quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sem escape Cap. V - A um palmo de distância


  Continuava com aquela risada descontrolada e sem sentido quando comecei a enxugar a vista e a face, ambas completamente encharcadas em lágrimas. Respirei fundo e olhei na direcção do exterior ainda esboçando um pequeno esgar sorridente, mas que num ápice foi substituído por uma expressão mista de espanto e pavor. Vira de relance aquele vulto negro passar ao fundo do meu jardim com o meu filho envolto num abraço pouco amigável. Ergui-me rapidamente e corri na sua direcção, rezando para que não houvesse uma qualquer barreira de forças que me impedisse a saída. Nada aconteceu e fui capaz de correr livremente até à beira da estrada, onde parei olhando para o lado onde os vira desaparecer. Vislumbrei-os ao fundo, com ele flutuando calmamente e o Rafael esperneando violentamente mas sem qualquer efeito. Comecei a correr na sua direcção e gritei quando vi que, subitamente, o meu filho havia pendido a cabeça e os braços, ficando totalmente imóvel. O breu virou ligeiramente o pescoço vendo-me por cima do ombro e acelerou a marcha. Acompanhei-o na acção. Corria que nem um louco quando comecei a sentir uma inércia imensa na zona da minha face. Continuava a correr mas tinha de fazer uma força incrível para manter o pescoço direito, até que de repente, senti o que me pareceu uma mão invisível agarrar-me a cabeça e impulsionar-me de costas para o chão. Tive a percepção de todas as pedras e pedrinhas pertencentes à gravilha, enquanto estas me cortavam a pele durante a violenta queda. Ignorei tudo e, no segundo seguinte já corria novamente, apenas levando uma das mãos às costas por forma a descolar a camisola colada à pele devido ao sangue, cuja me incomodava profundamente.

Já perdera a conta ao tempo que durava a minha perseguição. A coisa fazia-me correr cada vez mais, mas sempre sem conseguir ganhar terreno. Parecia que me gozava, vista a descontracção com que se movimentava. O cansaço começava a apoderar-se de mim e o meu controlo sobre a respiração começava a aproximar-se da nulidade, quando os vi enveredar pelo meio do arvoredo. Embrenhei-me por lá e comecei a ver que tomavam o caminho da vegetação mais densa. A luz da lua era cada vez menos eficaz na missão de me guiar por tais caminhos e a tensão aumentava no meu âmago de forma galopante. Chegou o momento em que só via os obstáculos quando estes se encontravam a escassos centímetros, mas não desisti. Desviava-me para a esquerda, para a direita, saltava e agachava-me. Com as mãos afastava as ramagens e com os pés partia ramadas e espezinhava a vegetação mais rasteira. Apercebi-me que o percurso começava a tomar uma rota descendente quando, sem esforço algum, senti a velocidade da minha marcha aumentar exponencialmente. A essa altura, os meus pulmões ameaçavam colapsar e o meu coração lutava contra uma explosão eminente, mas desistir não era uma opção. O meu filho estava quase ao meu alcance e não o ia deixar escapar por nada. Envolto nestes pensamentos moralizadores face à salvação do meu rebento, nem me apercebi de um monte de silvas que, sem explicação, se gerou na minha frente. Nos milésimos de segundo que antecederam o meu violento impacto contra os espinhos, olhei o demónio, vendo-o parar e virar-se na minha direcção de forma a apreciar o acidente.

A dor e o ardor percorriam o meu corpo na sua totalidade. Sentia espinhos misturados com a carne por todo o lado, mas em especial nas mãos e na cara. A cada tentativa de movimento, estes pareciam enterrar-se ainda mais e as dores passavam de enormes a lancinantes. Tentei levantar-me vezes sem conta, encolhendo-me a cada uma delas nos primeiros segundos, até que, numa dessas tentativas, fiquei com o vulto no meu campo de visão. Com os olhos semiabertos, vi-o retomar a caminhada e começar a ganhar ainda mais distância. Nesse mesmo instante, enraivecido, enchi o peito com ar e prendi a respiração, para me erguer de seguida, num único e rápido movimento. Os golpes ganharam o triplo do tamanho, perdi pedaços de pele nas zonas sem protecção de roupa, o ardor intensificou-se ao ponto de me fazer correr as lágrimas, que por sua vez me faziam franzir a testa ao sentir o seu sal misturar-se com o sangue que me corria pela face e infiltrar-se nas inúmeras feridas de onde este saía. Coxeei nos primeiros passos e gemi nos segundos, mas a força de vontade e a convicção venceram e voltei a correr, desta vez como se aqueles ferimentos fossem algo renovador e me encontrasse totalmente reestabelecido de vitalidade. Agora sim, sentia-me a ganhar terreno.

