segunda-feira, 22 de outubro de 2012

The Way Of Fear: Cap. I - Straight to Nowhere

  "Como é pessoal? Parecem assustados! Que se passa? Hahaha!" - disse Pedro, sacando algumas risadas dos que o acompanhavam.
  "Tamos muito engraçados, tamos! Tava a ver que nunca mais chegavam. Devem andar a perder qualidades." - respondeu Rui num tom de voz que não era totalmente de brincadeira.
  "Nada disso mano. Cuidado ai com o coração!" - mais uma onda de riso, desta vez provocada por Ricardo.
  "Vá lá pessoal, vamos a atinar e..."
  "Cala-te...Cof...Cof..." - o penteadinho foi interrompido por mais uma brincadeira dos colegas.
  "Parece que vou ter de desatar ao estalo, senão vocês não se calam! - tentou disfarçar um sorriso - Bom, continuando, vamos lá abrir essa porta e encontrar um sítio para nos organizarmos com calma e vocês nos explicarem o que se passou e como vieram parar a tão longe do local da vossa missão, para não falar de que quero sem dúvida saber donde vêm estas coisas que acabámos de matar." 
  "Sim paizinho!" - gracejou novamente Pedro ao dirigir-se à porta, mas não sem antes ser atingido por uma palmada na nuca, o que no entanto, não impediu a vaga de riso, agora de todos os presentes.

"Bam", um tiro da curta caçadeira e uma porção da porta estilhaçou por completo possibilitando agora a passagem para o interior do edifício. Bruno assumiu a dianteira e guiava o grupo pelos corredores desertos e degradados, enquanto Ricardo guardava a retaguarda. As paredes resumiam-se a tons de cinzento, ora mais claros, ora mais escuros, conforme o tamanho dos inúmeros buracos que as preenchiam. Havia zonas em que até o tecto parecia estar a esfarelar ao ponto de poder ceder a qualquer momento. Era rara a porta que ainda se mantinha de pé e, como precaução, embora o silêncio fosse absoluto, certificavam-se sempre de que não havia nada nem ninguém nas divisórias por onde passavam. Não queriam ser surpreendidos. Escolheram uma divisória próxima da porta das traseiras, um ponto de fuga caso acontecesse algo, e pararam para relaxar um pouco e falar sobre a situação. O ambiente era tenso e assustador, com qualquer som a ecoar de tal forma que parecia fazer o triplo do ruído.

  "Vamos então ao que interessa. - disse Filipe determinado - Mandaram-nos aos três para o meio de um qualquer bosque para salvarmos um grupo de novatos que tinham sido descobertos durante a missão que lhes tinha sido delegada e feitos prisioneiros. Quando chegámos perto do edifício marcado, que mais parecia um hospício, pelo menos visto do exterior, reparámos no que parecia ser uma multidão a rondar a zona. Do nada, quase como se nos tivessem cheirado, voltaram-se na nossa direcção e começaram a atacar-nos. Nos procedimentos de defesa constatámos que a sua constituição era de carne putrefacta, se não na totalidade, estava muito próximo disso, e que somente os que eram atingidos na cabeça permaneciam no chão. Penso que mortos não será a forma ideal de me expressar pois, na minha terra aquelas coisas são zombies e mortos já estão, mas sempre pensei que não existissem tais criaturas. Vocês sabem afinal o que se passa aqui?"
 "Primeiro... - interrompeu Pedro na altura que Miguel ia começar a falar - ...convém que nos conheçamos todos, certo? Quem é a tua amiga Lipe?"
  "Eu sou a Ângela e estou aqui, logo não precisas de perguntar essas coisas a terceiros. Prazer..."
  "Gosto Filipe, gosto do estilo! - ela lançou-lhe um olhar fulminante - O prazer é meu Ângela. Eu sou o Pedro, este certinho é o Miguel, o batoco é o Bruno e aqui o adubado é o meu irmão Ricardo. - foram-lhe acenando com a cabeça pela ordem de apresentação, às quais ela retribuiu de forma bastante mais cordial do que a Pedro - Agora já podes falar."
  "Boa Pedro, sempre a criar boas primeiras impressões. - deu mais um dos muitos toques que dava para ajeitar o penteado e recomeçou - Nós também não fazemos ideia do que se passa ou de onde estas coisas vêm. Estamos aqui simplesmente porque recebemos o pedido de auxílio do meu irmão. Nem sequer sabíamos o que estavam aqui a fazer, nem o que íamos encontrar. Vocês sabem por acaso qual era a missão dos outros?"
  "Penso que eles estavam aqui para capturar informações sobre umas investigações obscuras de uns quaisquer doutores. Coisa fácil, num local quase sem segurança. Não sei muitos pormenores porque não nos foram dados, mas basicamente foi isto."
  "Se era coisa fácil e sem grande importância ao ponto de enviarem novatos, então porque não vos disseram ao que vinham? Não faz sentido! Porque se preocuparia o governo com algo que não fosse importante e lucrativo? Isto há aqui muita coisa por descobrir. Acho que devíamos voltar  ao tal hospício." - manifestou-se Ricardo.
  "Concordo." - retorquiu Bruno.
  "Todos concordam? - sinais afirmativos de todas as direcções - Boa, então, vamos a distribuir o equipamento que vos trouxemos e vocês, como já lá tiveram, lideram a matilha." - Miguel fez sinal para que se mexessem e desta vez o seu grupo ia atrás do de seu irmão.

