terça-feira, 6 de maio de 2014

The Way Of Fear: Cap. VI - Merciless Chase

Após suturar o ferimento do irmão, ambos se dirigiram para o exterior, juntando-se a Bruno, que os olhou com um ar ainda meio enjoado.

“Já está a costura feita?” – inquiriu, já sabendo a resposta.
“Tudo tratado maricas. – Bruno fungou em réplica ao adjectivo colocado à sua pessoa por Pedro, que continuou o seu discurso – “Agora temos de nos apressar em nos juntarmos aos outros. O sinal do rastreador indica que eles já se encontram a uma distância considerável, não esquecendo que aqui parados somos alvos fáceis. Apressemo-nos em direcção ao bosque. Sentidos alerta em todas as direcções” – finalizada a sentença, começou a caminhar a passo acelerado, seguido pelos restantes e sem qualquer comentário adicional.

Rapidamente e sem percalços, atingiram a orla do denso bosque. A luz da lua cheia batalhava ingloriamente por penetrar a escuridão implacável daquele cenário. As árvores impunham-se acima das suas cabeças com copas majestosas e a densidade arbórea ao nível do solo, em conjunto com uma ou outra formação rochosa, dificultavam tanto a caminhada, como a visibilidade em certas áreas onde arbustos se erguiam ao nível das cabeças. Cobrindo a retaguarda uns dos outros, iam percorrendo o caminho escabroso, aliviados por vezes por escassos e breves trilhos com que se deparavam. Os ruídos eram constantes, não provenientes da Natureza, nem de algo que reconhecessem como fazendo parte deste mundo, mas já deviam fazer algumas horas desde que essa barreira entre fictício e real se tornara pouco mais que um borrão nas suas mentes. No entanto, à excepção de um ou outro susto menor, deparam-se com uma clareira, a primeira até então, livres de qualquer perigo. Bem no meio desta, encontrava-se um pequeno helicóptero, inutilizado devido aos extensos danos a nível dos seus comandos internos.

“É provavelmente o que o Filipe pilotou até aqui com os outros, mas…hummm…a não ser que tenhamos por aí algumas criaturas muito inteligentes, eu diria que os danos foram causados propositadamente por humanos. – Ricardo apontou as zonas danificadas -  Estão nos sítios certos e a quantidade é a correcta para inutilizar o aparelho, nem a mais, nem a menos, um trabalho extremamente minucioso.” – saiu de dentro do aparelho, voltou a retirar as Uzis dos coldres e olhou os companheiros que acenavam a cabeça em concordância.
“Tu é que és o perito nessas coisas.” – mencionou Bruno.

A bala que saiu da Colt no momento seguinte e que quase ia ensurdecendo o mais alto, foi acertar na cabeça de um zombie que assomava às últimas árvores ali bem perto, fazendo-a explodir com um som repulsivo. Pedro estendeu os braços e empurrou os outros dois para trás, ao mesmo tempo que também recuava e, com Ricardo ainda a tapar o seu ouvido direito com a mão do mesmo lado. A passo lento e arrastado, começaram a surgir às dezenas e a penetrar na clareira por todas as direcções. De costas encostadas uns nos outros, iam despachando uns quantos, mas não se podiam dar ao luxo de querer matar todos, em primeiro lugar pelo risco de serem suplantados pela situação, mas também devido à munição que necessitavam preservar. O pequeno tocou o flanco direito do irmão e o esquerdo de Bruno, um a seguir ao outro, e quando se preparava para dizer fosse o que fosse, estacou. A ausência de comunicação fez com que os outros olhassem na sua direcção e vissem o que se dirigia a eles. O gigante com cabeça de pirâmide estava ali e vinha na direcção deles a passo largo. Uma palmada no ombro por parte do irmão e Pedro gritou, “Corram,corram! Norte…”. A voz perdeu-se no ar e começaram a correr, sabendo a direcção a tomar. O alto e o batoco varriam tudo o que lhes surgia pela frente com as suas armas de disparo rápido, enquanto o pequeno se livrava de alguns resistentes que atacavam dos lados. A perseguição que a aberração lhes lançara era impiedosa. Agora em corrida, aquela coisa não perdia terreno por mais que se esforçassem, espezinhando e esborrachando até os mortos vivos que se atravessavam no seu caminho. Troncos tombavam à sua passagem, outros estilhaçavam com o impacto daquele corpo maciço, até que por obra do acaso, um pedaço rasgou a noite até embater nas costas do baixinho, que caiu desamparado. Já sem zombies pela frente, o irmão deste travou bruscamente, empurrou Bruno para o lado, fazendo-o cair e alcançou Pedro no último instante possível, rebolando para a esquerda, mas não sem sentir ainda a sua perna do lado oposto, raspar a da criatura. Haviam escapado incólumes, mas o desgraçado já travara e fitava-os novamente indeciso, tendo Bruno de um lado e os irmãos a erguerem-se do outro, o bicho parecia não saber quem atacar.




