosidade foi evidente, tanto na expressão corporal como no tom de voz.

  "Eu faço parte da equipa enviada para vos resgatar, mas por uma decisão impensada da minha parte, também me separei dos restantes membros e agora tenho de voltar a encontrá-los, pois não vejo ninguém a sobreviver sozinho durante muito tempo neste lugar. - já chegando perto dela e estendendo a mão, disse - O meu nome é Rui."

  "O meu é Sara e...não imaginas o alívio que sinto neste momento." - apertou-lhe a mão com um suspiro e novo ânimo no olhar.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sem escape Cap. VI - Submerso

  Não sei por quanto tempo fiquei em transe segurando aquele pedaço de tecido em frente aos meus olhos. Aqueles momentos de aflição foram percorridos de ponta a ponta inúmeras vezes pela minha mente, na incessante busca por algo que me retirasse da escuridão e me revelasse algo que me tivesse escapado. Precisava de algo palpável, algo que me mostrasse o caminho, uma luz que me guiasse na direcção das respostas, respostas essas que eu sabia agora existirem, se na forma de soluções provisórias ou permanentes, não fazia ideia, mas a prova da sua existência balançava por entre os meus dedos, ao sabor da suave, mas gélida brisa da noite.

Um ruído abafado libertou-me daquele transe e prendeu-me a atenção à casa. Avancei em direcção à abertura da frente, onde anteriormente a minha porta tinha feito segurança, enquanto guardava aquele pedaço no meu bolso. Avancei apreensivo, uma passada cadenciada e silenciosa. Encostei-me lateralmente à ombreira, ainda no exterior da casa. Com a maior das cautelas, curvei-me ligeiramente e, esticando e curvando o pescoço, olhei furtivamente o interior. Não via nada nem ninguém e o único ruído audível era o crepitar da minha lareira, cuja se encontrava ainda acesa...estranhamente, visto que quase podia jurar que já se apagara há muito, pela altura da explosão vítrea que quase me ceifara a vida, mas que minutos depois, parecia não ter acontecido. Mas aconteceu! Eu sei que aconteceu! Tal como tudo até então, embora o que quer que provocasse aquelas situações, me quisesse fazer querer o contrário.

Agachei-me e entrei. Um pé e, só momentos depois, o outro, um rastejar até ao sofá e as costas encostadas à parte traseira do mesmo, uma avaliação rápida do espaço...vazio...o fogo como única companhia...erguer e, em bicos dos pés, alcançar o início do corredor, ouvir a melodia eólica que dominava todo aquele comprimento...imperturbável...o som do fogo a diminuir lentamente com a distância e silenciar com a visão da cozinha, escura e fria. Aguardei por momentos, até que a minha visão se habituasse à obscuridade e, certificando-me que a divisória estava vazia, acendi a luz. As luzes brancas piscaram no arranque e sem explicação, estouraram com uma barulheira tremenda. Levei as mãos aos ouvidos e, quando as comecei a afastar novamente, ouvi novo som, como se o fogo tivesse ganho uma dimensão tal que fosse capaz de consumir toda a habitação. Mal regressei à sala de estar, após um sprint breve, mas carregado de tensão, o fogo, quase a tocar o tecto e a atingir mobílias, extinguiu-se bem à minha frente. Incrédulo, mesmo depois de tudo, aproximei-me da lareira. Nada estava danificado. Nem uma minúscula marca chamuscada. Foi quando olhei para cima e vi. No tecto, uma mancha preta parecia crescer para além da zona afectada pelas chamas e o cheiro a queimado começou a entranhar-se-me nas narinas. Era de tal forma intenso que comecei a sentir-me nauseado. Dirigi-me ao exterior para respirar, mas até a rua parecia infestada com aquele odor. Voltei a entrar e corri para a cozinha, para o lavatório, onde abri a torneira em força e joguei a água corrente na face por várias vezes. O alívio fez-se sentir, mas pouco ou nada durou e as náuseas voltaram a imperar devido ao poder cada vez maior daquela olência. Esfreguei a cara com nova quantidade de água e proibi-me de respirar pelo nariz, abrindo a boca para o efeito. O resultado estava a ser satisfatório e a má disposição agonizante, não passava agora de uma ligeira "moinha" no estômago.

Tinha-me dado ao luxo de me sentar por alguns segundos numa das cadeiras brancas da minha branca cozinha, quando o cheiro desapareceu por completo, quase como que assumindo a derrota perante mim. A ideia de um sorriso passou-me pela cabeça, mas não chegou a atingir o mundo real, visto que o ruído abafado se voltou a manifestar, vindo do corredor. Ergui a cabeça, cuja testa tinha apoiada nas palmas das mãos e avancei naquela direcção, armado com a cadeira, como precaução para qualquer eventualidade. Já a meio daquele comprimento, sem ter voltado a ouvir nada e sem ver nada nem ninguém, uma nova pancada seca ecoou. Constatei que, estranhamente, a origem vinha do interior das paredes. Pousei a cadeira e encostei o ouvido à quadrela. De imediato senti como se me quisessem bater na cabeça e por reflexo afastei-me. Fiquei perplexo quando, o som imediatamente a seguir foi o chamar do meu nome pela voz da minha mulher. "Vanda?!", balbuciei em choque. "Vanda, és tu?!", perguntei, encostando novamente o ouvido. "Pedro...Pedro, tira-me daqui, por favor...", se poucas dúvidas me restavam, naquele momento tive a certeza de que aquela era a sua voz. Estupidamente, guiado pelo turbilhão de sentimentos, a primeira coisa que fiz foi usar a cadeira. Escusado será dizer que, após o segundo embate, pouco restava da mesma, tendo-se partido em vários bocados, sem provocar estragos para além de uma lasca aqui e ali. "Eu vou-te tirar daí, amor! Não te preocupes!", disse isto e abalei a correr no sentido da garagem. Sabia ainda lá ter um dos martelos que os tipos da construção haviam usado para derrubar a parede que separava a cozinha do anexo externo, para posteriormente montarem a porta em arco que agora lá se encontrava. Não foi preciso procurar muito e em pouco mais de cinco minutos estava de volta. "Protege-te Vanda! Vou tirar-te daí!". Dito isto, comecei à martelada à parede, desta vez com efeitos bastante satisfatórios. Aquela barreira desmoronava-se rapidamente e não demoraria muito até que conseguisse tê-la nos meus braços. Ainda não sabia como podia aquilo ser real, depois de tudo o que havia visto acontecer, mas isso agora não me importava. Quando o buraco atingiu o tamanho suficiente para a passagem de um adulto, espreitei para o interior e vi-a. Estava afastada para um canto e totalmente encolhida e a tremer, vestindo uma túnica branca com apontamentos dourados nas zonas de costura. Chamei-a e não obtive resposta. Penetrei no espaço até metade do meu corpo e voltei a chamar, desta vez estendendo a minha mão, quando senti algo tocar-me do lado de fora. Saí de um só rápido movimento e ouvi correr na direcção da cozinha. Voltei a colocar as duas mãos no martelo e, pedindo à Vanda que esperasse, fui ver quem ali estava.

Ao chegar à cozinha gritei em fúria. Mais uma vez, não havia ninguém para ser encontrado. Aquelas situações em constante repetição, pareciam brincadeiras de mau gosto, se é que se podem tratar de forma tão leviana. Virei costas, não sem antes cravar uma martelada num armário, que se desfez em bocados, precipitando uma quantidade considerável de loiças para o chão e provocando uma barulheira infernal. O meu cérebro e consequentemente, a minha capacidade de raciocínio, começavam a ser uma nulidade e, tal como as loiças, acabavam de se desfazer completamente em cacos com a visão que tive. Os pedaços da parede destruída pareciam ter ganho vida e vi os últimos, voarem na direcção das falhas correspondentes, acabando de a reconstruir na totalidade, encontrando-se o chão totalmente limpo...até o pó havia desaparecido. Instintivamente, recomecei à martelada no mesmo ponto e os destroços começaram a amontoar-se novamente, simplesmente para, de repente, voltarem à origem, agregando-se e reconstruindo mais depressa do que eu conseguia contrariar. As forças começaram a abandonar-me e caí de joelhos por momentos. Olhei em frente e nem uma arranhadela para me dar uma esperança. Para piorar o meu desespero e sensação de impotência, ela recomeçou a gritar do interior. Eram gritos de pânico, gritos de dor e desespero. Levantei-me sem o martelo, encostei as palmas das mãos à parede e chorei. Chorei enquanto lhe pedia perdão, enquanto me tentava perdoar a mim próprio por tal inutilidade. Num ataque de histerismo, comecei a bater na parede, a princípio de mão aberta e pouco depois, aos murros, com a maior violência com que se possa imaginar. Esmurrava a parede enquanto expulsava gritos guturais de raiva, enquanto ouvia o som dos ossos dos meus dedos quebrarem, enquanto ignorava o sangue que pingava da pele rasgada. Senti os olhos revirarem e a língua inchar, quase até ao ponto de me impedir de respirar, mas não conseguia parar. Com uma das mãos comecei a puxar também os cabelos até arrancar tufos e a arranhar a cara, com uma intensidade tal que só me faltava arrancar os próprios olhos. Sentia o meu corpo a perder o controlo e, embora eu tentasse fazê-lo parar, não conseguia. Ele reagia de forma autónoma e eu mais parecia um génio preso numa lâmpada. Sentia todas aquelas agressões externas e espasmos musculares, sem nada poder fazer. Era outra vez aquela sensação do sofrimento sem resposta, só que desta vez, era o meu corpo a provocá-lo a ele próprio. Todas aquelas marcas ensanguentadas na parede, formavam uma pintura macabra que simbolizavam a dor e a angústia no seu estado mais puro e descontrolado. Aquele sangue que me corria da cabeça em fios, ensopando-me o cabelo e fazendo-me pestanejar a cada gota que me pendia das pestanas, fez-me lembrar das feridas e peladas que havia feito a mim próprio. Tal era  a minha condição, que me havia esquecido de algo tão doloroso e que tinha feito há não mais de dois ou três minutos. Agora que me lembrara, ardiam-me por toda a cabeça. Por fim e após tempo demais, caí de joelhos no chão, a arfar como um cavalo, ruidosamente como um comboio, de cabeça a pender sobre o peito e braços caídos ao longo do corpo, com as costas das mãos destruídas e tocando o solo. Após alguns segundos, já respirava mais lentamente, mas com a sonoridade do rosnar de um cão, cada vez mais grave, até que, na derradeira investida, o meu corpo decidiu atacar de cabeça...literalmente. Assim que o meu crânio embateu na dura superfície, todo o meu cérebro desligou.