Um barulho enorme ecoou através dos corredores e todos estacaram tentando descortinar a direcção do mesmo, o que se mostrava quase impossível. Parecia vir de um lado cujo era composto apenas por ferro e betão, mas isso não era minimamente lógico. Os seus ouvidos estavam a ser enganados pelo ribombar do som entre aquelas paredes. Começaram novamente a avançar, mas desta vez muito mais lentamente e alerta. A dada altura Bruno prendeu o ombro a Pedro com a sua mão e tocou com o cano da arma em Ricardo, fazendo-lhes sinal que aguardassem e dando um toque de cabeça na direcção da parede mesmo a seu lado. Ficaram um pouco para trás sem que os outros dessem por isso, enquanto Bruno colava o ouvido ao cimento. O baixinho deu um ligeiro assobio que captou a atenção do resto do grupo que parou em espera. Ele e o irmão aguardavam sobre tensão alguma reacção da parte do colega, cuja não demorou a chegar.

"Merda...afastem-se..." - gritou, afastando-se da parede e saltando para o lado, acompanhado pelos irmãos que reagiram prontamente.

Alguma coisa tinha irrompido pela parede, mas não era possível ver o quê. A poeira que pairava no ar bloqueava completamente a visão para além daquele ponto do corredor. Quando começou a assentar, eles não conseguiam acreditar no que viam. Para além de estarem separados do resto do grupo por um monte de destroços que bloqueava o caminho, uma figura gigantesca começava a dar os primeiros passos na sua direcção. Com aquela cabeça estranha em forma de pirâmide quase a raspar o tecto, a pele branca de morte, tapada por uma vestimenta que só talhantes ou carrascos usariam e umas mãos enormes com dedos gigantes donde se evidenciavam garras enorme que brilhavam como lâminas, era deveras imponente. Os passos da besta começaram a tornar-se mais rápidos à medida que eles recuavam e isso não agourava nada de bom. No meio da tensão, Bruno adiantou-se aos amigos e começou a disparar. Alguns tiros atingiram o corpo do bicho, o que não pareceu magoá-lo minimamente, mas a maioria ricochetearam na cabeça metálica, servindo isto apenas para o irritar e o fazer investir em corrida.

  "Isso não foi uma boa jogada! Corram..corram! - Pedro começou a correr, soltando um tiro de caçadeira para trás, sabendo de antemão que seria inútil.
  "Que merda é esta meu? Esta coisa é ao menos real? Porque é que não fiquei em casa, foda-se!" - dizia Ricardo, soltando também umas rajadas enquanto fugia.

A criatura gigante corria agora atrás deles, desfazendo paredes com as próprias mãos e por vezes, simplesmente com o impacto do corpo animalesco, enquanto a ponta mais alta da sua cabeça rasgava o tecto como se fosse papel. Eles aceleravam na sua frente, virando para um corredor atrás de outro, completamente ao acaso em busca de uma saída, visto não lhes ter sido possível enveredarem pelo caminho que conheciam. Procuravam uma porta para o exterior, uma janela, umas escadas para trocarem de piso. Qualquer coisa que lhes permitisse saírem da rota de colisão com o bulldozer que os perseguia impiedosamente, visto que tudo com que se depararam no percurso que pudesse ser uma saída, estava bloqueado com camadas e camadas de sólido betão, cujo não tinham tempo para destruir. O ruído provocado pela destruição que lhes mordia os calcanhares era cada vez maior e mais próximo, mais parecendo bombas, explodindo umas trás das outras.

