sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Death by my Fingertips: Cap. III - Realização

  Vejo-me na frente de mais uma bela mulher. A minha terceira paixão, na minha terceira noite de libertação, loucura e realização. Adormeci na noite anterior, ainda extasiado com o odor a carne queimada que permanecia nas minhas roupas e sonhei. Sonhei com a mulher que agora tenho nas mãos, como se previsse o futuro. Vi-me a afogar na sua doce carne, os seus tendões a explodirem entre os meus dentes. O seu mel vermelho a fluir suavemente, docemente, calorosamente, pela minha garganta. Sonhei com o arrancar daquele escalpe, numa demonstração plena do meu amor, as minhas unhas cravando memórias nas suas costas. O sabor dos seus gritos na ponta da minha língua. Sonhei que estava apaixonado e constato agora que estou.

O que começou por ser uma simples troca de olhares, tornou-se uma atracção carnal como nunca havia sentido antes. Até quando ela se aproximou de mim no cinema, o meu coração a tocar-me o céu da boca, não soube como reagir. Não foi daquelas meigas ou cheias de etiqueta, mas sim rude, agressiva gestualmente e na forma de falar. Foi amor à primeira vista. Era aquela a mulher do meu sonho. Quando o filme terminou, puxou-me de forma bruta para fora do edifício e, antes de nos pormos a caminho para o seu apartamento, beijou-me e trincou-me o lábio inferior. Senti o sangue a correr e limpei-o com o polegar, para vê-la em seguida lamber os seus próprios lábios e o meu dedo, deliciando-se com o sabor daquele doce elixir púrpura. O espaço livre no interior das minhas calças encurtou rápida e consideravelmente. Não consegui evitar e ela reparou, jogando a mão e passando a apertar e puxar como se de uma trela se tratasse. Deixei-me levar com um sorriso nos lábios. A mão dela provocava uma dor incrivelmente aguda e ela sabia, mas era também notória a satisfação no meu semblante. Estava mais duro e volátil que nunca quando entrámos no apartamento dela, carregado de pinturas doentias e obscenas, na minha opinião românticas, e de espelhos incrustados em paredes escuras. Chegámos então à minha vez de jogar.

Já a tinha feito guinchar que nem um porco no matadouro e implorado que continuasse a montá-la vezes sem conta. Já a tinha feito vir-se um par de vezes e misturar uma gargalhada com um grito quando lhe trinquei o clitóris, esguichando sangue. Fui violento o quanto quis, porco a meu bel-prazer e sádico acima do absurdo, mas ela continuava a acompanhar. Ela estava a gostar tanto como eu, engolindo até e esfregando-se com o meu sémen.

Peço-lhe então que me arranje um fio de seda ou semelhante, para amarrar algo e ela, sem questionar, obedece e levanta-se para ir buscar. Levanto-me também e toco no botão Play da aparelhagem, fazendo ecoar por toda a casa uma música demasiado barulhenta para o meu gosto, mas com um étimo de violência extraordinário. Aumento o volume e ela olha-me de soslaio sorrindo, mas volta de imediato à sua busca nas gavetas. Aproveito o barulho e a distracção e, enrolando as calças de ganga no braço, parto um dos vidros, do qual apanho um dos maiores e mais bicudos fragmentos. Vou até à cama novamente e antes que ela se vire, oculto o objecto contundente no meio da roupa enrodilhada. Olho-a enquanto se dirige para mim, sorridente e ansiosa por saber qual a minha ideia. Insulto-a de cabra, puta, besta e javardona, fazendo com que não repare no espelho partido na ponta oposta da divisória e me salte para cima, prendendo-me os pulsos e esfregando, provocadora, com o traseiro, os meus genitais. Sem aviso, ela olha em frente e, através do reflexo, vê os danos por mim causados, esboçando surpresa e desconfiança na sua expressão. Atinjo-lhe rapidamente a zona da glote com um golpe seco da lateral da minha mão. Ela agarra a garganta, aflita devido à repentina falta de ar e privação da voz. Não adiantaria, no entanto, gritar, pois com o volume exageradíssimo da música, ninguém a ouviria. Pego-lhe pelos ombros e puxo-a para o lado, assumindo de imediato a posição superior. Rapidamente, com as amarras que me entregou, amarro-lhe os pulsos acima da cabeça e os tornozelos. Em seguida, machuco os seus collants e preencho-lhe a cavidade bocal com os mesmos. Paro por momentos e ouço os seus gemidos, ignorando o pânico naquele olhar. Nada tão doce como o sabor do medo, cujo sinto a cada passagem da minha língua pelos seus peitos. Volto a pegar no pedaço de vidro que havia escondido e olho para ele pensativo. Quando me decido, giro-o na palma da minha mão e olho para ela sorrindo, tanto pela minha decisão, como pelas súplicas silenciosas que lhe acompanhavam as lágrimas. Pensei que gostavas de dor, minha vaca! Estiveste a mentir todo este tempo? Vamos tirar a prova! Lentamente esculpo-lhe um D no lado direito da face, fazendo um fio vermelho desenhar uma linha irregular pelo pescoço, até terminar no lençol branco, numa mancha que aumentava lentamente, muito lentamente. "Esta é a inicial de dor...a minha palavra preferida, tal como o teu corpo.", sussurro ao seu ouvido, lambendo-lhe a ferida em seguida. Ainda sem erguer a cabeça de junto da dela, espeto o aguçado objecto na base da sua mama, do mesmo lado da letra. O seu soluçar passa a uma espécie de guincho, no meio de um choro compulsivo e um espernear quase esquizofrénico. Aquilo deu-me vontade de rir e ri. Ri à gargalhada enquanto usava a arma como uma faca e lhe cortava a mama, separando-a por fim do corpo. Ela treme em choque e a pequena mancha de sangue no lençol, foi consumida por um rio que lhe escorria pelo tórax e abdómen. Pego-lhe no queixo e enquadro os seus olhos com os meus. Estão revirados e ela já nem produz qualquer som, mas mantêm-se consciente. Finalmente uma que consegue aguentar. Sinto-me feliz, realizado. Consegui elevar o nível de adrenalina desta gaja de tal forma que, nada do que fiz a fez desmaiar. Já me sinto livre para tomar a sua vida, sem frustrações como anteriormente.

