sábado, 30 de junho de 2012

A mulher de capuz


       Há muito tempo atrás havia um homem que vivia sozinho no bosque. Certa noite, por entre a escuridão imensa e uma enorme tempestade, ouviu baterem-lhe à porta. Foi abrir e deparou-se com uma senhora idosa, encapuçada e a pingar da cabeça aos pés. Deixou-a entrar para que se aquecesse junto à lareira. Deixou-a passar a noite, mas quando acordou, a mulher havia desaparecido. Tentou desvalorizar aquele facto e viver a sua vida dentro da normalidade, mas todos os dias se lembrava. Sentia falta daquela presença, não de forma apaixonada, mas com amor, um amor diferente e inexplicável.

Passada uma semana, a noite negra e tempestuosa estava de regresso e voltaram a bater-lhe à porta. Foi abrir e era a mesma mulher encapuçada, sempre cabisbaixa, sendo o queixo a única parte percetível da sua face. Deixou-a entrar novamente e passar a noite, mas desta vez decidiu ficar de olho nela.

A noite já ia longa quando ela se levantou e saiu na direção do bosque com ele no seu encalço. Seguiu-a até um cemitério bem escondido no meio da vegetação e mal entrou no espaço, viu-a ajoelhar-se frente a uma campa. Aproximou-se dela e perguntou, “Quem és tu?” , ao que ela respondeu, “Não me reconheces?”. Dito isto, desapareceu em pleno ar deixando-o sozinho. Pensativo, olhou para a campa e ajoelhou-se no sítio onde a senhora estava. Afastou a lama e as ervas daninhas e mal acabou, entrou em choque e percebeu tudo o que sentira na presença daquela mulher. A lápide tinha o nome da sua mãe.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mord


       Ele olhou para baixo a partir do telhado onde se encontrava. A sua missão; matar um espião inimigo em serviço da Rainha que andava a transmitir informação sobre o exército rebelde.

A água da chuva pingava lentamente da ponta da sua seta armada. Toda a cabeça da seta havia sido mergulhada em veneno, para o caso de a vítima não morrer instantaneamente.

O seu alvo encontrava-se guardado por dois soldados fortemente armados, ambos com um machado amarrado nas costas e uma besta cada um, carregada e pronta a disparar. Ia ser fácil…demasiado fácil! Lentamente puxou a linha para trás, apontando ao pescoço do mais próximo. “Twank”! Primeiro soldado morto. “Twank”! Segundo soldado morto.

Sem perder um segundo, saltou do telhado e apressou-se por ali afora, mantendo-se silencioso a todo o momento. Abrindo a porta das traseiras do edifício, verificou rapidamente o seu interior e vislumbrou o seu alvo falando com uma jovem mulher. Apesar da sua expressão sorridente, era claro na sua linguagem corporal que estava ansiosa por sair dali para fora. Ele penetrou na divisória, trancando a porta atrás de si. As duas pessoas à conversa não deram pela sua presença. À medida que se aproximava sorrateiramente, o seu alvo virou-se completamente de costas, tal era a atenção que dedicava à figura feminina com a qual falava. Ela bocejou e quebrou o contacto visual com o alvo do assassino por um instante. Num ápice, os seus olhos azuis vaguearam pela sala e prenderam-se no assassino. Ele saltou de onde se encontrava antes que a jovem mulher pudesse reagir e cortou a garganta do homem de um só movimento rápido. Ela pulou para trás apavorada, com aquele olhar azul que lhe pedia para não ser a próxima. Rindo para si próprio, ele ajeitou o capuz. “Estou só a fazer o meu trabalho boneca.”. O seu sorriso retorcido aumentou, fazendo a bonita rapariga tremer. Retrocedeu uma gargalhada e baixou-se até ao corpo sem vida, retirando-lhe o grosso colar em ouro, agora completamente manchado de sangue. A rapariga permaneceu em silêncio, demasiado aturdida para que pudesse fazer algo.

       “Adeus…”, disse ele sorrindo, para logo desaparecer no meio da noite chuvosa.