  "Já fomos! Já fomos!" - Bruno desesperou em consonância com os amigos quando viu que tinham virado para um beco sem saída.
  "Não pode acabar assim! Todos..." - Pedro deu o mote e todos deram tudo o que tinham na tentativa de derrubar aquela camada de cimento que os impedia de continuar.

O perseguidor já assomara ao início do corredor e, quando uma mera dúzia de metros o separava deles, ainda a parede tinha somente uns meros arranhões.

No outro lado dos escombros os restantes membros do grupo não faziam ideia do que se passava. Começaram por ouvir uma barulheira incrível, que com o tempo foi diminuindo até desaparecer. Desde então, nem sinal dos companheiros e o silêncio era total.

  "Não podemos ficar aqui mais tempo. Temos que os ir procurar. Estarmos para aqui a gritar o nome deles sem resposta e sem saber o que se passou não adianta de nada." - disse ela, que no momento parecia a única a manter o raciocínio, talvez por ser a que tinha menos ligação com os desaparecidos.
  "Claro...claro! Tens toda a razão, mas daquilo que já vimos, acho que não há treino para este tipo de coisas. Acho que já nem sei se isto é real ou não...acho que já não sei como reagir." - Rui quebrou a apatia dos homens.

Não foi preciso, nem possível, mais conversa, pois a porta das traseiras colapsou de repente e os zombies começaram a invadir o corredor. Os ávidos canibais começaram a ser dizimados por um tsunami de chumbo que lhes explodia as cabeças, espalhando massa cinzenta por todo o lado. Eram tantos que tiveram de recarregar umas poucas de vezes as armas, mas chegaram a um ponto em que se encontravam totalmente coordenados e nunca havia mais do que um a necessitar recarregar. Momentos depois, com litros de sangue espalhado por todo o lado, misturado com entranhas em pinturas rupestres pelas paredes, a invasão terminou. Sem articularem palavra saíram para a rua e correram para contornar o edifício rapidamente até à porta onde tinham entrado inicialmente de forma a iniciarem as buscas pelos companheiros. Iam a meio do caminho quando uma espécie de buzina rouca se fez ouvir por todo o lado, mas nem sequer pestanejaram, continuando a correr. Preocupar-se-iam com isso mais tarde, se assim vissem ser necessário.

Encostaram-se os três à parede e só faltava olharem uns para os outros para se despedirem antes de abraçarem a morte quando o gigante parou a meio o golpe descendente das suas garras. Uma qualquer buzina fez-se ouvir e a criatura parou, virou-lhes as costas e abandonou calmamente o local. Deixaram-se cair de rabo no chão e ficaram a olhar uns para os outros completamente espantados pelo sucedido. Não faziam ideia do que se tinha passado e só podiam encolher os ombros, mas ninguém podia imaginar a felicidade que sentiam em que assim fosse. Não passaram mais de cinco segundos até desatarem os três a rir à gargalhada.
  

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

The Way Of Fear: Prólogo

  "Corram! Corram".
  Já haviam passado horas e horas em fuga, a munição aproximava-se perigosamente do fim, os poucos mantimentos que não tinham perdido na correria já se haviam esgotado e já só lhes sobrava meio cantil de água. Filipe com a sua Sniper não conseguia ser muito eficaz face à proximidade dos intermináveis mortos-vivos que surgiam de todos os lados. A luz da lua mal conseguia penetrar através das copas das inúmeras e volumosas árvores que compunham aquele bosque e isso também não ajudava em nada. Rui Pedro surgiu na sua frente e começou a despachar aos três de cada vez com a sua caçadeira de combate, enquanto Ângela cobria as laterais disparando alternadamente com as suas duas pistolas. Tinham de ser certeiros, pois só os tiros na cabeça os impediam de se erguer novamente.

