quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sem escape Cap. VI - Submerso

  Não sei por quanto tempo fiquei em transe segurando aquele pedaço de tecido em frente aos meus olhos. Aqueles momentos de aflição foram percorridos de ponta a ponta inúmeras vezes pela minha mente, na incessante busca por algo que me retirasse da escuridão e me revelasse algo que me tivesse escapado. Precisava de algo palpável, algo que me mostrasse o caminho, uma luz que me guiasse na direcção das respostas, respostas essas que eu sabia agora existirem, se na forma de soluções provisórias ou permanentes, não fazia ideia, mas a prova da sua existência balançava por entre os meus dedos, ao sabor da suave, mas gélida brisa da noite.

Um ruído abafado libertou-me daquele transe e prendeu-me a atenção à casa. Avancei em direcção à abertura da frente, onde anteriormente a minha porta tinha feito segurança, enquanto guardava aquele pedaço no meu bolso. Avancei apreensivo, uma passada cadenciada e silenciosa. Encostei-me lateralmente à ombreira, ainda no exterior da casa. Com a maior das cautelas, curvei-me ligeiramente e, esticando e curvando o pescoço, olhei furtivamente o interior. Não via nada nem ninguém e o único ruído audível era o crepitar da minha lareira, cuja se encontrava ainda acesa...estranhamente, visto que quase podia jurar que já se apagara há muito, pela altura da explosão vítrea que quase me ceifara a vida, mas que minutos depois, parecia não ter acontecido. Mas aconteceu! Eu sei que aconteceu! Tal como tudo até então, embora o que quer que provocasse aquelas situações, me quisesse fazer querer o contrário.

Agachei-me e entrei. Um pé e, só momentos depois, o outro, um rastejar até ao sofá e as costas encostadas à parte traseira do mesmo, uma avaliação rápida do espaço...vazio...o fogo como única companhia...erguer e, em bicos dos pés, alcançar o início do corredor, ouvir a melodia eólica que dominava todo aquele comprimento...imperturbável...o som do fogo a diminuir lentamente com a distância e silenciar com a visão da cozinha, escura e fria. Aguardei por momentos, até que a minha visão se habituasse à obscuridade e, certificando-me que a divisória estava vazia, acendi a luz. As luzes brancas piscaram no arranque e sem explicação, estouraram com uma barulheira tremenda. Levei as mãos aos ouvidos e, quando as comecei a afastar novamente, ouvi novo som, como se o fogo tivesse ganho uma dimensão tal que fosse capaz de consumir toda a habitação. Mal regressei à sala de estar, após um sprint breve, mas carregado de tensão, o fogo, quase a tocar o tecto e a atingir mobílias, extinguiu-se bem à minha frente. Incrédulo, mesmo depois de tudo, aproximei-me da lareira. Nada estava danificado. Nem uma minúscula marca chamuscada. Foi quando olhei para cima e vi. No tecto, uma mancha preta parecia crescer para além da zona afectada pelas chamas e o cheiro a queimado começou a entranhar-se-me nas narinas. Era de tal forma intenso que comecei a sentir-me nauseado. Dirigi-me ao exterior para respirar, mas até a rua parecia infestada com aquele odor. Voltei a entrar e corri para a cozinha, para o lavatório, onde abri a torneira em força e joguei a água corrente na face por várias vezes. O alívio fez-se sentir, mas pouco ou nada durou e as náuseas voltaram a imperar devido ao poder cada vez maior daquela olência. Esfreguei a cara com nova quantidade de água e proibi-me de respirar pelo nariz, abrindo a boca para o efeito. O resultado estava a ser satisfatório e a má disposição agonizante, não passava agora de uma ligeira "moinha" no estômago.

