domingo, 30 de dezembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. V - Out of the Darkness

  O seu corpo foi projectado no ar e embateu violentamente de costas numa parede. O impacto que sofrera fora incrivelmente forte e, não fosse aquele reflexo de cruzar a arma em frente ao peito ao ouvir um ruído metálico crescente na sua direcção, provavelmente teria ido desta para melhor. Ergueu-se a custo e o silêncio imperava de novo no meio daquela escuridão que o tornava cego. Segurando a caçadeira com as duas mão em frente ao peito, deu os primeiros passos na busca de um local iluminado, um local onde não fosse uma presa fácil.

Com a audição em alerta máximo, caminhava o mais lento e silenciosamente possível, levando de tempos a tempos, uma das mãos à frente e para os lados, para sentir a parede e se orientar da melhor maneira possível. Sem que pudesse fazer nada, o seu pé assentou sobre um pedaço de chão que, embora ligeiro, libertou um rangido. Arreganhou os dentes e ficou tenso e imóvel por momentos, em alerta. Ao final de alguns segundos, continuava sem ouvir nada e relaxou, preparando-se para avançar novamente. Foi então que, sem ouvir ou sentir fosse o que fosse, uma mão lhe apertou o pescoço de frente, cortando-lhe a respiração. Reagindo por reflexo, impulsionou a arma de baixo para cima contra aquele braço, conseguindo libertar-se e, com toda a força que tinha, libertou um pontapé na mesma direcção, atingindo violentamente o adversário, que chiou de dor. Tentou atingi-lo uma segunda vez, mas falhou, ouvindo um sapateado rápido de fuga. Pensou então, que talvez, seguindo na direcção do som daqueles passos, fosse dar a uma "saída" daquele buraco negro em que se encontrava e começou a correr. Deu-lhe a sensação de correr cerca de dois ou três minutos, de quase chocar meia dúzia de vezes contra paredes, só descortinando em seguida a mudança de direcção que tinha de tomar, até que começou a ver luz ao fundo do corredor, mas também deixou de ouvir os passos. Aquilo era estranho! Pelo que havia constatado ao longo do caminho, só havia uma rota possível, logo, como seria possível deixar de ouvir os passos que sempre se mantiveram na sua frente e não ver nada? Agora que já conseguia ver alguma coisa devido àquele brilho distante, mesmo que o individuo tivesse parado, tinha de estar naquele mesmo corredor, naquele mesmo espaço, à sua frente! Isto não lhe cheirava bem. Algo de muito errado se passava ali.

Não teve tempo de pensar mais no assunto, pois o agressor atacou de novo. Socou-o duas vezes na face, uma vez no abdómen, segurou-lhe o pescoço com uma mão e, com a força do outro antebraço no pescoço, encostou-o à parede, começando a aplicar-lhe joelhadas. Ele tentava proteger-se, colocando os braços cruzados entre os joelhos e o seu corpo e tentava aproveitar uma aberta para respirar e contra-atacar, mas não estava a ser nada fácil. Os ataques do outro eram constantes e demasiado rápidos, mas tinha de conseguir, tinha de conseguir afastá-lo e recuperar a arma que tinha deixado cair. 

Repentinamente, o tipo atrasou um dos golpes, talvez para recuperar o fôlego, e, mesmo estando extremamente dorido e desgastado, ergueu a cabeça velozmente, atingindo-lhe a zona do queixo com a parte de trás do crânio, fazendo-o soltá-lo. Enquanto este cambaleava, pegou-lhe num dos braços, torcendo-o e, com um pontapé nas dobras das pernas, projectou-o violentamente de costas contra o chão. Este contorceu-se e demorou a levantar-se, tempo suficiente para que ele recuperasse a arma e lha apontasse.

  "Mostra-te!" - gritou-lhe, carregando a bomba da caçadeira.

O agressor deu dois passos em frente e deixou que a pouca luz existente o revelasse parcialmente. De estatura média, envergava uma bata branca e ensanguentada e tinha a cara tapada por uma máscara de demónio japonesa, vermelha como sangue. Outro dos pormenores estranhos do personagem era, o enorme golpe que possuía no ombro direito, tão profundo e largo, que tornava visível o osso da clavícula. Aquela figura tornava-se ainda mais arrepiante com aquela iluminação débil e acastanhada.

Embora sério, ele estava admirado com a quantidade de aberrações com que se havia deparado nas últimas horas. Se voltasse agora a casa e contasse aquilo a alguém, certamente acabaria o dia internado no hospital para os dementes. No entanto, ainda não tinha visto tudo o que aquele demónio guardava na manga e, sem tempo para qualquer tipo de reacção, viu-o desaparecer da sua frente numa nuvem de fumo. Ainda disparou uma vez, mas não atingiu nada.

