domingo, 30 de dezembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. V - Out of the Darkness

  O seu corpo foi projectado no ar e embateu violentamente de costas numa parede. O impacto que sofrera fora incrivelmente forte e, não fosse aquele reflexo de cruzar a arma em frente ao peito ao ouvir um ruído metálico crescente na sua direcção, provavelmente teria ido desta para melhor. Ergueu-se a custo e o silêncio imperava de novo no meio daquela escuridão que o tornava cego. Segurando a caçadeira com as duas mão em frente ao peito, deu os primeiros passos na busca de um local iluminado, um local onde não fosse uma presa fácil.

Com a audição em alerta máximo, caminhava o mais lento e silenciosamente possível, levando de tempos a tempos, uma das mãos à frente e para os lados, para sentir a parede e se orientar da melhor maneira possível. Sem que pudesse fazer nada, o seu pé assentou sobre um pedaço de chão que, embora ligeiro, libertou um rangido. Arreganhou os dentes e ficou tenso e imóvel por momentos, em alerta. Ao final de alguns segundos, continuava sem ouvir nada e relaxou, preparando-se para avançar novamente. Foi então que, sem ouvir ou sentir fosse o que fosse, uma mão lhe apertou o pescoço de frente, cortando-lhe a respiração. Reagindo por reflexo, impulsionou a arma de baixo para cima contra aquele braço, conseguindo libertar-se e, com toda a força que tinha, libertou um pontapé na mesma direcção, atingindo violentamente o adversário, que chiou de dor. Tentou atingi-lo uma segunda vez, mas falhou, ouvindo um sapateado rápido de fuga. Pensou então, que talvez, seguindo na direcção do som daqueles passos, fosse dar a uma "saída" daquele buraco negro em que se encontrava e começou a correr. Deu-lhe a sensação de correr cerca de dois ou três minutos, de quase chocar meia dúzia de vezes contra paredes, só descortinando em seguida a mudança de direcção que tinha de tomar, até que começou a ver luz ao fundo do corredor, mas também deixou de ouvir os passos. Aquilo era estranho! Pelo que havia constatado ao longo do caminho, só havia uma rota possível, logo, como seria possível deixar de ouvir os passos que sempre se mantiveram na sua frente e não ver nada? Agora que já conseguia ver alguma coisa devido àquele brilho distante, mesmo que o individuo tivesse parado, tinha de estar naquele mesmo corredor, naquele mesmo espaço, à sua frente! Isto não lhe cheirava bem. Algo de muito errado se passava ali.

Não teve tempo de pensar mais no assunto, pois o agressor atacou de novo. Socou-o duas vezes na face, uma vez no abdómen, segurou-lhe o pescoço com uma mão e, com a força do outro antebraço no pescoço, encostou-o à parede, começando a aplicar-lhe joelhadas. Ele tentava proteger-se, colocando os braços cruzados entre os joelhos e o seu corpo e tentava aproveitar uma aberta para respirar e contra-atacar, mas não estava a ser nada fácil. Os ataques do outro eram constantes e demasiado rápidos, mas tinha de conseguir, tinha de conseguir afastá-lo e recuperar a arma que tinha deixado cair. 

Repentinamente, o tipo atrasou um dos golpes, talvez para recuperar o fôlego, e, mesmo estando extremamente dorido e desgastado, ergueu a cabeça velozmente, atingindo-lhe a zona do queixo com a parte de trás do crânio, fazendo-o soltá-lo. Enquanto este cambaleava, pegou-lhe num dos braços, torcendo-o e, com um pontapé nas dobras das pernas, projectou-o violentamente de costas contra o chão. Este contorceu-se e demorou a levantar-se, tempo suficiente para que ele recuperasse a arma e lha apontasse.

  "Mostra-te!" - gritou-lhe, carregando a bomba da caçadeira.

