segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alcatraz Cap. IV - Equidade

    Vincent olhava o chão com satisfação. Sentimento estranho, tendo em conta a situação em que se encontrava, mas até esboçou um ligeiro sorriso. Esperava a qualquer momento, o cano frio de uma arma na sua cabeça, mas o medo encontrava-se totalmente ausente no seu âmago. "Não faças isso Jack! Não estou a defender ninguém, mas tu melhor que ninguém deves saber o que este homem passou!" - ouvia a voz firme - "Achas que sou capaz Kyle? Cara...o, ainda há pouco dizias que não era nenhum assassino e agora já sou? Mer...a pra ti meu atrasado mental! Sei bem o que ele fez, mas poupou o meu filho e, por causa disso, perdeu tudo! Continuo a odiá-lo pelo que fez, mas tenho pena dele pelo que sofreu. Se lhe devo a morte da minha mãe e da minha mulher, também lhe devo a vida do meu filho. Não vou matá-lo...vou deixar...tentar...perdoá-lo com o tempo." - sentia a resposta dada com um sentido de justiça em vias de extinção e o outro ficar completamente surpreendido com tamanho discurso. Olhou para cima espantado e Jack estendeu-lhe a mão por forma a ajudá-lo a caminhar. Kyle acompanhou-os em silêncio.

Encostado ao carro, com os seus quase dois metros de altura, perna cruzada em quatro e remexendo a barba aparada ao queixo, Janus aguardava a chegada do "betinho", para prosseguirem com a sua invasão às docas. Estava nervoso quanto a abordagem pretendida por este, pois sabia o quão burro e estúpido era aquele projecto falhado de homem e, para piorar tudo, o pai do "pedaço de estrume" tinha-o ameaçado de morte em caso de fracasso. Este dilema lembrava-lhe a missão, que nunca passou de uma brincadeira para crianças, em que o excesso de confiança e ilusão de imortalidade daquele tipo, lhe deu como recordação a enorme cicatriz que tinha na face esquerda. Libertou-se daquele receio por momentos mesmo a tempo de ver chegar o  Lamborghini Murcielago LP 650 - 4 descapotável do finório, e a mancha amarela e comprida que era aquele cabelo a esvoaçar enquanto o automóvel parava. Brian saía do carro como sempre. Ar convencido e fedor insuportável a importância, que tinham como função, disfarçar o cãozinho obediente que era e o seu verdadeiro cheiro, a leitinho.  

  "Janus, vamos a mexer esse cú. Manda os teus homens avançarem e matar tudo aquilo que se mexa dentro das docas."
  "É esse o teu plano? Era pa dizeres isso que querias que esperasse por ti? Não foi nada disto que disseste ao telefone! Agora é nada de precauções nem movimentações pensadas! Simplesmente entrar a matar! Parece-me um plano excelente para o qual transpuseste todo o teu brilhantismo." - disse em tom de gozo mas totalmente possesso.
  "Mudei de ideias. Agora vê como falas senão mando-te pendurar plas bolas. Tratas-me por você e não por tu como fazias com o lixo do Vas." - a bazófia da criatura era palpável - "Agora limita-te a guardar as tuas opiniões para alguém que se interesse e faz como te digo. Rápido." - gesticulou com a mão como que a enxotá-lo.
  "Puto dum cab...ão! Sei que provavelmente não me escapo desta e se assim for, não chegas a fazer os 22 anos, cabeçudo de merd...!"  - sussurrou de si para si.

Escassos minutos passados e todos os homens já se encontravam no interior das docas. Sem qualquer organização ou planeamento de actuação, movimentavam-se sem cuidado ou preocupação. Haviam tomado aquela intervenção como fácil, visto que lhes fora dito que eram vinte contra apenas três e que não deviam deixá-los sair dali vivos. Só o simples facto de serem apenas três, mas numa luta pela sobrevivência, deveria ser mais do que motivo de cautela. Um só homem excede-se na demanda pela preservação da sua vida, logo, seria óbvio o que esperar de três.