“Ricardo, ele parece hesitante! Vamos aproveitar para o confundir. Vamos todos correr em direcções diferentes mas perto o suficiente de forma a mantermos o contacto visual. Não esquecer que a orientação é para Norte. Sempre Norte.” – um ligeiro sibilo e Bruno olhou naquela direcção, recebendo as instruções gestualmente e assentindo com um erguer do polegar.


“Agora”. Todos começaram a correr de forma errática, ziguezagueando, pulando por cima de obstáculos e trocando olhares de tempo a tempo para não se perderem de vista, mas o gigante avançava agora somente a passo, calma e descontraidamente, como se estivesse seguro de que eles não escapavam. Nada os podia preparar para o que iria acontecer em seguida.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sonhar acordado

Os olhos de P. focaram-se na vela da sua secretária e foi como se o tempo parasse. O balouçar da caravela havia-o levado para um mundo à parte, o mundo em que sonhava acordado. Via-se a chegar ao próximo porto, todos os comerciantes a chamarem-no de “adorado capitão”, a tratarem-no como sempre faziam, como se de família se tratasse e de repente, algo o fez parar, algo diferente, algo que nunca tinha visto, mas que lhe provocava uma sensação maravilhosa, a melhor que alguma vez sentira. Ao fundo do passadiço de madeira, uma…”CAPITÃO”…aquele grito acordou-o para a realidade e saiu da sua cabina de forma célere, mas irritado por ter sido interrompido na parte em que se preparava para descobrir tão encantadora inspiração.

“Que se passa L. ?”, bradou ao marinheiro à sua frente, que se mostrava completamente apavorado.
“Capitão, olhe!”, disse em voz trémula e apontando na direcção de terra.

Os seus olhos seguiram o movimento daquele braço e focaram-se na direcção do dedo estendido, inundando-se de uma luz laranja aterradora. O porto estava a ser atacado por dois navios de salteadores e não havia estrutura que não se encontrasse em chamas. Os gritos eram cada vez mais audíveis e o terror neles implícito era aquele dos piores pesadelos.

“Prepara todos para o confronto.”, disse de forma decidida. “O quê meu capitão? Não devemos…”, “Cala-te e faz como te digo, não podemos deixar estas pessoa sofrer tão terrível destino. Apressa-te. O tempo urge.”.