Manteve-se alguns segundos na expectativa, até que, vindos de várias direcções e alternadamente, surgiram os mesmos ruídos de arrasto que ouvira anteriormente. Virava-se constantemente na direcção de cada som, alguns distantes, outros perto, parecendo, por vezes, estarem mesmo em cima de si, mas não via nada. De repente, vindo de nenhures, o demónio vermelho surgiu na sua frente e atacou-o com o que parecia um cutelo gigante, quase do tamanho do seu dono. Só teve tempo de se jogar para o chão, escapando por milagre ao golpe horizontal que lhe foi dirigido, e em seguida, rebolar para longe, evitando o segundo golpe, descendente e que abriu um enorme sulco no chão de madeira. Ergueu-se rapidamente e viu o outro levantar a enorme lâmina e apoia-la no ombro. Estava explicada a origem daquele enorme golpe e do som arrastado, pois via agora o objecto cortante, perfeitamente encaixado entre carne e osso, enquanto ele andava e se dirigia para si, arrastando a perna do lado que suportava o peso.

Sem esperar para ver mais, carregou a bomba várias vezes e disparou outras tantas, vendo aquele verme evitar todos os disparos sem qualquer esforço. Simplesmente se desviava com uma velocidade sobre-humana, mas ele continuava a disparar e a recuar. Sem dar conta, ele desapareceu e no segundo seguinte estava nas suas costas. Ergueu a caçadeira e susteve a lâmina acima da sua cabeça, cerrando os dentes e tremendo violentamente com o esforço. Pontapeou-lhe o abdómen e conseguiu recuar para disparar novamente, mas sofreu nova frustração. Novo desaparecimento e novo ataque pelas costas, desta vez com um golpe horizontal de arrasto, que embora defendido, o projectou por vários metros no ar, fazendo-o estatelar-se brutalmente no chão. O ar fugiu-lhe dos pulmões e contorceu-se de dor. Apoiou joelhos e mãos no chão para recuperar o fôlego e procurou a sua arma. Estacou. O tipo já estava bem próximo e interpunha-se entre ele e a caçadeira. Viu-o levantar o cutelo com ambas as mãos e desesperou.

***

Ela caminhava perdida por aqueles corredores escuros, assustadores e intermináveis. Tomada de assalto por constantes ruídos, gemidos e uivos, que pareciam vir do além, o medo era cada vez mais senhor e dono da sua mente. Não passava de uma cientista e aquilo não era definitivamente o que imaginara fazer, quando se alistara naquela força de intervenção. Tinham-lhe dito que aquela missão seria como todas as outras, para entrar, recolher e avaliar. Não existiriam confrontos e, no caso de existirem, seriam mínimos e de fácil resolução. "Até enviamos os novatos.", disseram, por forma a que se convencesse. Aceitou, e logo nos primeiros instantes se arrependeu. Entraram naquela maldita instituição e desceram uma infinidade de escadarias, chegando finalmente ao laboratório clandestino, onde foram de imediato atacados por uma horda de zombies, que comeram metade da equipa que a acompanhava. Sobreviveram três, incluindo ela, mas que, devido à constante corrente de inimigos, se separaram, para não mais se encontrarem. Não fazia ideia se se encontravam vivos, ou se já haviam sucumbido às criaturas. A única coisa de que tinha certeza absoluta era da fome e da sede que tinha, era que, se não encontrasse uma forma de sair dali rápido, talvez nem fossem necessárias criaturas para a matarem.

De repente, ouviu novo grito, mas este era diferente, era humano. Fora uma manifestação mista de aflição e esforço. A curiosidade falou mais alto e apressou-se naquela direcção.