Pego no último atilho que resta e prendo o vidro ao meu pénis. Quando o sinto seguro, abro-lhe bem as pernas e encaixo-me. A primeira penetração foi tão lenta que fui capaz de sentir as vibrações da carne que rasgava. Certamente a ouviria também, não fosse a barulheira musical. O sangue que saía da minha virilha, provocada por um dos bicos que me pontuava a cada impacto, misturava-se com o dela, fornecendo-me o calor mais vivificante que alguma vez sentira. O corpo dela tem espasmos cada vez mais fracos, após alguns violentíssimos aquando da minha entrada. A vida abandona-lhe o corpo a uma velocidade incrível. Antes que aconteça na totalidade, saio daquilo que há minutos atrás se poderia chamar de vagina, agora um mero trapo de pregas de pele desfeita, sangue e carne viva, e passo novamente a arma para as minhas mãos. O corpo quase inerte, reage com alguns esticões intervalados e pouco convictos, enquanto lhe abro o ventre, expondo-lhe as entranhas. Suavemente, encosto-lhe o corpo à cabeceira da cama, em posição sentada, e assisto ao derradeiro suspiro. Só pelo gozo, puxo-lhe os intestinos para fora e coloco-lhos como se de uns suspensórios se tratassem.

Já estou vestido e penso numa recordação que possa levar daquela paixão. Olho para o quadro de minha autoria e lembro-me da mama. Pego nela e embrulho-a na camisola da ex-dona, levando-a comigo ao sair.

A chuva acaricia-me a pele agora que caminho pelas ruas, arrefecendo o meu termóstato natural. Olho as autênticas multidões que circulam naquela noite de fim de semana, quase como se fosse um período de ponta. Continuo a ouvir em todo o lado que passo, que a polícia já me apanhou, mas isso ainda não é bem verdade. Rio-me deles, armados em espertos, quando dizem que estão no caminho certo. Obviamente que estão! Vistos todos os erros por mim cometidos, o facto de ainda não me terem apanhado revela toda a estupidez, incompetência e desleixo envolvido. Começo a ficar farto de putas e a minha paciência está a esgotar. Espero que os azuis cheguem antes que me vire para mulheres decentes, com maridos e filhos. Não é que vá sentir coisas fúteis e lamechas como remorsos, mas se já estou farto destes falatórios que por ai andam, quanto mais, dos que se gerarão se isso acontecer. No fundo não quero, mas a minha razão deseja ardentemente que me apanhem da forma mais célere possível. Eu amo o meu trabalho e quero começar tudo de novo.      