Comecei a recuperar os sentidos lentamente, acompanhado de dores agudas, especialmente nas mãos e cabeça, mas o que mais me afligia era a falta de ar. Sentia-me inexplicavelmente apertado e, abrindo finalmente os olhos na totalidade, tive a explicação de todos os porquês. Estava preso dentro da parede. Foi o pesadelo. A forma como eu abominava e temia lugares fechados e apertados. Comecei a entrar em pânico e a transpirar que nem um louco, o ar a faltar cada vez mais e as forças a esvairem-se ao triplo da velocidade. Tentava desesperadamente por todos os meios conseguir deslocar-me pelo apertado espaço antes que sufocasse, procurar alguma fresta que me proporcionasse ar, melhor luminosidade e, acima de tudo, contacto com o exterior...com o espaço aberto. O meu desespero estava prestes a alcançar um pico histórico e eu pensava que nada pior poderia acontecer, mas estava enganado. Comecei a sentir os pés molhados e a chapinhar e, dentro daquilo que me era permitido pela área disponível, olhei para baixo, somente para constatar que a prisão onde estava encarcerado, se estava a encher de água. O ar abandonou-me os pulmões e tenho a sensação que perdi totalmente a capacidade de respirar. Espalmado como estava naquele espaço, não teria qualquer hipótese de escapar, a não ser que alguém surgisse e me tirasse dali. Com tremendo esforço, consegui absorver uma golfada de ar e gritei por ajuda, mas a minha voz estava fraca...estava diferente. Isto fez-me parar surpreendido, mas não por muito tempo, pois o nível do liquido subia velozmente e já me ultrapassara a cintura. Por muito fútil que fosse, e eu sabia que era, voltei a gritar e a dar pancadas na parede à minha frente. As pancadas soavam secas e até a mim, custavam a ouvir. Estava condenado, ou talvez não. Talvez fosse mais uma daquelas ilusões em que de seguida acordava e tudo parecia normal. Mas podia ser também daquelas situações permanentes, como certos ferimentos dos quais não me livrara. Não me sentia tentado a testar qual delas seria, mas que poderia eu fazer? Que mal podia eu ter feito para merecer o castigo das últimas horas? Porquê eu? Porquê a minha família? Vanda...Rafael...ainda o posso salvar...ainda o posso...! Num acesso de determinação, enchi o peito de ar, que já se encontrava também ele submerso até à zona dos ombros, e procurei uma solução. Já a água me tocava no queixo, quando vi que, acima da minha cabeça, o espaço prolongava-se até perder de vista e estava repleto de tábuas cruzadas em X, o que me permitiria escalar. Estiquei-me o mais que pude e auxiliei com os pés, pressionando a biqueira de um à frente e a planta do outro à retaguarda, enquanto me tentava puxar para cima com as mãos, mas estas estavam tão feridas que vacilavam constantemente. A água já me cobria metade da face, obrigando-me a inclinar a cabeça para trás, mas devido ao constante movimento do meu corpo, esta ondulava e, de quando em quando, entrava-me pelo nariz, fazendo-me fungar e cobria-me os olhos, fazendo-mos arder e atrapalhando ainda mais a difícil missão que era a minha fuga. Porém, consegui finalmente puxar-me para cima e, com os braços em torno de uma das tábuas, apoiar o peito na mesma. Permiti-me a descansar por uns segundos antes de continuar, pois a água não parava de subir, acabando de me submergir novamente os joelhos, quando me preparava para recomeçar.

Estendi o braço direito e fiz força contra a parede, voltei a apoiar os pés da mesma forma, para não cair, e só então, soltei o braço esquerdo e recuei-o para terminar a posição de escalada. Tremia descontroladamente devido às dores provocadas pelos ferimentos, mas, de dentes cerrados, lutava para não me deixar vencer. O frio da água nas partes baixas disse-me que acelerasse e retomei a subida de imediato, afastando todos aqueles pensamentos. Havia subido cerca de um metro, pouca distância em comparação com o que ainda me restava até à zona onde me poderia apoiar, quando senti puxarem-me o pé da retaguarda, um dos meus grandes pontos de apoio, visto não me poder fiar nos membros superiores. As minhas costas rasparam pela parede, rasgando roupa e pele, e um dos meus joelhos estalou com o impacto na superfície dura à sua frente. Não tive tempo de reacção e num ápice encontrava-me submerso, com "O" vulto negro a meu lado, apertando-me o pescoço com uma das suas mãos disformes.


sábado, 1 de dezembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. IV - Right by your side

  "Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"
  "Calma! Não pode ter ido longe. - retorquiu Bruno.
  "Tenho calma?! Eu estou calmíssimo, afinal de contas, o meu irmão só desapareceu sem razão, em escassos segundos e num sítio infestado de merdas que eu pensei que só existiam nos jogos que jogava em puto. Óbvio que me encontro calmo e despreocupado! - disse, elevando a voz sem se aperceber e andando a passos largos na direcção da porta da igreja. - Acho que ouvi qualquer coisa lá dentro!" - Bruno seguia-o de perto.

Estavam prestes a tentar abrir a porta do local sagrado, quando uma meia dúzia de novas aberrações surgiu e correu na sua direcção. Tinham todo o corpo em carne viva, eram extremamente magros e apresentavam, para além dos normais membros superiores, dois braços abdominais, algo atrofiados. Independentemente da sua débil constituição, eram incrivelmente rápidos e as estruturas ósseas, semelhantes a lâminas, que lhes saíam das palmas das mãos, para além de serem do tamanho de um ante-braço, tornavam-nas absurdamente perigosas.

Com um tiro de caçadeira, Pedro desfez a cabeça do "Queimado" mais próximo, mas este não caiu, nem tão pouco diminuiu a velocidade da sua corrida, passando simplesmente a atacar de uma forma ainda mais agressiva e aleatória, devido à privação de visão. Foi obrigado a atirar-se para o chão e a rebolar para a sua esquerda e para longe. Bruno chegou-se perto e ajudou-o a erguer-se com uma mão, enquanto mantinha a sua metralhadora a disparar com a outra. 

  "Mas que...? Mas que porra é esta?" - perguntou o grandalhão enquanto o puxava para cima.
  "Boa pergunta, mas lamento informar que a minha ignorância é idêntica à tua! Esta bicharada dum cabr...o faz de tudo um pouco! Agora até lhes rebentamos a bolha e não morrem!"
  "Então despedaçamos os animais. Hun?"
  "Concordo...e gosto!"

Já com alguns um pouco mal tratados pelas constantes rajadas de Bruno, os dois começaram a correr em círculos, confundindo os adversários e separando braços e pernas dos corpos disformes.
***

Filipe foi o primeiro a reagir, girando rapidamente o corpo para escapar ao salto de um dos lobos na sua direcção e, em simultâneo, aplicar-lhe um valente murro em cheio no focinho, fazendo-o ganir e estatelar-se contra um jarrão de quase um metro de altura, despedaçando-o. Ângela esquivara-se habilmente e corria escadas acima, perseguida por dois canídeos, enquanto Miguel, estendido no chão, com um animal em cima, afastando-se do fio de baba constante e evitando as tentativas de mordida, encostou o cano da sua arma ao seu agressor e lhe desfez completamente a zona abdominal, enchendo de sangue a zona torácica do seu uniforme negro e fazendo a criatura sair projectada contra um dos corrimões da escadaria, onde, depois de cair, ficou inerte. O sniper aproximou-se do lobo que o havia atacado e, antes que este se recuperasse e saísse do meio dos cacos de porcelana que o rodeavam, encostou-lhe o cano longo e frio à cabeça, enquanto lhe pisava um dos flancos e disparou. Aquela cabeça, ao ser atingida por uma bala daquela dimensão a uma distância quase inexistente, reagiu com uma espécie de explosão, não restando nada a não ser, pedaços de osso, pele, sangue e cérebro espalhados pela área em redor. Ele sacudiu ainda a bota para se ver livre de um bocado de massa cinzenta que parecia pulsar na sua biqueira.