  "Esperem!" - Kyle estendeu a mão em frente ao peito de Vincent, fazendo-o parar a ele e a Jack que o ajudava a caminhar - "Que porra de barulho vem a ser este? Não era suposto isto tar fechado e abandonado?" - todos olhavam em redor em busca da origem, mas o som era disperso e vinha de várias direcções diferentes.
  "Isto não me cheira bem. Acho melhor sairmos de campo aberto e termos cuidado enquanto não sabemos o que se passa. Vincent, tu ficas dentro daquele primeiro contentor ali e esperas por nós. Juro-te, pela vida do meu filho que salvaste que voltamos pa te vir buscar. Tornei as minhas contas a ajustar contigo numa dívida de gratidão. Ainda não sei muito bem porquê nem como, mas o importante agora é que confies em mim." - não havia nada nele que levantasse dúvidas quanto à veracidade do que dizia e o outro assentiu com um gesto de cabeça  - "Kyle, nós vamos ver o que se passa, mas temos que nos manter juntos. Bora." - dito isto deixaram Vincent escondido no local designado e, agachados, arrancaram em corrida por um dos intermináveis corredores de contentores. Avançaram silenciosos, encostados às laterais dos montes de ferro e aço até que começaram a ouvir vozes e o som distinto de passos. "Vou apanhar os cab..es antes de ti. Hahaha!", "A ver vamos! O primeiro tiro é meu e vai ser em cheio na mioleira.". As conversas eram todas em torno do mesmo tema, o que de imediato lhes mostrou que estavam a ser literalmente caçados, quase como se de um jogo se tratasse. Tinham de ser silenciosos e despachar da mesma forma somente aqueles necessários para criarem uma linha de fuga. Eram demasiados para os "limparem" a todos. Jack ajudou Kyle a chegar a um ponto mais alto de onde este avistou quatro mortes necessárias e inevitáveis, pois os restantes encontravam-se bem afastados ou a andarem em sentido oposto à sua localização. Desceu e prepararam-se para o início das "limpezas". Aproximaram-se dos primeiros dois e Jack apanhou do chão um ferro bicudo e ferrugento. Propositadamente tocou com ele no solo de forma a provocar um ligeiro ruído que atraiu os alvos. Enquanto estes avançavam cautelosamente para investigar, deram rapidamente a volta aos contentores mais próximos e surgiram-lhes nas costas. A arma improvisada trespassou o peito de um que tombou de imediato, ficando de joelhos, cabeça pendente para a frente e uma papa de sangue e ferrugem escorrendo das pontas do tubo, enquanto o segundo, sem tempo de reacção, viu o grisalho esmagar-lhe a traqueia com uma pancada seca. Ficou a olhar para ele enquanto sufocava. Um sinal de cabeça de um e os dois avançaram no encalço da próxima vítima. Escassos segundo depois e estavam a pouco mais de dois ou três metros do tipo. Escondidos, cada um na quina de um contentor diferente, observavam e pensavam na melhor forma de o eliminar. Jack teve uma ideia e sinalizou o amigo para que este se preparasse. Então, colocou o seu braço à vista e fez barulho de passos. O outro, ouviu, viu e começou a deslocar-se pé ante pé para apanhar quem ali rondava. Ao aproximar-se da quina, de um só movimento, rodou e apontou a metralhadora., apanhando Jack de costas. "Quietinho ai ó palhaço!" - gritou, fazendo com que o careca começasse de imediato a erguer os braços. Kyle já se aproximava pela retaguarda. Num ápice agarrou-lhe na cabeça e fê-la embater contra o aço de um contentor uma meia dúzia de vezes. A violência das duas primeiras foi tal, que era quase certo de que o rapaz teria morrido sem sequer saber como. A careca reluziu-lhe com as primeiras luzes lunares enquanto cumprimentava o amigo com uma palmadinha na nuca. Viravam-se para a última abordagem quando o último "gajo" que faltava matarem, ficou com a cabeça cravada no contentor por uma enorme faca de mato. Vincent aproximou-se a coxear violentamente e com esforço retirou a faca. A saída da lâmina fez os olhos da vítima revirarem antes de o corpo cair no chão. Ficaram de tal forma embasbacados que nem articularam palavra.

  "Eu vim avançando devagar atrás de vocês e peço desculpa por ter ido contra o combinado, mas ainda bem que o fiz. Este cab...ão viu-vos e vinha à socapa para vos limpar plas costas. Não pensei duas vezes antes de lhe proporcionar uma limpeza de ouvidos à moda do belo do cotonete!" - quebrou assim ele próprio o silêncio.
  "Bem...obrigado!" - disse ainda meio atrapalhado enquanto passava a mão pela cabeça desprovida de cabelo.