***

Ignorando a dor no peito, aproveitou o facto de ter as mãos apoiadas no chão e dessa forma, impulsionou-se para o lado. Resultou e escapou, mas não totalmente. A sua mão direita ainda foi atingida, decepando-lhe dois dedos, o mínimo e o anelar e arrancando-lhe um grito a plenos pulmões, como se o ar nunca lhe tivesse faltado. Com aquela injecção de adrenalina na circulação, aproveitou o tempo que o outro demorou a erguer a sua pesada arma e conseguiu recuperar a sua no momento certo, pois imediatamente após a ter agarrado, ele manifestou-se à sua retaguarda e ficou imobilizado, deixando cair o cutelo com estrondo. Ao recuperar a sua caçadeira, pegou-lhe com o cano virado para trás e, mal o viu surgir, disparou rapidamente, abrindo-lhe um buraco no abdómen. Virou-se e olhou o demónio nos olhos. O seu olhar vitorioso contra um olhar de espanto em falência. O som seco daquele corpo sem vida ao embater no chão, foi acompanhado de um grito, cujo foi interrompido a meio. Ele olhou para trás, olhar profundo, sangue escorrendo da mão e arma em punho, apontada ao propagador daquele novo ruído. Deparou-se com uma mulher de baixa estatura, cabelo castanho claro, com madeixas a dar para o ruivo, com ambas as mãos em frente à boca, olhos fechados e vestida com uma bata branca...uma bata como o maluco que acabara de matar.

  "Quem és tu? Afasta as mãos do corpo, para onde eu as veja bem! Rápido!" - disse asperamente, enquanto avançava para ela de arma apontada, tentando esconder as dores que ainda sentia e o debilitavam.
   
  "Oh meu Deus, isto é só doidos! Eu sou só uma simples cientista, enviada para aqui numa missão, supostamente de baixo risco, e que de repente, viu metade da sua equipa ser comida por monstros saídos de filmes de terror. Fugi e perdi-me dos restantes sobreviventes. Não fui treinada para estas coisas e acho que a única sensação que me resta de momento é o medo. Dei por mim, no meio destes corredores e, ao ouvir um som que me pareceu humano, corri na sua direcção, tudo para me deparar com dois loucos a matarem-se e ser ameaçada pelo vencedor. Eu não sou ameaça nenhuma para ninguém, por favor..." - ela disparava informação a uma velocidade alucinante, que acompanhada de um soluçar constante, eram um autêntico atentado à saúde auditiva de qualquer um.

  "Pára,pára! Já chega! - ela calou-se bruscamente e tremeu - Tens de respirar mulher, senão nem é preciso bicharada para que morras. Vou baixar a arma e vamos conversar com calma, ok? - ela assentiu com um gesto nervoso de cabeça e ele baixou a arma - Dizes fazer parte de uma equipa que foi enviada para aqui? Numa missão de investigação...para novatos?"

  "Sim...isso mesmo. Mas...como sabes que eram novatos que me acompanhavam?! Quem és tu afinal?" - a postura dela alterou-se e a curiosidade foi evidente, tanto na expressão corporal como no tom de voz.

  "Eu faço parte da equipa enviada para vos resgatar, mas por uma decisão impensada da minha parte, também me separei dos restantes membros e agora tenho de voltar a encontrá-los, pois não vejo ninguém a sobreviver sozinho durante muito tempo neste lugar. - já chegando perto dela e estendendo a mão, disse - O meu nome é Rui."

  "O meu é Sara e...não imaginas o alívio que sinto neste momento." - apertou-lhe a mão com um suspiro e novo ânimo no olhar.



quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sem escape Cap. VI - Submerso

  Não sei por quanto tempo fiquei em transe segurando aquele pedaço de tecido em frente aos meus olhos. Aqueles momentos de aflição foram percorridos de ponta a ponta inúmeras vezes pela minha mente, na incessante busca por algo que me retirasse da escuridão e me revelasse algo que me tivesse escapado. Precisava de algo palpável, algo que me mostrasse o caminho, uma luz que me guiasse na direcção das respostas, respostas essas que eu sabia agora existirem, se na forma de soluções provisórias ou permanentes, não fazia ideia, mas a prova da sua existência balançava por entre os meus dedos, ao sabor da suave, mas gélida brisa da noite.

Um ruído abafado libertou-me daquele transe e prendeu-me a atenção à casa. Avancei em direcção à abertura da frente, onde anteriormente a minha porta tinha feito segurança, enquanto guardava aquele pedaço no meu bolso. Avancei apreensivo, uma passada cadenciada e silenciosa. Encostei-me lateralmente à ombreira, ainda no exterior da casa. Com a maior das cautelas, curvei-me ligeiramente e, esticando e curvando o pescoço, olhei furtivamente o interior. Não via nada nem ninguém e o único ruído audível era o crepitar da minha lareira, cuja se encontrava ainda acesa...estranhamente, visto que quase podia jurar que já se apagara há muito, pela altura da explosão vítrea que quase me ceifara a vida, mas que minutos depois, parecia não ter acontecido. Mas aconteceu! Eu sei que aconteceu! Tal como tudo até então, embora o que quer que provocasse aquelas situações, me quisesse fazer querer o contrário.

