Procuravam aqueles três há imenso tempo, mas sem qualquer tipo de sucesso. Inúmeros corredores, anteriormente transitáveis, encontravam-se agora bloqueados por detritos e tornava-se muito difícil circular no interior do edifício. Miguel tentara inúmeras vezes comunicar com eles através do rádio, mas apenas obtinha estática.
"Não vamos obter nada ficando aqui e estamos a perder o nosso valioso tempo. Eu vou ligar o meu rastreador e eles hão-de acabar por nos encontrar, além de que, eles sabem bem tomar conta de si próprios."
"E como sabes tu que estão vivos sequer?" - replicou Rui, perante o que o irmão dissera.
"Conheço-os bem. Não há praga nenhuma, nem maldição, que seja capaz de me livrar daqueles atrasados mentais! Confia em mim e vocês também. Vamos pôr-nos a caminho e eles acabarão por se juntar a nós em breve." - virou costas e começou a caminhar na direcção da saída.
Ninguém ficou muito convencido ou agradado com aquela decisão, mas na falta de melhores ideias, todos o seguiram, embora as trocas de olhares e comentários silenciosos entre eles se mantivessem até atingirem os limites da cidade. Estavam todos apreensivos e mantinham os sentidos em alerta total, protegendo a retaguarda uns dos outros e cobrindo todos os ângulos dos quais pudessem surgir surpresas. Desde o toque daquela buzina sombria, que não se via qualquer movimento. Acabaram por penetrar no bosque e até mesmo aí, o silêncio e ausência de monstruosidades era total. Avançaram quase sempre em silêncio, intercalando com períodos de passo acelerado ou corrida, quando se deparavam com clareiras, nas quais se encontravam expostos e, ao final de cerca de duas horas sem encontros imediatos, alcançaram o perímetro do manicómio.
***
"Fod...e! Que é isto? Não há a mer...a de uma saída em lado nenhum!" - praguejava Pedro.
"Calma Zé. Havemos de encontrar uma forma, nem que tenhamos de mandar isto abaixo." - respondeu um muito mais calmo Bruno.
"Claro, nem que seja daqui a três meses!" - retorquiu Ricardo, recebendo um olhar reprovador de Bruno que parecia dizer, "Não piores esta mer...a.".
Pedro, com o seu ódio colossal a períodos prolongados passados em espaços fechados, disparava, pontapeava e esmurrava tudo. Ricardo reparou a dada altura, quando o seu irmão tirou por momentos uma das luvas, nos nós dos dedos ensanguentados deste. Aproximou-se e, sem dizer nada, agarrou-lhe a mão, que já se dirigia a uma nova área de betão, olhando-o de forma a que entendesse que tinha de parar com aquilo. Ele pareceu acalmar e Ricardo, após lhe dar duas ligeiras palmadas no ombro, retomou a caminhada com Bruno. Após respirar fundo para se tentar acalmar, seguiu-os. Sabiam que tinham de encontrar uma saída rápida ou aquele membro do grupo ia começar a entrar em paranóia e acabar por cometer alguma atrocidade, coisa que no seu dicionário possuía muitas vertentes de incomparável imaginação e dimensão. No meio de tanto corredor igual, acabaram por conseguir sair da espiral em que andavam há uma eternidade e enveredaram por um bem mais curto, mais largo e que viam pela primeira vez. Ao se aproximarem do fundo, começaram a ouvir Pedro a rir aos soluços. O porquê era óbvio. Havia uma janela enorme, apenas bloqueada por inúmeras tábuas.
"Tu arrebenta-me já com isso, meu bandalho, senão eu próprio arrebento as tábuas com a tua cabeça." - disse Pedro com um sorriso aparvalhado no rosto.
"Andas a sonhar acordado! Andas, andas!" - assim que acabou de dizer esta frase, a sua metralhadora gigante já fazia saltar madeira por todos os lados.
"Bora. Vamos sair desta casa de banho gigante e rápido." - disse Ricardo que acabou o serviço de demolição com as próprias mãos, arrancando o que restava das tábuas.
Já no exterior, enquanto avançavam cautelosa e furtivamente, mantiveram uma conversa em sussurros acerca da criatura que os havia perseguido. Obviamente não chegaram a conclusão nenhuma, excepto uma, ou seja, aquela criatura ia pagar por quase os ter feito borrar as calças. Ninguém fazia uma coisa dessas e saía incólume. Entretanto, atingiram a entrada de uma igreja e pararam por momentos. Pedro, aquele que conhecia melhor Miguel e há mais tempo, alertou os outros para a possibilidade de este ter liderado o outro grupo em direcção ao objectivo, confiando nas capacidades deles os três para se voltarem a reunir. Ligou então o localizador e a sua teoria confirmou-se. As coordenadas colocavam o companheiro no meio daquele bosque.
