Estava ali encostado ao marco do
correio com a sua Kawasaki Ninja ZX – 14 de 2006. Tinha 1300 cc, fazia 2,5
segundos dos 0 km/h aos 100 km/h e atingia uma bela velocidade máxima de 300
km/h. O sol estava meio encoberto devido às pequenas nuvens que teimam em
anunciar as primeiras chuvas, mas nem isso tirava o brilho ao preto daquele
veículo e o esplendor aos pormenores laranja escuros dos amortecedores e discos
de travões. Sentia-se orgulhoso da sua menina, mas não era altura para se
distrair. Voltou a focar o olhar na porta daquele prédio que ficava do outro
lado da estrada. Tinha de apanhar aquele tipo hoje. Tinha que lhe “limpar o sebo” de forma dolorosa.
Fazê-lo sofrer o triplo do que tinha sofrido por causa dele. Baixou o olhar na direção
da sua mão esquerda e relembrou o momento em que este lhe cortara o anelar e o
mindinho.
“ E pensar que isto foi a parte
menos má! Filho de p…”.
Esperou horas
no mesmo sítio. Já lhe doíam as pernas e
começava a ficar irritado com os transeuntes que o olhavam como se ele fosse um
espantalho. Não seria de admirar, visto ao tempo que ali estava parado no mesmo
local. Chamou bezerro a uns e cabra a outras, entre outros nomes bem mais
ordinários do que convém especificar, mas nunca arredou pé, nem perdeu a
atenção.
“Vou ficar com os pés em chaga
por causa deste panasca! Só pioras o teu castigo amigo…só pioras!”.
De
repente viu o seu “camarada” sair do
prédio e parar na entrada, deixando a porta fechar nas suas costas. Viu-o tocar
às campainhas, aproximar-se do altifalante, fazer um compasso de espera e acelerar
para o meio da multidão. Sentou-se e ligou a mota, preparando-se para seguir o
traste, mas não sem antes ouvir a gritaria histérica que se instalou no edifício
donde este saíra.
“Já te esticaram não é
careca? Enfim…também não fazias falta! – pensou ele enquanto arrancava.”.
Avançou
sempre devagar para não o perder de vista e não chamar à atenção, excetuando as
alturas em que ele se metia por becos ou zonas somente pedestres e tinha de
acelerar para lhe cortar caminho, mas não teve de se esforçar muito. Mais um quarteirão
e viu-o entrar num parque de estacionamento daqueles com dois ou três andares e
estradas em caracol a ligar os pisos. A partir dali tinha de ser mais
cauteloso.
Chegado
ao terceiro piso, que era a céu aberto, perdeu-o de vista. Tinha dado distância
a mais e sabia-o, mas também sabia que a dada altura, no último quarteirão
percorrido, já tinha sido “topado” e
tomara as devidas precauções colocando a sua “bebé” por baixo do casaco e presa no cinto, com 22,8 cm de lâmina, 6,5 cm de espessura e serrilha no dorso…era
adorável.
Saiu
calmamente da mota e começou a deambular, adotando a postura mais insegura e
desamparada possível. Olhava para baixo dos carros e por cima destes, virava-se
para trás de repente e até espreitava pelos parapeitos. Queria parecer “bronco” e inexperiente para que o
adversário se sentisse confiante e se mostrasse. Nessa altura, apanhá-lo-ia com
a guarda em baixo.
“Andas à procura de alguma coisa amigo? –
aquela pergunta foi-lhe quase sussurrada ao ouvido.”.
“Sim meu senhor! Das minhas chaves de casa.
– respondeu com uma voz propositadamente trémula.”.
“Das chaves de casa?! Engraçado! Mais
engraçado ainda é que a tua voz não me é estranha! – levou a mão à pistola
enquanto falava.”.
“Coincidência
do cara… - com um golpe rápido da sua bebé sacou-lhe dois dedos da mão e a
pistola caiu no chão.”.
“Dassss… - um pontapé em cheio no
joelho, um rangido da articulação a rachar e o tipo do capacete estava no chão.”.
“Raios te partam… - um impulso tão rápido
como inesperado e aquela lâmina enterrou-se por completo na coxa do seu alvo,
fazendo com que ficassem agora os dois por terra.”.
Um
casal dirigia-se para a sua viatura quando se deparou com aquele cenário. Dois
homens caídos, sangue espalhado pelo chão, olhares de raiva e palavrões atrás
de palavrões. Afastaram-se rapidamente e pegaram no telemóvel para chamar a
polícia.
“Quem és tu? Tira de vez esse capacete e
mostra a cara! – dizia Vas por entre gemidos, não sabendo o que lhe causava
mais dor, se a mão ou a coxa.”.
Com
um esforço enorme conseguiu contrariar o joelho e ergueu-se. Apanhou a pistola
do inimigo, guardou-a, certificou-se que já ali não estava ninguém para além
deles e começou a tirar o capacete.
“Tu! Eu sabia que havia de pagar pelo que te
fiz.”
“Adeus.
– olhou Vas fixamente e cravou-lhe a faca pelo meio dos olhos até sentir a
ponta da lâmina tocar o chão.”.

Tirou
o casaco jogando-o para o chão, para perto do capacete e antes de se ver livre
das luvas, retirou a faca daquela cabeça e limpou o sangue e os miolos que vinham agarrados. O som da lâmina a sair foi algo nojento até para ele. Coxeou até à mota com um esforço monstruoso
e cheio de dores. Deu à chave e absorveu aquele som como se fosse um analgésico,
arrancando de seguida, deixando para trás uma nuvem de fumo e o som de sirenes
a aproximarem-se.