sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Death by my Fingertips: Cap. I - Virgem

  Abandono a minha casa, o meu refúgio, a minha masmorra. Ando lentamente de costas viradas para aquele armazém completamente consumido pelo fogo onde descanso sem dormir, nas várias reentrâncias que vou descobrindo enquanto o exploro e deliro envolto na minha própria demência. O ambiente húmido, triste e doentio, rodeado de tons cinzentos e negros, faz-me sentir feliz, enquanto os ecos de morte pelo fogo que ouço a percorrerem o vazio me excitam de uma forma quase idêntica ao cheiro e sabor do sangue. Já me afastei o suficiente para que me parecesse minúsculo no meio daquele lamaçal provocado pela chuva que caía abundantemente acompanhando a noite sem lua, dando um ambiente ainda mais satisfatório ao lar que tanto adorava e às árvores mortas que o rodeavam em grande número. Aperto um pouco mais o capuz da minha gabardina preta e acelero o passo em direcção à distante cidade de Lover´s Yard. Levaria duas horas a chegar ao meu campo de caça, o que me dava tempo para pensar na prova de amor que daria à minha presa.

Chego e encosto-me a um candeeiro alto enquanto observo. Porcos imundos, guiados pela falsidade a que chamam amor. Desprezível. Dão-me vontade de vomitar, de matá-los a todos, de retirar-lhes as vísceras e  enfiar-lhas pela garganta abaixo. Vejo-os a todos como carneiros em espera na fila para o matadouro no qual eu sou o carrasco. A cada abraço e beijo a que assisto, imagino uma faca naquele pescoço, uma corda envolvendo o outro, o sangue de um misturando-se com a saliva do que sufoca. Tenho que me concentrar, tenho de controlar estes impulsos e guardá-los para a altura certa. Mordo o interior das bochechas para que o aroma sanguíneo me acalme. Como um animal com sarna, arranho brutalmente os meus próprios braços, na tentativa de acalmar os tremores de ansiedade que me assolam.Tinha de ser calmo, discreto, agir como um daqueles nojentos. Iria perder a minha virgindade naquela noite e tudo tinha de ser perfeito.

Perdi a conta ao tempo que estive com aquela puta no bar. Como se não bastassem aquelas luzes coloridas que quase me faziam salivar de raiva, ainda ela andava de volta de mim com festas e beijos. Queria era que ela me mordesse, que me batesse, que fizesse algo que realmente me agradasse e estimulasse. Assim, a única coisa que conseguia era irritar-me. Sinto-me a perder o controlo. Talvez por ser a minha primeira vez, não esteja a conseguir por estes pensamentos de lado. Tinha de agir rápido antes que a fúria me vencesse. Jogarei o jogo dela. Levo-a para um canto e começo a beijá-la, levanto-lhe um pouco a saia e discretamente uso os meus dedos para humedecê-la. Ela geme e eu já começo a ficar duro só de imaginar aquele gemido tornar-se um grito. Completamente doida empurra-me e arrasta-me para fora do bar.

Em menos de dez minutos estávamos no apartamento dela, com ela a tirar-me a roupa. Não a deixo tirar-me as luvas e dou-lhe uma bofetada fazendo-a sorrir. Já nú sento-me no sofá branco de pele, rodeado de vasos com flores e peluches. Aquela sala, para além do móvel com a televisão, não possuía qualquer mobiliário. Faço-lhe sinal para que se dispa. Eu queria assistir, avaliar bem todos os contornos, imaginar o que faria mal lhe tocasse. Completamente nua aproxima-se e põe-se de joelhos. Com uma sede enorme começa a massajar-me o pénis, aumentando cada vez mais a intensidade com que o fazia. Em seguida, sinto-lhe o quente da boca e o arranhar das extremidades dos dentes. Tanto cuidado e doçura excitavam-me, mas acima de tudo irritavam-me profundamente. Sentia falta da violência, da agressividade, das feridas, dos cortes, do sangue. Estava farto de toda a lamechice. Aquilo tinha que mudar. Agarro-lhe os cabelos e puxo-a para trás de forma a que parasse. Levanto-me e jogo-a sobre o sofá colocando-a de quatro. Pego-lhe nas ancas e possuo aquele rabo, fazendo-a guinchar de prazer e quase rasgar o sofá com as unhas. Não quero que tenhas prazer vaca! Quero que sofras! Começo a exercer toda a minha força, a ir o mais fundo que me é possível, ao que ela me grita que pare. Que pena para ela que não tenciono fazê-lo, antes pelo contrário, insisto e começo a puxar-lhe os cabelos enquanto lhe dou chapadas na cara e por todo o corpo. Ela está desesperada e chora compulsivamente, mas já lhe tapei a boca para que não grite. começo a ver o sangue dela a correr-me pelas pernas abaixo e não me consigo controlar de tal excitação e quero fazer o mesmo ao buraco imundo que me aguarda do outro lado do corpo. Viro-a ao contrário e ela mostra-se sem força nas pernas. Não quero saber e, enquanto estou a lamber o sangue que lhe escorre, forço toda a minha mão para o interior da vagina dela. Quase que ouço o som da pele a rasgar e é tão bom. Ela, com os dedos da minha outra mão na boca morde-me para se soltar, mas a dor provocada só serve para me acender ainda mais. Tiro a mão do interior dela e começo-lhe as murros. Não sei porquê, mas não consigo parar. Mordo-lhe os mamilos e quase lhos arranco, tal é a adrenalina que me preenche. Ela desvanece e fica inconsciente devido à dor e eu passo-me. Como pode ela fazer aquilo? Puta de merda a cortar-me todo o prazer na altura em que quase me estava a vir! Possuído lanço-a ao chão e começo a bater-lhe com a cabeça no mesmo. Vejo tudo vermelho e a cara dela cada vez menos reconhecível. Puxo por ela e mesmo assim não me responde. Puta! Puta! Não admito que me ignorem! Vou buscar uma faca à cozinha e enfio-lha pela barriga adentro, puxando em seguida, com toda aquela força demoníaca que me possuía, para cima, abrindo-a desde a cintura até quase às mamas. Que visão linda. Acalmei-me com isto. Começo a tirar tudo do interior e a esfregar-me. Os olhos esbugalhados da gaja a penetrarem nos meus. Que êxtase. Começo a sentir-me com espasmos e, levanto-me rapidamente, ejaculando na boca dela. Satisfeito sento-me e fumo um cigarro. Acabado atiro-o para dentro da cavidade abdominal vazia dela e visto-me sem me lavar. Àquela hora, envolto em escuridão e com aquela gabardina, ninguém veria o meu estado.


Já a caminho de casa, debaixo de uma chuva torrencial penso em como foi bom, em como...tinha de repetir.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Alcatraz Cap. VI - Renascer