Kyle aproximou-se do coxo e, pondo-lhe o braço por cima do seu pescoço, ajudou-o a caminhar em direcção à saída agora de caminho livre. "Vamos embora pá! Tás à espera que apareçam os outros é?" - com estas palavras o outro acordou e seguiu-os. De passo o mais acelerado possível, passaram o portão degradado das docas, rumo à liberdade e olharam para todos aqueles carros ali estacionados ao acaso sem parar um segundo sequer. Atrás de todos aqueles SUV´s negros, depararam-se com um estonteante Lamborghini  em tons de cinza e laranja e com uma arma apontada a si. O tipo armado ria à gargalhada e a sua loucura era de uma evidência extrema. Nenhum deles arriscou sequer chegar às suas armas. Apareceu então um segundo à retaguarda do primeiro. O gigante de cicatriz na cara aproximava-se numa passada pesada e com um ar misto de satisfação e arrependimento. Era algo assustador. Parou ao lado do louco sorridente. "Apanhei-os! Vês? Eu bem te disse meu grandessíssimo atrasado mental.". O grande olhou para baixo - "E de que te servirá isso?". "Hun??" - o minorca não teve tempo de dizer mais nada, pois mal olhou para cima com o seu toque absurdamente enjoativo de importância, o outro espetou-lhe com uma bala através dos miolos. O corpo caiu direito como uma tábua e de olhos esbugalhados. "Vocês três!" - olharam apreensivos - "Ponham-se a andar daqui pra fora. Rápido antes que eu mude de ideias. A chave do carro" - apontou para o Lamb - "está no bolso dele." - virou costas e afastou-se assim que acabou de falar. Os primeiros passos deles foram cautelosos, mas depressa voltaram ao passo acelerado. Apanharam a chave e os olhos do cadáver pareciam olhá-los numa súplica chorosa por socorro. Afastaram-se rapidamente e meteram-se no carro, arrancando à pressa com o volante ao encargo de Jack. Ligaram o Gps e activaram a ligação à última localização conhecida.

  "Aquele cabelo loiro e carinha de bebé já nestas andanças. Estas mer...as lixam-me a cabeça toda. Tão novo para morrer." - calou-se e levou o pé do acelerador ao fundo.


  



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sem escape Cap. I - Verdade

    Olho discretamente pela janela. O tempo está assombroso com um frio implacável que tem o auge da sua incrível manifestação, nas folhagens totalmente congeladas e cintilantes como estrelas aquando da incidência das escassas luzes dispostas em grandes intervalos e oscilantes com a força da ventania..No meio deste espectáculo natural, seria de esperar, uma sensação de paz e absoluta admiração, bem junto ao fogo acolhedor da lareira que crepitava numa melodia intermitente mas apaixonante, no entanto, tal não era possível, pois no meio da estonteante beleza, a negra e sombria figura rondava a minha casa. Incospícua durante tanto tempo, assustando o meu pobre filho de apenas cinco anos, do qual duvidei e até castiguei por associar todas aquelas histórias a uma imaginação fértil e típica de criança. Já esqueci o tempo em que o pobre miúdo conseguia lidar com o escuro, em que não chorava pelo simples facto de alguém querer sair de casa após o anoitecer. Levei-o a acompanhamento psicológico após muita discussão com a minha esposa, cuja angelical beleza já começava a sofrer as consequências de inúmeras noites em branco. Ela tanta vez me chamara à atenção para a gravidade da situação pela qual o nosso rebento passava e alertava-me para o seu sofrimento. Como fui eu capaz de ignorar tanto sinal, tanta tristeza, tanto medo? Não sei! Apenas sei que ela sempre tivera razão e que o meu filho não era nenhum mentiroso. Eu é que fui despreocupado, frio e desconexo perante tudo, como nenhum pai deve ser. Agora, confrontado com a realidade que sempre considerara fantasia, não sabia como agir. Não estava minimamente preparado para tal e só fui capaz de os mandar trancarem-se no primeiro andar dentro do quarto do Rafael, cerrando até as janelas. A Vanda estava em pânico e obedeceu-me de imediato, mas não sem antes me jogar na cara o facto de eu ter constantemente ignorado todas as evidências. Ela não me culpava de nada, mas sentia-se magoada pelas minhas atitudes irreflectidas. O nervosismo era tal que afastava os cortinados com a ponta dos dedos, mas não sentia vestígio algum do seu delicado toque de seda que tanto me agradava. A sensibilidade havia abandonado o meu corpo há largos minutos. Nada sentia senão receio, dúvida, indecisão e raiva, mas essa, de mim próprio. Todas e quaisquer outras sensações voltariam a mim, apenas se sobrevivesse àquela noite.