O agressor deu dois passos em frente e deixou que a pouca luz existente o revelasse parcialmente. De estatura média, envergava uma bata branca e ensanguentada e tinha a cara tapada por uma máscara de demónio japonesa, vermelha como sangue. Outro dos pormenores estranhos do personagem era, o enorme golpe que possuía no ombro direito, tão profundo e largo, que tornava visível o osso da clavícula. Aquela figura tornava-se ainda mais arrepiante com aquela iluminação débil e acastanhada.

Embora sério, ele estava admirado com a quantidade de aberrações com que se havia deparado nas últimas horas. Se voltasse agora a casa e contasse aquilo a alguém, certamente acabaria o dia internado no hospital para os dementes. No entanto, ainda não tinha visto tudo o que aquele demónio guardava na manga e, sem tempo para qualquer tipo de reacção, viu-o desaparecer da sua frente numa nuvem de fumo. Ainda disparou uma vez, mas não atingiu nada.

Manteve-se alguns segundos na expectativa, até que, vindos de várias direcções e alternadamente, surgiram os mesmos ruídos de arrasto que ouvira anteriormente. Virava-se constantemente na direcção de cada som, alguns distantes, outros perto, parecendo, por vezes, estarem mesmo em cima de si, mas não via nada. De repente, vindo de nenhures, o demónio vermelho surgiu na sua frente e atacou-o com o que parecia um cutelo gigante, quase do tamanho do seu dono. Só teve tempo de se jogar para o chão, escapando por milagre ao golpe horizontal que lhe foi dirigido, e em seguida, rebolar para longe, evitando o segundo golpe, descendente e que abriu um enorme sulco no chão de madeira. Ergueu-se rapidamente e viu o outro levantar a enorme lâmina e apoia-la no ombro. Estava explicada a origem daquele enorme golpe e do som arrastado, pois via agora o objecto cortante, perfeitamente encaixado entre carne e osso, enquanto ele andava e se dirigia para si, arrastando a perna do lado que suportava o peso.

Sem esperar para ver mais, carregou a bomba várias vezes e disparou outras tantas, vendo aquele verme evitar todos os disparos sem qualquer esforço. Simplesmente se desviava com uma velocidade sobre-humana, mas ele continuava a disparar e a recuar. Sem dar conta, ele desapareceu e no segundo seguinte estava nas suas costas. Ergueu a caçadeira e susteve a lâmina acima da sua cabeça, cerrando os dentes e tremendo violentamente com o esforço. Pontapeou-lhe o abdómen e conseguiu recuar para disparar novamente, mas sofreu nova frustração. Novo desaparecimento e novo ataque pelas costas, desta vez com um golpe horizontal de arrasto, que embora defendido, o projectou por vários metros no ar, fazendo-o estatelar-se brutalmente no chão. O ar fugiu-lhe dos pulmões e contorceu-se de dor. Apoiou joelhos e mãos no chão para recuperar o fôlego e procurou a sua arma. Estacou. O tipo já estava bem próximo e interpunha-se entre ele e a caçadeira. Viu-o levantar o cutelo com ambas as mãos e desesperou.

***

Ela caminhava perdida por aqueles corredores escuros, assustadores e intermináveis. Tomada de assalto por constantes ruídos, gemidos e uivos, que pareciam vir do além, o medo era cada vez mais senhor e dono da sua mente. Não passava de uma cientista e aquilo não era definitivamente o que imaginara fazer, quando se alistara naquela força de intervenção. Tinham-lhe dito que aquela missão seria como todas as outras, para entrar, recolher e avaliar. Não existiriam confrontos e, no caso de existirem, seriam mínimos e de fácil resolução. "Até enviamos os novatos.", disseram, por forma a que se convencesse. Aceitou, e logo nos primeiros instantes se arrependeu. Entraram naquela maldita instituição e desceram uma infinidade de escadarias, chegando finalmente ao laboratório clandestino, onde foram de imediato atacados por uma horda de zombies, que comeram metade da equipa que a acompanhava. Sobreviveram três, incluindo ela, mas que, devido à constante corrente de inimigos, se separaram, para não mais se encontrarem. Não fazia ideia se se encontravam vivos, ou se já haviam sucumbido às criaturas. A única coisa de que tinha certeza absoluta era da fome e da sede que tinha, era que, se não encontrasse uma forma de sair dali rápido, talvez nem fossem necessárias criaturas para a matarem.