Agachei-me e entrei. Um pé e, só momentos depois, o outro, um rastejar até ao sofá e as costas encostadas à parte traseira do mesmo, uma avaliação rápida do espaço...vazio...o fogo como única companhia...erguer e, em bicos dos pés, alcançar o início do corredor, ouvir a melodia eólica que dominava todo aquele comprimento...imperturbável...o som do fogo a diminuir lentamente com a distância e silenciar com a visão da cozinha, escura e fria. Aguardei por momentos, até que a minha visão se habituasse à obscuridade e, certificando-me que a divisória estava vazia, acendi a luz. As luzes brancas piscaram no arranque e sem explicação, estouraram com uma barulheira tremenda. Levei as mãos aos ouvidos e, quando as comecei a afastar novamente, ouvi novo som, como se o fogo tivesse ganho uma dimensão tal que fosse capaz de consumir toda a habitação. Mal regressei à sala de estar, após um sprint breve, mas carregado de tensão, o fogo, quase a tocar o tecto e a atingir mobílias, extinguiu-se bem à minha frente. Incrédulo, mesmo depois de tudo, aproximei-me da lareira. Nada estava danificado. Nem uma minúscula marca chamuscada. Foi quando olhei para cima e vi. No tecto, uma mancha preta parecia crescer para além da zona afectada pelas chamas e o cheiro a queimado começou a entranhar-se-me nas narinas. Era de tal forma intenso que comecei a sentir-me nauseado. Dirigi-me ao exterior para respirar, mas até a rua parecia infestada com aquele odor. Voltei a entrar e corri para a cozinha, para o lavatório, onde abri a torneira em força e joguei a água corrente na face por várias vezes. O alívio fez-se sentir, mas pouco ou nada durou e as náuseas voltaram a imperar devido ao poder cada vez maior daquela olência. Esfreguei a cara com nova quantidade de água e proibi-me de respirar pelo nariz, abrindo a boca para o efeito. O resultado estava a ser satisfatório e a má disposição agonizante, não passava agora de uma ligeira "moinha" no estômago.

Tinha-me dado ao luxo de me sentar por alguns segundos numa das cadeiras brancas da minha branca cozinha, quando o cheiro desapareceu por completo, quase como que assumindo a derrota perante mim. A ideia de um sorriso passou-me pela cabeça, mas não chegou a atingir o mundo real, visto que o ruído abafado se voltou a manifestar, vindo do corredor. Ergui a cabeça, cuja testa tinha apoiada nas palmas das mãos e avancei naquela direcção, armado com a cadeira, como precaução para qualquer eventualidade. Já a meio daquele comprimento, sem ter voltado a ouvir nada e sem ver nada nem ninguém, uma nova pancada seca ecoou. Constatei que, estranhamente, a origem vinha do interior das paredes. Pousei a cadeira e encostei o ouvido à quadrela. De imediato senti como se me quisessem bater na cabeça e por reflexo afastei-me. Fiquei perplexo quando, o som imediatamente a seguir foi o chamar do meu nome pela voz da minha mulher. "Vanda?!", balbuciei em choque. "Vanda, és tu?!", perguntei, encostando novamente o ouvido. "Pedro...Pedro, tira-me daqui, por favor...", se poucas dúvidas me restavam, naquele momento tive a certeza de que aquela era a sua voz. Estupidamente, guiado pelo turbilhão de sentimentos, a primeira coisa que fiz foi usar a cadeira. Escusado será dizer que, após o segundo embate, pouco restava da mesma, tendo-se partido em vários bocados, sem provocar estragos para além de uma lasca aqui e ali. "Eu vou-te tirar daí, amor! Não te preocupes!", disse isto e abalei a correr no sentido da garagem. Sabia ainda lá ter um dos martelos que os tipos da construção haviam usado para derrubar a parede que separava a cozinha do anexo externo, para posteriormente montarem a porta em arco que agora lá se encontrava. Não foi preciso procurar muito e em pouco mais de cinco minutos estava de volta. "Protege-te Vanda! Vou tirar-te daí!". Dito isto, comecei à martelada à parede, desta vez com efeitos bastante satisfatórios. Aquela barreira desmoronava-se rapidamente e não demoraria muito até que conseguisse tê-la nos meus braços. Ainda não sabia como podia aquilo ser real, depois de tudo o que havia visto acontecer, mas isso agora não me importava. Quando o buraco atingiu o tamanho suficiente para a passagem de um adulto, espreitei para o interior e vi-a. Estava afastada para um canto e totalmente encolhida e a tremer, vestindo uma túnica branca com apontamentos dourados nas zonas de costura. Chamei-a e não obtive resposta. Penetrei no espaço até metade do meu corpo e voltei a chamar, desta vez estendendo a minha mão, quando senti algo tocar-me do lado de fora. Saí de um só rápido movimento e ouvi correr na direcção da cozinha. Voltei a colocar as duas mãos no martelo e, pedindo à Vanda que esperasse, fui ver quem ali estava.