   "Kyle! Que mer...a é esta? Tás fud...do da cabeça ou quê?! Baixa já essa arma!" - virou-se e levou a mão ao cano da arma para a desviar, mas um pontapé na boca do estômago lançou-o ao chão.
  "Não dificultes as cenas Jack. A sério. Tentei demover-te desta tua vingança durante tempo demais. Até arrisquei ser morto por ti. Antes ainda disto tudo, já eu te tinha avisado para não interferires em assuntos que não te diziam respeito, mas não, tu e a tua mania da justiça. Tu e a mania que és um vigilante que zela pela segurança de tudo e todos. Pensa bem. A tua família tá morta porquê?"
  "Nem te atrevas Kyle." -  berrou do chão agarrado ao abdómen 
  "Não me atrevo? Mas claro que atrevo! A culpa é tua. Quem te mandou meteres-te com o Vas? Quem te mandou andares a intimidar o Cristy para obteres informações? Ninguém te chamou para o barulho! Tu é que te foste lá meter meu atrasado mental. Tu provocaste quem não devias sem nunca se terem metido contigo. Começaste a ter um alvo na testa simplesmente por interferires em algo que achavas errado. Nunca tiveste nada a ganhar, antes pelo contrário, só perdeste. Provocaste mortes atrás de mortes, mas eu sempre tive esperança que o teu altruísmo deixasse de ser totalmente inconsequente e impensado. Sempre pensei que visses a realidade como ela é e chegasses à conclusão que tudo isto é muito superior a ti e que nunca poderias sair vencedor. Mais uma vez me enganei. Acabaste por te aliar ao cab...ão que te matou a família, que matou o Vas, para vires atrás do chefão."
  "Eu só o fiz para...", "Pow", uma bala atingiu Vincent, deixando-o estendido e imóvel no meio do chão.
 "Ninguém te mandou falar palhaço. - Jack tentou mover-se na direcção do companheiro - E tu quietinho aí que a nossa conversa ainda não acabou."
  "Meu monte de esterco!Vou-te desfazer à mocada!"
  "Podes sempre tentar interromper-me novamente e levas o chumbo pra casa mais cedo. Humm? Que me dizes? - Jack fulminava-o com o olhar - Bem me pareceu que íamos chegar a um acordo. Continuando, chegaste próximo demais e eu vi-me obrigado a cessar os avisos e passar à acção. Nunca pensei que fosses esperto o suficiente para entrares no carro e ligares o Gps para a última localização conhecida. Nunca pensei que descobrisses este lugar e muito menos que todos estes atrasados mentais tivessem tão descontraídos ao ponto de teres conseguido avançar tanto."
  "Que raio de monstro és tu? Até os teus próprios companheiros mataste lá em baixo!"
  "Realmente matei uns quantos dos meus, mas tinha de esperar pela hora certa para agir. Chegou o teu fim Jack. A tua caminhada termina aqui."
  "Porque proteges tu esta gente? Que tens tu a ganhar com isto?"
  "Vi o meu sobrinho ser morto por aquele filho da pu..a do Janus, que ainda lhe hei-de arrancar o coração, não vou ver também o meu irmão a ser morto por ti."
  "O teu irmão?! Nunca, durante estes anos todos soube que tinhas um! O teu irmão é o líder desta escumalha?! O responsável pela morte da minha família?! Pela morte da dele?! -  apontou para Vincent que ainda não mostrara qualquer sinal de vida desde que fora alvejado.
  "Parece que sim né? Seja como for, embora não concorde com o rumo que deu à vida dele, não deixa de ser meu irmão, a única família que me resta, e eu defendo-o com tudo o que tenho. Mais uma vez te peço desculpa Jack. Eu tentei. Tentei com todos os meus recursos evitar que chegássemos a isto, mas tu não permitiste. Adeus Jack. Espero que encontres a tua família do outro lado."

Jack, que já se encontrava em pé, avançou e encostou o peito ao cano da arma. Todo o movimento foi feito de cabeça baixa, só a erguendo quando parou, para olhá-lo bem nos olhos. Foi um olhar completamente ausente de qualquer emoção ou sentimento que não ódio, mas Kyle não vacilou por um segundo que fosse. Manteve-se inabalável e o seu dedo começou a pressionar o gatilho, mas no último instante algo o fez falhar o alvo. Um encontrão vindo do nada derrubou-o. Jack guinchou ao ser atingido de raspão no braço e ouviu-se o estilhaçar de um candeeiro que se encontrava em cima de uma pequena mesa no outro lado da sala, devido ao impacto da bala, o que abafou a queda do atirador. O careca agarrou-se ao braço e olhou para a besta derrubada, vendo-o já desarmado e embrulhado com o tipo que matara o puto loiro. Preferiu não intervir e dirigiu-se ao companheiro caído. Ao chegar verificou que não estava morto e que nem sequer tinha sido atingido. Tinha sim desmaiado ao bater de cabeça no chão com demasiada força ao tentar desviar-se da linha de fogo. Deu-lhe umas chapadas na cara até o acordar, mas vigiando sempre os dois brigões.

  "Vincent...Vincent...ouve-me. - ele já abrira os olhos, mas estava meio abananado - O Kyle tá à bulha ali com outro gajo e eu preciso que me ouças com atenção. Se não fosse esse tal tipo aparecer, eu já tava morto por esta altura, mas não sei o que resultará dali, nem tão pouco sei se ele tá ou não do nosso lado, portanto é assim, tenho aqui a tua arma... - deu-lha para a mão - ...e tu, agora que a tens de volta, vais continuar aqui a passar por morto e, caso o que vou fazer der para o torto, tu limpas o sebo a qualquer um daqueles animais que reste de pé, entendido?"
  "Perfeitamente Jack. Perfeitamente."

Ergueu-se no preciso momento em que Kyle pontapeou Janus em cheio na cara, fazendo estatelar-se contra uma estante e em seguida contra o chão. O sangue espirrou e salpicou tudo em volta em sintonia com a queda. O grisalho recuperou então a sua arma e apanhou a do seu agressor. Apercebendo-se da aproximação de Jack, recuou e apontou as armas a ambos.

  "Quietos os dois já! Janus, meu filho da p..ta! Agora juntaste-te a ele? Depois do meu irmão te ter tirado da pobreza das ruas onde vivias? É este o teu agradecimento? Vais ter uma morte muito triste e dolorosa meu cab...ão...vais, vais...vais pagar bem caro por isto e especialmente pela morte do Brian. Levanta-te car...lho!"
  "O Brian era a me...da de um puto mimado... - dizia com esforço enquanto se levantava e limpava o sangue do nariz e boca - ...só teve o que há muito andava a pedir."
  "Tu não fales dessa maneira."
  "Não queres ouvir não perguntes meu estúpido de merda.", "Pow", uma bala furou-lhe o joelho de um lado ao outro e voltou a colocá-lo por terra.
  "Eu avisei. Da próxima é na testa."
  "Covarde de meia tigela. Não tens col...ões para enfrentar ninguém sem armas? Hahaha...ninguém pode negar a família a que pertences. Cambada de hipócritas, chulos, assassinos...não passam de carneirinhos que se escondem por detrás de uma grande fortuna. Realmente tiraram-me das ruas, mas com o que vi durante todos estes anos, preferia ter continuado pobre, pois teria simultaneamente continuado íntegro e honesto. São várias as razões que me levam a partilhar da demanda deste homem... - guinou a cabeça na direcção de Jack - ...e que me levaram a ajudá-lo. Nas docas, quando te vi a ajudá-lo, pensei que estavas mudado e que realmente te preocupavas com alguém, que eras amigo de alguém, mas isso não faz parte de ti... - tossiu um pouco - ... não faz parte de ninguém desta família disfuncional. Jack..."
  "Sim...Janus..." - aproveitou para baixar os braços enquanto respondeu.
  "Não desistas de fod...r estes cab...ões todos pa azeite, ouvi...", "Pow", desta vez foi atingido na testa, ficando de costas no chão, boca aberta e olhos esbugalhados. O sangue escorreu do buraco ainda fumegante quando a cabeça tocou o solo.

Voltou a apontar a pistola a Jack e um sorriso cínico desenhou-se-lhe no semblante. Olhou de relance para Vincent, com o careca a seguir-lhe o olhar.

  "Vamos lá terminar o que comecei ali com o aleijado. - carregou a bala na câmara - No entanto, acho que contigo vou descarregar os tiros todos, só para ter a certeza que não te levantas. Dá os meus cumprimentos à tua família."

Vincent sentou-se de repente e disparou dois tiros naquela direcção, com um deles a atingir o braço do traidor. "Arghhhh.", deixou cair a arma e, em simultâneo com o uivo de dor, jogou a mão ao ferimento. Sem que houvesse tempo de reacção, Jack aproveitou e correu na direcção do grisalho, sacando da faca que recuperara da nuca de um pobre coitado daqueles. Chegado junto ao outro, projectou-o por cima das suas costas para o chão, enrolou-lhe as pernas em torno do tronco, imobilizando-o, e encostou-lhe a lâmina ao pescoço, exercendo alguma pressão, a suficiente para que um pequeno fio de sangue iniciasse a sua caminhada descendente.