Já  no varandim do andar de cima, Ângela tentava ganhar distância em relação aos dois perseguidores. Algumas fintas de corpo, uns agachamentos para lhes escapar quando saltavam, mas no fim, pareciam estar coordenados na perfeição, pois nunca conseguia ter espaço para reagir devido à proximidade constante de pelo menos um. Foi então que realmente prestou atenção ao lustre gigante que dominava o espaço sobre a cabeça dos colegas. Completamente composto de cristal, estrutura férrea e sólida, com 1,80m de altura e 1,20m de diâmetro, proporcionava-lhe a plataforma perfeita para se ver livre dos mordedores. Correu na direcção do precipício e, com um rápido e ágil impulso com os pés no corrimão de madeira escura, saltou na direcção do trono dourado. O barulho que fez ao chocar com a estrutura, fez com que os companheiros olhassem para cima, mesmo a tempo de a verem pendurada e um dos lobos, que saltara atrás dela, ganir antes de quebrar o pescoço no violento embate que teve com o solo. Não fosse tão grande o ruído do lustre balouçante e o estalar daquela coluna ter-se-ia ouvido por todo o espaço, em todo o seu arrepiante esplendor. Ela ergueu-se, equilibrou-se e voltou a saltar para o varandim, para uma zona afastada do inimigo, onde, empunhando as suas gémeas, aguardou pela aproximação deste. Quando o achou à distância certa, disparou dois tiros, um em cada pata dianteira. A velocidade do canídeo era tal que caiu de focinho no chão, mas o seu corpo continuou a avançar de arrasto, até ser travado por uma bala, habilmente colocada no topo do seu crânio. O silêncio restabeleceu-se ao final de alguns segundos, quando o eco do último tiro se calou.

***

Os "Queimados" estavam espalhados por todo o lado. Braços aqui e ali, pernas além e acolá. Os dois amigos olhavam em redor, com as suas armas ainda fumegantes, certificando-se de que não restava nenhuma daquelas coisas viva. Haviam-se apercebido durante a contenda, de que aquele tipo de bicharoco, era extremamente sensível ao desmembramento e que os tiros à cabeça não produziam grande efeito. Guardavam as armas no preciso momento em que um grito de raiva e dor se fez ouvir, vindo do interior da igreja.

  "Ricardo!" - gritou Pedro, desatando a correr para a porta.

A porta era de madeira sólida e foram necessários uns três cartuchos da pequena caçadeira, para que esta se abrisse. Bruno aplicou-lhe um forte pontapé e esta escancarou-se, dando passagem a um acelerado e preocupado irmão.

  "Ricardo! -  olhou em volta e viu-o à sua direita, agarrado ao braço esquerdo, olhando o que parecia ser um soldado morto numa poça de sangue - "Estás ferido! Que..." - Bruno chegou perto no exacto momento em que ele soltara o irmão de um abraço e lhe agarrava cuidadosamente no braço, por forma a ver a extensão do ferimento. 
  "Eu estou bem maninho, calma! O mesmo não se pode dizer deste filho da pu...a! - interrompeu Ricardo - Apanhou-me à traição e puxou-me cá para dentro durante a vossa distracção com os "Rodinhas". Custou-lhe cara a gracinha. Auu..." - o irmão tocara-lhe na ferida ao de leve.
  "Fico descansado por ver que estás bem, mas o golpe ainda é fundo. - ele avaliava minuciosamente o corte enquanto abria a pequena bolsa com desinfectante e material de sutura - "Vamos sentar para eu te tratar disso. Rápido e sem discussão!"
  "Eu não vou ficar a ver essa mer...a! Estou ali à porta de vigia." - Bruno não suportava agulhas e afastou-se deles assim que se sentaram.

***

Ela acabara de descer as escadas e se juntar a eles, quando Filipe perguntou:
  
"Não é por nada, mas onde está o Rui?"

Todos se sobressaltaram. Com a incursão de lobos, ninguém tinha dado por falta dele. Chamaram por ele e reviraram a totalidade daquele hall, ambos os pisos, mas sem qualquer tipo de resposta ou pista do seu paradeiro.

  "Separados ou juntos, não me interessa, mas vamos procurá-lo e já!" - a voz totalmente alterada.
  "Calma, calma! - interviu Ângela, colocando-lhe uma mão no peito, obrigando-o a parar - Sabemos que é o teu irmão, mas não vamos agir de cabeça quente e cair em alguma armadilha mortal, porque ai, não lhe serviremos de nada. Vamos manter-nos juntos como até aqui."
  "Tens razão! Desculpem. - olhou para baixo e sacudiu a cabeça antes de voltar a olhar em frente - "Vamos começar então por este lado. Ângela, toma a frente do grupo. O teu discernimento está bem mais apto que o meu neste momento!" - ela acedeu e tomaram o caminho da direita, a partir do piso térreo.

***

Já há vários corredores que seguia aquele vulto, mas sempre sem se conseguir aproximar o suficiente para constatar o que era, ou quem. Sabia que se estava a arriscar em demasia ao ter abandonado o grupo, mas pretendia fazer as coisas de forma que lhe fosse possível reunir-se com eles e ainda, ouvir a descompustura do irmão ao saber o que ele tinha feito. Avançava a passo de caracol devido ao compasso extremamente lento que a figura assumira desde há poucos minutos, quando todas a luzes se apagaram. A escuridão era total, visto não existirem janelas no sítio onde se encontrava e, para piorar a situação, o silêncio era também ele absoluto, o que o preocupava determinantemente, visto que, fosse o que fosse que perseguia, ter produzido um som de arrasto a cada movimento até então. Deixou-se ficar quieto e à espera por alguns minutos, mas como nada aconteceu, decidiu avançar, lenta e cautelosamente. Mal deu o primeiro passo, o som de arrasto voltou. Estava mesmo a seu lado.



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Death by my Fingertips: Cap. III - Realização

  Vejo-me na frente de mais uma bela mulher. A minha terceira paixão, na minha terceira noite de libertação, loucura e realização. Adormeci na noite anterior, ainda extasiado com o odor a carne queimada que permanecia nas minhas roupas e sonhei. Sonhei com a mulher que agora tenho nas mãos, como se previsse o futuro. Vi-me a afogar na sua doce carne, os seus tendões a explodirem entre os meus dentes. O seu mel vermelho a fluir suavemente, docemente, calorosamente, pela minha garganta. Sonhei com o arrancar daquele escalpe, numa demonstração plena do meu amor, as minhas unhas cravando memórias nas suas costas. O sabor dos seus gritos na ponta da minha língua. Sonhei que estava apaixonado e constato agora que estou.

O que começou por ser uma simples troca de olhares, tornou-se uma atracção carnal como nunca havia sentido antes. Até quando ela se aproximou de mim no cinema, o meu coração a tocar-me o céu da boca, não soube como reagir. Não foi daquelas meigas ou cheias de etiqueta, mas sim rude, agressiva gestualmente e na forma de falar. Foi amor à primeira vista. Era aquela a mulher do meu sonho. Quando o filme terminou, puxou-me de forma bruta para fora do edifício e, antes de nos pormos a caminho para o seu apartamento, beijou-me e trincou-me o lábio inferior. Senti o sangue a correr e limpei-o com o polegar, para vê-la em seguida lamber os seus próprios lábios e o meu dedo, deliciando-se com o sabor daquele doce elixir púrpura. O espaço livre no interior das minhas calças encurtou rápida e consideravelmente. Não consegui evitar e ela reparou, jogando a mão e passando a apertar e puxar como se de uma trela se tratasse. Deixei-me levar com um sorriso nos lábios. A mão dela provocava uma dor incrivelmente aguda e ela sabia, mas era também notória a satisfação no meu semblante. Estava mais duro e volátil que nunca quando entrámos no apartamento dela, carregado de pinturas doentias e obscenas, na minha opinião românticas, e de espelhos incrustados em paredes escuras. Chegámos então à minha vez de jogar.

Já a tinha feito guinchar que nem um porco no matadouro e implorado que continuasse a montá-la vezes sem conta. Já a tinha feito vir-se um par de vezes e misturar uma gargalhada com um grito quando lhe trinquei o clitóris, esguichando sangue. Fui violento o quanto quis, porco a meu bel-prazer e sádico acima do absurdo, mas ela continuava a acompanhar. Ela estava a gostar tanto como eu, engolindo até e esfregando-se com o meu sémen.

Peço-lhe então que me arranje um fio de seda ou semelhante, para amarrar algo e ela, sem questionar, obedece e levanta-se para ir buscar. Levanto-me também e toco no botão Play da aparelhagem, fazendo ecoar por toda a casa uma música demasiado barulhenta para o meu gosto, mas com um étimo de violência extraordinário. Aumento o volume e ela olha-me de soslaio sorrindo, mas volta de imediato à sua busca nas gavetas. Aproveito o barulho e a distracção e, enrolando as calças de ganga no braço, parto um dos vidros, do qual apanho um dos maiores e mais bicudos fragmentos. Vou até à cama novamente e antes que ela se vire, oculto o objecto contundente no meio da roupa enrodilhada. Olho-a enquanto se dirige para mim, sorridente e ansiosa por saber qual a minha ideia. Insulto-a de cabra, puta, besta e javardona, fazendo com que não repare no espelho partido na ponta oposta da divisória e me salte para cima, prendendo-me os pulsos e esfregando, provocadora, com o traseiro, os meus genitais. Sem aviso, ela olha em frente e, através do reflexo, vê os danos por mim causados, esboçando surpresa e desconfiança na sua expressão. Atinjo-lhe rapidamente a zona da glote com um golpe seco da lateral da minha mão. Ela agarra a garganta, aflita devido à repentina falta de ar e privação da voz. Não adiantaria, no entanto, gritar, pois com o volume exageradíssimo da música, ninguém a ouviria. Pego-lhe pelos ombros e puxo-a para o lado, assumindo de imediato a posição superior. Rapidamente, com as amarras que me entregou, amarro-lhe os pulsos acima da cabeça e os tornozelos. Em seguida, machuco os seus collants e preencho-lhe a cavidade bocal com os mesmos. Paro por momentos e ouço os seus gemidos, ignorando o pânico naquele olhar. Nada tão doce como o sabor do medo, cujo sinto a cada passagem da minha língua pelos seus peitos. Volto a pegar no pedaço de vidro que havia escondido e olho para ele pensativo. Quando me decido, giro-o na palma da minha mão e olho para ela sorrindo, tanto pela minha decisão, como pelas súplicas silenciosas que lhe acompanhavam as lágrimas. Pensei que gostavas de dor, minha vaca! Estiveste a mentir todo este tempo? Vamos tirar a prova! Lentamente esculpo-lhe um D no lado direito da face, fazendo um fio vermelho desenhar uma linha irregular pelo pescoço, até terminar no lençol branco, numa mancha que aumentava lentamente, muito lentamente. "Esta é a inicial de dor...a minha palavra preferida, tal como o teu corpo.", sussurro ao seu ouvido, lambendo-lhe a ferida em seguida. Ainda sem erguer a cabeça de junto da dela, espeto o aguçado objecto na base da sua mama, do mesmo lado da letra. O seu soluçar passa a uma espécie de guincho, no meio de um choro compulsivo e um espernear quase esquizofrénico. Aquilo deu-me vontade de rir e ri. Ri à gargalhada enquanto usava a arma como uma faca e lhe cortava a mama, separando-a por fim do corpo. Ela treme em choque e a pequena mancha de sangue no lençol, foi consumida por um rio que lhe escorria pelo tórax e abdómen. Pego-lhe no queixo e enquadro os seus olhos com os meus. Estão revirados e ela já nem produz qualquer som, mas mantêm-se consciente. Finalmente uma que consegue aguentar. Sinto-me feliz, realizado. Consegui elevar o nível de adrenalina desta gaja de tal forma que, nada do que fiz a fez desmaiar. Já me sinto livre para tomar a sua vida, sem frustrações como anteriormente.