O vulto lá fora movia-se como se estivesse a flutuar. Sempre hirto, de braços caídos e sem qualquer movimento de cabeça, deslocava-se com enorme rapidez de um lado para o outro. Parecia até transportar a escuridão nas suas costas, pois a cada aproximação a um foco de luz, o mesmo extinguia-se sem explicação aparente, envolvendo toda a zona num negro tétrico. Não conseguia vislumbrar quaisquer traços faciais ou pormenores de vestuário por mais próximo que se encontrasse da habitação. Era como se aquilo não fosse mais do que uma simples mancha preta numa pintura paisagística. Era tão sinistro e transpirava tanta ou mais maldade do que toda a que já havia visto nos meus quase 30 anos de vida. Sinto de repente um som estranho, como se algo estivesse sobre pressão e prestes a estalar. Olho em volta e vejo os vidros de todas as janelas da minha sala, completamente cobertos de gelo e a começarem a rachar. Tentei olhar lá para fora novamente pela janela mais próxima e lá estava ela quase encostada ao parapeito. O que seria aquela coisa? Nem a escassos centímetros se lhe via a cara! Era como um buraco, escuro e interminável na minha frente, mas que adoptara uma forma demasiadamente semelhante à humana! Ouvi um ruído estridente que quase me estourou os tímpanos e me jogou ao chão. Ter caído foi a minha sorte, pois de imediato, todos os vidros quebraram como uma única e enorme explosão, enchendo toda a divisória de estilhaços dos mais diversos tamanhos e feitios. Não tinha qualquer ferimento, mas caso tivesse sido atingido, já não estaria a ter aquele pensamento nem teria nunca mais qualquer outro.O assobiar da ventania assolava todo o piso térreo da casa e o frio fazia-me tremer, esfregar os antebraços e bafejar para as palmas das mãos. Olhei atentamente e já não a via em lado nenhum. Após dois profundos ciclos respiratórios, decidi abrir a porta para dar uma volta ao perímetro do jardim, mas estaquei. Estaquei com novo som de um vidro a estilhaçar, um grito de terror da minha mulher e o choro desesperado do meu filho.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Alcatraz Cap. III - IV (intervalo)

     Ali parado no meio da escuridão de um salão, aguardava um telefonema. As coisas não estavam a correr de acordo com o planeado e necessitava de ordens para poder agir em concordância. Já ali estava sentado há mais de vinte minutos envolto em total silêncio quando uma porta se abriu e se ouviram passos, lentos e suaves, de alguém a entrar. Não se via absolutamente nada e só sabia de onde esperar a aproximação, devido ao som. Manteve-se imóvel enquanto sentiu a presença passar-lhe ao lado e sentar-se algures frente a si. O silêncio ainda se manteve durante alguns segundos, até que a presença se manifestou.

  "Ouve bem o que te vou dizer. A pessoa que está prestes a ligar-te é o meu filho, mas todas as ordens que recebes são dadas por mim. As que tu recebes, as que ele recebe, as que todos recebem. Aqui quem manda e lucra mais com o que fazemos sou eu, logo, julgo eu, não será necessário dizer-te que também sou a parte mais prejudicada quando as coisas não correm de acordo com o esperado. Isto vem de encontro às notícias que recebi e cujas não me agradaram nem um pouco. Foi para que pudesse falar contigo que o meu filho te enviou aqui para aguardares pelo seu telefonema. Queres passar a explicar o sucedido, caro Janus?".

Vacilou por momentos devido a duas situações completamente distintas. A voz de quem estava na sua frente estava completamente distorcida e era impossível perceber quem seria, e o cheiro que se sentia, extremamente adocicado, deixava-o agoniado.