Tinha-me dado ao luxo de me sentar por alguns segundos numa das cadeiras brancas da minha branca cozinha, quando o cheiro desapareceu por completo, quase como que assumindo a derrota perante mim. A ideia de um sorriso passou-me pela cabeça, mas não chegou a atingir o mundo real, visto que o ruído abafado se voltou a manifestar, vindo do corredor. Ergui a cabeça, cuja testa tinha apoiada nas palmas das mãos e avancei naquela direcção, armado com a cadeira, como precaução para qualquer eventualidade. Já a meio daquele comprimento, sem ter voltado a ouvir nada e sem ver nada nem ninguém, uma nova pancada seca ecoou. Constatei que, estranhamente, a origem vinha do interior das paredes. Pousei a cadeira e encostei o ouvido à quadrela. De imediato senti como se me quisessem bater na cabeça e por reflexo afastei-me. Fiquei perplexo quando, o som imediatamente a seguir foi o chamar do meu nome pela voz da minha mulher. "Vanda?!", balbuciei em choque. "Vanda, és tu?!", perguntei, encostando novamente o ouvido. "Pedro...Pedro, tira-me daqui, por favor...", se poucas dúvidas me restavam, naquele momento tive a certeza de que aquela era a sua voz. Estupidamente, guiado pelo turbilhão de sentimentos, a primeira coisa que fiz foi usar a cadeira. Escusado será dizer que, após o segundo embate, pouco restava da mesma, tendo-se partido em vários bocados, sem provocar estragos para além de uma lasca aqui e ali. "Eu vou-te tirar daí, amor! Não te preocupes!", disse isto e abalei a correr no sentido da garagem. Sabia ainda lá ter um dos martelos que os tipos da construção haviam usado para derrubar a parede que separava a cozinha do anexo externo, para posteriormente montarem a porta em arco que agora lá se encontrava. Não foi preciso procurar muito e em pouco mais de cinco minutos estava de volta. "Protege-te Vanda! Vou tirar-te daí!". Dito isto, comecei à martelada à parede, desta vez com efeitos bastante satisfatórios. Aquela barreira desmoronava-se rapidamente e não demoraria muito até que conseguisse tê-la nos meus braços. Ainda não sabia como podia aquilo ser real, depois de tudo o que havia visto acontecer, mas isso agora não me importava. Quando o buraco atingiu o tamanho suficiente para a passagem de um adulto, espreitei para o interior e vi-a. Estava afastada para um canto e totalmente encolhida e a tremer, vestindo uma túnica branca com apontamentos dourados nas zonas de costura. Chamei-a e não obtive resposta. Penetrei no espaço até metade do meu corpo e voltei a chamar, desta vez estendendo a minha mão, quando senti algo tocar-me do lado de fora. Saí de um só rápido movimento e ouvi correr na direcção da cozinha. Voltei a colocar as duas mãos no martelo e, pedindo à Vanda que esperasse, fui ver quem ali estava.

Ao chegar à cozinha gritei em fúria. Mais uma vez, não havia ninguém para ser encontrado. Aquelas situações em constante repetição, pareciam brincadeiras de mau gosto, se é que se podem tratar de forma tão leviana. Virei costas, não sem antes cravar uma martelada num armário, que se desfez em bocados, precipitando uma quantidade considerável de loiças para o chão e provocando uma barulheira infernal. O meu cérebro e consequentemente, a minha capacidade de raciocínio, começavam a ser uma nulidade e, tal como as loiças, acabavam de se desfazer completamente em cacos com a visão que tive. Os pedaços da parede destruída pareciam ter ganho vida e vi os últimos, voarem na direcção das falhas correspondentes, acabando de a reconstruir na totalidade, encontrando-se o chão totalmente limpo...até o pó havia desaparecido. Instintivamente, recomecei à martelada no mesmo ponto e os destroços começaram a amontoar-se novamente, simplesmente para, de repente, voltarem à origem, agregando-se e reconstruindo mais depressa do que eu conseguia contrariar. As forças começaram a abandonar-me e caí de joelhos por momentos. Olhei em frente e nem uma arranhadela para me dar uma esperança. Para piorar o meu desespero e sensação de impotência, ela recomeçou a gritar do interior. Eram gritos de pânico, gritos de dor e desespero. Levantei-me sem o martelo, encostei as palmas das mãos à parede e chorei. Chorei enquanto lhe pedia perdão, enquanto me tentava perdoar a mim próprio por tal inutilidade. Num ataque de histerismo, comecei a bater na parede, a princípio de mão aberta e pouco depois, aos murros, com a maior violência com que se possa imaginar. Esmurrava a parede enquanto expulsava gritos guturais de raiva, enquanto ouvia o som dos ossos dos meus dedos quebrarem, enquanto ignorava o sangue que pingava da pele rasgada. Senti os olhos revirarem e a língua inchar, quase até ao ponto de me impedir de respirar, mas não conseguia parar. Com uma das mãos comecei a puxar também os cabelos até arrancar tufos e a arranhar a cara, com uma intensidade tal que só me faltava arrancar os próprios olhos. Sentia o meu corpo a perder o controlo e, embora eu tentasse fazê-lo parar, não conseguia. Ele reagia de forma autónoma e eu mais parecia um génio preso numa lâmpada. Sentia todas aquelas agressões externas e espasmos musculares, sem nada poder fazer. Era outra vez aquela sensação do sofrimento sem resposta, só que desta vez, era o meu corpo a provocá-lo a ele próprio. Todas aquelas marcas ensanguentadas na parede, formavam uma pintura macabra que simbolizavam a dor e a angústia no seu estado mais puro e descontrolado. Aquele sangue que me corria da cabeça em fios, ensopando-me o cabelo e fazendo-me pestanejar a cada gota que me pendia das pestanas, fez-me lembrar das feridas e peladas que havia feito a mim próprio. Tal era  a minha condição, que me havia esquecido de algo tão doloroso e que tinha feito há não mais de dois ou três minutos. Agora que me lembrara, ardiam-me por toda a cabeça. Por fim e após tempo demais, caí de joelhos no chão, a arfar como um cavalo, ruidosamente como um comboio, de cabeça a pender sobre o peito e braços caídos ao longo do corpo, com as costas das mãos destruídas e tocando o solo. Após alguns segundos, já respirava mais lentamente, mas com a sonoridade do rosnar de um cão, cada vez mais grave, até que, na derradeira investida, o meu corpo decidiu atacar de cabeça...literalmente. Assim que o meu crânio embateu na dura superfície, todo o meu cérebro desligou.