Estava quase a apanhá-lo, pensando até em esticar a mão para agarrar aquele capote negro, mas o bosque terminou para dar lugar a uma via rápida com bastante movimento. Fui obrigado a parar bruscamente para não ser atropelado, obrigando o veículo envolvido a desviar-se e ouvindo a respectiva buzinadela do mesmo. No entanto, a criatura continuou a avançar. Era como se os carros não a vissem, nem a ela nem ao meu filho. O Rafael, ainda desmaiado, foi erguido acima da cabeça do captor e os veículos passavam livremente por dentro do corpo imaterial da figura. Eles atingiram o separador central e nesse instante, toda a minha hesitação foi expulsa por uma mentalização avassaladora que me dizia que, desse por onde desse, terminasse como terminasse, eu tinha que atravessar aquela estrada. Três passos rápidos e um encolher do abdómen, acompanhado de um movimento ascendente dos braços para fugir ao primeiro veículo. Uma pirueta para escapar à frente do segundo. Uma correria tremenda até ao separador central em sintonia com uma orquestra de buzinas e travagens. Saltei para a segurança do separador e apoiei as mãos no rail, baixando a cabeça por entre os braços na tentativa de recuperar rapidamente o fôlego. Não me permiti perder muito tempo e dirigi o meu olhar na direcção do fugitivo e constatei que ainda não atravessara a estrada na totalidade, talvez por ter ficado surpreso com a visão de um pai louco prestes a ser atropelado inúmeras vezes. Iria ficar ainda mais surpreendido com a visão de um pai louco a cair-lhe em cima, embora ainda não soubesse como, vista a sua existência imaterial. Saltei do centro para a via completamente cego e surdo para o que me rodeava, voltando a mim quando um retrovisor se partiu contra o meu braço, não sendo atropelado por milagre. Levei a mão à zona atingida e apertei, largando de imediato devido às dores que senti. Olhei e vi que as mesmas provinham na sua maior parte dos inúmeros vidros que se haviam incrustado na carne, bem como uma enorme lasca de plástico, cuja arranquei de imediato e de dentes cerrados. Em seguida voltei a calcular mal a minha arrancada e enquanto o carro travava a fundo, vi-me obrigado a saltar e a deslizar com a minha anca sobre o capõ. Mal coloquei os pés no chão novamente, uma outra viatura embateu na traseira da que travara, ficando de imediato entalada por uma terceira que se juntou ao desfile de destruição. Olhei esparvoado e aterrorizado pelo que estava a causar, mas não podia ficar ali a perder tempo, em primeiro pelo meu filho e, também bastante importante, para não sofrer a ira dos condutores lesados. Rapidamente, virei as costas ao aparato e acelerei a passada para os últimos metros de asfalto que ainda me separavam da segurança, vendo o vulto embrenhar-se na escuridão que se espraiava para lá da berma. O trânsito havia parado devido ao acidente, pelo que descurei qualquer tipo de cuidado naquele último troço do meu percurso, incorrendo estupidamente em novo erro. Um qualquer tresloucado a alta velocidade, sem possibilidade de travar a tempo, guinou o volante em direcção à berma e eu passei a encontrar-me na sua trajectória. O chiar dos pneus aumentou exponencialmente quando o condutor levou o pé a fundo ao travão, a viatura começou a derrapar, com a traseira a bailar de um lado para o outro, mas a distância que nos separava diminuía a uma velocidade demasiado elevada e constante. Sem hipótese para mais nada, saltei em desespero na direcção do breu e, embora tenha escapado por um triz à morte, embati violentamente com as pernas nos rails, o que me fez dar meia pirueta no ar e estatelar-me de cabeça no chão duro e coberto de pedras, quase partindo o pescoço. Estava de tal maneira atordoado que não tinha sequer noção de onde estava, ou para onde estava virado, mas nem isso impossibilitou que tivesse plena percepção do estrondo provocado pela explosão que se seguiu ao despiste daquele último automóvel com que me confrontei. Forcei-me a levantar, iluminado por um intenso brilho laranja proveniente do incêndio no asfalto e, ignorando-o, lancei-me novamente na perseguição, desta vez às apalpadelas.

Aquela escuridão não podia ser normal. Após vários minutos, quando já me encontrava recuperado dentro dos possíveis e a minha visão já se deveria ter habituado à ausência de luz, tudo continuava a ser totalmente negro. Era como se fosse cego. Embatia vezes sem conta contra coisas que não distinguia o que eram, tropeçava e caía devido a obstáculos que desconhecia em todos os termos e cada vez me encontrava mais à deriva, guiando-me apenas pelo som de um choro, o que me dizia que o Rafael havia acordado e não estava muito longe. Do nada, o choro tornou-se um grito único de aflição, o que me fez desatar a correr que nem um louco e gritar pelo nome dele vezes sem conta. Comecei a ouvir gritar "Pai...Pai..."! Ele ouvira-me e chamava-me com a voz carregada de medo. Corri ainda mais, mais do que alguma vez correra, até no meu auge de juventude. Ouvia o som cada vez mais perto e quando este me pareceu estar ao meu alcance, um clarão infinitamente maior que um relâmpago cegou-me completamente. Levei as mãos e os braços à cara para proteger os olhos, mas a luz era demasiado intensa. Comecei a ficar tonto e decidi desacelerar o passo e parar, pois não me conseguia equilibrar e deixara também de ouvir fosse o que fosse. Não tive no entanto, tempo para nada, pois enquanto pensava, dei ainda meia dúzia de passos acelerados e o chão desapareceu-me de debaixo dos pés. Comecei a cair e a perder os sentidos, mas antes fui ainda capaz de rodar no ar e olhar para cima. A iluminação havia regressado ao normal e eu caía de uma ravina abaixo em direcção à morte, tendo como espectadores, aquele demónio negro e, ao seu colo, o meu filho lavado em lágrimas. Antes de desmaiar ainda vi o pequenote estender a mão aberta na minha direcção.

Senti-me gelado até aos ossos e comecei a acordar. Encontrava-me deitado no meio do meu jardim, totalmente encharcado e carregado de espinhos em várias zonas do corpo. Procurei os restantes ferimentos provocados pelos carros, ou vestígios de algo que remetesse para a minha queda da falésia, mas nada. Esses ferimentos não existiam, mas os espinhos estavam lá. Algo diferente tinha acontecido daquela vez. Ao me preparar para levantar, reparei que tinha algo preso à minha aliança de casamento. Ao ver o que era gelei ao mesmo tempo que me rejubilei. Tinha na minha posse, um pedaço de tecido preto.

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