De repente, ouviu novo grito, mas este era diferente, era humano. Fora uma manifestação mista de aflição e esforço. A curiosidade falou mais alto e apressou-se naquela direcção.

***

Ignorando a dor no peito, aproveitou o facto de ter as mãos apoiadas no chão e dessa forma, impulsionou-se para o lado. Resultou e escapou, mas não totalmente. A sua mão direita ainda foi atingida, decepando-lhe dois dedos, o mínimo e o anelar e arrancando-lhe um grito a plenos pulmões, como se o ar nunca lhe tivesse faltado. Com aquela injecção de adrenalina na circulação, aproveitou o tempo que o outro demorou a erguer a sua pesada arma e conseguiu recuperar a sua no momento certo, pois imediatamente após a ter agarrado, ele manifestou-se à sua retaguarda e ficou imobilizado, deixando cair o cutelo com estrondo. Ao recuperar a sua caçadeira, pegou-lhe com o cano virado para trás e, mal o viu surgir, disparou rapidamente, abrindo-lhe um buraco no abdómen. Virou-se e olhou o demónio nos olhos. O seu olhar vitorioso contra um olhar de espanto em falência. O som seco daquele corpo sem vida ao embater no chão, foi acompanhado de um grito, cujo foi interrompido a meio. Ele olhou para trás, olhar profundo, sangue escorrendo da mão e arma em punho, apontada ao propagador daquele novo ruído. Deparou-se com uma mulher de baixa estatura, cabelo castanho claro, com madeixas a dar para o ruivo, com ambas as mãos em frente à boca, olhos fechados e vestida com uma bata branca...uma bata como o maluco que acabara de matar.

  "Quem és tu? Afasta as mãos do corpo, para onde eu as veja bem! Rápido!" - disse asperamente, enquanto avançava para ela de arma apontada, tentando esconder as dores que ainda sentia e o debilitavam.
   
  "Oh meu Deus, isto é só doidos! Eu sou só uma simples cientista, enviada para aqui numa missão, supostamente de baixo risco, e que de repente, viu metade da sua equipa ser comida por monstros saídos de filmes de terror. Fugi e perdi-me dos restantes sobreviventes. Não fui treinada para estas coisas e acho que a única sensação que me resta de momento é o medo. Dei por mim, no meio destes corredores e, ao ouvir um som que me pareceu humano, corri na sua direcção, tudo para me deparar com dois loucos a matarem-se e ser ameaçada pelo vencedor. Eu não sou ameaça nenhuma para ninguém, por favor..." - ela disparava informação a uma velocidade alucinante, que acompanhada de um soluçar constante, eram um autêntico atentado à saúde auditiva de qualquer um.

  "Pára,pára! Já chega! - ela calou-se bruscamente e tremeu - Tens de respirar mulher, senão nem é preciso bicharada para que morras. Vou baixar a arma e vamos conversar com calma, ok? - ela assentiu com um gesto nervoso de cabeça e ele baixou a arma - Dizes fazer parte de uma equipa que foi enviada para aqui? Numa missão de investigação...para novatos?"

  "Sim...isso mesmo. Mas...como sabes que eram novatos que me acompanhavam?! Quem és tu afinal?" - a postura dela alterou-se e a curiosidade foi evidente, tanto na expressão corporal como no tom de voz.

  "Eu faço parte da equipa enviada para vos resgatar, mas por uma decisão impensada da minha parte, também me separei dos restantes membros e agora tenho de voltar a encontrá-los, pois não vejo ninguém a sobreviver sozinho durante muito tempo neste lugar. - já chegando perto dela e estendendo a mão, disse - O meu nome é Rui."

  "O meu é Sara e...não imaginas o alívio que sinto neste momento." - apertou-lhe a mão com um suspiro e novo ânimo no olhar.



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