segunda-feira, 21 de maio de 2012

Plenilunio

      Com o pôr do sol sinto a escuridão sobrepôr-se à luz. As estrelas começam a pontuar o céu e o azul torna-se preto.
   Sozinho...e assim espero ficar, sinto a sensação do nascer da lua, cheia e brilhante, apoderando-se daquele céu escurecido e iluminando o mundo apenas o suficiente para permitir aos predadores da noite, sobrenaturais e profanos, encontrarem a sua presa.
     Sinto queimar. A dor aperta como o maior dos vícios. O meu corpo convulsiona. Cada osso, cada músculo preparando-se para a mudança. A agonia turva-me a visão enquanto a minha mente se contorce. Por mais que grite, ninguém quereria ou poderia ajudar.
    As roupas rasgam-se e esfrangalham-se. O corpo cresce e contorce-se. Os sons são agonizantes tal como o sofrimento da mudança. Os meus olhos mudam para o dourado do Lobo, mãos e pés para grandes e capazes patas, garras dilacerantes substituem unhas e dentes crescem a ponto de esmagar ossos. Pêlo cresce como fogo selvagem, preto e lustroso, músculos ganham a força dos deuses, surge um longo e grosso focinho e uma comprida e vasta cauda.
     Quando tudo termina, não me vejo a mim próprio, mas sim uma besta proveniente da fúria de um Zeus.
   A lua é a minha amante e eu respondo ao seu chamamento com o meu melódico uivo, preparado para satisfazer a sua sede de vingança.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Alcatraz: Cap. I - Karma


                    Estava ali encostado ao marco do correio com a sua Kawasaki Ninja ZX – 14 de 2006. Tinha 1300 cc, fazia 2,5 segundos dos 0 km/h aos 100 km/h e atingia uma bela velocidade máxima de 300 km/h. O sol estava meio encoberto devido às pequenas nuvens que teimam em anunciar as primeiras chuvas, mas nem isso tirava o brilho ao preto daquele veículo e o esplendor aos pormenores laranja escuros dos amortecedores e discos de travões. Sentia-se orgulhoso da sua menina, mas não era altura para se distrair. Voltou a focar o olhar na porta daquele prédio que ficava do outro lado da estrada. Tinha de apanhar aquele tipo hoje. Tinha que lhe “limpar o sebo” de forma dolorosa. Fazê-lo sofrer o triplo do que tinha sofrido por causa dele. Baixou o olhar na direção da sua mão esquerda e relembrou o momento em que este lhe cortara o anelar e o mindinho

“ E pensar que isto foi a parte menos má! Filho de p…”.

                Esperou horas no mesmo sítio. Já lhe doíam as pernas e começava a ficar irritado com os transeuntes que o olhavam como se ele fosse um espantalho. Não seria de admirar, visto ao tempo que ali estava parado no mesmo local. Chamou bezerro a uns e cabra a outras, entre outros nomes bem mais ordinários do que convém especificar, mas nunca arredou pé, nem perdeu a atenção. 

“Vou ficar com os pés em chaga por causa deste panasca! Só pioras o teu castigo amigo…só pioras!”.

                De repente viu o seu “camarada” sair do prédio e parar na entrada, deixando a porta fechar nas suas costas. Viu-o tocar às campainhas, aproximar-se do altifalante, fazer um compasso de espera e acelerar para o meio da multidão. Sentou-se e ligou a mota, preparando-se para seguir o traste, mas não sem antes ouvir a gritaria histérica que se instalou no edifício donde este saíra.  

“Já te esticaram não é careca? Enfim…também não fazias falta! – pensou ele enquanto arrancava.

                Avançou sempre devagar para não o perder de vista e não chamar à atenção, excetuando as alturas em que ele se metia por becos ou zonas somente pedestres e tinha de acelerar para lhe cortar caminho, mas não teve de se esforçar muito. Mais um quarteirão e viu-o entrar num parque de estacionamento daqueles com dois ou três andares e estradas em caracol a ligar os pisos. A partir dali tinha de ser mais cauteloso.

                Chegado ao terceiro piso, que era a céu aberto, perdeu-o de vista. Tinha dado distância a mais e sabia-o, mas também sabia que a dada altura, no último quarteirão percorrido, já tinha sido “topado” e tomara as devidas precauções colocando a sua “bebé” por baixo do casaco e presa no cinto, com 22,8 cm de lâmina, 6,5 cm de espessura e serrilha no dorso…era adorável.

                Saiu calmamente da mota e começou a deambular, adotando a postura mais insegura e desamparada possível. Olhava para baixo dos carros e por cima destes, virava-se para trás de repente e até espreitava pelos parapeitos. Queria parecer “bronco” e inexperiente para que o adversário se sentisse confiante e se mostrasse. Nessa altura, apanhá-lo-ia com a guarda em baixo.