Pego no último atilho que resta e prendo o vidro ao meu pénis. Quando o sinto seguro, abro-lhe bem as pernas e encaixo-me. A primeira penetração foi tão lenta que fui capaz de sentir as vibrações da carne que rasgava. Certamente a ouviria também, não fosse a barulheira musical. O sangue que saía da minha virilha, provocada por um dos bicos que me pontuava a cada impacto, misturava-se com o dela, fornecendo-me o calor mais vivificante que alguma vez sentira. O corpo dela tem espasmos cada vez mais fracos, após alguns violentíssimos aquando da minha entrada. A vida abandona-lhe o corpo a uma velocidade incrível. Antes que aconteça na totalidade, saio daquilo que há minutos atrás se poderia chamar de vagina, agora um mero trapo de pregas de pele desfeita, sangue e carne viva, e passo novamente a arma para as minhas mãos. O corpo quase inerte, reage com alguns esticões intervalados e pouco convictos, enquanto lhe abro o ventre, expondo-lhe as entranhas. Suavemente, encosto-lhe o corpo à cabeceira da cama, em posição sentada, e assisto ao derradeiro suspiro. Só pelo gozo, puxo-lhe os intestinos para fora e coloco-lhos como se de uns suspensórios se tratassem.

Já estou vestido e penso numa recordação que possa levar daquela paixão. Olho para o quadro de minha autoria e lembro-me da mama. Pego nela e embrulho-a na camisola da ex-dona, levando-a comigo ao sair.

A chuva acaricia-me a pele agora que caminho pelas ruas, arrefecendo o meu termóstato natural. Olho as autênticas multidões que circulam naquela noite de fim de semana, quase como se fosse um período de ponta. Continuo a ouvir em todo o lado que passo, que a polícia já me apanhou, mas isso ainda não é bem verdade. Rio-me deles, armados em espertos, quando dizem que estão no caminho certo. Obviamente que estão! Vistos todos os erros por mim cometidos, o facto de ainda não me terem apanhado revela toda a estupidez, incompetência e desleixo envolvido. Começo a ficar farto de putas e a minha paciência está a esgotar. Espero que os azuis cheguem antes que me vire para mulheres decentes, com maridos e filhos. Não é que vá sentir coisas fúteis e lamechas como remorsos, mas se já estou farto destes falatórios que por ai andam, quanto mais, dos que se gerarão se isso acontecer. No fundo não quero, mas a minha razão deseja ardentemente que me apanhem da forma mais célere possível. Eu amo o meu trabalho e quero começar tudo de novo.      

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. III - Not so Holy Place


  Atordoado, Ricardo começava a erguer-se. Tinha ambas as mãos e os joelhos apoiados no chão enquanto abanava a cabeça, tanto para sacudir os pedaços de madeira, como para dissipar o nevoeiro que lhe assolava a mente. Ouviu passos e, afastando o olhar daquele chão ladrilhado, semelhante a pedra antiga e desgastada, olhou para a sua esquerda. Viu alguém que envergava calças de camuflado verde-folha e botas de biqueira de aço pretas, avançar na sua direcção a passo largo e desferir-lhe um pontapé, de baixo para cima, em cheio no ventre. Soltou um grunhido surdo e levou a mão direita à zona atingida, enquanto sentia um pouco de saliva escapar-lhe por entre os lábios. Sem tempo de reacção, foi novamente atingido, mas desta vez na face, fazendo-o girar sobre si mesmo no ar e rebolar um par de vezes após voltar a tocar o solo. Sentiu o sabor adocicado do sangue na boca e uma explosão de adrenalina percorrer-lhe o corpo. Ainda caído, apanhou o pé que o atingiria pela terceira vez e deslizou a sua perna no chão para rasteirar o agressor, cujo se libertou e se esquivou com um mortal à retaguarda. Sem perder tempo, ergueu-se de um pulo e encarou, olhos nos olhos, o adversário. Aquele olhar imerso em tensão durou alguns instantes, enquanto os dois se avaliavam, descrevendo, em relação um ao outro, um círculo a passo lento. Ricardo soprava de forma zombeteira as pontas do seu cabelo ligeiramente comprido, enquanto o outro retirava lentamente a sua boina vermelha e a atirava para o chão em tom desafiador. Pararam de repente e ambos retiraram a faca de combate que tinham presa ao cinto, quase como se tivessem lido os pensamentos um do outro. O sopro do vento fez-se ouvir nos instantes que antecederam o início do confronto.

Ricardo deu dois passos largos e saltou, estocando o adversário em pleno ar, obrigando-o a mover-se lateralmente para se escapar. No entanto, este tipo não lhe conhecia os golpes de assinatura e, mal se julgou seguro, ele esticou a perna esquerda e atingiu-lhe violentamente a cabeça, derrubando-o. O careca levou as mãos à cara e esfregou-a com força, levantando-se de seguida, mas dando dois passos laterais que mostraram o quanto havia ficado atordoado. Os cabelos compridos dele esvoaçavam enquanto se esquivava dos contínuos golpes que lhe eram dirigidos, mas estes golpes eram tão rápidos e precisos que requeriam toda a sua concentração, o que não o deixou ver que o espaço à sua retaguarda começava a ser inexistente. Quando reparou, sofreu um ligeiro desequilíbrio que teve como sacrificado o seu braço esquerdo e teria tido também o seu pescoço, não tivesse sido tão rápido a levar a sua faca acima, fazendo a lâmina do adversário deslizar sobre a sua, perdendo a trajectória. Num ápice, atacou-lhe o abdómen com o cabo da sua arma e, girando a lâmina sobre a sua mão, aplicou um golpe ascendente que fez o outro urrar de dor e recuar prontamente. Nesta aberta, aproveitou para olhar o seu braço. Por entre um pedaço de tecido negro rasgado, via-se agora um golpe bastante fundo e corrente. "Filho da p...a", pensou, avançando para ele. Este por sua vez ergueu a face e deixou ver a real extensão dos danos. Um corte enorme, quase da boca até à testa, passando por um olho direito, do qual jamais voltaria a ver. Gritou enraivecido e lançou-se sobre o jovem que pensara a início, ser "um trabalho fácil". Alguns golpes rápidos de cintura, uns poucos bloqueios com a lâmina à altura de coxas, abdómen e tórax e por fim, um golpe com a base do pé, centrado ao joelho, fazia o vilão cair por terra com a articulação partida. Antes que este caísse totalmente, Ricardo apanhou-o e prendeu-o pelo pescoço, com a faca a roçar o mesmo. Quase não se debateu, sabendo que a situação não lhe era favorável e que caíra nela, muito devido ao seu ataque impensado e cego de raiva.

  "Quem és tu meu cab...o? É melhor começares a falar e dizeres-me também quem te mandou aqui e o que se passa neste maldito fim do mundo!?"

Não obteve resposta, porém, o careca, num derradeiro esforço, tentou projectá-lo por cima de si por forma a fazê-lo cair de costas. Ele não permitiu, partindo-lhe um dos braços e, quando este o tentou apunhalar com o outro, também não perdoou, torcendo-lho e perfurando-lhe a traqueia com a própria faca. O tipo começou a gorgolejar e deixou cair o braço. Então ele, pegou na faca e retirou-a, rodando a lâmina sobre si própria. O corpo caiu inerte e as golfadas de sangue começaram a formar um pequeno lago em torno daquela cabeça.

Começaram a ouvir-se tiros contra a porta e ele pôs-se em sentido, mas quando esta se escancarou, ouviu a voz do irmão a gritar pelo seu nome. Relaxou e jogou a faca ensanguentada do adversário para o chão, lançando-lhe um último esgar de desprezo.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. II - Different Paths

  Procuravam aqueles três há imenso tempo, mas sem qualquer tipo de sucesso. Inúmeros corredores, anteriormente transitáveis, encontravam-se agora bloqueados por detritos e tornava-se muito difícil circular no interior do edifício. Miguel tentara inúmeras vezes comunicar com eles através do rádio, mas apenas obtinha estática.