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. III - Not so Holy Place


  Atordoado, Ricardo começava a erguer-se. Tinha ambas as mãos e os joelhos apoiados no chão enquanto abanava a cabeça, tanto para sacudir os pedaços de madeira, como para dissipar o nevoeiro que lhe assolava a mente. Ouviu passos e, afastando o olhar daquele chão ladrilhado, semelhante a pedra antiga e desgastada, olhou para a sua esquerda. Viu alguém que envergava calças de camuflado verde-folha e botas de biqueira de aço pretas, avançar na sua direcção a passo largo e desferir-lhe um pontapé, de baixo para cima, em cheio no ventre. Soltou um grunhido surdo e levou a mão direita à zona atingida, enquanto sentia um pouco de saliva escapar-lhe por entre os lábios. Sem tempo de reacção, foi novamente atingido, mas desta vez na face, fazendo-o girar sobre si mesmo no ar e rebolar um par de vezes após voltar a tocar o solo. Sentiu o sabor adocicado do sangue na boca e uma explosão de adrenalina percorrer-lhe o corpo. Ainda caído, apanhou o pé que o atingiria pela terceira vez e deslizou a sua perna no chão para rasteirar o agressor, cujo se libertou e se esquivou com um mortal à retaguarda. Sem perder tempo, ergueu-se de um pulo e encarou, olhos nos olhos, o adversário. Aquele olhar imerso em tensão durou alguns instantes, enquanto os dois se avaliavam, descrevendo, em relação um ao outro, um círculo a passo lento. Ricardo soprava de forma zombeteira as pontas do seu cabelo ligeiramente comprido, enquanto o outro retirava lentamente a sua boina vermelha e a atirava para o chão em tom desafiador. Pararam de repente e ambos retiraram a faca de combate que tinham presa ao cinto, quase como se tivessem lido os pensamentos um do outro. O sopro do vento fez-se ouvir nos instantes que antecederam o início do confronto.

Ricardo deu dois passos largos e saltou, estocando o adversário em pleno ar, obrigando-o a mover-se lateralmente para se escapar. No entanto, este tipo não lhe conhecia os golpes de assinatura e, mal se julgou seguro, ele esticou a perna esquerda e atingiu-lhe violentamente a cabeça, derrubando-o. O careca levou as mãos à cara e esfregou-a com força, levantando-se de seguida, mas dando dois passos laterais que mostraram o quanto havia ficado atordoado. Os cabelos compridos dele esvoaçavam enquanto se esquivava dos contínuos golpes que lhe eram dirigidos, mas estes golpes eram tão rápidos e precisos que requeriam toda a sua concentração, o que não o deixou ver que o espaço à sua retaguarda começava a ser inexistente. Quando reparou, sofreu um ligeiro desequilíbrio que teve como sacrificado o seu braço esquerdo e teria tido também o seu pescoço, não tivesse sido tão rápido a levar a sua faca acima, fazendo a lâmina do adversário deslizar sobre a sua, perdendo a trajectória. Num ápice, atacou-lhe o abdómen com o cabo da sua arma e, girando a lâmina sobre a sua mão, aplicou um golpe ascendente que fez o outro urrar de dor e recuar prontamente. Nesta aberta, aproveitou para olhar o seu braço. Por entre um pedaço de tecido negro rasgado, via-se agora um golpe bastante fundo e corrente. "Filho da p...a", pensou, avançando para ele. Este por sua vez ergueu a face e deixou ver a real extensão dos danos. Um corte enorme, quase da boca até à testa, passando por um olho direito, do qual jamais voltaria a ver. Gritou enraivecido e lançou-se sobre o jovem que pensara a início, ser "um trabalho fácil". Alguns golpes rápidos de cintura, uns poucos bloqueios com a lâmina à altura de coxas, abdómen e tórax e por fim, um golpe com a base do pé, centrado ao joelho, fazia o vilão cair por terra com a articulação partida. Antes que este caísse totalmente, Ricardo apanhou-o e prendeu-o pelo pescoço, com a faca a roçar o mesmo. Quase não se debateu, sabendo que a situação não lhe era favorável e que caíra nela, muito devido ao seu ataque impensado e cego de raiva.

  "Quem és tu meu cab...o? É melhor começares a falar e dizeres-me também quem te mandou aqui e o que se passa neste maldito fim do mundo!?"

Não obteve resposta, porém, o careca, num derradeiro esforço, tentou projectá-lo por cima de si por forma a fazê-lo cair de costas. Ele não permitiu, partindo-lhe um dos braços e, quando este o tentou apunhalar com o outro, também não perdoou, torcendo-lho e perfurando-lhe a traqueia com a própria faca. O tipo começou a gorgolejar e deixou cair o braço. Então ele, pegou na faca e retirou-a, rodando a lâmina sobre si própria. O corpo caiu inerte e as golfadas de sangue começaram a formar um pequeno lago em torno daquela cabeça.

