O que fazer quando as palavras não querem sair? Quando a cobardia nos ataca precisamente na altura errada? Quando olhamos a pessoa nos olhos e apenas com eles conseguimos falar, pois os lábios permanecem num silêncio perturbador? Gostava de saber pois quero falar e não consigo! Sinto-me cobarde, impotente perante mim próprio. Olho-a nos olhos, toco-lhe as mãos, abraço-a, beijo-lhe a face, mas o mais fácil, ou o que supostamente o deveria ser, não faço porquê? Porque me impedem? Porque me criticam? Nada disso! Simplesmente porque não sou capaz! Não sou capaz de dizer aquilo que sinto àquela pessoa! Não tenho coragem de lhe dizer que me esqueço do tempo quando estou com ela! Limito-me a mim próprio e arrisco-me a perder uma pessoa que adoro, com a qual posso ter um futuro! Mas como sei eu que ela, no caso de não sentir o mesmo por mim, não se afasta? Como sei que, se ela não partilhar dos meus sentimentos, não me evitará? Não quero continuar neste impasse...quero contar-lhe tudo...quero arriscar, mas eu próprio não me permito...tenho que vencer esta contrariedade...
segunda-feira, 23 de julho de 2012
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Alcatraz Cap. II - Mudança de planos
5 minutos. 5 minutos era tudo o que precisava para apanhar aquele alucinado. Não seria fácil apanhá-lo em velocidade com o motão em que ele se deslocava, mas não era essa a intenção. Ia segui-lo, ver onde se escondia, aproximar-se, apertar-lhe o gargalo e, antes de o matar, cortar-lhe mais um dedinho ou dois. Talvez 7, 7 minutinhos para ter a certeza que fazia tudo certinho e não haveria arrependimentos por ter deixado algo por fazer ao menino.
Estava parado em frente ao estacionamento para onde o tinha visto entrar e interrogava-se sobre o que o teria levado ali, mas era simples curiosidade, pois na verdade não queria saber de mais nada senão daquele pescoço nas suas mãos. Dentro do seu Peugeot RCZ 2.0 HDi GT Coupé preto, observava atentamente as cancelas que demarcavam a entrada e a saída do edifício. “Nunca mais sais daí chouriço? Já tou a ficar impaciente!”, dizia em voz alta enquanto abria o vidro do carro. “Tão a olhar para onde seus rotos de merda?”, gritou para dois tipos que por ali passavam e olharam para ele por estar a falar sozinho. “Vejam lá se querem ser pendurados pelos túbaros no poste mais próximo!”, dito isto, os rapazes começaram a fugir como o diabo da cruz, tal era a agressividade e incivilidade daquela voz.
Passados alguns minutos, o ruído de sirenes invadiu a zona. Primeiro ao de leve, mas apresentando um crescendo algo estranho. Pensava no que poderia ser quando o “alucinado dos cotos” saiu disparado do parque. Ao vê-lo até se esqueceu das sirenes arrancando à campeão e pisando o traço contínuo na derrapagem que fez para inverter o sentido. Ainda estava a meio da habilidade quando os carros da polícia chegaram ao local e viram o caos que aquela manobra provocava, fazendo alguns carros travarem bruscamente e dois condutores chocarem por uma mudança de direção brusca provocada pelo susto. Visto terem sido chamados ao local por um casal que afirmara ter presenciado um confronto entre dois suspeitos, metade dos veículos do aparato policial iniciaram uma perseguição ao Peugeot, enquanto os restantes ficavam para isolar e investigar o perímetro.
