terça-feira, 13 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. III - Not so Holy Place


  Atordoado, Ricardo começava a erguer-se. Tinha ambas as mãos e os joelhos apoiados no chão enquanto abanava a cabeça, tanto para sacudir os pedaços de madeira, como para dissipar o nevoeiro que lhe assolava a mente. Ouviu passos e, afastando o olhar daquele chão ladrilhado, semelhante a pedra antiga e desgastada, olhou para a sua esquerda. Viu alguém que envergava calças de camuflado verde-folha e botas de biqueira de aço pretas, avançar na sua direcção a passo largo e desferir-lhe um pontapé, de baixo para cima, em cheio no ventre. Soltou um grunhido surdo e levou a mão direita à zona atingida, enquanto sentia um pouco de saliva escapar-lhe por entre os lábios. Sem tempo de reacção, foi novamente atingido, mas desta vez na face, fazendo-o girar sobre si mesmo no ar e rebolar um par de vezes após voltar a tocar o solo. Sentiu o sabor adocicado do sangue na boca e uma explosão de adrenalina percorrer-lhe o corpo. Ainda caído, apanhou o pé que o atingiria pela terceira vez e deslizou a sua perna no chão para rasteirar o agressor, cujo se libertou e se esquivou com um mortal à retaguarda. Sem perder tempo, ergueu-se de um pulo e encarou, olhos nos olhos, o adversário. Aquele olhar imerso em tensão durou alguns instantes, enquanto os dois se avaliavam, descrevendo, em relação um ao outro, um círculo a passo lento. Ricardo soprava de forma zombeteira as pontas do seu cabelo ligeiramente comprido, enquanto o outro retirava lentamente a sua boina vermelha e a atirava para o chão em tom desafiador. Pararam de repente e ambos retiraram a faca de combate que tinham presa ao cinto, quase como se tivessem lido os pensamentos um do outro. O sopro do vento fez-se ouvir nos instantes que antecederam o início do confronto.

Ricardo deu dois passos largos e saltou, estocando o adversário em pleno ar, obrigando-o a mover-se lateralmente para se escapar. No entanto, este tipo não lhe conhecia os golpes de assinatura e, mal se julgou seguro, ele esticou a perna esquerda e atingiu-lhe violentamente a cabeça, derrubando-o. O careca levou as mãos à cara e esfregou-a com força, levantando-se de seguida, mas dando dois passos laterais que mostraram o quanto havia ficado atordoado. Os cabelos compridos dele esvoaçavam enquanto se esquivava dos contínuos golpes que lhe eram dirigidos, mas estes golpes eram tão rápidos e precisos que requeriam toda a sua concentração, o que não o deixou ver que o espaço à sua retaguarda começava a ser inexistente. Quando reparou, sofreu um ligeiro desequilíbrio que teve como sacrificado o seu braço esquerdo e teria tido também o seu pescoço, não tivesse sido tão rápido a levar a sua faca acima, fazendo a lâmina do adversário deslizar sobre a sua, perdendo a trajectória. Num ápice, atacou-lhe o abdómen com o cabo da sua arma e, girando a lâmina sobre a sua mão, aplicou um golpe ascendente que fez o outro urrar de dor e recuar prontamente. Nesta aberta, aproveitou para olhar o seu braço. Por entre um pedaço de tecido negro rasgado, via-se agora um golpe bastante fundo e corrente. "Filho da p...a", pensou, avançando para ele. Este por sua vez ergueu a face e deixou ver a real extensão dos danos. Um corte enorme, quase da boca até à testa, passando por um olho direito, do qual jamais voltaria a ver. Gritou enraivecido e lançou-se sobre o jovem que pensara a início, ser "um trabalho fácil". Alguns golpes rápidos de cintura, uns poucos bloqueios com a lâmina à altura de coxas, abdómen e tórax e por fim, um golpe com a base do pé, centrado ao joelho, fazia o vilão cair por terra com a articulação partida. Antes que este caísse totalmente, Ricardo apanhou-o e prendeu-o pelo pescoço, com a faca a roçar o mesmo. Quase não se debateu, sabendo que a situação não lhe era favorável e que caíra nela, muito devido ao seu ataque impensado e cego de raiva.

  "Quem és tu meu cab...o? É melhor começares a falar e dizeres-me também quem te mandou aqui e o que se passa neste maldito fim do mundo!?"

Não obteve resposta, porém, o careca, num derradeiro esforço, tentou projectá-lo por cima de si por forma a fazê-lo cair de costas. Ele não permitiu, partindo-lhe um dos braços e, quando este o tentou apunhalar com o outro, também não perdoou, torcendo-lho e perfurando-lhe a traqueia com a própria faca. O tipo começou a gorgolejar e deixou cair o braço. Então ele, pegou na faca e retirou-a, rodando a lâmina sobre si própria. O corpo caiu inerte e as golfadas de sangue começaram a formar um pequeno lago em torno daquela cabeça.

Começaram a ouvir-se tiros contra a porta e ele pôs-se em sentido, mas quando esta se escancarou, ouviu a voz do irmão a gritar pelo seu nome. Relaxou e jogou a faca ensanguentada do adversário para o chão, lançando-lhe um último esgar de desprezo.


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