Começaram a ouvir-se tiros contra a porta e ele pôs-se em sentido, mas quando esta se escancarou, ouviu a voz do irmão a gritar pelo seu nome. Relaxou e jogou a faca ensanguentada do adversário para o chão, lançando-lhe um último esgar de desprezo.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. II - Different Paths

  Procuravam aqueles três há imenso tempo, mas sem qualquer tipo de sucesso. Inúmeros corredores, anteriormente transitáveis, encontravam-se agora bloqueados por detritos e tornava-se muito difícil circular no interior do edifício. Miguel tentara inúmeras vezes comunicar com eles através do rádio, mas apenas obtinha estática.

  "Não vamos obter nada ficando aqui e estamos a perder o nosso valioso tempo. Eu vou ligar o meu rastreador e eles hão-de acabar por nos encontrar, além de que, eles sabem bem tomar conta de si próprios."
  "E como sabes tu que estão vivos sequer?" - replicou Rui, perante o que o irmão dissera.
  "Conheço-os bem. Não há praga nenhuma, nem maldição, que seja capaz de me livrar daqueles atrasados mentais! Confia em mim e vocês também. Vamos pôr-nos a caminho e eles acabarão por se juntar a nós em breve." - virou costas e começou a caminhar na direcção da saída.

Ninguém ficou muito convencido ou agradado com aquela decisão, mas na falta de melhores ideias, todos o seguiram, embora as trocas de olhares e comentários silenciosos entre eles se mantivessem até atingirem os limites da cidade. Estavam todos apreensivos e mantinham os sentidos em alerta total, protegendo a retaguarda uns dos outros e cobrindo todos os ângulos dos quais pudessem surgir surpresas. Desde o toque daquela buzina sombria, que não se via qualquer movimento. Acabaram por penetrar no bosque e até mesmo aí, o silêncio e ausência de monstruosidades era total. Avançaram quase sempre em silêncio, intercalando com períodos de passo acelerado ou corrida, quando se deparavam com clareiras, nas quais se encontravam expostos e, ao final de cerca de duas horas sem encontros imediatos, alcançaram o perímetro do manicómio.

***

  "Fod...e! Que é isto? Não há a mer...a de uma saída em lado nenhum!" - praguejava Pedro.
 "Calma Zé. Havemos de encontrar uma forma, nem que tenhamos de mandar isto abaixo." - respondeu um muito mais calmo Bruno.
  "Claro, nem que seja daqui a três meses!" - retorquiu Ricardo, recebendo um olhar reprovador de Bruno que parecia dizer, "Não piores esta mer...a.".

Pedro, com o seu ódio colossal a períodos prolongados passados em espaços fechados, disparava, pontapeava e esmurrava tudo. Ricardo reparou a dada altura, quando o seu irmão tirou por momentos uma das luvas, nos nós dos dedos ensanguentados deste. Aproximou-se e, sem dizer nada, agarrou-lhe a mão, que já se dirigia a uma nova área de betão, olhando-o de forma a que entendesse que tinha de parar com aquilo. Ele pareceu acalmar e Ricardo, após lhe dar duas ligeiras palmadas no ombro, retomou a caminhada com Bruno. Após respirar fundo para se tentar acalmar, seguiu-os. Sabiam que tinham de encontrar uma saída rápida ou aquele membro do grupo ia começar a entrar em paranóia e acabar por cometer alguma atrocidade, coisa que no seu dicionário possuía muitas vertentes de incomparável imaginação e dimensão. No meio de tanto corredor igual, acabaram por conseguir sair da espiral em que andavam há uma eternidade e enveredaram por um bem mais curto, mais largo e que viam pela primeira vez. Ao se aproximarem do fundo, começaram a ouvir Pedro a rir aos soluços. O porquê era óbvio. Havia uma janela enorme, apenas bloqueada por inúmeras tábuas.

  "Tu arrebenta-me já com isso, meu bandalho, senão eu próprio arrebento as tábuas com a tua cabeça." - disse Pedro com um sorriso aparvalhado no rosto.
  "Andas a sonhar acordado! Andas, andas!" - assim que acabou de dizer esta frase, a sua metralhadora gigante já fazia saltar madeira por todos os lados. 
  "Bora. Vamos sair desta casa de banho gigante e rápido." - disse Ricardo que acabou o serviço de demolição com as próprias mãos, arrancando o que restava das tábuas.