  "O Vas foi morto por aquele desgraçado do Vincent. Aquele mer...so do Cristy deu com a língua nos dentes a mais gente do que pensávamos. Pus homens à procura do Vince, mas não o encontram em lado nenhum, no entanto, avistaram ao longe, perto da entrada das antigas docas, o amigo do Jack, o tal Kyle. Isso só pode querer dizer que eles andam por perto e provavelmente à procura do mesmo gajo que nós, visto que o Jack anda a tentar caçá-lo ao tempo para vingar a família. Tenho os meus homens prontos a invadir as docas. É só dar a ordem e não terão como escapar." - a sua voz soava confiante.
  "O teu telefone vai tocar. Atende.".

Foi simplesmente graças à escuridão, que a sua expressão de espanto quando o telemóvel tocou no segundo seguinte, passou despercebida.

  "Estou Brian, diz-me." - ouvia com atenção o que lhe era dito do outro lado da linha - "Sim claro, estão todos prontos." - dizia convicto - "Tinha pensado de outra forma mas...ok, ok, não dou ordem nenhuma até tu chegares. Encontramo-nos lá. Não demoro a chegar.". - dito isto desligou o telefone e levantou-se.
  "Já sabes o que fazer, portanto põe-te a andar. AH, e desta vez não falhes. Ia ficar imensamente perturbado se te tivesse de mandar fazer companhia ao Vas.".

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Reflexão

    Sentado no quarto olho o horizonte através da minha janela. Os veios que demarcam os quadrados em vidro fazem-me imaginar uma prisão. Envolto em pensamentos da vida e existência, a visão de encarceramento não me faz qualquer sentido. Então ergo-me e caminho em direcção à porta, libertando-me. Os meus pés já no solo calcetado e a chuva iniciou as suas carícias na minha face. Aquele toque suave e meigo era confortante e calmante como o abraço de uma mãe. Iniciei uma passada lenta aproveitando as ruas desertas e o som da água em queda para divagar em pensamentos que por norma tendo a interiorizar e esconder. Lembro-me de todas as vezes que pensei nisto, na forma atroz em que colocava o rótulo de cobarde ou medroso em mim próprio e até nos momentos em que estava completamente decidido a contrariar a situação. Óbvio que tal  nunca aconteceu e faltou-me sempre o equilíbrio nas horas da verdade. Mas digamos que isto não era culpa minha nem de ninguém que o faça tal como eu. A culpa é sim de uma geração completamente inundada em estereótipos e manias de grandeza. Lembro-me de quando ser honesto e directo era uma coisa boa. Hoje mais vale mentir ou esconder, pois todos parecem compreender e aceitar melhor, ou seja, viverem na ignorância da verdade, do que se sentirem diferentes ou inferiores. Sim, porque tal como disse anteriormente, existem clichés que fazem com que pessoas desprezem ou se afastem de outras, simplesmente por serem diferentes...honestas...directas. Mas que é isto? A maioria dessa gentinha partilha dessas diferenças mas recusa-se a confessar porque quer parecer bem, quer continuar a inserir-se no grupo de parvalhões que dizem viver numa democracia, mas não passam de amantes de ditadura. Onde é que alguém escreveu alguma vez que a diferença é má, ou a mudança? Os telemóveis de ecrã verdinho também mudaram para cores e touch! Porque não fazer uma manifestação sobre isso? Chamar de nerds a gajos que passam metade da vida agarrados a computadores e livros para criarem tais avanços? Não, esses são bons porque nos dão as tecnologias caras, que nós como tios e tias tanto gostamos de bambear para nos armarmos aos cucos. Queria relaxar e deixei que a chuva me limpasse de tais pensamentos. Comecei a pensar nos amigos, naqueles que estão sempre lá quando precisamos, aqueles que não pedem nada em troca. Pensei nos momentos dos copos, das viagens de carro a ouvir músicas de há tantos anos atrás que todos acabavam envoltos em recordações e risadas, das jogatanas na casa de um e de outro. Lembrei os petiscos, as viagens, as conversas de esplanada. Vejo como se fosse hoje, o meu irmão crescer entre os meus amigos e, hoje em dia, maior do que eu, acompanhar connosco em todas as loucuras e brincadeiras. que prazer tenho na sua companhia...que orgulho tenho na sua pessoa. Mais uma de mil e uma coisas que os meus pais me proporcionaram e da qual não me posso esquecer de agradecer. Sei que não necessitam de obrigados, não pedem nada em troca e que tudo fazem de livre vontade e por amor, mas não posso nunca deixar de lhes agradecer. Sou o que sou, sou quem sou, graças a eles. Nunca nada me faltou ou faltará no que deles depender. São ambos baixinhos, mas como pais, são os maiores. Terminei a volta ao quarteirão e volto a estar em casa. Sento-me novamente e, encharcado, olho o horizonte chuvoso e cinzento através da minha janela. Os veios que demarcam os quadrados do vidro já não me dizem nada. Tenho amigos, família e recordações. Vivo com intensidade e aproveito tudo o que a vida me proporciona. Sou diferente e gosto de o ser. Bens materiais não importam. São as experiências que nem a morte nos pode tirar. Sou um e não mais um. Recuso-me a ser como todos, a ser como querem que eu seja.  