                “Andas à procura de alguma coisa amigo? – aquela pergunta foi-lhe quase sussurrada ao ouvido.”.
                “Sim meu senhor! Das minhas chaves de casa. – respondeu com uma voz propositadamente trémula.”.
                “Das chaves de casa?! Engraçado! Mais engraçado ainda é que a tua voz não me é estranha! – levou a mão à pistola enquanto falava.”.
                 “Coincidência do cara… - com um golpe rápido da sua bebé sacou-lhe dois dedos da mão e a pistola caiu no chão.”.
                “Dassss… - um pontapé em cheio no joelho, um rangido da articulação a rachar e o tipo do capacete estava no chão.”.
                “Raios te partam… - um impulso tão rápido como inesperado e aquela lâmina enterrou-se por completo na coxa do seu alvo, fazendo com que ficassem agora os dois por terra.”.

                Um casal dirigia-se para a sua viatura quando se deparou com aquele cenário. Dois homens caídos, sangue espalhado pelo chão, olhares de raiva e palavrões atrás de palavrões. Afastaram-se rapidamente e pegaram no telemóvel para chamar a polícia.

                “Quem és tu? Tira de vez esse capacete e mostra a cara! – dizia Vas por entre gemidos, não sabendo o que lhe causava mais dor, se a mão ou a coxa.”.

                Com um esforço enorme conseguiu contrariar o joelho e ergueu-se. Apanhou a pistola do inimigo, guardou-a, certificou-se que já ali não estava ninguém para além deles e começou a tirar o capacete.

             “Tu! Eu sabia que havia de pagar pelo que te fiz.”
             “Adeus. – olhou Vas fixamente e cravou-lhe a faca pelo meio dos olhos até sentir a ponta da lâmina tocar o chão.”.

                Tirou o casaco jogando-o para o chão, para perto do capacete e antes de se ver livre das luvas, retirou a faca daquela cabeça e limpou o sangue e os miolos que vinham agarrados. O som da lâmina a sair foi algo nojento até para ele. Coxeou até à mota com um esforço monstruoso e cheio de dores. Deu à chave e absorveu aquele som como se fosse um analgésico, arrancando de seguida, deixando para trás uma nuvem de fumo e o som de sirenes a aproximarem-se.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Palavras


O que são palavras?

                Serão simplesmente letras amassadas umas contra as outras com o objetivo de criar uma sentença?

                As palavras que vejo são muito mais do que simples letras ou sons. As palavras que vejo são o que me dá alento, provoca sentimento, me faz continuar em frente. As palavras podem descrever a dor de quando estou a perder, podem descrever a paixão…elas são uma das minhas paixões.

O que são estas palavras para ti?

São elas algo que pode mudar a tua vida? Vão elas voar desta página e ficar no teu pensamento, ou são simplesmente algo que lês e esqueces? Estas palavras reordenadas podem mostrar aquilo que não tenho profundidade para explicar. Estas palavras às quais chamo de minhas são tudo aquilo que faz o meu mundo girar.
Para mim estas palavras são mais do que somente palavras. Elas são o meu significado, a minha esperança, as minhas paixões e desilusões, a minha razão de viver, a minha luz. Com tudo isto digo, cada vez que ouças que se trata simplesmente de uma palavra ou uma frase, lembra-te…palavras são aquela coisa que pode salvar a tua vida ou acabar com ela.  

sábado, 5 de maio de 2012

Pergunta para alguém que sabe quem é...

Isto é para alguém especial…
                O teu sorriso entusiástico toca-me o coração e fazes-me feliz quando estás presente. Ouves-me se estou mal e eu retribuo a cada vez que precisas falar sobre algo. Relacionamo-nos e partilhamos…pensamentos, sentimentos e emoções.
                Nunca pensei conhecer alguém que me cativasse da forma que o fazes. Nunca imaginei uma cumplicidade tão grande num tão curto espaço de tempo. Nunca pensei gostar tanto de um mero abraço. Mero? Exatamente! Era assim para mim até tu chegares, mas agora o “mero” deixou de existir e passou a sinónimos bem mais precisos…passou a ser genuíno…puro…único.
                Tudo isto é verdade a partir do momento que te conheci. Os sentimentos entre nós existem e são autênticos.
                Podemos então admitir que somos especiais um para o outro?  