Já no exterior, enquanto avançavam cautelosa e furtivamente, mantiveram uma conversa em sussurros acerca da criatura que os havia perseguido. Obviamente não chegaram a conclusão nenhuma, excepto uma, ou seja, aquela criatura ia pagar por quase os ter feito borrar as calças. Ninguém fazia uma coisa dessas e saía incólume. Entretanto, atingiram a entrada de uma igreja e pararam por momentos. Pedro, aquele que conhecia melhor Miguel e há mais tempo, alertou os outros para a possibilidade de este ter liderado o outro grupo em direcção ao objectivo, confiando nas capacidades deles os três para se voltarem a reunir. Ligou então o localizador e a sua teoria confirmou-se. As coordenadas colocavam o companheiro no meio daquele bosque.

***

O grupo mantinha-se unido enquanto explorava as redondezas do edifício. Os jardins que circundavam o imóvel encontravam-se completamente degradados, com bancos partidos, baloiços estragados, alguns com o assento suspenso e balouçante em apenas uma corrente, a relva não existia, tendo sido substituída por um solo lamacento e possuidor de um cheiro pútrido, árvores despidas e mortas e uma vedação da qual, só algumas barras metálicas de suporte restavam de pé. O edifício em si possuía um número absurdo de janelas, todas elas bloqueadas com barras de aço extremamente largas, a pedra que o constituía tinha um aspecto rude, desgastado e a sua coloração dava-lhe um aspecto doentio, que juntando aos sinistros telhados bicudos e à escuridão da noite, tornavam o local num dos menos convidativos que se possa imaginar. Ao terminarem a batida à área, visto não encontrarem qualquer sinal de perigo, decidiram entrar e avançaram em direcção ao alpendre mais próximo. A porta deste encontrava-se trancada, tal como tantas outras que experimentaram em seguida em torno de todo o edifício. Chegaram à altura em que só a porta da frente restava. Ângela rodou a maçaneta e, surpreendentemente, esta estava destrancada, mas mal pisaram o seu interior, a buzina voltou a ouvir-se, bem como o som da porta pela qual haviam entrado a trancar.


***

A buzina ecoava pelas ruas e os três entreolharam-se, ainda encostados à porta principal da igreja. Se aquele som tinha afastado o grandalhão anteriormente, agora que não havia "bicharada" na rua, que quereria dizer? Não podia ser bom! Começaram a ouvir ao longe e a aproximar-se, o que parecia o rosnar de cães e o chiar de rodas no alcatrão. Puseram-se em posição. Pedro e Bruno avançados em relação ao mais novo, Ricardo, que se manteve junto à porta. Viram então surgir quatro criaturas, as responsáveis por ambos os sons. Todas elas pareciam cães,mas, a meio, o seu corpo tornava-se mecânico e, ao invés de patas traseiras, tinham duas rodas pequenas e largas, assentes no chão. As estranhas criaturas, para além de possuírem dentes gigantesco, salientes e afiadíssimos, numa boca enorme, onde as gengivas se encontravam totalmente expostas, no meio de uma cabeça sem olhos, possuíam umas patas que pareciam tiradas de um rinoceronte. O seu aspecto combinava na perfeição com o seu comportamento agressivo e, sem demoras, investiram. Os três começaram a disparar e a arma de Bruno mostrou-se de grande eficiência, fazendo um passador da cabeça do que se encontrava mais próximo. O sangue escorreu dos diferentes orifícios e era roxo, libertando fumo no contacto com o chão. Um segundo abriu a boca decidido a arrancar as pernas a Pedro, mas falhou o alvo e deu de caras com as duas Uzis de Ricardo que lhe enfiaram uma infinidade de balas pela garganta abaixo antes que tivesse tempo de fechar a boca. Caiu morto e, devido à velocidade que trazia da corrida, o seu corpo ainda deslizou um bom bocado pelo solo, embatendo contra a porta da igreja. Enquanto estava no ar, devido ao salto que dera para se esquivar do ataque às suas pernas, Pedro disparou um tiro de caçadeira e um de Colt, bem em cheio no alto da cabeça de um outro que lhe passava por baixo em direcção a Bruno. O sangue roxo escorreu-lhe de imediato por entre os dentes e ainda foi visível o impacto da bala por baixo deste a embater no alcatrão após lhe furar o crânio. O último estacou e rosnou ao ver-se cercado por Bruno e Pedro e foi autenticamente feito numa papa roxa na qual só a parte metálica mantivera minimamente a forma original. Ricardo via-os a disparar contra o pobre infeliz quando sentiu uns braços envolverem-lhe o pescoço, puxarem-no para dentro da igreja e projectarem-no contra e através de uns quantos bancos da nave principal, deixando-o atordoado no meio de inúmeros pedaços de madeira despedaçada. Sorridentes, os dois no exterior olharam e já não o viram, alterando de imediato o seu semblante.