domingo, 5 de agosto de 2012

Alcatraz Cap. III - Libertação

   "Cum caral...!", pensou quando viu Jack a arrastar um coxo qualquer de capacete para o meio dos corredores intermináveis de contentores abandonados. "Que problema arranjou este cabeça de autoclismo desta vez?". Sabia que aquele gajo tinha predisposição para a angariação de todo e qualquer tipo de problemas desde que lhe haviam morto a mulher e a mãe, mas a frequência começava a atingir números realmente preocupantes. Isto para não mencionar a lacuna terrível que tinha em relação à capacidade de passar despercebido. Era barraca atrás de barraca e sabia que daquela vez não tinha sido excepção, pois havia passado há relativamente pouco tempo pelo acidente entre o Peugeot e a mota, bem como, pelo aparato policial que o rodeava. "Perdemos o suspeito de vista por breves momentos durante a perseguição, mas foi o suficiente para que fugisse! Quando encontrámos a viatura, esta já se encontrava vazia e o suspeito, nem vê-lo!", estes comentários de um dos agentes no local, dispensava qualquer necessidade de explicação face ao sucedido.

Desabafos à parte, a decisão foi concentrar-se naquilo que tinha de fazer e aproximar-se dele sem ser visto, sob pena de entrar num beco sem saída e perder Jack ou até a sua própria vida. Subiu ao contentor mais próximo e silenciosamente foi saltando de um para outro até onde lhe foi permitido. As fileiras de contentores terminavam ainda a uns bons 10 metros de onde eles haviam parado. Viu o tipo de capacete ser encostado à parede sul do maior armazém das antigas docas e até lá, a cobertura era escassa. Não tinha quase onde se esconder entre o local onde se encontrava e o destino e para piorar tudo, ainda nem começara a escurecer.

Jack estava de cabeça perdida. O motard, já sem capacete via a sua cabeça atingir a parede, com uma delicadeza muito pouco característica, a sua face ser bofeteada e o seu abdómen, esmurrado como se o amanhã não fosse existir. Não fazia a mínima ideia de onde vinha aquela fúria, mas era perfeitamente visível que a vítima tentava dizer algo, mas não lhe era permitido, embora a pergunta "Porque o fizeste?", fosse repetida a cada golpe do agressor. Tinha que pará-lo o mais rapidamente possível, pois não queria que aquele desgraçado acrescentasse homicídio à sua lista de violações da lei. Saltou de cima do contentor e avançou até ao que restava do casco de um barco pesqueiro, uma das duas coberturas que tinha à sua disposição. Olhou-os novamente e nada se havia alterado, portanto, continuava incógnito. Agachado, em passada rápida e com uma cambalhota no final, parou atrás dos restos mortais de uma empilhadora, proveniente certamente de algum dos antigos armazéns. Moveu-se ligeiramente para olhar na direcção daqueles dois, quando a sorte lhe virou as costas. Um dos braços do veículo cedeu e caiu no chão com estrondo. Amaldiçoou-se mesmo sabendo que os únicos culpados do sucedido eram o tempo e a ferrugem. Ambos ficaram a olhar na sua direcção e Jack colocou o outro na sua frente e, prendendo-o pelo pescoço, sacou de uma arma escondida na zona do tornozelo e apontou-lha à cabeça. "Quem está ai?", perguntou ele bem alto e de forma fortemente hostil. Tentava raciocinar rápido e pensar em alguma forma lógica e segura de actuar. Já tentara ir contra as loucuras de Jack várias vezes e por duas delas, ele quase o matara por, fora de si e incapaz de qualquer raciocínio lógico, o acusar de também conspirar contra ele. Tendo em conta as anteriores circunstâncias, a cautela era peça indispensável ao plano. "Mostra-te!", continuava ele a gritar repetidamente e cada vez mais impaciente. Começou a pensar que talvez o melhor a fazer seria mostrar-se simplesmente, de braços no ar, e falar com ele apelando-lhe à razão, pois se tentasse algo que o fizesse sentir ameaçado, ai sim, a situação poderia tornar-se ainda mais complicada.  