  "Então? Já não tamos tão confiantes agora, tamos?"
  "Jack, meu panhonha! Tu não és nenhum assassino. Nunca serás capaz de o fazer!"
  "Tens a certeza meu merd...so?"
  "Total e absoluta maricas de mer...a!"
  "Resposta errada companheiro. Os meus cumprimentos ao teu sobrinho. Ah...e espero que a tua única família te encontre quando a mandar ir ter contigo." - um golpe tenso e rápido abriu-lhe a pele expondo-lhe os músculos e parte da traqueia, cuja foi ocultada pelas contínuas golfadas de sangue que se iniciaram quase de imediato. Não o largou até ele cessar com os espasmos e com o gorgolejar. Ao levantar-se, Vincent poisou-lhe a mão sobre o ombro e ele olhou para as suas próprias. Estavam cheias de sangue, bem como os braços, a camisola e certamente a sua face. Olhou o cadáver e respirou fundo perante o nó na garganta. Os passos de retorno ao corredor foram dos mais pesados da sua vida. Sentira-se demasiado perto da morte mas, a maior tristeza e revolta, derivavam da morte do seu "suposto" melhor amigo. Tinha consciência de que não tivera outra escolha senão matá-lo, mas mesmo assim culpava-se por nunca lhe ter dado ouvidos e o ter obrigado a agir daquela forma extrema. Não era culpado, mas certamente, também não inocente.

O ruído de vários carros alertou-os e dirigiram-se a uma janela para verificar o que se passava. Todos os tipos que haviam ficado para trás nas docas, estavam de volta e rodeavam toda a área frontal da casa. Alguns saíram dos carros a correr e dirigiram-se às traseiras. Sentaram-se no chão a pensar no que fazer, quando viram, sair a correr de uma porta quase junto às escadas, um tipo de cara tapada e óculos escuros. O indivíduo tinha a cara completamente coberta de ligadura, não dando para perceber sequer o seu tom de pele e, do seu cabelo preto, apenas um tufo ou outro se via espigado por entre o tecido. Precipitou-se rapidamente em direcção ao andar inferior e eles seguiram-no o mais rápido que conseguiram, visto estarem ainda bastante afastados da escadaria. Na sua correria descendente de perseguição, as narinas de ambos foram assaltadas por um cheiro extremamente intenso e adocicado que nunca haviam sentido antes. Era tão forte que até dava a volta ao estômago. Antes que o conseguissem alcançar, o suspeito abriu a porta da frente e saiu para o exterior. Espreitaram discretamente e viram-no ter todas as atenções daqueles homens, cujos lhe prestavam total vassalagem. Tanto um como outro souberam de imediato que era ele. Era o chefe, o irmão de Kyle, o alvo a abater. Mas como? Como, contra tanta gente e sendo eles só dois? Tinham de dar a volta a dezasseis "gajos" e certificarem-se de que o décimo sétimo sofria a bom sofrer. Correram na direcção da sala de onde o chefe havia saído e fecharam a porta atrás de si. Não viam absolutamente nada pois a sala tinha todas as janelas cerradas e por mais que carregassem nos interruptores, guiados pela lanterna do telemóvel, não havia luz que se manifestasse. Arrancaram todos os cortinados negros e abriram uma ou outra portada, mas de forma a gerar apenas o nível de luminosidade suficiente para que pudessem ver o que os rodeava. Quando a luz lhes iluminou o caminho, constataram que naquela sala não existia nada para além de um cadeirão almofadado ao centro, também ele de cor preta. Não havia ali nada que lhes pudesse dar fosse que vantagem fosse. Furioso, Jack aplicou um pontapé no mesmo, derrubando-o e fazendo uma barulheira imensa, muito ampliada devido ao eco. De imediato se ouviram passos acelerados pelas escadas acima.

  "Fod...se Jack! Já sabem que aqui estamos. Qual é o teu plano agora?"
  "Cala-te e improvisa!"
  "Bom plano..."

O primeiro a tentar entrar, abriu a porta apenas o suficiente para espreitar e do interior só se lhe via a ponta do nariz, mas rapidamente desapareceu. Um violentíssimo pontapé, pior do que o que aplicara na cadeira, foi dirigido à porta, provocando uma ligeira planagem do indivíduo no exterior, que na sua passagem do estado consciente para um de inconsciência total, cuspiu uma mistura de sangue com saliva para cima dos que estavam mais próximos. As metralhadoras iniciaram o seu acto de destruição, enchendo a porta de buracos. No interior, eles afastaram-se para lados opostos da sala para se afastarem da linha de fogo e taparam os ouvidos enquanto o cântico de pólvora durou. O silêncio chegou bruscamente e apenas era interrompido por alguns pedaços de madeira que ainda estalavam ou caíam. Os escassos segundos que durou pareceram uma eternidade assolada de tensões negativas. A entrada que se seguiu foi brusca, mas eles estavam preparados. Prenderam os dois da frente pelo pescoço, usando-os como escudo e premiram os gatilhos das semi-automáticas dos mesmos, despachando os restantes quatro que os acompanhavam. Ficaram com as armas e deixaram cair os corpos que agora mais pareciam passadores, de tanto buraco que tinham. O sangue que molhava chão e ensopava carpetes já escorria pelos primeiros degraus quando Vincent se aproximou do tipo inanimado e lhe partiu o pescoço de um só golpe, mostrando uma frieza incalculável. Desceram com extrema cautela e ouviram ruídos vindos da cozinha. Aproximaram-se e viram três "macacões" de volta dos corpos que haviam lá deixado. Vince pôs a metralhadora de lado e fez pontaria com a silenciadora enquanto Jack avançava agachado por entre os balcões. Um tiro certeiro e silencioso atingiu um na garganta. Os olhos esbugalharam e a boca encheu-se de sangue fazendo-o soluçar, as mãos perderam a força e abriram deixando cair a arma e a vida abandonou o corpo, fazendo-o cair sobre os joelhos e seguidamente para o lado. Os outros hesitaram por momentos devido ao choque antes de começarem a disparar e a correr em busca de cobertura, mas só um chegou ao destino. Sem que o da frente visse, Jack apanhou o outro e, encostando-lhe o cano ao abdómen, disparou uma rajada, furando-o de um lado ao outro repetidamente, fazendo-lhe em farrapos as costas da camisola e salpicando o tecto de vermelho. Não era um assassino mas, depois de todas aquelas mortes, já se sentia como tal. Olhou para a última vítima e viu-a a tremer por detrás de um balcão. "Meus montes de mer...a, nunca vão sair daqui vivos!", gritava ele de forma a disfarçar o medo que o invadia. Do outro lado do balcão já estava Vince, contornando-o calmamente. Quando se encontrava na esquina, a uma mera distancia de um braço, parou e esperou que  o alvo se aproximasse ainda mais, o que não tardou a acontecer. Nessa altura colocou-se na frente do desgraçado e encaixou-lhe a arma bem por baixo do maxilar inferior. Este, com o susto, largou a arma e mijou-se. Via-se perfeitamente que era um maçarico. "Podemos não sair vivos, mas tu também não.", disse antes de lhe deixar o maxilar pendurado por uma prega de pele e a "mioleira" a enfeitar chão e balcão. O som do corpo inerte a bater de costas no balcão e de seguida no granito do soalho, foi a última  coisa a ser ouvida antes de novo sossego aterrador. Voltaram então a juntar-se e, estranhando toda aquela calmaria tão duradoura, aproximaram-se da porta das traseiras, pela qual haviam também entrado, mas sem pressa alguma e com todos os sentidos alerta. Jack rodou lentamente a maçaneta e olhou para Vincent mantendo a porta fechada. Gestualmente pediu-lhe que se baixasse e não fizesse barulho. Começou então a abrir a porta muito lentamente e quando aproximou a cabeça para espreitar, uma saraivada de balas assolou o local. Só tiveram tempo de saltar cada um para seu lado e procurar abrigo por entre os balcões. Os restantes seis "marmanjos" estavam lá fora à sua espera. No entanto, Vince ficou em posição privilegiada e de onde se encontrava conseguia ver dois deles pela janela. Ia tentar a sua sorte e tentar "martelar" ambos. Dois tiros bem medidos e os tipos caíram. Um deles morreu de imediato com o impacto a ser ao nível da fonte esquerda, enquanto o outro se ficou a contorcer de dores por a bala lhe ter atravessado a boca da esquerda para a direita através das bochechas. Houve dentes do pobre desgraçado que estilhaçaram como vidro. Os outros, surpreendidos, afastaram-se e tomaram posições demonstrativas de maior cautela e de abandono do excesso de confiança. Lá dentro o atirador aproveitou para se juntar ao colega.