Ao chegar à cozinha gritei em fúria. Mais uma vez, não havia ninguém para ser encontrado. Aquelas situações em constante repetição, pareciam brincadeiras de mau gosto, se é que se podem tratar de forma tão leviana. Virei costas, não sem antes cravar uma martelada num armário, que se desfez em bocados, precipitando uma quantidade considerável de loiças para o chão e provocando uma barulheira infernal. O meu cérebro e consequentemente, a minha capacidade de raciocínio, começavam a ser uma nulidade e, tal como as loiças, acabavam de se desfazer completamente em cacos com a visão que tive. Os pedaços da parede destruída pareciam ter ganho vida e vi os últimos, voarem na direcção das falhas correspondentes, acabando de a reconstruir na totalidade, encontrando-se o chão totalmente limpo...até o pó havia desaparecido. Instintivamente, recomecei à martelada no mesmo ponto e os destroços começaram a amontoar-se novamente, simplesmente para, de repente, voltarem à origem, agregando-se e reconstruindo mais depressa do que eu conseguia contrariar. As forças começaram a abandonar-me e caí de joelhos por momentos. Olhei em frente e nem uma arranhadela para me dar uma esperança. Para piorar o meu desespero e sensação de impotência, ela recomeçou a gritar do interior. Eram gritos de pânico, gritos de dor e desespero. Levantei-me sem o martelo, encostei as palmas das mãos à parede e chorei. Chorei enquanto lhe pedia perdão, enquanto me tentava perdoar a mim próprio por tal inutilidade. Num ataque de histerismo, comecei a bater na parede, a princípio de mão aberta e pouco depois, aos murros, com a maior violência com que se possa imaginar. Esmurrava a parede enquanto expulsava gritos guturais de raiva, enquanto ouvia o som dos ossos dos meus dedos quebrarem, enquanto ignorava o sangue que pingava da pele rasgada. Senti os olhos revirarem e a língua inchar, quase até ao ponto de me impedir de respirar, mas não conseguia parar. Com uma das mãos comecei a puxar também os cabelos até arrancar tufos e a arranhar a cara, com uma intensidade tal que só me faltava arrancar os próprios olhos. Sentia o meu corpo a perder o controlo e, embora eu tentasse fazê-lo parar, não conseguia. Ele reagia de forma autónoma e eu mais parecia um génio preso numa lâmpada. Sentia todas aquelas agressões externas e espasmos musculares, sem nada poder fazer. Era outra vez aquela sensação do sofrimento sem resposta, só que desta vez, era o meu corpo a provocá-lo a ele próprio. Todas aquelas marcas ensanguentadas na parede, formavam uma pintura macabra que simbolizavam a dor e a angústia no seu estado mais puro e descontrolado. Aquele sangue que me corria da cabeça em fios, ensopando-me o cabelo e fazendo-me pestanejar a cada gota que me pendia das pestanas, fez-me lembrar das feridas e peladas que havia feito a mim próprio. Tal era  a minha condição, que me havia esquecido de algo tão doloroso e que tinha feito há não mais de dois ou três minutos. Agora que me lembrara, ardiam-me por toda a cabeça. Por fim e após tempo demais, caí de joelhos no chão, a arfar como um cavalo, ruidosamente como um comboio, de cabeça a pender sobre o peito e braços caídos ao longo do corpo, com as costas das mãos destruídas e tocando o solo. Após alguns segundos, já respirava mais lentamente, mas com a sonoridade do rosnar de um cão, cada vez mais grave, até que, na derradeira investida, o meu corpo decidiu atacar de cabeça...literalmente. Assim que o meu crânio embateu na dura superfície, todo o meu cérebro desligou.