O marinheiro desatou a correr na direcção dos outros homens e P. perdeu-se novamente em pensamentos. Apoiou as mãos no corrimão de madeira brilhante e trabalhada que rodeava o seu navio e fechou os olhos, baixando o semblante. O seu chapéu ornamentado com uma pena de cor azul voou no sentido do porto até se perder nas águas do oceano infinito, não merecendo a atenção do seu dono, nem sequer um último olhar. O suor corria-lhe pelas fontes, pingava-lhe suavemente as mãos, gotejava ao ritmo do batimento cardíaco que batalhava por acalmar sem sucesso, as pernas tremiam com o pensamento de que tanto lhe faltava na vida para que se sentisse completo, realizado, feliz. Seria de esperar que aquela alta patente, todo o reconhecimento e respeito, o preenchessem de alguma forma, mas não era suficiente, nem sequer perto disso. Os dedos encresparam na madeira com a ideia de proximidade com a morte, mas não podia abandonar aquela gente que sempre o tratara tão bem, não podia desprezar tanto carinho e bondade. Pelo menos morreria a lutar, morreria de forma altruísta e assim seria lembrado, e isso, isso já o deixava feliz, já o deixava a sentir-se útil.
O som das velas, um som que tanto adorava, alertou-o para a movimentação de abordagem ao porto e também ele se preparou para o confronto. Era como se a espada no seu flanco esquerdo e a pistola no direito, se fundissem com ele e se tornassem um só. Sentia a adrenalina correr-lhe nas artérias, fazendo-lhe fervilhar o sangue, mas simultaneamente permitindo-lhe um nível de concentração que lhe consentia isolar-se de tudo o resto, até de todo o ruído, que lhe parecia cada vez mais distante e imperceptível.
Sem demoras e confiando que os seus treinos seriam suficientes para que os seus homens não necessitassem da sua presença, saltou do navio de pistola em punho e disparou dois tiros certeiros durante a queda, cujos acertaram na nuca de dois salteadores que espancavam um grupo de mulheres. Ajudou-as a erguerem-se e com um gesto de cabeça ordenou-lhes que saíssem dali, ao que elas acederam de imediato após uma pequena vénia de agradecimento. O seu sonho inicial estava longe daquela realidade e a sua tristeza era cada vez maior, mas tinha de continuar, não podia perder a concentração.
Correu que nem um desvairado até à praça central, onde todas as modestas bancadas de madeira, encimadas por montes de palha para sombra, tinham deixado de existir para darem lugar a montes de cinza e, a igreja que as vigiava e protegia, não passava de uma gigante pira.
Estacou e olhou em redor. À sua direita, um grupo de bandidos corria na direcção de um beco, perseguindo alguém e ele seguiu o mesmo caminho. Perdeu-os por momentos quando estes entraram no beco, mas não demorou a reencontra-los, desta vez a escalarem a fachada de um dos edifícios em busca da presa. Apressou-se a fazer o mesmo e atingiu o telhado praticamente em simultâneo com os malditos ladrões. Gritou e postou-se no meio dos quatro que o olharam embasbacados. Estrebucharam algo numa língua que desconhecia, gargalharam e atacaram.
Mergulhou para a frente, escapando por pouco a uma espada que lhe zuniu por baixo dos pés e a uma outra por cima da cabeça, que lhe deixou uma madeixa de cabelo a menos. Após uma cambalhota, ergueu-se e encarou todos de frente. O mais próximo caiu repentinamente com um movimento impetuoso da sua ágil lâmina, que lhe perfurou o abdómen, provocando um passo à retaguarda dos restantes, agora já mais medidos. Pensou em pegar na arma de fogo, mas ao se aperceberem desse gesto, o trio atacou. Bloqueou o ataque do primeiro com um movimento ascendente da espada, o segundo com um esticão descendente e por fim, com um movimento lateral do corpo, desviou-se do terceiro, cujo rasteirou, jogando-o por terra e arrancando algumas telhas. Tomou a iniciativa e atacou os que estavam de pé, pontapeando o primeiro no estômago e abrindo o pescoço ao outro, que caiu abruptamente. Ofegante e agarrado à barriga, o outro malandro nem soube o que lhe aconteceu, até se ver a cair de cabeça ao encontro de um duro chão de pedra.
Deu a si próprio um mero segundo para respirar, mas havia-se esquecido do rasteirado. Engoliu em seco e rodou sobre si próprio para tentar corrigir o seu erro idiota, mas era tarde. O tipo abalroou-o para fora do telhado, mas ainda conseguiu agarrar-se ao rebordo para não cair. Segurou-se só com uma e levou a mão à pistola, mas esta não estava lá. Havia caído durante o ataque e agora estava condenado. O bandido forçava-lhe as mãos para fora da orla, pisava-lhas e pontapeava-lhe a face constantemente. As dores começavam a ser insuportáveis, as forças a abandonarem-lhe o corpo e a sua mente já só pensava em desistir, soltar-se, evitar mais sofrimento e dor, até que se ouviu um tiro e o corpo do salteador caiu do telhado já sem vida. Arregalou os olhos quando viu uma rapariga estender-lhe a mão e ficou preso no seu olhar carinhoso. Conseguiu subir e ficou caído com a cabeça perto do pescoço dela. O cheiro era de tal forma agradável que pensou em nunca mais dali sair, até que ouviu a voz suave dizer-lhe “Obrigado”. Olhou-a novamente e respondeu, “Eu é que agradeço, salvaste-me a vida. Posso saber o teu nome?”
Um barulho estridente e horrível acordou-o de sobressalto e viu-se em frente ao seu computador com o telemóvel a tocar. Ignorou a chamada. Tinha adormecido a olhar para o seu candeeiro de secretária e a pensar na vida. Voltou a pensar no sonho que tivera e naquela rapariga, no seu olhar, no seu cheiro. Fechou os olhos e voltou a vê-la, voltou a ver aquilo que queria, que lhe fazia falta, aquela companhia, aquela presença e, sentiu-se bem pela primeira vez em muito tempo. Ao reabrir os olhos, parou de respirar. Afinal de contas, tudo tinha sido um sonho, mas ela não. 

Ele conhecia-a, ela era real e ele sabia perfeitamente o nome dela.