Olhou pelo espelho retrovisor e viu os cinco carros que o seguiam de sirenes ligadas e se aproximavam cada vez mais. Reduziu a mudança e acelerou bruscamente, o que fez com que a sua nuca tocasse o encosto de cabeça do banco. Ganhou uma curta distância, dando-lhe tempo para ver o seu alvo virar à esquerda a dois quarteirões de distância. No entanto os polícias já lhe “beijavam” a traseira e a necessidade de inverter a situação tornava-se emergente. Olhou em volta por um segundo em busca de soluções, mas nada lhe ocorria. Não se lembrava muito bem daquela zona da cidade e, embora não quisesse ser apanhado, também não queria deixar o “alucinado” escapar. Olhou novamente em frente e o sangue gelou por momentos. Um velhote atravessava a estrada naquele preciso instante e não havia hipótese de travar a tempo. Tirou o pé do acelerador e guinou o volante para a esquerda, entrando em sentido contrário e seguindo até ao passeio para evitar o choque frontal com os veículos que ai circulavam. Um deles travou a fundo, fazendo outro espetar-se-lhe na retaguarda e um terceiro entrar em despiste e enfeixar-se na frente de um carro patrulha que ficou automaticamente fora da perseguição. Fora da jogada ficou também um segundo carro patrulha que ficou totalmente para trás devido à travagem a que foi obrigado para não ficar a fazer parte dos acidentados. Seguia pelo passeio, levando na frente toldos, cadeiras, mesas, caixas de fruta e tudo quanto lhe aparecesse à frente. Os transeuntes refugiavam-se no interior dos cafés e lojas ou saltavam desesperados para fora do alcance do veículo desgovernado. Era óbvio para ele que enquanto por ali circulasse, os três perseguidores que restavam, não se aproximariam demasiado, então manteve-se assim até virar à esquerda na mesma rua do motard. De volta à estrada, acelerou a fundo e viu os três terminarem a curva e pisarem o acelerador em consonância consigo. A reta era enorme e embora tivesse uma maior capacidade de aceleração, eles tinham maior velocidade de ponta e iriam apanhá-lo na certa. Com um mero golpe de sorte, vislumbrou à sua direita um café que frequentou durante algum tempo com os colegas de escola e foi como se um mapa se desenhasse na sua mente. O tipo lá na frente virou à direita e ele já sabia como o tramar e ver-se livre da “mona” o tempo suficiente para se esconder. “Tão todos fud… comigo, seus con… de sabão!” e riu-se pela primeira vez em longos meses. Com os patrulhas a escassos metros de o apanharem, desenhou um ligeiro slalom para que abrissem espaço entre eles e travou bruscamente fazendo-os passar por si a alta velocidade. Foi tão brusco a travar como foi a arrancar novamente por um sentido proibido à sua direita. Os polícias derrapavam e provocavam uma nuvem de fumo gigante com as travagens, não conseguindo disfarçar a atrapalhação com que se debatiam na tentativa de recuperar. Tinha a sua janela de oportunidade ali, mas tinha que ser rápido, pois não tardaria até que dessem com ele novamente. O “alucinado” já circulava calmamente e a baixa velocidade quando o vira pela última vez, então, olhando pelas ruas transversais, acabou por vê-lo e ultrapassá-lo. Não ia esperar que ele chegasse ao destino como planeado. Era ali e agora. Virou à esquerda e reduziu a velocidade para uns 20 km/h, avançando lentamente à espera que ele surgisse na intersecção em frente. Mal lhe viu a “put…da focinheira” acelerou a fundo e atravessou-se-lhe na frente. O tipo não teve tempo pra nada. A mota ficou cravada na lateral traseira do Peugeot e ele voou por cima deste até ao encontro do alcatrão. Saiu de dentro do carro e dirigiu-se a ele. “Agora vens comigo e bem caladinho meu panele…o!”, dizia enquanto o levantava pelos colarinhos e lhe apontava o “Caga Pólvora” como lhe chamava. Uma multidão assistia pasmada a todo aquele circo, mas ele não se atrapalhou. Ergueu a carteira e abriu-a, mostrando o cartão de identidade, mas que à distância a que estava das pessoas, podia muito bem ser qualquer outra coisa. “Sou da autoridade, queiram circular por favor. Está tudo sob controlo.”. Muitos curiosos ainda ficaram a olhar, mas assim tinha a certeza de que ninguém os iria seguir. Empurrou então, o mais rapidamente que pode, o agora coxo motard até um beco e daí, mais calmamente seguiram caminho por ruelas e outros becos até à segura distância a que se encontravam as docas abandonadas. As sirenes não demoraram a fazer-se ouvir chegar ao local do acidente, mas com a distância, começavam a fazer parte do passado. Iria ter tempo para o seu ajuste de contas.
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Um dia na vida de...