  "Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"

***


Tentaram em vão abrir a porta e não queriam fazer barulho com as armas, logo não as utilizaram. Olharam em redor e o hall era realmente imponente, com luzes claras de tom ligeiramente amarelado, uma grande escadaria, que a meio se dividia em duas, uma para cada lado do enorme varandim que tinham acima das cabeças, enormes e caras tapeçarias no chão e paredes, bem como, uma excelente decoração composta de quadros e vasos que aparentavam ser de extremo valor. O mais intrigante é que ali, em contraste com a degradação externa, tudo se encontrava em óptimas condições, para não se levar ao extremo de dizer novas. Tinham duas portas duplas, uma à esquerda e outra à direita e a subida até ao andar de cima, como hipóteses para iniciarem as investigações. Falavam entre eles para decidir a abordagem quando as portas laterais se abriram, para se voltarem a fechar de seguida, mas não sem antes deixarem passar uma matilha de lobos a salivarem abundantemente e a tresandarem a podre da carne putrefacta de que eram feitos. Todas as pústulas  e chagas que os cobriam pareceram brilhar no momento em que se lançaram na direcção do grupo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Perdido num olhar

  Os teus olhos hipnotizam todo e qualquer pensamento meu, levando-me a lugares que não deveriam. O meu coração bate com uma cadência diferente na tua proximidade, na esperança, sem medo, de te ter. Tento por tudo encontrar o meu caminho, mesmo sem qualquer certeza de que possa ganhar. Sem nunca ter a certeza se deva ou não afastar-me, os teus olhos dizem, obrigam, imploram-me para ficar. No meio da beleza desse olhar, sinto-me perdido entre marés, pedindo apenas que me mantenhas junto a ti. Não posso no entanto dizer-te isto...guardo-o para mim sem saber o que fazer, fingindo que brinco simplesmente enquanto escorrego sobre gelo fino. Espero que não repares, que não saibas o quanto estou fragilizado na tua presença, mas espero também, que inadvertidamente ou de livre vontade, dês um passo ou me dês a mão auxiliando-me no meu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sem escape Cap. V - A um palmo de distância


  Continuava com aquela risada descontrolada e sem sentido quando comecei a enxugar a vista e a face, ambas completamente encharcadas em lágrimas. Respirei fundo e olhei na direcção do exterior ainda esboçando um pequeno esgar sorridente, mas que num ápice foi substituído por uma expressão mista de espanto e pavor. Vira de relance aquele vulto negro passar ao fundo do meu jardim com o meu filho envolto num abraço pouco amigável. Ergui-me rapidamente e corri na sua direcção, rezando para que não houvesse uma qualquer barreira de forças que me impedisse a saída. Nada aconteceu e fui capaz de correr livremente até à beira da estrada, onde parei olhando para o lado onde os vira desaparecer. Vislumbrei-os ao fundo, com ele flutuando calmamente e o Rafael esperneando violentamente mas sem qualquer efeito. Comecei a correr na sua direcção e gritei quando vi que, subitamente, o meu filho havia pendido a cabeça e os braços, ficando totalmente imóvel. O breu virou ligeiramente o pescoço vendo-me por cima do ombro e acelerou a marcha. Acompanhei-o na acção. Corria que nem um louco quando comecei a sentir uma inércia imensa na zona da minha face. Continuava a correr mas tinha de fazer uma força incrível para manter o pescoço direito, até que de repente, senti o que me pareceu uma mão invisível agarrar-me a cabeça e impulsionar-me de costas para o chão. Tive a percepção de todas as pedras e pedrinhas pertencentes à gravilha, enquanto estas me cortavam a pele durante a violenta queda. Ignorei tudo e, no segundo seguinte já corria novamente, apenas levando uma das mãos às costas por forma a descolar a camisola colada à pele devido ao sangue, cuja me incomodava profundamente.