***
O grupo mantinha-se unido enquanto explorava as redondezas do edifício. Os jardins que circundavam o imóvel encontravam-se completamente degradados, com bancos partidos, baloiços estragados, alguns com o assento suspenso e balouçante em apenas uma corrente, a relva não existia, tendo sido substituída por um solo lamacento e possuidor de um cheiro pútrido, árvores despidas e mortas e uma vedação da qual, só algumas barras metálicas de suporte restavam de pé. O edifício em si possuía um número absurdo de janelas, todas elas bloqueadas com barras de aço extremamente largas, a pedra que o constituía tinha um aspecto rude, desgastado e a sua coloração dava-lhe um aspecto doentio, que juntando aos sinistros telhados bicudos e à escuridão da noite, tornavam o local num dos menos convidativos que se possa imaginar. Ao terminarem a batida à área, visto não encontrarem qualquer sinal de perigo, decidiram entrar e avançaram em direcção ao alpendre mais próximo. A porta deste encontrava-se trancada, tal como tantas outras que experimentaram em seguida em torno de todo o edifício. Chegaram à altura em que só a porta da frente restava. Ângela rodou a maçaneta e, surpreendentemente, esta estava destrancada, mas mal pisaram o seu interior, a buzina voltou a ouvir-se, bem como o som da porta pela qual haviam entrado a trancar.
***
A buzina ecoava pelas ruas e os três entreolharam-se, ainda encostados à porta principal da igreja. Se aquele som tinha afastado o grandalhão anteriormente, agora que não havia "bicharada" na rua, que quereria dizer? Não podia ser bom! Começaram a ouvir ao longe e a aproximar-se, o que parecia o rosnar de cães e o chiar de rodas no alcatrão. Puseram-se em posição. Pedro e Bruno avançados em relação ao mais novo, Ricardo, que se manteve junto à porta. Viram então surgir quatro criaturas, as responsáveis por ambos os sons. Todas elas pareciam cães,mas, a meio, o seu corpo tornava-se mecânico e, ao invés de patas traseiras, tinham duas rodas pequenas e largas, assentes no chão. As estranhas criaturas, para além de possuírem dentes gigantesco, salientes e afiadíssimos, numa boca enorme, onde as gengivas se encontravam totalmente expostas, no meio de uma cabeça sem olhos, possuíam umas patas que pareciam tiradas de um rinoceronte. O seu aspecto combinava na perfeição com o seu comportamento agressivo e, sem demoras, investiram. Os três começaram a disparar e a arma de Bruno mostrou-se de grande eficiência, fazendo um passador da cabeça do que se encontrava mais próximo. O sangue escorreu dos diferentes orifícios e era roxo, libertando fumo no contacto com o chão. Um segundo abriu a boca decidido a arrancar as pernas a Pedro, mas falhou o alvo e deu de caras com as duas Uzis de Ricardo que lhe enfiaram uma infinidade de balas pela garganta abaixo antes que tivesse tempo de fechar a boca. Caiu morto e, devido à velocidade que trazia da corrida, o seu corpo ainda deslizou um bom bocado pelo solo, embatendo contra a porta da igreja. Enquanto estava no ar, devido ao salto que dera para se esquivar do ataque às suas pernas, Pedro disparou um tiro de caçadeira e um de Colt, bem em cheio no alto da cabeça de um outro que lhe passava por baixo em direcção a Bruno. O sangue roxo escorreu-lhe de imediato por entre os dentes e ainda foi visível o impacto da bala por baixo deste a embater no alcatrão após lhe furar o crânio. O último estacou e rosnou ao ver-se cercado por Bruno e Pedro e foi autenticamente feito numa papa roxa na qual só a parte metálica mantivera minimamente a forma original. Ricardo via-os a disparar contra o pobre infeliz quando sentiu uns braços envolverem-lhe o pescoço, puxarem-no para dentro da igreja e projectarem-no contra e através de uns quantos bancos da nave principal, deixando-o atordoado no meio de inúmeros pedaços de madeira despedaçada. Sorridentes, os dois no exterior olharam e já não o viram, alterando de imediato o seu semblante.
"Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"
***
Tentaram em vão abrir a porta e não queriam fazer barulho com as armas, logo não as utilizaram. Olharam em redor e o hall era realmente imponente, com luzes claras de tom ligeiramente amarelado, uma grande escadaria, que a meio se dividia em duas, uma para cada lado do enorme varandim que tinham acima das cabeças, enormes e caras tapeçarias no chão e paredes, bem como, uma excelente decoração composta de quadros e vasos que aparentavam ser de extremo valor. O mais intrigante é que ali, em contraste com a degradação externa, tudo se encontrava em óptimas condições, para não se levar ao extremo de dizer novas. Tinham duas portas duplas, uma à esquerda e outra à direita e a subida até ao andar de cima, como hipóteses para iniciarem as investigações. Falavam entre eles para decidir a abordagem quando as portas laterais se abriram, para se voltarem a fechar de seguida, mas não sem antes deixarem passar uma matilha de lobos a salivarem abundantemente e a tresandarem a podre da carne putrefacta de que eram feitos. Todas as pústulas e chagas que os cobriam pareceram brilhar no momento em que se lançaram na direcção do grupo.

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