  "Muita calma Jack! Vou sair de trás desta cangalha e vamos falar. Levo os braços no ar para te garantir que não pretendo fazer nada para te prejudicar.".
  "Kyle?! És tu?!" - recebeu de imediato a resposta ao ver surgir, de braços no ar, o amigo de longa data. Aquele cabelo ligeiramente grisalho e penteado para o lado dissipava qualquer dúvida que o timbre de voz tivesse deixado.
   "Jack, vais ter de largar esse gajo ou ainda o matas! Ambos sabemos que não és nenhum assassino. Vamos ao menos ouvir o que ele tem para dizer.".
  "O que ele tem para dizer? Como sabes que ele tem alguma coisa para dizer?E Vamos?Vamos?Que merda de discurso de equipa é esse? Tu que sempre me tentaste demover e atrapalhar em vez de ajudares!". - a careca brilhava com o suor que corria e o nervosismo era evidente no tremelicar negro dos seus olhos.
  "Sabes que sou verdadeiramente teu amigo e os amigos por norma tentam que os outros não se matem ou se prejudiquem por estarem cegos de raiva! Além disso tu não és nenhum exemplo de auto-controlo para achares estranho que te chamem à atenção pras cagadas que fazes, que só por acaso são mais que muitas. Por mais que uma vez me ias limpando o sebo e mesmo assim continuo aqui! Que diz isso sobre mim? - notou a raiva na sua voz mas não o conseguiu dizer de outra forma.
  "Que queres tu..." - tentou interromper.
  "Cala a boca que ainda não acabei. Pensa com a cabeça em vez dos pés pelo menos por uma vez que seja. Tu é merda atrás de merda, barraca atrás de barraca. Que tal fazeres as coisas bem feitas e começares realmente a tentar resolver as coisas em vez de as complicares? - via o careca cada vez mais nervoso, mas a sua expressão de raiva fora substituída por uma pensativa, logo, decidiu continuar - "Queres obter respostas às inúmeras perguntas que tens, mas não dás hipótese nenhuma a ninguém pa falar! Vê esse gajo que aí tens por exemplo. Eu a uma distância do caral...reparei que ele tava a querer dizer alguma coisa e tu não? Raios partam que, ou és muita cego ou muita estúpido! Pões-te a gritar tipo prostituta "Porquê? Porquê?", mas não deixas que te respondam! Pra quê a pergunta então? Explicas-me? Fod...-se que o animal é parvo!".

Jack estava sem palavras e ele ia aproveitando para se aproximar, um passo de cada vez. O conflito de ideias era evidente no olhar que ora lhe lançava, ora lançava ao chão. Conseguia ver perfeitamente que tinha sido bem sucedido no derrubar daquele muro de teimosia e ódio, mas ainda faltava convencê-lo a largar o outro e a ouvir o que teria para dizer. Estava a uns meros três passos dele e assim ficou por alguns minutos em que não deixou de ser observado. Uma brecha e diminuiu a distância para dois. Outra e apenas um os separava. "Afasta-te! Pensas que sou parvo?", ia a meio do avanço decisivo quando o grito o fez voltar a uns quatro de separação.

  "Que achas que vou eu fazer desarmado contra ti com um canhão desses pronto a disparar? Pensas que sou o quê? Algum James Bond cheio de truques? Só quero ajudar-te a interrogar esse gajo como realmente deve ser. Persuadi-lo a falar, nem que seja à força, mas dar-lhe realmente a chance de falar! Tás a perceber? Aquilo que tanto queres que ele faça desde o início, mas nunca lhe deste a oportunidade pra tal? Para além de te querer ajudar não quero mesmo mais nada, por isso, se me queres realmente daqui pra fora e te achas capaz de tudo sozinho diz-me já, que eu viro costas e borrifo-me pra isto tudo, porque já tou farto das tuas birras e ameaças. Então? Como vai ser?".