Já perdera a conta ao tempo que durava a minha perseguição. A coisa fazia-me correr cada vez mais, mas sempre sem conseguir ganhar terreno. Parecia que me gozava, vista a descontracção com que se movimentava. O cansaço começava a apoderar-se de mim e o meu controlo sobre a respiração começava a aproximar-se da nulidade, quando os vi enveredar pelo meio do arvoredo. Embrenhei-me por lá e comecei a ver que tomavam o caminho da vegetação mais densa. A luz da lua era cada vez menos eficaz na missão de me guiar por tais caminhos e a tensão aumentava no meu âmago de forma galopante. Chegou o momento em que só via os obstáculos quando estes se encontravam a escassos centímetros, mas não desisti. Desviava-me para a esquerda, para a direita, saltava e agachava-me. Com as mãos afastava as ramagens e com os pés partia ramadas e espezinhava a vegetação mais rasteira. Apercebi-me que o percurso começava a tomar uma rota descendente quando, sem esforço algum, senti a velocidade da minha marcha aumentar exponencialmente. A essa altura, os meus pulmões ameaçavam colapsar e o meu coração lutava contra uma explosão eminente, mas desistir não era uma opção. O meu filho estava quase ao meu alcance e não o ia deixar escapar por nada. Envolto nestes pensamentos moralizadores face à salvação do meu rebento, nem me apercebi de um monte de silvas que, sem explicação, se gerou na minha frente. Nos milésimos de segundo que antecederam o meu violento impacto contra os espinhos, olhei o demónio, vendo-o parar e virar-se na minha direcção de forma a apreciar o acidente.

A dor e o ardor percorriam o meu corpo na sua totalidade. Sentia espinhos misturados com a carne por todo o lado, mas em especial nas mãos e na cara. A cada tentativa de movimento, estes pareciam enterrar-se ainda mais e as dores passavam de enormes a lancinantes. Tentei levantar-me vezes sem conta, encolhendo-me a cada uma delas nos primeiros segundos, até que, numa dessas tentativas, fiquei com o vulto no meu campo de visão. Com os olhos semiabertos, vi-o retomar a caminhada e começar a ganhar ainda mais distância. Nesse mesmo instante, enraivecido, enchi o peito com ar e prendi a respiração, para me erguer de seguida, num único e rápido movimento. Os golpes ganharam o triplo do tamanho, perdi pedaços de pele nas zonas sem protecção de roupa, o ardor intensificou-se ao ponto de me fazer correr as lágrimas, que por sua vez me faziam franzir a testa ao sentir o seu sal misturar-se com o sangue que me corria pela face e infiltrar-se nas inúmeras feridas de onde este saía. Coxeei nos primeiros passos e gemi nos segundos, mas a força de vontade e a convicção venceram e voltei a correr, desta vez como se aqueles ferimentos fossem algo renovador e me encontrasse totalmente reestabelecido de vitalidade. Agora sim, sentia-me a ganhar terreno.