Comecei a recuperar os sentidos lentamente, acompanhado de dores agudas, especialmente nas mãos e cabeça, mas o que mais me afligia era a falta de ar. Sentia-me inexplicavelmente apertado e, abrindo finalmente os olhos na totalidade, tive a explicação de todos os porquês. Estava preso dentro da parede. Foi o pesadelo. A forma como eu abominava e temia lugares fechados e apertados. Comecei a entrar em pânico e a transpirar que nem um louco, o ar a faltar cada vez mais e as forças a esvairem-se ao triplo da velocidade. Tentava desesperadamente por todos os meios conseguir deslocar-me pelo apertado espaço antes que sufocasse, procurar alguma fresta que me proporcionasse ar, melhor luminosidade e, acima de tudo, contacto com o exterior...com o espaço aberto. O meu desespero estava prestes a alcançar um pico histórico e eu pensava que nada pior poderia acontecer, mas estava enganado. Comecei a sentir os pés molhados e a chapinhar e, dentro daquilo que me era permitido pela área disponível, olhei para baixo, somente para constatar que a prisão onde estava encarcerado, se estava a encher de água. O ar abandonou-me os pulmões e tenho a sensação que perdi totalmente a capacidade de respirar. Espalmado como estava naquele espaço, não teria qualquer hipótese de escapar, a não ser que alguém surgisse e me tirasse dali. Com tremendo esforço, consegui absorver uma golfada de ar e gritei por ajuda, mas a minha voz estava fraca...estava diferente. Isto fez-me parar surpreendido, mas não por muito tempo, pois o nível do liquido subia velozmente e já me ultrapassara a cintura. Por muito fútil que fosse, e eu sabia que era, voltei a gritar e a dar pancadas na parede à minha frente. As pancadas soavam secas e até a mim, custavam a ouvir. Estava condenado, ou talvez não. Talvez fosse mais uma daquelas ilusões em que de seguida acordava e tudo parecia normal. Mas podia ser também daquelas situações permanentes, como certos ferimentos dos quais não me livrara. Não me sentia tentado a testar qual delas seria, mas que poderia eu fazer? Que mal podia eu ter feito para merecer o castigo das últimas horas? Porquê eu? Porquê a minha família? Vanda...Rafael...ainda o posso salvar...ainda o posso...! Num acesso de determinação, enchi o peito de ar, que já se encontrava também ele submerso até à zona dos ombros, e procurei uma solução. Já a água me tocava no queixo, quando vi que, acima da minha cabeça, o espaço prolongava-se até perder de vista e estava repleto de tábuas cruzadas em X, o que me permitiria escalar. Estiquei-me o mais que pude e auxiliei com os pés, pressionando a biqueira de um à frente e a planta do outro à retaguarda, enquanto me tentava puxar para cima com as mãos, mas estas estavam tão feridas que vacilavam constantemente. A água já me cobria metade da face, obrigando-me a inclinar a cabeça para trás, mas devido ao constante movimento do meu corpo, esta ondulava e, de quando em quando, entrava-me pelo nariz, fazendo-me fungar e cobria-me os olhos, fazendo-mos arder e atrapalhando ainda mais a difícil missão que era a minha fuga. Porém, consegui finalmente puxar-me para cima e, com os braços em torno de uma das tábuas, apoiar o peito na mesma. Permiti-me a descansar por uns segundos antes de continuar, pois a água não parava de subir, acabando de me submergir novamente os joelhos, quando me preparava para recomeçar.

Estendi o braço direito e fiz força contra a parede, voltei a apoiar os pés da mesma forma, para não cair, e só então, soltei o braço esquerdo e recuei-o para terminar a posição de escalada. Tremia descontroladamente devido às dores provocadas pelos ferimentos, mas, de dentes cerrados, lutava para não me deixar vencer. O frio da água nas partes baixas disse-me que acelerasse e retomei a subida de imediato, afastando todos aqueles pensamentos. Havia subido cerca de um metro, pouca distância em comparação com o que ainda me restava até à zona onde me poderia apoiar, quando senti puxarem-me o pé da retaguarda, um dos meus grandes pontos de apoio, visto não me poder fiar nos membros superiores. As minhas costas rasparam pela parede, rasgando roupa e pele, e um dos meus joelhos estalou com o impacto na superfície dura à sua frente. Não tive tempo de reacção e num ápice encontrava-me submerso, com "O" vulto negro a meu lado, apertando-me o pescoço com uma das suas mãos disformes.


sábado, 1 de dezembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. IV - Right by your side

  "Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"
  "Calma! Não pode ter ido longe. - retorquiu Bruno.
  "Tenho calma?! Eu estou calmíssimo, afinal de contas, o meu irmão só desapareceu sem razão, em escassos segundos e num sítio infestado de merdas que eu pensei que só existiam nos jogos que jogava em puto. Óbvio que me encontro calmo e despreocupado! - disse, elevando a voz sem se aperceber e andando a passos largos na direcção da porta da igreja. - Acho que ouvi qualquer coisa lá dentro!" - Bruno seguia-o de perto.