  "Jack, afugentei-os por momentos e agora temos a nossa oportunidade. Já me vi livre de dois pelo menos. Vamos embora daqui! Rápido!" 
  "Fod...se Vincent...não consigo!"
  "Não acredito nisto...Jack...mer...a...mer...a..." - Ele tinha sido atingido. Viu o sangue a sair-lhe abundantemente de um enorme ferimento na zona do fígado.
  "Vai-te tu embora daqui pá. Vai...!"
  "Vou agora deixar-te aqui! Deves ser é maluco!"
  "Já te disse que te ponhas a andar. Vai-te embora daqui cara...ho! Não quero ser visto neste estado, além disso, preciso de alguém lá fora que dê um rumo à vida do meu puto. Vai, faz isso e redime-te de vez."
  "Ok, mas se eu conseguir chegar ao carro, chamo uma ambulância para te vir buscar."
  "Não. Limita-te a fazer o que te disse, ouviste?"
  "Podes tentar impedir-me." - levantou-se a afastou-se.
  "Cab...ão de mer...a..."

Vincent, já com uma frigideira na mão, que agarrou no caminho até à porta, abriu a mesma uma nesga e jogou o objecto para o lado contrário à posição dos homens. Estes alertaram-se com o barulho e, ao olharem para descortinarem a origem, revelaram as suas posições. Quando se voltaram a esconder por completo novamente, já ele estava lá fora no seu encalço. Arrastando-se pelo relvado, alcançou o primeiro, que se encontrava escondido por detrás do enorme barbecue do jardim. Este nem teve hipótese de estrebuchar com os três tiros que levou pelo peito. Lateralmente via o segundo, mas pouco atrás deste sabia estarem os restantes. No entanto, a sorte sorriu-lhe, ou assim pensava ele. O tipo ao qual havia perfurado a face, ainda gemia com dores e arrastava-se agora na direcção da sua próxima vítima, cuja se expôs numa tentativa de o ir ajudar. "É o momento perfeito.", pensou enquanto apontava a arma, desconhecendo que os mais recuados vigiavam o auxílio ao colega. Não era normal esquecer-se de tais possibilidades, mas por norma, quando ia em missões, nem chegavam a saber que ele lá tinha estado até darem com os mortos ou começarem as explosões. Disparou em cheio contra o ouvido do tipo, que se entendeu de imediato nas proximidades do que se arrastava, para se imediato começar a ser bombardeado pelos outros. As balas tilintavam de forma constante contra a armação férrea que lhe servia de escudo e ele não descortinava uma forma de sair dali. Olhou para a sua direita e viu uma carrada enorme de papelada, pinhas, acendalhas e ervas secas. De forma a não se expor, começou a juntar tudo num monte e pegou-lhe fogo com um isqueiro que se encontrava encaixado no "grelhador sobre o efeito de hormonas". A quantidade de comburentes era tal que o fogo depressa tomou enormes proporções, provocando por acréscimo, uma nuvem de fumo imensa. Tão próximo estava das chamas que sentia a pele a estalar. Tinha que sair dali rápido aproveitando a cobertura da "fumarada". Correu como se fosse o último dia da sua vida, ou melhor será dizer, o mais rápido que as suas mazelas permitiram e só deram por ele, já ele estava muito perto. Tentaram disparar mas a janela de oportunidade fechou-se antes que o pudessem fazer. Vince atingiu o mais próximo com um soco descendente, fortalecido pelo balanço do salto que deu e, com dois movimentos dignos dos melhores heróis do cinema, de esquerda puxou da sua faca, recuperada a Jack, cortando a mão ao que sobrava e, passando a lâmina para a sua direita, enterrou-a profundamente e em seguida, na lateral do pescoço do mesmo. Voltou a virar-se para o socado e lançou-o ao chão, batendo-lhe tão violenta e cegamente que quando parou já o tipo não respirava há muito e seria impossível reconhece-lo pelas feições, de tão desfeitas que estavam. Respirou fundo e conseguiu acalmar-se pela primeira vez desde que ali chegara. Ergueu-se mais relaxado, mas extremamente cansado.

  "Meu corno! Olha para o que fizeste! Vou acabar o que a porcaria do Vas e dos restantes meus homens não foram capazes...mandar-te para junto da tua família."

Virou-se bruscamente perante o som da voz familiar. Mais um erro que cometera, mais um esquecimento. Esquecera-se que não eram dezasseis, mas sim dezassete. Provavelmente este seria o seu último grande erro. Olhou a figura enrolada em ligadura à sua frente. Apenas lhe conhecia a voz, pois nem ele nem ninguém que ele soubesse, o tinham visto alguma vez sem aquele disfarce. A Colt de Vas estava na mão dele e apontava à sua cabeça. Era notória a facilidade daquele monstro em matar um ser humano. Nem um ligeiro tremor se notava nos seus membros. Vince fechou os olhos e preparou-se para o inevitável. Não sairia dali vivo e a sua morte seria um misto de pólvora, sangue e perfume doce. Ouviu o primeiro tiro e o segundo veio quase sem demora, mas não sentiu dor. Abriu os olhos e viu que a múmia não disparava para si. Girou para ver o que se passava e o queixo caiu-lhe. Jack caminhava lentamente e começara a disparar a metralhadora que trazia consigo, mas o seu abdómen já não tinha apenas um ferimento...tinha três. As suas calças já estavam ensopadas em vermelho até aos joelhos. Atirou-se para o chão e começou a olhar alternadamente para os dois atiradores. O chefão, já prestes a cair, completamente trucidado pelas balas, ainda disparou uma última vez, acertando por sorte na garganta do seu salvador.A fonte púrpura localizada no seu pescoço não cessava a corrente, mas nem assim ele parava. Ainda deu meia dúzia de passos, sempre disparando, até ver o seu adversário tombar e também ele cair de joelhos. Fechou então os olhos, a mão abriu-se-lhe suavemente deixando a arma pousar da mesma forma na relva e a cabeça pendeu-lhe, tocando o peito com o queixo. Vincent levantou-se de tal forma aflito que escorregou, vendo-se obrigado a levar as mãos ao chão para não cair novamente. Chegou esbaforido perto de Jack e chamou-o em voz alta. Ele abriu muito ligeiramente e a tremelicar o olho esquerdo, tentou falar mas não conseguia, ergueu a mão com lentidão e tremendo compulsivamente, tocou-lhe o peito. Agarrou-lhe a mão ensanguentada com a sua e sentiu-o usar as últimas e poucas forças que tinha para apertá-la. O seu corpo começou a balançar com maior intensidade a cada segundo passado e ele debatia-se por forma a manter-se direito e vivo, mas o fim acabou por chegar. Agarrou-o para que não tombasse desamparado e deitou-o no manto verde, fazendo o gesto na cruz antes de se erguer. Agora que tudo estava calmo, os passos pesavam-lhe mais do que nunca, o corpo doía como não havia memória e o vazio que sentia parecia poder tirar-lhe a vida a qualquer momento. Passou pelo corpo do chefe e parou por um breve momento para olhar. O cheiro doce do traste contrastava agora com o fedor a sangue de uma forma intensa e algo perturbante na sua opinião, mas isso eram pormenores. Sentia-se regozijado com o destino, mas visto ter vivido os últimos tempos preso a um desejo de vingança contra aquele homem, a sua morte não estava a ter o efeito que tinha pensado. Continuava prisioneiro na sua própria mente. Tinha que escapar, mas para isso precisava de um novo objectivo na sua vida, um objectivo ausente de armas, violência e morte. Tinha visto tanta gente boa tombar, tanto prisioneiro como ele próprio inundar-se em sofrimento e morrer afogado no mesmo. Sentia-se destroçado por todos eles, mas a vida tinha-lhe dado um nova oportunidade e ele não podia desperdiça-la, logo estava feliz. Soubera em tempos o que era a felicidade, esquecera-a, mas agora, queria voltar a aprende-la. Numa derradeira demonstração de raiva, "como última atitude de um prisioneiro que abandona os corredores da morte na direcção da saída para o mundo exterior", pontapeou a cabeça do morto e cuspiu-lhe. Olhou para trás, para onde havia deixado Jack e sorriu. Já sabia qual seria o seu objectivo, o seu libertador, a sua luz ao fundo do túnel.