Estava quase a apanhá-lo, pensando até em esticar a mão para agarrar aquele capote negro, mas o bosque terminou para dar lugar a uma via rápida com bastante movimento. Fui obrigado a parar bruscamente para não ser atropelado, obrigando o veículo envolvido a desviar-se e ouvindo a respectiva buzinadela do mesmo. No entanto, a criatura continuou a avançar. Era como se os carros não a vissem, nem a ela nem ao meu filho. O Rafael, ainda desmaiado, foi erguido acima da cabeça do captor e os veículos passavam livremente por dentro do corpo imaterial da figura. Eles atingiram o separador central e nesse instante, toda a minha hesitação foi expulsa por uma mentalização avassaladora que me dizia que, desse por onde desse, terminasse como terminasse, eu tinha que atravessar aquela estrada. Três passos rápidos e um encolher do abdómen, acompanhado de um movimento ascendente dos braços para fugir ao primeiro veículo. Uma pirueta para escapar à frente do segundo. Uma correria tremenda até ao separador central em sintonia com uma orquestra de buzinas e travagens. Saltei para a segurança do separador e apoiei as mãos no rail, baixando a cabeça por entre os braços na tentativa de recuperar rapidamente o fôlego. Não me permiti perder muito tempo e dirigi o meu olhar na direcção do fugitivo e constatei que ainda não atravessara a estrada na totalidade, talvez por ter ficado surpreso com a visão de um pai louco prestes a ser atropelado inúmeras vezes. Iria ficar ainda mais surpreendido com a visão de um pai louco a cair-lhe em cima, embora ainda não soubesse como, vista a sua existência imaterial. Saltei do centro para a via completamente cego e surdo para o que me rodeava, voltando a mim quando um retrovisor se partiu contra o meu braço, não sendo atropelado por milagre. Levei a mão à zona atingida e apertei, largando de imediato devido às dores que senti. Olhei e vi que as mesmas provinham na sua maior parte dos inúmeros vidros que se haviam incrustado na carne, bem como uma enorme lasca de plástico, cuja arranquei de imediato e de dentes cerrados. Em seguida voltei a calcular mal a minha arrancada e enquanto o carro travava a fundo, vi-me obrigado a saltar e a deslizar com a minha anca sobre o capõ. Mal coloquei os pés no chão novamente, uma outra viatura embateu na traseira da que travara, ficando de imediato entalada por uma terceira que se juntou ao desfile de destruição. Olhei esparvoado e aterrorizado pelo que estava a causar, mas não podia ficar ali a perder tempo, em primeiro pelo meu filho e, também bastante importante, para não sofrer a ira dos condutores lesados. Rapidamente, virei as costas ao aparato e acelerei a passada para os últimos metros de asfalto que ainda me separavam da segurança, vendo o vulto embrenhar-se na escuridão que se espraiava para lá da berma. O trânsito havia parado devido ao acidente, pelo que descurei qualquer tipo de cuidado naquele último troço do meu percurso, incorrendo estupidamente em novo erro. Um qualquer tresloucado a alta velocidade, sem possibilidade de travar a tempo, guinou o volante em direcção à berma e eu passei a encontrar-me na sua trajectória. O chiar dos pneus aumentou exponencialmente quando o condutor levou o pé a fundo ao travão, a viatura começou a derrapar, com a traseira a bailar de um lado para o outro, mas a distância que nos separava diminuía a uma velocidade demasiado elevada e constante. Sem hipótese para mais nada, saltei em desespero na direcção do breu e, embora tenha escapado por um triz à morte, embati violentamente com as pernas nos rails, o que me fez dar meia pirueta no ar e estatelar-me de cabeça no chão duro e coberto de pedras, quase partindo o pescoço. Estava de tal maneira atordoado que não tinha sequer noção de onde estava, ou para onde estava virado, mas nem isso impossibilitou que tivesse plena percepção do estrondo provocado pela explosão que se seguiu ao despiste daquele último automóvel com que me confrontei. Forcei-me a levantar, iluminado por um intenso brilho laranja proveniente do incêndio no asfalto e, ignorando-o, lancei-me novamente na perseguição, desta vez às apalpadelas.

Aquela escuridão não podia ser normal. Após vários minutos, quando já me encontrava recuperado dentro dos possíveis e a minha visão já se deveria ter habituado à ausência de luz, tudo continuava a ser totalmente negro. Era como se fosse cego. Embatia vezes sem conta contra coisas que não distinguia o que eram, tropeçava e caía devido a obstáculos que desconhecia em todos os termos e cada vez me encontrava mais à deriva, guiando-me apenas pelo som de um choro, o que me dizia que o Rafael havia acordado e não estava muito longe. Do nada, o choro tornou-se um grito único de aflição, o que me fez desatar a correr que nem um louco e gritar pelo nome dele vezes sem conta. Comecei a ouvir gritar "Pai...Pai..."! Ele ouvira-me e chamava-me com a voz carregada de medo. Corri ainda mais, mais do que alguma vez correra, até no meu auge de juventude. Ouvia o som cada vez mais perto e quando este me pareceu estar ao meu alcance, um clarão infinitamente maior que um relâmpago cegou-me completamente. Levei as mãos e os braços à cara para proteger os olhos, mas a luz era demasiado intensa. Comecei a ficar tonto e decidi desacelerar o passo e parar, pois não me conseguia equilibrar e deixara também de ouvir fosse o que fosse. Não tive no entanto, tempo para nada, pois enquanto pensava, dei ainda meia dúzia de passos acelerados e o chão desapareceu-me de debaixo dos pés. Comecei a cair e a perder os sentidos, mas antes fui ainda capaz de rodar no ar e olhar para cima. A iluminação havia regressado ao normal e eu caía de uma ravina abaixo em direcção à morte, tendo como espectadores, aquele demónio negro e, ao seu colo, o meu filho lavado em lágrimas. Antes de desmaiar ainda vi o pequenote estender a mão aberta na minha direcção.

Senti-me gelado até aos ossos e comecei a acordar. Encontrava-me deitado no meio do meu jardim, totalmente encharcado e carregado de espinhos em várias zonas do corpo. Procurei os restantes ferimentos provocados pelos carros, ou vestígios de algo que remetesse para a minha queda da falésia, mas nada. Esses ferimentos não existiam, mas os espinhos estavam lá. Algo diferente tinha acontecido daquela vez. Ao me preparar para levantar, reparei que tinha algo preso à minha aliança de casamento. Ao ver o que era gelei ao mesmo tempo que me rejubilei. Tinha na minha posse, um pedaço de tecido preto.