Estavam prestes a tentar abrir a porta do local sagrado, quando uma meia dúzia de novas aberrações surgiu e correu na sua direcção. Tinham todo o corpo em carne viva, eram extremamente magros e apresentavam, para além dos normais membros superiores, dois braços abdominais, algo atrofiados. Independentemente da sua débil constituição, eram incrivelmente rápidos e as estruturas ósseas, semelhantes a lâminas, que lhes saíam das palmas das mãos, para além de serem do tamanho de um ante-braço, tornavam-nas absurdamente perigosas.

Com um tiro de caçadeira, Pedro desfez a cabeça do "Queimado" mais próximo, mas este não caiu, nem tão pouco diminuiu a velocidade da sua corrida, passando simplesmente a atacar de uma forma ainda mais agressiva e aleatória, devido à privação de visão. Foi obrigado a atirar-se para o chão e a rebolar para a sua esquerda e para longe. Bruno chegou-se perto e ajudou-o a erguer-se com uma mão, enquanto mantinha a sua metralhadora a disparar com a outra. 

  "Mas que...? Mas que porra é esta?" - perguntou o grandalhão enquanto o puxava para cima.
  "Boa pergunta, mas lamento informar que a minha ignorância é idêntica à tua! Esta bicharada dum cabr...o faz de tudo um pouco! Agora até lhes rebentamos a bolha e não morrem!"
  "Então despedaçamos os animais. Hun?"
  "Concordo...e gosto!"

Já com alguns um pouco mal tratados pelas constantes rajadas de Bruno, os dois começaram a correr em círculos, confundindo os adversários e separando braços e pernas dos corpos disformes.
***

Filipe foi o primeiro a reagir, girando rapidamente o corpo para escapar ao salto de um dos lobos na sua direcção e, em simultâneo, aplicar-lhe um valente murro em cheio no focinho, fazendo-o ganir e estatelar-se contra um jarrão de quase um metro de altura, despedaçando-o. Ângela esquivara-se habilmente e corria escadas acima, perseguida por dois canídeos, enquanto Miguel, estendido no chão, com um animal em cima, afastando-se do fio de baba constante e evitando as tentativas de mordida, encostou o cano da sua arma ao seu agressor e lhe desfez completamente a zona abdominal, enchendo de sangue a zona torácica do seu uniforme negro e fazendo a criatura sair projectada contra um dos corrimões da escadaria, onde, depois de cair, ficou inerte. O sniper aproximou-se do lobo que o havia atacado e, antes que este se recuperasse e saísse do meio dos cacos de porcelana que o rodeavam, encostou-lhe o cano longo e frio à cabeça, enquanto lhe pisava um dos flancos e disparou. Aquela cabeça, ao ser atingida por uma bala daquela dimensão a uma distância quase inexistente, reagiu com uma espécie de explosão, não restando nada a não ser, pedaços de osso, pele, sangue e cérebro espalhados pela área em redor. Ele sacudiu ainda a bota para se ver livre de um bocado de massa cinzenta que parecia pulsar na sua biqueira.

Já  no varandim do andar de cima, Ângela tentava ganhar distância em relação aos dois perseguidores. Algumas fintas de corpo, uns agachamentos para lhes escapar quando saltavam, mas no fim, pareciam estar coordenados na perfeição, pois nunca conseguia ter espaço para reagir devido à proximidade constante de pelo menos um. Foi então que realmente prestou atenção ao lustre gigante que dominava o espaço sobre a cabeça dos colegas. Completamente composto de cristal, estrutura férrea e sólida, com 1,80m de altura e 1,20m de diâmetro, proporcionava-lhe a plataforma perfeita para se ver livre dos mordedores. Correu na direcção do precipício e, com um rápido e ágil impulso com os pés no corrimão de madeira escura, saltou na direcção do trono dourado. O barulho que fez ao chocar com a estrutura, fez com que os companheiros olhassem para cima, mesmo a tempo de a verem pendurada e um dos lobos, que saltara atrás dela, ganir antes de quebrar o pescoço no violento embate que teve com o solo. Não fosse tão grande o ruído do lustre balouçante e o estalar daquela coluna ter-se-ia ouvido por todo o espaço, em todo o seu arrepiante esplendor. Ela ergueu-se, equilibrou-se e voltou a saltar para o varandim, para uma zona afastada do inimigo, onde, empunhando as suas gémeas, aguardou pela aproximação deste. Quando o achou à distância certa, disparou dois tiros, um em cada pata dianteira. A velocidade do canídeo era tal que caiu de focinho no chão, mas o seu corpo continuou a avançar de arrasto, até ser travado por uma bala, habilmente colocada no topo do seu crânio. O silêncio restabeleceu-se ao final de alguns segundos, quando o eco do último tiro se calou.