"Adeus Jack. Tenho uma criança para ir buscar."













P.S - Aproveito esta altura para pedir um favor a todos que me acompanham. Quero iniciar em breve uma nova série, mas gostava que não fosse algo escolhido por mim. Peço então que postem no espaço dos comentários, algo que gostassem de ver escrito/trabalhado por mim. Obrigado.
Por fim, mas não menos importante, quero agradecer a todos os que leram e me foram dando as suas opiniões sinceras. Ajudaram-me bastante no desenvolvimento desta série e deram-me motivação para continuar. Espero que tenham gostado do final, mas especialmente do todo.

Pedro C.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sem escape Cap. III - Inimaginável

   A visão turva transformava as minhas mãos em dois meros borrões encarnados. Tudo em volta parecia estar a derreter. Voltava a cabeça em todas as direcções como um louco, de olhos esbugalhados, boca aberta, ofegante e emanando um gemido de dor. Tentava focar a visão, erguer-me para procurar o meu filho, mas por muita vontade que instilasse na minha mente, o corpo não reagia. A muito custo estendi os braços na direcção da parede e comecei a forçar-me a levantar. As minhas pernas pareciam mortas, ignorando todas as ordens de movimento que lhes lançava. Com um esforço assombroso arrastei-me até perto das escadas e lancei as mãos ao corrimão de madeira. Gritei com a força que fiz para me puxar para cima, mas os meus membros inferiores continuaram sem corresponder até que os meus braços vacilaram e tombei, caindo pelas escadas abaixo. Fiquei estendido ao fundo da escadaria e não me mexi durante algum tempo. Não sentia dor alguma, nem o sangue que me corria do enorme lenho que abrira acima do sobrolho durante a queda, mas chorava compulsivamente. Aumentara naquele momento a intensidade de um choro que não conseguia parar e que me consumia por completo a cada instante passado. O coração batia-me descontroladamente dentro do peito quando comecei a sentir espasmos. Senti os olhos a revirarem e a espuma sair-me da boca enquanto todos os músculos do meu corpo gritavam em agonia e se contorciam em busca da libertação. A dor foi demais e perdi a consciência.

Acordei não sei quanto tempo depois, mas ainda era noite. Já não sentia dores e o meu coração estava mais sereno. Forcei a sentar-me a sacudi a cabeça antes de olhar em redor. Fiquei estupefacto. O espalhafate de vidros partidos por toda a sala já não existia e as janelas estavam intactas sem excepção. Olhei as minhas roupas e mãos e, embora o vazio que aquela morte me tinha provocado ainda lá estivesse, todo o sangue havia desaparecido. Encontrava-me totalmente limpo e de forças renovadas. Levantei-me de impulso e corri escadas acima gritando pela Vanda e pelo Rafael. Sem obter resposta cheguei ao andar de cima e tudo estava incólume. Nem sinais do corpo ou do lago de sangue no qual eu mergulhara há momentos atrás. Mais uma pequena corrida e entrei no quarto abrindo a porta que eu vira destruída e arrancada dos seus suportes. O interior estava como o resto. Normal. O azul inalterado, todos os bonequinhos arrumados e o pijama direitinho e estendido sobre a cama pronto a vestir. 

Que se passa aqui? Isto não é possível! O que eu vi foi real! Não há forma de não o ser! Eu não estou louco! Onde estão eles? Arrgghh...tenho que descobrir o que se passa aqui!

Invadi bruscamente todas as divisórias da casa e não se via nada nem ninguém. Corri para o telefone para tentar ligar aos meus pais ou aos pais dela, mas o aparelho estava mudo. Tudo aquilo era demasiado inimaginável e parecia estar a ser gozado e observado a todo o momento. Num acesso de raiva desfiz o telefone contra a mesa e a parede. Peguei nas chaves do carro que estavam em cima do balcão da cozinha e preparei-me para sair e ir ao encontro dos meus pais em busca de ajuda. Mal cheguei perto da porta da rua ouvi uns ruídos estranhos vindos de fora e estaquei. Espreitei discretamente por entre os cortinados e, como um relâmpago, corri para trancar a porta. Já trancada comecei a dar voltas à cabeça em busca de uma forma de sair daquela embrulhada. De costas contra a porta, comecei a sentir os impactos, fracos a início, mas a aumentarem exponencialmente, tanto em número como em intensidade. Afastei-me da porta e vi-a começar a vergar. Olhei em volta para as janelas e as sombras já invadiam todo o perímetro em torno da casa. Uma multidão de vultos negros e encapuçados rodeavam toda a habitação e, enquanto uns rebentavam com a porta, outros, exibindo os seus dedos compridíssimos e disformes, raspavam as unhas nos vidros, provocando um som incompreensivelmente alto e arrepiante. Levei as mãos aos ouvidos por já não estar a aguentar mais e dirigi-me às escadas, onde senti como se tivesse embatido em algo invisível. Uma dor na zona do sobrolho fez-me esfregá-lo e constatar que a ferida devido à minha queda das escadas ainda lá estava. Afinal não tinha desaparecido como tudo o resto. Olhei para cima e outro daqueles encapuçados aguardava no topo, bloqueando-me a passagem. Lembrei-me da garagem, carregada de objectos arremessáveis e contundentes. Podia não servir de muito, mas era melhor do que ficar ali à espera da morte. Tinha acabado de iniciar a corrida quando um estrondo me fez olhar no sentido da porta da frente. Esta acabara de ceder e voava na minha direcção, sem qualquer hipótese para mim de a evitar.


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Aos pré - históricos!!!