  "Não vamos obter nada ficando aqui e estamos a perder o nosso valioso tempo. Eu vou ligar o meu rastreador e eles hão-de acabar por nos encontrar, além de que, eles sabem bem tomar conta de si próprios."
  "E como sabes tu que estão vivos sequer?" - replicou Rui, perante o que o irmão dissera.
  "Conheço-os bem. Não há praga nenhuma, nem maldição, que seja capaz de me livrar daqueles atrasados mentais! Confia em mim e vocês também. Vamos pôr-nos a caminho e eles acabarão por se juntar a nós em breve." - virou costas e começou a caminhar na direcção da saída.

Ninguém ficou muito convencido ou agradado com aquela decisão, mas na falta de melhores ideias, todos o seguiram, embora as trocas de olhares e comentários silenciosos entre eles se mantivessem até atingirem os limites da cidade. Estavam todos apreensivos e mantinham os sentidos em alerta total, protegendo a retaguarda uns dos outros e cobrindo todos os ângulos dos quais pudessem surgir surpresas. Desde o toque daquela buzina sombria, que não se via qualquer movimento. Acabaram por penetrar no bosque e até mesmo aí, o silêncio e ausência de monstruosidades era total. Avançaram quase sempre em silêncio, intercalando com períodos de passo acelerado ou corrida, quando se deparavam com clareiras, nas quais se encontravam expostos e, ao final de cerca de duas horas sem encontros imediatos, alcançaram o perímetro do manicómio.

***

  "Fod...e! Que é isto? Não há a mer...a de uma saída em lado nenhum!" - praguejava Pedro.
 "Calma Zé. Havemos de encontrar uma forma, nem que tenhamos de mandar isto abaixo." - respondeu um muito mais calmo Bruno.
  "Claro, nem que seja daqui a três meses!" - retorquiu Ricardo, recebendo um olhar reprovador de Bruno que parecia dizer, "Não piores esta mer...a.".

Pedro, com o seu ódio colossal a períodos prolongados passados em espaços fechados, disparava, pontapeava e esmurrava tudo. Ricardo reparou a dada altura, quando o seu irmão tirou por momentos uma das luvas, nos nós dos dedos ensanguentados deste. Aproximou-se e, sem dizer nada, agarrou-lhe a mão, que já se dirigia a uma nova área de betão, olhando-o de forma a que entendesse que tinha de parar com aquilo. Ele pareceu acalmar e Ricardo, após lhe dar duas ligeiras palmadas no ombro, retomou a caminhada com Bruno. Após respirar fundo para se tentar acalmar, seguiu-os. Sabiam que tinham de encontrar uma saída rápida ou aquele membro do grupo ia começar a entrar em paranóia e acabar por cometer alguma atrocidade, coisa que no seu dicionário possuía muitas vertentes de incomparável imaginação e dimensão. No meio de tanto corredor igual, acabaram por conseguir sair da espiral em que andavam há uma eternidade e enveredaram por um bem mais curto, mais largo e que viam pela primeira vez. Ao se aproximarem do fundo, começaram a ouvir Pedro a rir aos soluços. O porquê era óbvio. Havia uma janela enorme, apenas bloqueada por inúmeras tábuas.

  "Tu arrebenta-me já com isso, meu bandalho, senão eu próprio arrebento as tábuas com a tua cabeça." - disse Pedro com um sorriso aparvalhado no rosto.
  "Andas a sonhar acordado! Andas, andas!" - assim que acabou de dizer esta frase, a sua metralhadora gigante já fazia saltar madeira por todos os lados. 
  "Bora. Vamos sair desta casa de banho gigante e rápido." - disse Ricardo que acabou o serviço de demolição com as próprias mãos, arrancando o que restava das tábuas.

Já no exterior, enquanto avançavam cautelosa e furtivamente, mantiveram uma conversa em sussurros acerca da criatura que os havia perseguido. Obviamente não chegaram a conclusão nenhuma, excepto uma, ou seja, aquela criatura ia pagar por quase os ter feito borrar as calças. Ninguém fazia uma coisa dessas e saía incólume. Entretanto, atingiram a entrada de uma igreja e pararam por momentos. Pedro, aquele que conhecia melhor Miguel e há mais tempo, alertou os outros para a possibilidade de este ter liderado o outro grupo em direcção ao objectivo, confiando nas capacidades deles os três para se voltarem a reunir. Ligou então o localizador e a sua teoria confirmou-se. As coordenadas colocavam o companheiro no meio daquele bosque.

***

O grupo mantinha-se unido enquanto explorava as redondezas do edifício. Os jardins que circundavam o imóvel encontravam-se completamente degradados, com bancos partidos, baloiços estragados, alguns com o assento suspenso e balouçante em apenas uma corrente, a relva não existia, tendo sido substituída por um solo lamacento e possuidor de um cheiro pútrido, árvores despidas e mortas e uma vedação da qual, só algumas barras metálicas de suporte restavam de pé. O edifício em si possuía um número absurdo de janelas, todas elas bloqueadas com barras de aço extremamente largas, a pedra que o constituía tinha um aspecto rude, desgastado e a sua coloração dava-lhe um aspecto doentio, que juntando aos sinistros telhados bicudos e à escuridão da noite, tornavam o local num dos menos convidativos que se possa imaginar. Ao terminarem a batida à área, visto não encontrarem qualquer sinal de perigo, decidiram entrar e avançaram em direcção ao alpendre mais próximo. A porta deste encontrava-se trancada, tal como tantas outras que experimentaram em seguida em torno de todo o edifício. Chegaram à altura em que só a porta da frente restava. Ângela rodou a maçaneta e, surpreendentemente, esta estava destrancada, mas mal pisaram o seu interior, a buzina voltou a ouvir-se, bem como o som da porta pela qual haviam entrado a trancar.


***

A buzina ecoava pelas ruas e os três entreolharam-se, ainda encostados à porta principal da igreja. Se aquele som tinha afastado o grandalhão anteriormente, agora que não havia "bicharada" na rua, que quereria dizer? Não podia ser bom! Começaram a ouvir ao longe e a aproximar-se, o que parecia o rosnar de cães e o chiar de rodas no alcatrão. Puseram-se em posição. Pedro e Bruno avançados em relação ao mais novo, Ricardo, que se manteve junto à porta. Viram então surgir quatro criaturas, as responsáveis por ambos os sons. Todas elas pareciam cães,mas, a meio, o seu corpo tornava-se mecânico e, ao invés de patas traseiras, tinham duas rodas pequenas e largas, assentes no chão. As estranhas criaturas, para além de possuírem dentes gigantesco, salientes e afiadíssimos, numa boca enorme, onde as gengivas se encontravam totalmente expostas, no meio de uma cabeça sem olhos, possuíam umas patas que pareciam tiradas de um rinoceronte. O seu aspecto combinava na perfeição com o seu comportamento agressivo e, sem demoras, investiram. Os três começaram a disparar e a arma de Bruno mostrou-se de grande eficiência, fazendo um passador da cabeça do que se encontrava mais próximo. O sangue escorreu dos diferentes orifícios e era roxo, libertando fumo no contacto com o chão. Um segundo abriu a boca decidido a arrancar as pernas a Pedro, mas falhou o alvo e deu de caras com as duas Uzis de Ricardo que lhe enfiaram uma infinidade de balas pela garganta abaixo antes que tivesse tempo de fechar a boca. Caiu morto e, devido à velocidade que trazia da corrida, o seu corpo ainda deslizou um bom bocado pelo solo, embatendo contra a porta da igreja. Enquanto estava no ar, devido ao salto que dera para se esquivar do ataque às suas pernas, Pedro disparou um tiro de caçadeira e um de Colt, bem em cheio no alto da cabeça de um outro que lhe passava por baixo em direcção a Bruno. O sangue roxo escorreu-lhe de imediato por entre os dentes e ainda foi visível o impacto da bala por baixo deste a embater no alcatrão após lhe furar o crânio. O último estacou e rosnou ao ver-se cercado por Bruno e Pedro e foi autenticamente feito numa papa roxa na qual só a parte metálica mantivera minimamente a forma original. Ricardo via-os a disparar contra o pobre infeliz quando sentiu uns braços envolverem-lhe o pescoço, puxarem-no para dentro da igreja e projectarem-no contra e através de uns quantos bancos da nave principal, deixando-o atordoado no meio de inúmeros pedaços de madeira despedaçada. Sorridentes, os dois no exterior olharam e já não o viram, alterando de imediato o seu semblante.