***

Os "Queimados" estavam espalhados por todo o lado. Braços aqui e ali, pernas além e acolá. Os dois amigos olhavam em redor, com as suas armas ainda fumegantes, certificando-se de que não restava nenhuma daquelas coisas viva. Haviam-se apercebido durante a contenda, de que aquele tipo de bicharoco, era extremamente sensível ao desmembramento e que os tiros à cabeça não produziam grande efeito. Guardavam as armas no preciso momento em que um grito de raiva e dor se fez ouvir, vindo do interior da igreja.

  "Ricardo!" - gritou Pedro, desatando a correr para a porta.

A porta era de madeira sólida e foram necessários uns três cartuchos da pequena caçadeira, para que esta se abrisse. Bruno aplicou-lhe um forte pontapé e esta escancarou-se, dando passagem a um acelerado e preocupado irmão.

  "Ricardo! -  olhou em volta e viu-o à sua direita, agarrado ao braço esquerdo, olhando o que parecia ser um soldado morto numa poça de sangue - "Estás ferido! Que..." - Bruno chegou perto no exacto momento em que ele soltara o irmão de um abraço e lhe agarrava cuidadosamente no braço, por forma a ver a extensão do ferimento. 
  "Eu estou bem maninho, calma! O mesmo não se pode dizer deste filho da pu...a! - interrompeu Ricardo - Apanhou-me à traição e puxou-me cá para dentro durante a vossa distracção com os "Rodinhas". Custou-lhe cara a gracinha. Auu..." - o irmão tocara-lhe na ferida ao de leve.
  "Fico descansado por ver que estás bem, mas o golpe ainda é fundo. - ele avaliava minuciosamente o corte enquanto abria a pequena bolsa com desinfectante e material de sutura - "Vamos sentar para eu te tratar disso. Rápido e sem discussão!"
  "Eu não vou ficar a ver essa mer...a! Estou ali à porta de vigia." - Bruno não suportava agulhas e afastou-se deles assim que se sentaram.

***

Ela acabara de descer as escadas e se juntar a eles, quando Filipe perguntou:
  
"Não é por nada, mas onde está o Rui?"

Todos se sobressaltaram. Com a incursão de lobos, ninguém tinha dado por falta dele. Chamaram por ele e reviraram a totalidade daquele hall, ambos os pisos, mas sem qualquer tipo de resposta ou pista do seu paradeiro.

  "Separados ou juntos, não me interessa, mas vamos procurá-lo e já!" - a voz totalmente alterada.
  "Calma, calma! - interviu Ângela, colocando-lhe uma mão no peito, obrigando-o a parar - Sabemos que é o teu irmão, mas não vamos agir de cabeça quente e cair em alguma armadilha mortal, porque ai, não lhe serviremos de nada. Vamos manter-nos juntos como até aqui."
  "Tens razão! Desculpem. - olhou para baixo e sacudiu a cabeça antes de voltar a olhar em frente - "Vamos começar então por este lado. Ângela, toma a frente do grupo. O teu discernimento está bem mais apto que o meu neste momento!" - ela acedeu e tomaram o caminho da direita, a partir do piso térreo.

***

Já há vários corredores que seguia aquele vulto, mas sempre sem se conseguir aproximar o suficiente para constatar o que era, ou quem. Sabia que se estava a arriscar em demasia ao ter abandonado o grupo, mas pretendia fazer as coisas de forma que lhe fosse possível reunir-se com eles e ainda, ouvir a descompustura do irmão ao saber o que ele tinha feito. Avançava a passo de caracol devido ao compasso extremamente lento que a figura assumira desde há poucos minutos, quando todas a luzes se apagaram. A escuridão era total, visto não existirem janelas no sítio onde se encontrava e, para piorar a situação, o silêncio era também ele absoluto, o que o preocupava determinantemente, visto que, fosse o que fosse que perseguia, ter produzido um som de arrasto a cada movimento até então. Deixou-se ficar quieto e à espera por alguns minutos, mas como nada aconteceu, decidiu avançar, lenta e cautelosamente. Mal deu o primeiro passo, o som de arrasto voltou. Estava mesmo a seu lado.