   Podes tentar capturar todo o sentido destas palavras que aqui escrevo, tentar até imaginar o que sinto, mas nunca serás capaz. A picada que provocam ou que deveriam provocar caso entendas aproximadamente o que significam é impossível de evitar, mas isso não me interessa, pois é exactamente esse o objectivo. Queria dizer tanta coisa, explicar tanta coisa, mostrar tanta coisa...mas não posso. Não posso porque a sinceridade tem destas coisas. Há os que a adoram e os que a abominam, os que aceitam e respeitam e os que condenam e passam a desprezar. Será que esse tipo de pessoas acham justo condenar alguém ou diminuir a sua amizade devido a honestidade? Devido a sentimentos sobre os quais não temos qualquer tipo de poder de escolha? Que conversa vem a ser esta? Isto não tem lógica nenhuma e é óbvio que só poderá provir de pessoas fracas, idiotas e que não merecem as amizades que têm. No entanto esta gentinha da treta vem mascarada de bons princípios, boas intenções e espetam grandes lições de moral a todos os que a rodeiam, quando deviam simplesmente falar para a porra de um espelho que, só por acaso, deveria ser inquebrável, por forma a aguentar com tamanhas ignorâncias e falsidades. Essa gente queria era com um gato morto no focinho até ele miar ( peço desculpa ao pobre animal por falar desta forma e sujeitá-lo a tocar em escrementos como o são pessoas destas ). Só desejo a estes Neandertais, mocas pelos cornos, pelo menos tantas como os pontapés que deram toda a vida a quem simplesmente lhes deu tudo. Só quero saber e agradeço que me digam se posso ou não ser sincero convosco. Aos pré-históricos só me resta dizer...Vão-se fornicar que ninguém vos quer pra nada!

Sem escape Cap. II - Até ao último suspiro

   Corri escadas acima sem sequer sentir que os meus pés tocavam algo sólido. A porta do quarto estava aberta e viam-se duas sombras, uma mais pequena e outra maior e de mulher, que se debatiam com uma terceira presença, como se estivessem a ser puxados, mas cuja sombra não era visível. Acelerei por aquele corredor em seu auxílio, mas mal me preparava para entrar na divisória, na precisa altura em que os gritos e o choro haviam deixado de ser de desespero para passarem a terror profundo, a porta fechou-se-me na cara com uma violência tremenda, quebrando-me a cana do nariz. Não consegui entender, ou talvez não quisesse, a razão da porta ter fechado daquela forma, visto não ter sido movida por ninguém e a corrente de ar não ser suficiente para tal brusquidão. Ignorando a dor e o sangue que me corria por cima dos lábios, ergui-me e percorri novamente os dois metros que a pancada me tinha feito recuar. Bati na porta como um louco, completamente decidido a parti-la se assim fosse necessário, mas nada acontecia. Sentia no interior o pânico, mas o barulho havia cessado. Para além das minhas investidas contra a madeira, apenas se ouvia um ligeiro soluçar e uma respiração ofegante. Gritei por eles sem obter resposta alguma. Sentia-os encostarem-se à porta e parei de lhe bater. Agachei-me e chamei-os novamente com o silêncio a esbofetear-me de volta. Saí dali a correr para me dirigir ao exterior, deixando pingas do sangue, que já gotejava do meu queixo, pelo corredor fora. A pressa era tal que escorreguei, caindo pelas escadas abaixo. Nada senti, tanto que, no segundo seguinte estava a contornar a casa pelo lado de fora. 

Olhei para cima e vi a janela partida com os cortinados a esvoaçarem ao sabor do vento. Não perdi tempo e trepei por ali acima com uma agilidade que julgava perdida há muito. Segurei o parapeito e preparei-me para dar o último impulso quando a Vanda gritou completamente desesperada pelo meu nome. "Pedroooo!". Aquele grito foi a coisa mais assustadora que alguma vez ouvira. Galguei para o interior acompanhado por novo som, mas desta vez de algo a estourar e a partir. Toquei com os pés no chão e de imediato me apercebi da origem do estrondo. A porta tinha sido arrancada das dobradiças e não havia sinal dela no quarto, mas isso era a menor das minhas preocupações, visto que também não havia sinal da minha família. Os peluches do meu filho encontravam-se espalhados por todo o lado, alguns deles completamente desfeitos. Todo o mobiliário se encontrava revirado e o azul turquesa das paredes parecia ter ganho um tom amarelado e doentio. Fiquei ainda mais em pânico quando reparei na colcha coberta de sangue e jogada ao acaso num canto. Gritei um não profundo e a plenos pulmões antes de avançar em direcção ao corredor, mas de forma imediata e brusca voltei para o quarto. Não acreditei no que vi e ganhava coragem para olhar novamente e ter a certeza. Olhar novamente para quê? O que me adiantaria? Aquele segundo vislumbre com a mísera desculpa de ser a confirmação, apenas me faria sofrer ainda mais, se é que isso era possível.

De costas apoiadas na parede, fechei os olhos e ergui a cabeça. As lágrimas correram-me pela face e quando finalmente respirei fundo e abri os olhos, o tecto mostrou-se-me turvo devido à quantidade de água na minha vista, cuja me apressei a secar. Aguardei por alguns segundos, batendo ligeiramente com a parte de trás da cabeça na parede, antes de me desencostar e encarar novamente a saída. Parecia ter umas mãos invisíveis a segurarem-me os tornozelos ou um monte de pregos a pregarem-me ao chão, pois os meus membros inferiores recusavam-se a mexer e latejavam a cada tentativa minha de os obrigar. Por fim, a minha teimosia venceu e, enchendo-me de coragem, avancei para enfrentar de vez o quadro de terror que se encontrava exposto no meu corredor. Iniciei o confronto com a situação e comigo mesmo, inundado em determinação, mas num ápice passei a chamar-lhe o nome real, ilusão. A força que pensei que teria após aquela introspecção devido ao primeiro impacto, não existia, a coragem que vi crescer em mim, não passava de uma miragem e, tudo o mais que tenha sido pensado por mim naqueles instantes criava no seu todo a maior fantasia alguma vez imaginada. Cada passo que dava ameaçava a integridade dos meus joelhos, de tanto que tremiam e doíam, cada inspiração tomava de mim uma infinidade de energia, para na expiração parecer incendiar-me os pulmões. A cascata proveniente do tecto parecia entoar uma melodia alegre durante o seu incessante contacto com o solo. Uma melodia marcada pela cor vermelha e em tom de chacota para com a minha pessoa. Coloquei-me quase debaixo dela, deixando que me salpicasse os pés e olhei fixamente para cima, coisa que até agora não havia sido capaz devido a toda a concentração necessária para vencer a insubordinação do meu corpo, mas, acima de tudo, ao medo. O corpo despido colado ao tecto de pernas e braços abertos, com inúmeros e profundos cortes por toda a sua extensão. Chorei. As falhas na carne de um encarnado que parecia ter vida e os seus contornos amarelados devido à camada de gordura da pele. Não consegui conter o vómito. Os seus olhos aterrorizados, presos eternamente a um pedido mudo de socorro, faziam-me chorar ainda mais. Saltei e agarrei um dos braços para tentar retirar o corpo do tecto e segurá-lo num último abraço, mas, mesmo sem estar preso por nada, pelo menos visível, nem se movia. Puxei com todas as forças e nem o braço que agarrava descolava, mantendo-me suspenso enquanto o agarrava. Desisti. Estava exausto e destruído por dentro. Caí de joelhos e puxei os cabelos enquanto gritava. Gritava coisas sem nexo, talvez até, simplesmente sons de desespero e agonia. A minha mulher estava morta, sofrera até ao seu último suspiro com toques de malvadez e eu não tinha feito nada para o impedir. Nem sequer a conseguia segurar junto ao meu peito e beijar-lhe a testa em despedida. Num ataque de histerismo mergulhei as minhas mãos na poça feita do seu sangue e comecei a espalhá-lo por todo o lado.
Tudo se encheu de vermelho à minha volta, incluindo a minha face, quando a cobri com ambas as mãos e gritei novamente até se me gastar a voz.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alcatraz Cap. V - Indolência

  O vento a bater-lhe na cara e a visão do miúdo morto a invadir-lhe a mente. Agarrava o volante com a mão direita, exercendo uma força enorme e desnecessária, enquanto esfregava a careca com a esquerda. Pensava ao mesmo ritmo do andamento do carro, vezes sem conta, sem nunca conseguir entender o que dera àquele tipo para estourar com a "carola ao puto" daquela forma. A voz daquela "cabra" do Gps, ainda por cima com sotaque "franciú" começava a irritá-lo profundamente com as constantes interrupções à sua reflexão.  Reparou entretanto que Kyle estava estranho. Parecia receoso, o que seria normal, vista a situação em que se encontravam, mas havia ali mais qualquer coisa. O "gajo" parecia perdido, sem conseguir estar quieto ou concentrar o olhar, fosse na estrada ou noutro ponto qualquer.