  "Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"

***


Tentaram em vão abrir a porta e não queriam fazer barulho com as armas, logo não as utilizaram. Olharam em redor e o hall era realmente imponente, com luzes claras de tom ligeiramente amarelado, uma grande escadaria, que a meio se dividia em duas, uma para cada lado do enorme varandim que tinham acima das cabeças, enormes e caras tapeçarias no chão e paredes, bem como, uma excelente decoração composta de quadros e vasos que aparentavam ser de extremo valor. O mais intrigante é que ali, em contraste com a degradação externa, tudo se encontrava em óptimas condições, para não se levar ao extremo de dizer novas. Tinham duas portas duplas, uma à esquerda e outra à direita e a subida até ao andar de cima, como hipóteses para iniciarem as investigações. Falavam entre eles para decidir a abordagem quando as portas laterais se abriram, para se voltarem a fechar de seguida, mas não sem antes deixarem passar uma matilha de lobos a salivarem abundantemente e a tresandarem a podre da carne putrefacta de que eram feitos. Todas as pústulas  e chagas que os cobriam pareceram brilhar no momento em que se lançaram na direcção do grupo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Perdido num olhar

  Os teus olhos hipnotizam todo e qualquer pensamento meu, levando-me a lugares que não deveriam. O meu coração bate com uma cadência diferente na tua proximidade, na esperança, sem medo, de te ter. Tento por tudo encontrar o meu caminho, mesmo sem qualquer certeza de que possa ganhar. Sem nunca ter a certeza se deva ou não afastar-me, os teus olhos dizem, obrigam, imploram-me para ficar. No meio da beleza desse olhar, sinto-me perdido entre marés, pedindo apenas que me mantenhas junto a ti. Não posso no entanto dizer-te isto...guardo-o para mim sem saber o que fazer, fingindo que brinco simplesmente enquanto escorrego sobre gelo fino. Espero que não repares, que não saibas o quanto estou fragilizado na tua presença, mas espero também, que inadvertidamente ou de livre vontade, dês um passo ou me dês a mão auxiliando-me no meu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sem escape Cap. V - A um palmo de distância


  Continuava com aquela risada descontrolada e sem sentido quando comecei a enxugar a vista e a face, ambas completamente encharcadas em lágrimas. Respirei fundo e olhei na direcção do exterior ainda esboçando um pequeno esgar sorridente, mas que num ápice foi substituído por uma expressão mista de espanto e pavor. Vira de relance aquele vulto negro passar ao fundo do meu jardim com o meu filho envolto num abraço pouco amigável. Ergui-me rapidamente e corri na sua direcção, rezando para que não houvesse uma qualquer barreira de forças que me impedisse a saída. Nada aconteceu e fui capaz de correr livremente até à beira da estrada, onde parei olhando para o lado onde os vira desaparecer. Vislumbrei-os ao fundo, com ele flutuando calmamente e o Rafael esperneando violentamente mas sem qualquer efeito. Comecei a correr na sua direcção e gritei quando vi que, subitamente, o meu filho havia pendido a cabeça e os braços, ficando totalmente imóvel. O breu virou ligeiramente o pescoço vendo-me por cima do ombro e acelerou a marcha. Acompanhei-o na acção. Corria que nem um louco quando comecei a sentir uma inércia imensa na zona da minha face. Continuava a correr mas tinha de fazer uma força incrível para manter o pescoço direito, até que de repente, senti o que me pareceu uma mão invisível agarrar-me a cabeça e impulsionar-me de costas para o chão. Tive a percepção de todas as pedras e pedrinhas pertencentes à gravilha, enquanto estas me cortavam a pele durante a violenta queda. Ignorei tudo e, no segundo seguinte já corria novamente, apenas levando uma das mãos às costas por forma a descolar a camisola colada à pele devido ao sangue, cuja me incomodava profundamente.

Já perdera a conta ao tempo que durava a minha perseguição. A coisa fazia-me correr cada vez mais, mas sempre sem conseguir ganhar terreno. Parecia que me gozava, vista a descontracção com que se movimentava. O cansaço começava a apoderar-se de mim e o meu controlo sobre a respiração começava a aproximar-se da nulidade, quando os vi enveredar pelo meio do arvoredo. Embrenhei-me por lá e comecei a ver que tomavam o caminho da vegetação mais densa. A luz da lua era cada vez menos eficaz na missão de me guiar por tais caminhos e a tensão aumentava no meu âmago de forma galopante. Chegou o momento em que só via os obstáculos quando estes se encontravam a escassos centímetros, mas não desisti. Desviava-me para a esquerda, para a direita, saltava e agachava-me. Com as mãos afastava as ramagens e com os pés partia ramadas e espezinhava a vegetação mais rasteira. Apercebi-me que o percurso começava a tomar uma rota descendente quando, sem esforço algum, senti a velocidade da minha marcha aumentar exponencialmente. A essa altura, os meus pulmões ameaçavam colapsar e o meu coração lutava contra uma explosão eminente, mas desistir não era uma opção. O meu filho estava quase ao meu alcance e não o ia deixar escapar por nada. Envolto nestes pensamentos moralizadores face à salvação do meu rebento, nem me apercebi de um monte de silvas que, sem explicação, se gerou na minha frente. Nos milésimos de segundo que antecederam o meu violento impacto contra os espinhos, olhei o demónio, vendo-o parar e virar-se na minha direcção de forma a apreciar o acidente.

A dor e o ardor percorriam o meu corpo na sua totalidade. Sentia espinhos misturados com a carne por todo o lado, mas em especial nas mãos e na cara. A cada tentativa de movimento, estes pareciam enterrar-se ainda mais e as dores passavam de enormes a lancinantes. Tentei levantar-me vezes sem conta, encolhendo-me a cada uma delas nos primeiros segundos, até que, numa dessas tentativas, fiquei com o vulto no meu campo de visão. Com os olhos semiabertos, vi-o retomar a caminhada e começar a ganhar ainda mais distância. Nesse mesmo instante, enraivecido, enchi o peito com ar e prendi a respiração, para me erguer de seguida, num único e rápido movimento. Os golpes ganharam o triplo do tamanho, perdi pedaços de pele nas zonas sem protecção de roupa, o ardor intensificou-se ao ponto de me fazer correr as lágrimas, que por sua vez me faziam franzir a testa ao sentir o seu sal misturar-se com o sangue que me corria pela face e infiltrar-se nas inúmeras feridas de onde este saía. Coxeei nos primeiros passos e gemi nos segundos, mas a força de vontade e a convicção venceram e voltei a correr, desta vez como se aqueles ferimentos fossem algo renovador e me encontrasse totalmente reestabelecido de vitalidade. Agora sim, sentia-me a ganhar terreno.

Estava quase a apanhá-lo, pensando até em esticar a mão para agarrar aquele capote negro, mas o bosque terminou para dar lugar a uma via rápida com bastante movimento. Fui obrigado a parar bruscamente para não ser atropelado, obrigando o veículo envolvido a desviar-se e ouvindo a respectiva buzinadela do mesmo. No entanto, a criatura continuou a avançar. Era como se os carros não a vissem, nem a ela nem ao meu filho. O Rafael, ainda desmaiado, foi erguido acima da cabeça do captor e os veículos passavam livremente por dentro do corpo imaterial da figura. Eles atingiram o separador central e nesse instante, toda a minha hesitação foi expulsa por uma mentalização avassaladora que me dizia que, desse por onde desse, terminasse como terminasse, eu tinha que atravessar aquela estrada. Três passos rápidos e um encolher do abdómen, acompanhado de um movimento ascendente dos braços para fugir ao primeiro veículo. Uma pirueta para escapar à frente do segundo. Uma correria tremenda até ao separador central em sintonia com uma orquestra de buzinas e travagens. Saltei para a segurança do separador e apoiei as mãos no rail, baixando a cabeça por entre os braços na tentativa de recuperar rapidamente o fôlego. Não me permiti perder muito tempo e dirigi o meu olhar na direcção do fugitivo e constatei que ainda não atravessara a estrada na totalidade, talvez por ter ficado surpreso com a visão de um pai louco prestes a ser atropelado inúmeras vezes. Iria ficar ainda mais surpreendido com a visão de um pai louco a cair-lhe em cima, embora ainda não soubesse como, vista a sua existência imaterial. Saltei do centro para a via completamente cego e surdo para o que me rodeava, voltando a mim quando um retrovisor se partiu contra o meu braço, não sendo atropelado por milagre. Levei a mão à zona atingida e apertei, largando de imediato devido às dores que senti. Olhei e vi que as mesmas provinham na sua maior parte dos inúmeros vidros que se haviam incrustado na carne, bem como uma enorme lasca de plástico, cuja arranquei de imediato e de dentes cerrados. Em seguida voltei a calcular mal a minha arrancada e enquanto o carro travava a fundo, vi-me obrigado a saltar e a deslizar com a minha anca sobre o capõ. Mal coloquei os pés no chão novamente, uma outra viatura embateu na traseira da que travara, ficando de imediato entalada por uma terceira que se juntou ao desfile de destruição. Olhei esparvoado e aterrorizado pelo que estava a causar, mas não podia ficar ali a perder tempo, em primeiro pelo meu filho e, também bastante importante, para não sofrer a ira dos condutores lesados. Rapidamente, virei as costas ao aparato e acelerei a passada para os últimos metros de asfalto que ainda me separavam da segurança, vendo o vulto embrenhar-se na escuridão que se espraiava para lá da berma. O trânsito havia parado devido ao acidente, pelo que descurei qualquer tipo de cuidado naquele último troço do meu percurso, incorrendo estupidamente em novo erro. Um qualquer tresloucado a alta velocidade, sem possibilidade de travar a tempo, guinou o volante em direcção à berma e eu passei a encontrar-me na sua trajectória. O chiar dos pneus aumentou exponencialmente quando o condutor levou o pé a fundo ao travão, a viatura começou a derrapar, com a traseira a bailar de um lado para o outro, mas a distância que nos separava diminuía a uma velocidade demasiado elevada e constante. Sem hipótese para mais nada, saltei em desespero na direcção do breu e, embora tenha escapado por um triz à morte, embati violentamente com as pernas nos rails, o que me fez dar meia pirueta no ar e estatelar-me de cabeça no chão duro e coberto de pedras, quase partindo o pescoço. Estava de tal maneira atordoado que não tinha sequer noção de onde estava, ou para onde estava virado, mas nem isso impossibilitou que tivesse plena percepção do estrondo provocado pela explosão que se seguiu ao despiste daquele último automóvel com que me confrontei. Forcei-me a levantar, iluminado por um intenso brilho laranja proveniente do incêndio no asfalto e, ignorando-o, lancei-me novamente na perseguição, desta vez às apalpadelas.