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Alcatraz: Prólogo


                A porta bateu e ele entrou naquele apartamento. Nojento. Copos imundos, uns com restos secos de uma bebida qualquer, outros carregados de água castanha e beatas. Até cuecas e meias havia pelo corredor fora. “Javardo de mer…! – pensou Vas.”, e deu uns quantos passos na direção da janela à sua direita. Não havia nada naquele cubículo senão lixo, uma televisão velha, um sofá que certamente conhecera melhores dias, louça suja e um micro-ondas avariado. Vas nem queria olhar para a única divisória que existia para além daquela…algo a que chamam casa de banho. “Nem a porra de uns cortinados! – murmurou sorrindo.”.
                Esperou horas ali, de pé e junto à janela. De olhos fechados e ouvidos em alerta durante todo o tempo, encostado à parede e de mão direita apoiada na sua Colt 1911Panama canal, Cal .45 com silenciador, uma das duzentas e cinquenta produzidas para o mundo.
                Um ligeiro ranger e a porta abriu-se, deixando entrar a fraca figura de um “palhaço e energúmeno” chamado Cristy. Aqueles óculos à John Lennon a combinar com um bigodito à Hitler, as camisinhas aos quadrados e calça justa ficavam-lhe a matar.”Este estilo todo num só careca!”, era a frase mais comum entre os que o conheciam. Certamente era odiado pelos pais, que sempre desejaram uma rapariga, daí aquele nome, e, no fim, acabaram por ver a sua criação não passar de um atrasado mental, influenciável, traidor, mas acima de tudo, descuidado e muito, muito pouco inteligente. Pobres pais.
                Sentiu uma presença e olhou na direção da janela. Ouviu-se um ligeiro “click” e Cristy ficou estendido no chão a gritar de dor. Agarrava-se à perna com toda a força e as lágrimas iam enchendo o seu rosto de brilhos. Uma bala tinha-lhe destruído o joelho. Conseguia ver os bocadinhos de osso do que há momentos era a sua rótula e o sangue…o sangue era tanto que lhe trazia o vómito à boca.

                “Vas, que tá…que raio te deu? – disse mal recuperou o fôlego.”.
                “Nada! Só faço o que tu e os teus companheiros me pediram.
                “Quê? Mas ninguém te pediu nada seu psicopata!
                “Não pediram por palavras. São as vossas atitudes que me movem. Adeus.
                “Vas que cara…”, ” click “.

                Estendido e a fumegar do centro da testa, Cristy não ia importunar mais ninguém com os seus esquemas e burrices, mas visto que este tipo de gentinha teima em resistir a tudo, pelo sim, pelo não, Vas deixou cair mais duas balas sobre os quadradinhos azuis e brancos daquela camisa e saiu sem fechar a porta. Guardou a arma enquanto descia as escadas e só parou à entrada do prédio, já com a porta deste fechada nas suas costas. Tocou às campainhas e, fazendo a voz mais apavorada que conseguia, alertou os vizinhos para um qualquer acidente no 2º direito. Esperou o suficiente para ouvir o rebuliço nas escadas e partiu. Uma figura de casaco preto comprido e óculos escuros misturou-se na multidão que invadia as lojas de rua numa azáfama típica de compras que antecedem a chegada do Inverno.

O primeiro…o fim ainda está longe. – pensou.”.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Quod Sentio


                  Uma mulher está desaparecida.
                A minha camisola está larga e sinto a brisa gelada atravessá-la. Olho na direção das árvores. As folhas terminaram a sua metamorfose e esperam para cair. Penso nelas grudadas, bem cedo pela manhã, no vidro da frente da minha viatura…serão na maioria vermelhas. Os meus para-brisas vão empurrá-las dali para fora…e eu vou esquecê-las. No entanto, no meio de tais pensamentos, o meu cérebro lateja incansável. Uma mulher está desaparecida e não consigo esquecer.
                Há duas semanas atrás as folhas eram na sua maioria verdes e amarelas. Há duas semanas atrás uma mulher desapareceu. Não a conhecia, não faço ideia de como ela era, mas sei como se chamava. Dou por mim frente a velas, pronunciando o nome dela e a refletir. Estou a refletir e a rezar, mas sem rumo nem esperança.
                Uma mulher desapareceu; uma mulher está desaparecida.
                Contínuo a trabalhar, a erguer-me todos os dias pela manhã. Saio de casa de dentes lavados, penteado, pequeno-almoço tomado, entro no carro e conduzo. Consigo passar eternidades sem pensar nela, mas existem alturas em que deixo de conseguir. Sinto a pele arrepiar e tremo, tal e qual como quando tenho aquela camisola larguíssima e o vento a atravessa sem pudor. Os dez ou quinze metros que separam o estacionamento da porta do prédio, parecem tornar-se quilómetros. Por vezes ponho-me tanto no lugar desta mulher que parece que me vou desvanecer em pleno ar e desaparecer também. Dói.
                Daqui a duas semanas, quando as árvores estiverem despidas, a polícia encontrará o corpo dela e eu vou voltar às velas e rezas para pensar na mulher que desapareceu e foi encontrada, mas não realmente encontrada. Haverá um buraco no meu peito e não consigo perceber o porquê, porque não a conhecia, mas imagino que estou a ouvi-la rir, a ver o seu sorriso, e nessa altura vou pensar em todas as mulheres da minha vida e chorar.
                Uma mulher está morta e eu…não consigo esquecer.