  "Que se passa contigo pá? Pareces um maluco a abanar a cabeça dum lado para o outro!" - perguntou intrigado.
  "Han? O que é que te dói?"
  "Não te faças de estúpido! Há qualquer coisa de errado contigo! Desembucha."
  "Desembuchar o quê pá? É difícil de entender porque é que um gajo está apreensivo quando vai só com mais dois animais na direcção de um exército? É difícil entender isso quando um gajo tens mais possibilidades de levar um estilho pla cabeça do que o Papa tem de rezar? Fod...-se Jack! Às vezes és burro de car...ho."
  "Epá, vai levar onde levam as galinhas ó maluco! Ainda há pouco távamos rodeados de macacos e não mostraste ponta de receio ou de nervosismo! Agora é que te caiu a ficha de repente e ficaste com os caniços a tremelicar? Não me lixes ó Kyle!" 
  "Agora tu é que sabes como me sinto! Eu não sei sobre mim próprio...quem sabe és tu. Deves ter tirado algum mestrado em adivinhação! Pensa lá o que tu quiseres mas não me chateies a mona."
  " Vá chora lá... - deu-lhe um toque na face em tom de gozo - ...chora maricas! Revolta-te lá por não te dizerem que sim a tudo como tu gostas! - o outro afastou-lhe a mão e deu-lhe um soco no braço - Enervas-te muito pá. Tens de começar a ter cuidado com o coração. Se achas que tás bem, já não te digo mais nada. Não quero que tenhas aí um esgotamento qualquer por minha causa ó menina da mer...a!" - viu o dedo do meio do outro quase e entrar-lhe pelo olho.

O Gps interrompeu o silêncio com o anúncio de chegada ao destino. Acordaram Vincent que dormira toda a viagem bastante encolhido na parte traseira minúscula daquele carro e encontrava-se agora ainda mais dorido que anteriormente. A mansão que tinham pela frente era de cortar a respiração. Construída em estilo gótico, aparentava ter tamanho suficiente para albergar toda uma família com não menos de 30 membros. Os telhados bicudos e a cor pálida davam-lhe um ar sombrio e de extrema imponência. Jack aproximava-se do enorme portão de ferro, apreciando e avaliando em simultâneo o enorme jardim que rodeava o imóvel. Exuberante em todos os aspectos, possuía sebes com uma altura superior a uma pessoa, delineando uma espécie de labirinto com discretos toques coloridos proporcionados aqui e ali por flores coloridas dos mais diversos feitios. As suas mãos agarraram as grades e a sua admiração pelo local, misturou-se com a estranheza de o local se encontrar deserto. Abanou o pesado obstáculo e este abriu-se sem dificuldade. Começava seriamente a cheirar-lhe a armadilha. Olhou para os outros com um esgar de extrema desconfiança.

  "Vamos aproveitar e enfiamos-nos por ai adentro num instante antes que apareça alguém. O chefão deve andar algures lá por dentro." - a convicção era evidente na voz de Vincent.
  "És completamente louco! Isso é o que eles querem que façamos. Vamos tentar procurar um lugar nas traseiras. Provavelmente temos que saltar o muro, mas estas casas têm sempre portas nas traseiras." - Kyle falou asperamente e olhou Vincent com desprezo.
  "Calma pá!Isso tudo pra quê? O homem só tava a dar a opinião. Não é a ele que tens de matar! Eu muito sinceramente não sei o que acho melhor. As traseiras parece-me muito à filme. sarilho por sarilho já tamos metidos nele, por isso talvez ir pela frente discretamente enquanto não há ninguém seja boa ideia."
  "Querem-se matar, matem-se sozinhos! Eu vou pelas traseiras." - virou as costas e começou a andar a passo acelerado.
  "Fod...e Kyle anda cá! - nem sequer olhou - Raios partam este gajo! Vamos com ele antes que dê bronca." - guinou a cabeça na direcção pretendida e Vincent seguiu-o.

 Tanta crítica ao seu comportamento impulsivo e agora fazia o mesmo. Só lhe apetecia partir-lhe o "focinho" e na sua cabeça choviam formas atrás de formas para o fazer mal aquilo terminasse, se terminasse com ambos vivos. Olhava Vince a seu lado e apercebia-se do esforço que fazia para andar. Aquela perna devia estar a matá-lo com dores, mas ele recusava-se a ceder. Pensava no arrependimento que o havia de percorrer para se entregar daquela forma à demanda. Levaram ainda algum tempo a contornar o muro até à retaguarda, mas foram incrivelmente mais rápidos a auxiliarem-se uns aos outros para o treparem e chegarem ao outro lado. Até o "coxo" pareceu um atleta olímpico. Agachados e com Jack na frente, avançaram em direcção a uma das portas mais pequenas. Após se encontrarem encostados à parede e de armas em punho, o líder do desfile olhou para o interior. Dava para a cozinha, mas uma cozinha que mais parecia um anfiteatro, tal era a sua dimensão. Tocou a maçaneta e girou-a ao de leve. Estranhamente estava aberta. Ele ficava cada vez mais desconfiado. Era tudo bom demais para ser verdade. Guarda inexistente e agora portas abertas. Algo estava para acontecer e não era bom. Olhou para trás e fez sinal para que o seguissem para o interior.

  "Eu bem disse que as traseiras eram a melhor abordagem. Nem as portas têm trancadas!" - sussurou Kyle nas costas de Jack enquanto entravam.
   "Isto a mim não me cheira nada bem! Está tudo a ser fácil demais." - comentou Vincent no fim da fila.
   "Ave de mau agoiro!"
   "Sshhhtt!" -  o "careca" olhou bruscamente para eles com o indicador na ponta do nariz.

Olhou discretamente por cima do balcão que lhes servia de protecção e viu três indivíduos aproximarem-se. Repetiu o toque no nariz para os companheiros, mas desta vez sem qualquer som. Mantiveram-se encostados e em silêncio total até que os tipos se encostaram ao outro lado da bancada onde se encontravam. Dois deles até se sentaram nela. Falavam sobre assuntos sem qualquer interesse, mostrando-se completamente relaxados e ignorantes face à sua presença ou possibilidade de tal.  

  "Que porra é esta? Não consigo acreditar nisto! Sem notícias sobre os seus homens nas docas há tanto tempo e nem se mostram um pouco agitados?! Não interessa agora. Temos de agir rápido antes que voltem todos os que não matámos." - disse para si próprio antes de olhar para os outros e começar a gesticular lentamente mostrando o que pretendia que fosse feito.