Comecei a recuperar os sentidos lentamente, acompanhado de dores agudas, especialmente nas mãos e cabeça, mas o que mais me afligia era a falta de ar. Sentia-me inexplicavelmente apertado e, abrindo finalmente os olhos na totalidade, tive a explicação de todos os porquês. Estava preso dentro da parede. Foi o pesadelo. A forma como eu abominava e temia lugares fechados e apertados. Comecei a entrar em pânico e a transpirar que nem um louco, o ar a faltar cada vez mais e as forças a esvairem-se ao triplo da velocidade. Tentava desesperadamente por todos os meios conseguir deslocar-me pelo apertado espaço antes que sufocasse, procurar alguma fresta que me proporcionasse ar, melhor luminosidade e, acima de tudo, contacto com o exterior...com o espaço aberto. O meu desespero estava prestes a alcançar um pico histórico e eu pensava que nada pior poderia acontecer, mas estava enganado. Comecei a sentir os pés molhados e a chapinhar e, dentro daquilo que me era permitido pela área disponível, olhei para baixo, somente para constatar que a prisão onde estava encarcerado, se estava a encher de água. O ar abandonou-me os pulmões e tenho a sensação que perdi totalmente a capacidade de respirar. Espalmado como estava naquele espaço, não teria qualquer hipótese de escapar, a não ser que alguém surgisse e me tirasse dali. Com tremendo esforço, consegui absorver uma golfada de ar e gritei por ajuda, mas a minha voz estava fraca...estava diferente. Isto fez-me parar surpreendido, mas não por muito tempo, pois o nível do liquido subia velozmente e já me ultrapassara a cintura. Por muito fútil que fosse, e eu sabia que era, voltei a gritar e a dar pancadas na parede à minha frente. As pancadas soavam secas e até a mim, custavam a ouvir. Estava condenado, ou talvez não. Talvez fosse mais uma daquelas ilusões em que de seguida acordava e tudo parecia normal. Mas podia ser também daquelas situações permanentes, como certos ferimentos dos quais não me livrara. Não me sentia tentado a testar qual delas seria, mas que poderia eu fazer? Que mal podia eu ter feito para merecer o castigo das últimas horas? Porquê eu? Porquê a minha família? Vanda...Rafael...ainda o posso salvar...ainda o posso...! Num acesso de determinação, enchi o peito de ar, que já se encontrava também ele submerso até à zona dos ombros, e procurei uma solução. Já a água me tocava no queixo, quando vi que, acima da minha cabeça, o espaço prolongava-se até perder de vista e estava repleto de tábuas cruzadas em X, o que me permitiria escalar. Estiquei-me o mais que pude e auxiliei com os pés, pressionando a biqueira de um à frente e a planta do outro à retaguarda, enquanto me tentava puxar para cima com as mãos, mas estas estavam tão feridas que vacilavam constantemente. A água já me cobria metade da face, obrigando-me a inclinar a cabeça para trás, mas devido ao constante movimento do meu corpo, esta ondulava e, de quando em quando, entrava-me pelo nariz, fazendo-me fungar e cobria-me os olhos, fazendo-mos arder e atrapalhando ainda mais a difícil missão que era a minha fuga. Porém, consegui finalmente puxar-me para cima e, com os braços em torno de uma das tábuas, apoiar o peito na mesma. Permiti-me a descansar por uns segundos antes de continuar, pois a água não parava de subir, acabando de me submergir novamente os joelhos, quando me preparava para recomeçar.

Estendi o braço direito e fiz força contra a parede, voltei a apoiar os pés da mesma forma, para não cair, e só então, soltei o braço esquerdo e recuei-o para terminar a posição de escalada. Tremia descontroladamente devido às dores provocadas pelos ferimentos, mas, de dentes cerrados, lutava para não me deixar vencer. O frio da água nas partes baixas disse-me que acelerasse e retomei a subida de imediato, afastando todos aqueles pensamentos. Havia subido cerca de um metro, pouca distância em comparação com o que ainda me restava até à zona onde me poderia apoiar, quando senti puxarem-me o pé da retaguarda, um dos meus grandes pontos de apoio, visto não me poder fiar nos membros superiores. As minhas costas rasparam pela parede, rasgando roupa e pele, e um dos meus joelhos estalou com o impacto na superfície dura à sua frente. Não tive tempo de reacção e num ápice encontrava-me submerso, com "O" vulto negro a meu lado, apertando-me o pescoço com uma das suas mãos disformes.


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