Levanto-me da cama e vou às apalpadelas até à janela. No percurso ainda sinto o malfadado efeito da bebida nos joelhos que ainda tremem e ameaçam ceder a qualquer momento. A noite anterior tinha sido diabólica para a minha pessoa, que saída de casa apenas para um café e de retorno planeado para as 23h, acabara por se pôr a recordar velhos tempos com os amigos, mas desta vez, ao invés de se divertirem a beber sumo, bebiam whisky. “Quatro garrafas pra cinco? Nem chega a uma pa cada um, por isso…”, por isso, não deveria ser nada demais, mas foi! Entrei quase de gatas para dentro do carro e o taxista muito simpático, o que estranhei imenso visto serem 4h da madrugada e todos os que trabalham a essa hora serem uns atrasados mentais da pior espécie, mas também no estado em que me encontrava, não era nada que me fizesse realmente diferença, ajudou-me a entrar e até me apertou o cinto. Grande erro o do senhor, pois isso evitou que me conseguisse mover rápido o suficiente para abrir a janela e me debruçar. Resultado? Frango assado em estado irreconhecível e com cheirinho a Cardhu por todo o lado. Não será preciso dizer que a simpatia do senhor taxista mudou para algo bem diferente a partir daquele momento. Subi a escada de uma forma que ainda não sei bem como foi, mas pelos gritos de ódio que ouvi de forma distorcida, calculo que tenha sido algo épico, de meter inveja a coisas como Star Wars ou Blade Runner.
Abri finalmente as cortinas e os joelhos vacilaram-me novamente. A minha vizinha deve ter pensado que me estava a fazer a ela enquanto dançava a lambada, visto que se meteu para dentro a uma velocidade estonteante mal me viu. Estava um tempo horrível. Chovia a cântaros e o abraço do vento era de tal forma intenso que ameaçava arrancar árvores e postes do chão. Lá em baixo, o café do Sousa estava cheio e isso fez com que arregalasse os olhos e focasse a atenção no relógio da mesinha. Tal como tinha pensado, o café do Sousa enche com o pessoal que sai do trabalho ali na zona às 18h e já eram 18:23! Eu tinha dormido 14h de seguida! Era inacreditável para um tipo como eu, que por acaso devia ter chegado às 17:30 a casa dos futuros sogros. Já não era tao inacreditável assim, o facto de ter 18 chamadas não atendidas da namorada no telemóvel. Vesti-me com a velocidade de um relâmpago e saí a correr porta fora. Se a dormência nos joelhos havia desaparecido como por milagre, a queda que dei em seguida, varrendo quase um lanço completo de escadas, trouxe-me novamente à memória as abençoadas articulações que agora pulsavam de dor. Tentei esquecer e saí para a rua. Não se via ninguém a pé, pois os que não estavam encafuados em cafés era porque tinham carro e não estavam sujeitos às cataratas da terra do Nosso Senhor. Foi por essa razão que decidi ser o único maluco a andar debaixo de água, pois assim ninguém me havia de chatear pelo caminho, mas acima de tudo, pensemos bem, seria de utilidade extrema o facto de chegar encharcado a casa dos pais da menina, senão vejamos, em vez de ouvir sermões e ver caras em vias de derreter, terei toda a solidariedade devido ao meu flagelo e consequentemente, todas as atenções para que consiga ultrapassar os danos causados pelo dito cujo. Perfeito!