Ele e Kyle, visto encontrarem-se com maior mobilidade, tinham a responsabilidade de imobilizar os dois que estavam sentados, enquanto Vincent, deitado no chão, eliminaria o terceiro alvejando-o com a sua arma, a única com silenciador no grupo, outra das razões para o papel que lhe havia sido dado. Terminadas as instruções, ergueu o punho e começou a levantar os dedos numa lenta e tensa sequência.Um...dois...três dedos e ergueram-se os dois como feras sobre as suas presas. O "grisalho" partiu de imediato o pescoço ao da esquerda, enquanto o "careca" puxou o outro para trás, deitando-o no balcão e atingindo-o de imediato com o cotovelo no pescoço, antes de o atirar para o chão. Deitado, o "coxo" não permitiu que o alvo de pé se apercebesse sequer da desgraça que se abatia sobre os companheiros, aniquilando-o instantaneamente com um tiro certeiro no meio da testa. Sem articularem palavra, o autor do plano tomou a dianteira e, deixando os corpos escondidos, abandonaram a cozinha. A saída que tomaram levou-os a uma gigantesca sala de jantar, digna de realeza. Mobiliário, todo ele em mogno, distribuído pelo espaço com inteligência e bom gosto. Os cortinados cinza enormes, quase chegando ao tecto, encontravam-se semicerrados, proporcionando ao espaço, uma luminosidade sinistra, mas extremamente cativante e agradável. Avançaram cautelosamente, sem notarem qualquer ruído ou movimentação, até à portada dupla que os levou ao hall. Nova divisória impregnada de classe e personalidade. A cor dourada imperava no todo da escadaria, candeeiros, pilares de sustentação do varandim e pequenas mesas que se apresentavam cobertas de luxuosos naperons bordados à mão, bem como vistosos castiçais e vasos, mas o mais impressionante era a cúpula central em vitral, simulando parte da Capela Sistina. Olhavam para cima admirando o local, quando ouviram vozes vindas do andar de cima. Era impossível no entanto, detectar a direcção das mesmas, visto o eco que era produzido entre aquelas paredes. Subiram lentamente e com todos os sentidos em alerta máximo. Na chegada ao topo, mal pisaram o último degrau, as vozes calaram-se. Alarmados pelo sucedido e à espera de verem surgir de qualquer lado no varandim um número indeterminado de hostis, Jack rolou pelo chão escondendo-se atrás de um móvel que servia de expositor a um número enorme de armas antigas, enquanto os outros dois se sentaram no chão, ocultados pela lateral da escadaria. Aguardaram por momentos sem ouvir nem ver nada, até que Kyle se começou a preparar para avançar.

  "Que fazes tu pá? Tá quieto!" - grunhiu detrás do móvel ao mesmo tempo que Vince também lhe jogava a mão impedindo-o de progredir.
  "Eu sei o que estou a fazer. - sacudiu a mão que o segurava - Não ouviram os passos dentro daquela sala? Há ali alguém e estão a movimentar-se lentamente demais para o meu gosto! Para mim já nos toparam e temos de os apanhar antes que nos apanhem a nós."
  "Passos onde meu? - perguntou enquanto esfregava a mão da "latada" que levara - Ouviste alguma coisa Jack? Isto tá aqui um silêncio tão ensurdecedor que ainda não consegui de deixar de estar arrepiado!"
  "Pois, eu também não ouvi nada! Tás a alucinar velho. Além disso, como podem eles saber que estamos aqui?Não há câmeras e ninguém nos viu, ou pelo menos quem viu tá morto. Qual é a tua lógica?"
  "Fiquem onde estão então, que o maluco vai sozinho." - dito isto arrancou em direcção à primeira porta da correnteza e abriu-a, sem dar qualquer hipótese de intervenção por parte dos outros.
  "Outra vez?Kyle...eu parto-te o focinho hoje!Parto!" - Saiu detrás do móvel no encalço do desvairado, seguido de imediato pelo "coxo".

Estavam a um passo de entrar, quando a porta se fechou com estrondo. Tentaram abri-la, acompanhados pelo som de uma enorme rixa no interior da divisória, mas estava trancada.

  "Afasta-te!" - o careca afastou-se no preciso momento em que ele cravou uma bala na fechadura, destruindo-a.

Jack pontapeou a porta violentamente, abrindo-a com estrondo, mas, ainda o seu pé estava a caminho da porta, a barulheira no interior cessou. Entraram os dois de armas erguidas, cada um varrendo os diferentes lados da sala. A barafunda era total, com praticamente tudo partido ou espalhado pelo chão. Apenas o sofá de pele preta não se encontrava virado. Jack aproximou-se deste e um tipo, que estava deitado no mesmo à espera, saltou-lhe ao pescoço, derrubando-o e fazendo com que a arma deslizasse pelo chão através do varandim e fosse cair no piso inferior. Vince reagiu rapidamente e espalhou-lhe a mioleira pela parede. Ajudou-o a erguer-se e entregou-lhe a sua arma.

  "Então e tu?"
  "Não te preocupes. - enquanto abria o casaco e tirava algo - Eu tenho a minha bebé. - sorriu ao exibir a sua lâmina, jogando-a ao ar e apanhando-a novamente - Bora."

Passaram por baixo de um arco que dava acesso à divisão seguinte. Não se via ninguém e continuavam sem sinal de Kyle. Esta sala já não estava de pernas para o ar como a anterior, muito antes pelo contrário, estava arrumadíssima. Era uma sala carregada de móveis e estantes por todo o lado, logo, poderia-se mostrar um enorme problemas para eles, pois os possíveis esconderijos eram mais que muitos. Pensaram em voltar para trás e evitar aquela sala, passando pelo varandim, mas três tipos bloquearam-lhes a saída. Voltaram a olhar para a zona dos móveis e mais quatro saíram de dentro dos mesmos. Um tiro certeiro e um dos três primeiros ficou logo com um buraco na garganta, voando os outros dois para trás do sofá para se protegerem visto estarem desarmados. Do outro lado, os quatro começaram a largar chumbo e eles esconderam-se nas laterais do arco. Jack apontava para o sofá para não dar hipótese de movimento aos que lá se escondiam, mas os outros aproximavam-se e Vince não tinha fogo com ele e era só um.

  "Jack...Jack! - o outro olhou de soslaio - Aponta ao candeeiro! Aponta à porra do candeeiro...rápido!"

Desviou a atenção para o dito candeeiro e disparou, fazendo aquele pesadelo cair com estrondo atingindo três deles em cheio. Dois foram derrubados pela força do impacto e o terceiro foi atingido por uma das pontas bicudas que se lhe espetou no topo do crânio. O único sobrevivente escondeu-se sem que vissem onde. Entretanto, Vince, aproveitando a aberta, saltou por cima do sofá caindo no meio dos dois que lá estavam. O espanto foi tal que um deles caiu de "cú" e, perdendo toda a capacidade de reacção, tombou de imediato. O sangue espirrou-lhe da boca com o movimento descendente da lâmina a sair-lhe por baixo do maxilar inferior. O segundo caiu-lhe em cima e segurou-lhe os pulsos. Tentava resistir, mas o tipo tinha mais força que um touro e o bico da faca estava cada vez mais próximo do seu olho direito. Quando já se julgava condenado, conseguiu libertar uma perna e com um esticão, atingiu-o nos "tomates". O "gajo"  soltou-o de imediato e rebolou-se com dores enquanto ele se recompôs e pegou de novo na sua "bebé". Ia para matá-lo, mas antes olhou na direcção do companheiro que procurava a sua quarta vítima. O "cab..ão" saíra do esconderijo sem ser notado e estava nas costas de Jack, pronto a ceifar-lhe a vida. Um som sibilante e ele olhou para trás. Estendido a seus pés estava o homem que procurava com a faca de Vince cravada na nuca. Olhou para o outro e estendeu-lhe o polegar, sendo retribuído com um movimento de continência. Bruscamente ergueu a arma e disparou. O "coxo" encolheu-se e olhou para trás. As dores tinham aliviado e o brutamontes já se estava a preparar outra vez para o esganar. Foi a sua vez de mostrar o polegar a Jack que, por sua vez, lhe devolveu a continência.

  "Jack!" - a sua expressão passou de aliviado para aterrorizado quando gritou.

"Click.". O som da bala a entrar na câmara acompanhou aquele chamamento e Jack sentiu de imediato o frio do cano na parte de trás da sua cabeça.

  "Sinto muito meu." - aquela voz ribombou como um trovão nos ouvidos de Jack.

  "Kyle!!!"