Ele hesitava em responder e era claramente evidente a confusão que lhe afogava o pensamento. A expressão do prisioneiro ia variando de receoso para apavorado conforme a intensidade dos apertos que o seu pescoço sofria. Também ele notara há muito a instabilidade emocional do seu captor.

  "Ok Kyle. Fazemos à tua maneira. Acho que já perdi o controlo de mim próprio há muito tempo, por isso, acho que ter-te como apoio é a melhor solução. Aproxima-te." - baixou a guarda em simultâneo com a última palavra proferida - "Desculpa." - disse quando o grisalho lhe apoiou a mão no ombro.
  "Esquece isso por agora e vamos ao que interessa." - respondeu enquanto virava a sua atenção para o cativo. 
  "Chamo-me Vincent, porra!" - gritou mal levou uma galheta acompanhada da pergunta do nome.

O seu joelho esquerdo estava completamente arruinado. Tanto que quase não se aguentava de pé. As dores que sentia estavam claramente expressas na sua face e olhar verde. O cabelo curto e castanho davam-lhe um aspecto de adolescente, somente perturbado pelas rugas de expressão muito evidentes.
  "Para quem só usaria a força em último caso, começaste bem, não Kyle?".
  "Tavas a tentar fazer uma piada? Não sei então porque não me tou a rir!" - virou-se para o outro - "Agora explica-me. Se não trabalhavas para o Vas e nunca tiveste nada a ver com esse cabr..., porque foste atrás da família do Jack? Porque os mataste? Sim, porque nós conhecemos todos os associados desse gajo e tu não fazes parte deles! O único que ainda não sabemos quem é, é o chefão, mas havemos de descobrir, com ou sem a tua ajuda."
  "Não faço parte dos vassalos dele, nunca fiz e, só por acaso, já ninguém faz, porque eu matei o filho de pu...ainda há pouco!" - ficaram os dois esparvoados com o que acabavam de ouvir -  "A única coisa que ainda preciso de fazer é pedir desculpa ao Jack...desculpa de algo que eu sei que não pode ser desculpado! Desculpa Jack, mas fui obrigado a matar a tua família para salvar a minha. O Vas apanhou-os numa altura em que eu trabalhava como assassino a contrato e me recusei a trabalhar para ele por querer envolver inocentes, por querer que eu matasse a tua mulher, a tua mãe, o teu filho! Fê-los reféns e ameaçou matá-los se não fizesse o que me mandava! Acabei por ceder!" - Jack tremia e cerrava os punhos enquanto ouvia - "Nunca te perguntaste o porquê de o teu filho ter sobrevivido? Vi nele o meu próprio e não fui capaz! Fechei-o no quarto para que não visse a barbaridade que faria em seguida! Que idade tem ele agora? Cinco anos, certo? O meu teria a mesma idade se fosse vivo. - olhou para o chão enquanto pronunciou as últimas três frases e em seguida olhou Jack. Ambos tinham as lágrimas nos olhos - "O Vas descobriu que eu mentira e que o teu filho estava vivo, então enviou metade dos seus homens atrás de mim. Apanhado de surpresa pouco pude fazer, embora ainda derrubasse um ou dois. Levaram-me para um barracão que não faço ideia de onde fica, pois fui vendado, e amarraram-me a uma cadeira. Trouxe a minha família para a minha frente e obrigou-me a vê-lo matá-los. Gritou o tempo todo comigo a dizer "Vês como se faz? Vês?" e depois ria-se com a maior das satisfações. Para ele, inocente ou não, é fácil matar. Matou a minha mulher e o meu filho de quatro anos. No fim, enquanto eu gritava e chorava de desespero, ele aproximou-se e cortou-me estes dois dedos." - ergueu a mão para que eles vissem - "Disse que era um dedo por cada membro da minha família que eu condenara." - Kyle estava duplamente impressionado, em primeiro, com o auto-controlo de Jack que quase não movera um músculo desde o início e com o imenso sofrimento que ecoava daquele homem com cada palavra proferida - "Agora não há mais nada que me prenda a este mundo. Matei o assassino da minha família e pedi desculpa pelo maior sofrimento a que se pode sujeitar alguém. Libertei-me e tou pronto pra morrer. Força Jack! Faz o que tens a fazer! Liberta-te tu também!".