Aquela escuridão não podia ser normal. Após vários minutos, quando já me encontrava recuperado dentro dos possíveis e a minha visão já se deveria ter habituado à ausência de luz, tudo continuava a ser totalmente negro. Era como se fosse cego. Embatia vezes sem conta contra coisas que não distinguia o que eram, tropeçava e caía devido a obstáculos que desconhecia em todos os termos e cada vez me encontrava mais à deriva, guiando-me apenas pelo som de um choro, o que me dizia que o Rafael havia acordado e não estava muito longe. Do nada, o choro tornou-se um grito único de aflição, o que me fez desatar a correr que nem um louco e gritar pelo nome dele vezes sem conta. Comecei a ouvir gritar "Pai...Pai..."! Ele ouvira-me e chamava-me com a voz carregada de medo. Corri ainda mais, mais do que alguma vez correra, até no meu auge de juventude. Ouvia o som cada vez mais perto e quando este me pareceu estar ao meu alcance, um clarão infinitamente maior que um relâmpago cegou-me completamente. Levei as mãos e os braços à cara para proteger os olhos, mas a luz era demasiado intensa. Comecei a ficar tonto e decidi desacelerar o passo e parar, pois não me conseguia equilibrar e deixara também de ouvir fosse o que fosse. Não tive no entanto, tempo para nada, pois enquanto pensava, dei ainda meia dúzia de passos acelerados e o chão desapareceu-me de debaixo dos pés. Comecei a cair e a perder os sentidos, mas antes fui ainda capaz de rodar no ar e olhar para cima. A iluminação havia regressado ao normal e eu caía de uma ravina abaixo em direcção à morte, tendo como espectadores, aquele demónio negro e, ao seu colo, o meu filho lavado em lágrimas. Antes de desmaiar ainda vi o pequenote estender a mão aberta na minha direcção.

Senti-me gelado até aos ossos e comecei a acordar. Encontrava-me deitado no meio do meu jardim, totalmente encharcado e carregado de espinhos em várias zonas do corpo. Procurei os restantes ferimentos provocados pelos carros, ou vestígios de algo que remetesse para a minha queda da falésia, mas nada. Esses ferimentos não existiam, mas os espinhos estavam lá. Algo diferente tinha acontecido daquela vez. Ao me preparar para levantar, reparei que tinha algo preso à minha aliança de casamento. Ao ver o que era gelei ao mesmo tempo que me rejubilei. Tinha na minha posse, um pedaço de tecido preto.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

The Way Of Fear: Cap. I - Straight to Nowhere

  "Como é pessoal? Parecem assustados! Que se passa? Hahaha!" - disse Pedro, sacando algumas risadas dos que o acompanhavam.
  "Tamos muito engraçados, tamos! Tava a ver que nunca mais chegavam. Devem andar a perder qualidades." - respondeu Rui num tom de voz que não era totalmente de brincadeira.
  "Nada disso mano. Cuidado ai com o coração!" - mais uma onda de riso, desta vez provocada por Ricardo.
  "Vá lá pessoal, vamos a atinar e..."
  "Cala-te...Cof...Cof..." - o penteadinho foi interrompido por mais uma brincadeira dos colegas.
  "Parece que vou ter de desatar ao estalo, senão vocês não se calam! - tentou disfarçar um sorriso - Bom, continuando, vamos lá abrir essa porta e encontrar um sítio para nos organizarmos com calma e vocês nos explicarem o que se passou e como vieram parar a tão longe do local da vossa missão, para não falar de que quero sem dúvida saber donde vêm estas coisas que acabámos de matar." 
  "Sim paizinho!" - gracejou novamente Pedro ao dirigir-se à porta, mas não sem antes ser atingido por uma palmada na nuca, o que no entanto, não impediu a vaga de riso, agora de todos os presentes.

"Bam", um tiro da curta caçadeira e uma porção da porta estilhaçou por completo possibilitando agora a passagem para o interior do edifício. Bruno assumiu a dianteira e guiava o grupo pelos corredores desertos e degradados, enquanto Ricardo guardava a retaguarda. As paredes resumiam-se a tons de cinzento, ora mais claros, ora mais escuros, conforme o tamanho dos inúmeros buracos que as preenchiam. Havia zonas em que até o tecto parecia estar a esfarelar ao ponto de poder ceder a qualquer momento. Era rara a porta que ainda se mantinha de pé e, como precaução, embora o silêncio fosse absoluto, certificavam-se sempre de que não havia nada nem ninguém nas divisórias por onde passavam. Não queriam ser surpreendidos. Escolheram uma divisória próxima da porta das traseiras, um ponto de fuga caso acontecesse algo, e pararam para relaxar um pouco e falar sobre a situação. O ambiente era tenso e assustador, com qualquer som a ecoar de tal forma que parecia fazer o triplo do ruído.

  "Vamos então ao que interessa. - disse Filipe determinado - Mandaram-nos aos três para o meio de um qualquer bosque para salvarmos um grupo de novatos que tinham sido descobertos durante a missão que lhes tinha sido delegada e feitos prisioneiros. Quando chegámos perto do edifício marcado, que mais parecia um hospício, pelo menos visto do exterior, reparámos no que parecia ser uma multidão a rondar a zona. Do nada, quase como se nos tivessem cheirado, voltaram-se na nossa direcção e começaram a atacar-nos. Nos procedimentos de defesa constatámos que a sua constituição era de carne putrefacta, se não na totalidade, estava muito próximo disso, e que somente os que eram atingidos na cabeça permaneciam no chão. Penso que mortos não será a forma ideal de me expressar pois, na minha terra aquelas coisas são zombies e mortos já estão, mas sempre pensei que não existissem tais criaturas. Vocês sabem afinal o que se passa aqui?"
 "Primeiro... - interrompeu Pedro na altura que Miguel ia começar a falar - ...convém que nos conheçamos todos, certo? Quem é a tua amiga Lipe?"
  "Eu sou a Ângela e estou aqui, logo não precisas de perguntar essas coisas a terceiros. Prazer..."
  "Gosto Filipe, gosto do estilo! - ela lançou-lhe um olhar fulminante - O prazer é meu Ângela. Eu sou o Pedro, este certinho é o Miguel, o batoco é o Bruno e aqui o adubado é o meu irmão Ricardo. - foram-lhe acenando com a cabeça pela ordem de apresentação, às quais ela retribuiu de forma bastante mais cordial do que a Pedro - Agora já podes falar."
  "Boa Pedro, sempre a criar boas primeiras impressões. - deu mais um dos muitos toques que dava para ajeitar o penteado e recomeçou - Nós também não fazemos ideia do que se passa ou de onde estas coisas vêm. Estamos aqui simplesmente porque recebemos o pedido de auxílio do meu irmão. Nem sequer sabíamos o que estavam aqui a fazer, nem o que íamos encontrar. Vocês sabem por acaso qual era a missão dos outros?"
  "Penso que eles estavam aqui para capturar informações sobre umas investigações obscuras de uns quaisquer doutores. Coisa fácil, num local quase sem segurança. Não sei muitos pormenores porque não nos foram dados, mas basicamente foi isto."
  "Se era coisa fácil e sem grande importância ao ponto de enviarem novatos, então porque não vos disseram ao que vinham? Não faz sentido! Porque se preocuparia o governo com algo que não fosse importante e lucrativo? Isto há aqui muita coisa por descobrir. Acho que devíamos voltar  ao tal hospício." - manifestou-se Ricardo.
  "Concordo." - retorquiu Bruno.
  "Todos concordam? - sinais afirmativos de todas as direcções - Boa, então, vamos a distribuir o equipamento que vos trouxemos e vocês, como já lá tiveram, lideram a matilha." - Miguel fez sinal para que se mexessem e desta vez o seu grupo ia atrás do de seu irmão.

Um barulho enorme ecoou através dos corredores e todos estacaram tentando descortinar a direcção do mesmo, o que se mostrava quase impossível. Parecia vir de um lado cujo era composto apenas por ferro e betão, mas isso não era minimamente lógico. Os seus ouvidos estavam a ser enganados pelo ribombar do som entre aquelas paredes. Começaram novamente a avançar, mas desta vez muito mais lentamente e alerta. A dada altura Bruno prendeu o ombro a Pedro com a sua mão e tocou com o cano da arma em Ricardo, fazendo-lhes sinal que aguardassem e dando um toque de cabeça na direcção da parede mesmo a seu lado. Ficaram um pouco para trás sem que os outros dessem por isso, enquanto Bruno colava o ouvido ao cimento. O baixinho deu um ligeiro assobio que captou a atenção do resto do grupo que parou em espera. Ele e o irmão aguardavam sobre tensão alguma reacção da parte do colega, cuja não demorou a chegar.

"Merda...afastem-se..." - gritou, afastando-se da parede e saltando para o lado, acompanhado pelos irmãos que reagiram prontamente.

Alguma coisa tinha irrompido pela parede, mas não era possível ver o quê. A poeira que pairava no ar bloqueava completamente a visão para além daquele ponto do corredor. Quando começou a assentar, eles não conseguiam acreditar no que viam. Para além de estarem separados do resto do grupo por um monte de destroços que bloqueava o caminho, uma figura gigantesca começava a dar os primeiros passos na sua direcção. Com aquela cabeça estranha em forma de pirâmide quase a raspar o tecto, a pele branca de morte, tapada por uma vestimenta que só talhantes ou carrascos usariam e umas mãos enormes com dedos gigantes donde se evidenciavam garras enorme que brilhavam como lâminas, era deveras imponente. Os passos da besta começaram a tornar-se mais rápidos à medida que eles recuavam e isso não agourava nada de bom. No meio da tensão, Bruno adiantou-se aos amigos e começou a disparar. Alguns tiros atingiram o corpo do bicho, o que não pareceu magoá-lo minimamente, mas a maioria ricochetearam na cabeça metálica, servindo isto apenas para o irritar e o fazer investir em corrida.