Já andava há 10 minutos e metade do caminho já estava feito. Já lá teria chegado não fosse aquela chuvada terrível que não me deixava ver bem e o vento que teimava em me empurrar para trás. As minhas calças preferidas com boca-de-sino e ganga preta mais pareciam leggings de tao coladas que estavam às pernas. Nem a gabardina comprida que tinha impedia a água de entrar e o meu gel já era, bem como o meu penteado mal feito. Cada vez estava com um aspeto mais deplorável, o que era precisamente o meu objetivo. “Coitadinho…”,era capaz de dizer que já os ouvia a falar enquanto me levavam para ao pé da lareira e me traziam uns chinelinhos. Vou para virar a última esquina e vejo dois tipos a arrastar uma rapariga para fora de casa. Um puxava-a pelos cabelos enquanto o outro lutava contra o debater das pernas dela. “Que merda é esta?”, pensei eu, “Vou ter de lhes arrear!”, e avancei na direção dos energúmenos. Eles viram que me aproximava e o que estava à cabeça deu uma cacetada de tal forma na rapariga, que a deixou inconsciente. “Quem és tu? Desaparece daqui imbecil! Vai antes que te magoes seriamente!”, diziam eles alternadamente enquanto se colocava um na minha frente e outro atrás. Não resisti muito tempo à tentação e preguei uma bolachada no da frente fazendo-o curvar-se todo. Rapidamente me virei e espetei uma pisadela épica no outro, aproveitando quando se encolheu para lhe pregar uma murraça no alto do cachimbombo, uma expressão que não sei porque carga de água, acho perfeita para descrever uma cabeça que mais parece um tambor de fanfarra e que até o som que faz é semelhante a tal. O primeiro recuperava da primeira festinha quando lhe cravei a segunda fazendo-o cair de vez. O segundo ainda coçava a carola quando lhe dei razões para se agarrar a outro sítio com a biqueirada que lhe aviei nas canelas. Aproveitei os saltinhos que ia dando para ser solidário com o senhor e continuei a coçar-lhe a cabeça com umas belas dumas calduças. Entretanto fartei-me e arreei-lhe uma de tal forma intensa que o coitado adormeceu. Ajudei o que sobrava a levantar-se ainda tonto dos bilhetes que tinha levado nas fuças e comecei a abanar-lhe a cabeça puxando-a pelas orelhas. Cada vez que reclamava eu fazia-lhe mais uma festinha para o acalmar. Antes de o pôr a dormir com a minha estalada à Belzebu, chegámos a um consenso e a excelentíssima pessoa contou-me tudo o que estavam a fazer. Iam raptar a rapariga porque o estupido do irmão desta lhes devia fortunas, mas a coitada nem fazia ideia dos negócios que para ali andavam. Chamei a polícia e fui até ao pé da rapariga. Acordei-a com suavidade para que se assustasse o mínimo possível ao acordar. “Calma, calma! Está tudo bem! Estás segura e já chamei a policia!”, dito isto ela até se acalmou e já não gritou mais. Levei-a para dentro e voltei para a rua, para baixo do alpendre, deixando-a à vontade para se recompor e trocar as roupas encharcadas. Quando chegaram as autoridades, apresentei-lhes as belas adormecidas que foram continuar o seu sono de beleza algemadas dentro de um dos carros e posteriormente, eu e a rapariga, de nome Cristina, explicámos o sucedido. Após alguns minutos despedi-me dela. Ela abraçou-me e agradeceu-me por tudo com as lágrimas nos olhos. Olhei-a e pensei nela como sendo minha irmã também. Peguei-lhe no rosto e com os polegares limpei a água que já corria. Abandonei a zona num carro da polícia, pois o agente insistiu que me levaria ao meu destino. Olhei uma última vez para a casa e ela acenou-me. Retribuí com um orgulho enorme. A meio do caminho voltaram os pensamentos normais do meu dia-a-dia, “Agora a desculpa para o atraso ainda vai ser melhor! Agora para além de coitadinho, ainda vou ser o herói! Haha…”, e acabei a rir para dentro.
Bati à porta e a voz irritada da minha Marisa foi o primeiro sinal de vida vindo do interior da casa. Abriu a porta ainda com fumo a sair-lhe das narinas, mas viu o carro da polícia a partir e acalmou o suficiente para falar com a boca e não com as mãos. “Pedro, que se passou para vires com a polícia? Entra rápido para junto da lareira que já te vou buscar uma roupa do meu pai e uns chinelos para tirares esses trapos encharcados.”. A minha menina morena de olhos verdes matava-me com aquelas alterações de humor. Adorava dar-lhe a volta. Vê-la pronta a comer-me vivo e de repente mudar para namorada preocupada, era o meu prato favorito. Os meus sogros vieram-me cumprimentar e visto terem ouvido o comentário sobre a boleia policial, mostraram-se muito preocupados e sentaram-se à espera da história. Depois de trocar de roupa e ter um belo dum chá quentinho nas unhas, contei-lhes tudo ao pormenor, excetuando a bebedeira e as 14h seguidas a dormir. Supostamente havia saído de casa a horas, mas o sucedido tinha sido de muito maior duração do que na realidade fora. Não me senti muito mal, pois não passavam de umas mentirinhas inocentes que iam evitar uma discussão monumental. No fim, os meus sogros sorriam congratulando-me e a Marisa sentou-se ao meu colo aos beijos. Aquele fogo pareceu-me extremamente aliciante e visto ainda serem 20h, eu via avizinhar-se uma noite de boa comida e altos voos, mais uma na minha vida de desempregado e herói…”Hehehe…”.
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