  "Isso não foi uma boa jogada! Corram..corram! - Pedro começou a correr, soltando um tiro de caçadeira para trás, sabendo de antemão que seria inútil.
  "Que merda é esta meu? Esta coisa é ao menos real? Porque é que não fiquei em casa, foda-se!" - dizia Ricardo, soltando também umas rajadas enquanto fugia.

A criatura gigante corria agora atrás deles, desfazendo paredes com as próprias mãos e por vezes, simplesmente com o impacto do corpo animalesco, enquanto a ponta mais alta da sua cabeça rasgava o tecto como se fosse papel. Eles aceleravam na sua frente, virando para um corredor atrás de outro, completamente ao acaso em busca de uma saída, visto não lhes ter sido possível enveredarem pelo caminho que conheciam. Procuravam uma porta para o exterior, uma janela, umas escadas para trocarem de piso. Qualquer coisa que lhes permitisse saírem da rota de colisão com o bulldozer que os perseguia impiedosamente, visto que tudo com que se depararam no percurso que pudesse ser uma saída, estava bloqueado com camadas e camadas de sólido betão, cujo não tinham tempo para destruir. O ruído provocado pela destruição que lhes mordia os calcanhares era cada vez maior e mais próximo, mais parecendo bombas, explodindo umas trás das outras.

  "Já fomos! Já fomos!" - Bruno desesperou em consonância com os amigos quando viu que tinham virado para um beco sem saída.
  "Não pode acabar assim! Todos..." - Pedro deu o mote e todos deram tudo o que tinham na tentativa de derrubar aquela camada de cimento que os impedia de continuar.

O perseguidor já assomara ao início do corredor e, quando uma mera dúzia de metros o separava deles, ainda a parede tinha somente uns meros arranhões.

No outro lado dos escombros os restantes membros do grupo não faziam ideia do que se passava. Começaram por ouvir uma barulheira incrível, que com o tempo foi diminuindo até desaparecer. Desde então, nem sinal dos companheiros e o silêncio era total.

  "Não podemos ficar aqui mais tempo. Temos que os ir procurar. Estarmos para aqui a gritar o nome deles sem resposta e sem saber o que se passou não adianta de nada." - disse ela, que no momento parecia a única a manter o raciocínio, talvez por ser a que tinha menos ligação com os desaparecidos.
  "Claro...claro! Tens toda a razão, mas daquilo que já vimos, acho que não há treino para este tipo de coisas. Acho que já nem sei se isto é real ou não...acho que já não sei como reagir." - Rui quebrou a apatia dos homens.

Não foi preciso, nem possível, mais conversa, pois a porta das traseiras colapsou de repente e os zombies começaram a invadir o corredor. Os ávidos canibais começaram a ser dizimados por um tsunami de chumbo que lhes explodia as cabeças, espalhando massa cinzenta por todo o lado. Eram tantos que tiveram de recarregar umas poucas de vezes as armas, mas chegaram a um ponto em que se encontravam totalmente coordenados e nunca havia mais do que um a necessitar recarregar. Momentos depois, com litros de sangue espalhado por todo o lado, misturado com entranhas em pinturas rupestres pelas paredes, a invasão terminou. Sem articularem palavra saíram para a rua e correram para contornar o edifício rapidamente até à porta onde tinham entrado inicialmente de forma a iniciarem as buscas pelos companheiros. Iam a meio do caminho quando uma espécie de buzina rouca se fez ouvir por todo o lado, mas nem sequer pestanejaram, continuando a correr. Preocupar-se-iam com isso mais tarde, se assim vissem ser necessário.

Encostaram-se os três à parede e só faltava olharem uns para os outros para se despedirem antes de abraçarem a morte quando o gigante parou a meio o golpe descendente das suas garras. Uma qualquer buzina fez-se ouvir e a criatura parou, virou-lhes as costas e abandonou calmamente o local. Deixaram-se cair de rabo no chão e ficaram a olhar uns para os outros completamente espantados pelo sucedido. Não faziam ideia do que se tinha passado e só podiam encolher os ombros, mas ninguém podia imaginar a felicidade que sentiam em que assim fosse. Não passaram mais de cinco segundos até desatarem os três a rir à gargalhada.
  

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

The Way Of Fear: Prólogo

  "Corram! Corram".
  Já haviam passado horas e horas em fuga, a munição aproximava-se perigosamente do fim, os poucos mantimentos que não tinham perdido na correria já se haviam esgotado e já só lhes sobrava meio cantil de água. Filipe com a sua Sniper não conseguia ser muito eficaz face à proximidade dos intermináveis mortos-vivos que surgiam de todos os lados. A luz da lua mal conseguia penetrar através das copas das inúmeras e volumosas árvores que compunham aquele bosque e isso também não ajudava em nada. Rui Pedro surgiu na sua frente e começou a despachar aos três de cada vez com a sua caçadeira de combate, enquanto Ângela cobria as laterais disparando alternadamente com as suas duas pistolas. Tinham de ser certeiros, pois só os tiros na cabeça os impediam de se erguer novamente.

  "Já vejo a cidade ao fundo! Temos de nos pirar daqui rápido e pedir ajuda porque o nosso tempo está mesmo a acabar!" - gritou Rui aos colegas.
  "Então antes que a minha menina cante...corram o mais depressa que puderem." - Filipe disse isto enquanto tirava a cavilha de uma granada e a lançava no meio da multidão macabra.

A explosão foi imponente, barulhenta e destrutiva. Enquanto corriam na direcção da luz das ruas, pedaços de braços, pernas e cabeças caíam a seu lado, projectados a longa distância pela intensidade do cantar da menina. Depararam-se com uma ribanceira e os homens seguiram de imediato a mulher que nem sequer hesitou em saltar e rebolar por ali abaixo.

Lá bem no alto, quatro indivíduos saltavam de um avião e apressavam-se a tomar uma posição de seta por forma a acelerarem a descida até ao solo. Encontravam-se completamente vestidos de preto, capacetes que cobriam completamente cabeça e face, possuindo todos uma viseira reflectora cor de laranja. Todos eles vinham extremamente bem armados. Um gesto de um deles quando já avistavam o chão bem perto e adquiriram uma formação que os colocava alinhados lado a lado, precisamente ao mesmo nível durante o voo. A cidade era cada vez maior no reflexo daquelas viseiras.

Já caminhavam no alcatrão confrontados com o que era um caos terrível. Incêndios, gente morta, tudo completamente destruído por todo o lado.

  "Que raio se passou aqui? Era suposto virmos salvar um bando de novatos que tinham feito asneira e comprometido uma missão para bebés! Que vem a ser isto afinal? Esta gente morta que se ergue de novo, agora isto, tudo virado do avesso? Vamos é embora daqui, porque digo-vos já que isto é muito maior do que nós." - disse ela.

  "Acho que devíamos investigar! Sair daqui assim e deixar tudo para trás como se nada fosse? Não consigo...não posso! - disse o dono da shotgun.
  "Eu concordo com ela! Se aqui ficarmos, em pouco tempo seremos mais três carcaças ambulantes dessas que nos perseguem. Ninguém vai querer saber de nós..."
  "Cala-te...eles vão vir... eu sei que..." - foi interrompido por um número indeterminado de gemidos distorcidos.
Olharam em redor e estavam completamente cercado de zombies sedentos. Por muito lentos e burros que fossem eram demasiados para que eles pudessem furar fosse que parte fosse daquele cerco. A única saída que tinham foi vista por ela que os avisou de imediato. Alguns metros atrás deles uma porta semiaberta apresentava a única fuga possível para o interior de um edifício. Por muito que houvessem mais daquelas coisas lá dentro, as hipóteses eram muito melhores. Passos lentos e cautelosos passaram a uma passada acelerada e terminaram numa corrida pela vida quando as criaturas investiram. Muitos se tentaram interpor no caminho sem sucesso, mas quando Rui, já sem munição, tentava quebrar a corrente que bloqueava a porta por dentro, também uma das pistolas de Ângela secou.

  "É melhor que te despaches piço! Não aguentamos muito mais! É o último carregador dela e eu devo ter mais uma meia dúzia de balas."
  " Tou a fazer o melhor que posso! - ergueu-se e pontapeou a porta duas vezes sem efeito - Esta merda é que nem vacila. Sem as minhas ferramentas vai ser complicado."
  "Merda! É que nem sequer tenho tempo de me virar pa lhe espetar um balázio."
  "Cuidado! - um tiro para a área que ele deveria cobrir - Concentra-te." - gritou ela.
  "Obrigado! Rui...rápido...muito rápido!"

A munição da sniper terminou e a da pistola também. Começaram os três aos pontapés à porta mas a corrente era demasiado grossa e resistente e teimava em não ceder. Os monstros estavam já demasiado próximos e o desespero apoderara-se deles ao verem a morte chegar. Ainda sacaram das facas para lutarem até às últimas forças, até que de repente uma saraivada de balas chegou do céu negro. Quatro tipos de negro e de capacete caíram à frente deles de para-quedas e, armados até aos dentes, começaram a despachar a manifestação zombie com uma rapidez assombrosa. Foi uma questão de segundos até se estabelecer um silêncio total após a queda da última criatura. Soltaram-se dos para-quedas e retiraram os capacetes antes de se voltarem para os três que haviam salvo.

  "Quem são estes gajos?" - perguntou ela.
  "São os nossos manos...graças a deus!" - responderam os dois em uníssono.

Pedro, o mais baixo, com a sua Colt numa mão e caçadeira de canos serrados na outra, Ricardo, o seu irmão, o mais alto do grupo com duas Uzis, Miguel, irmão de Rui, o mais ponderado e penteadinho, com a sua M16 e Bruno, o mais entroncado, com a sua metralhadora peso pesado, M60, tinham chegado para se juntar à festa.