  "Já vejo a cidade ao fundo! Temos de nos pirar daqui rápido e pedir ajuda porque o nosso tempo está mesmo a acabar!" - gritou Rui aos colegas.
  "Então antes que a minha menina cante...corram o mais depressa que puderem." - Filipe disse isto enquanto tirava a cavilha de uma granada e a lançava no meio da multidão macabra.

A explosão foi imponente, barulhenta e destrutiva. Enquanto corriam na direcção da luz das ruas, pedaços de braços, pernas e cabeças caíam a seu lado, projectados a longa distância pela intensidade do cantar da menina. Depararam-se com uma ribanceira e os homens seguiram de imediato a mulher que nem sequer hesitou em saltar e rebolar por ali abaixo.

Lá bem no alto, quatro indivíduos saltavam de um avião e apressavam-se a tomar uma posição de seta por forma a acelerarem a descida até ao solo. Encontravam-se completamente vestidos de preto, capacetes que cobriam completamente cabeça e face, possuindo todos uma viseira reflectora cor de laranja. Todos eles vinham extremamente bem armados. Um gesto de um deles quando já avistavam o chão bem perto e adquiriram uma formação que os colocava alinhados lado a lado, precisamente ao mesmo nível durante o voo. A cidade era cada vez maior no reflexo daquelas viseiras.

Já caminhavam no alcatrão confrontados com o que era um caos terrível. Incêndios, gente morta, tudo completamente destruído por todo o lado.

  "Que raio se passou aqui? Era suposto virmos salvar um bando de novatos que tinham feito asneira e comprometido uma missão para bebés! Que vem a ser isto afinal? Esta gente morta que se ergue de novo, agora isto, tudo virado do avesso? Vamos é embora daqui, porque digo-vos já que isto é muito maior do que nós." - disse ela.

  "Acho que devíamos investigar! Sair daqui assim e deixar tudo para trás como se nada fosse? Não consigo...não posso! - disse o dono da shotgun.
  "Eu concordo com ela! Se aqui ficarmos, em pouco tempo seremos mais três carcaças ambulantes dessas que nos perseguem. Ninguém vai querer saber de nós..."
  "Cala-te...eles vão vir... eu sei que..." - foi interrompido por um número indeterminado de gemidos distorcidos.
Olharam em redor e estavam completamente cercado de zombies sedentos. Por muito lentos e burros que fossem eram demasiados para que eles pudessem furar fosse que parte fosse daquele cerco. A única saída que tinham foi vista por ela que os avisou de imediato. Alguns metros atrás deles uma porta semiaberta apresentava a única fuga possível para o interior de um edifício. Por muito que houvessem mais daquelas coisas lá dentro, as hipóteses eram muito melhores. Passos lentos e cautelosos passaram a uma passada acelerada e terminaram numa corrida pela vida quando as criaturas investiram. Muitos se tentaram interpor no caminho sem sucesso, mas quando Rui, já sem munição, tentava quebrar a corrente que bloqueava a porta por dentro, também uma das pistolas de Ângela secou.

  "É melhor que te despaches piço! Não aguentamos muito mais! É o último carregador dela e eu devo ter mais uma meia dúzia de balas."
  " Tou a fazer o melhor que posso! - ergueu-se e pontapeou a porta duas vezes sem efeito - Esta merda é que nem vacila. Sem as minhas ferramentas vai ser complicado."
  "Merda! É que nem sequer tenho tempo de me virar pa lhe espetar um balázio."
  "Cuidado! - um tiro para a área que ele deveria cobrir - Concentra-te." - gritou ela.
  "Obrigado! Rui...rápido...muito rápido!"

A munição da sniper terminou e a da pistola também. Começaram os três aos pontapés à porta mas a corrente era demasiado grossa e resistente e teimava em não ceder. Os monstros estavam já demasiado próximos e o desespero apoderara-se deles ao verem a morte chegar. Ainda sacaram das facas para lutarem até às últimas forças, até que de repente uma saraivada de balas chegou do céu negro. Quatro tipos de negro e de capacete caíram à frente deles de para-quedas e, armados até aos dentes, começaram a despachar a manifestação zombie com uma rapidez assombrosa. Foi uma questão de segundos até se estabelecer um silêncio total após a queda da última criatura. Soltaram-se dos para-quedas e retiraram os capacetes antes de se voltarem para os três que haviam salvo.

  "Quem são estes gajos?" - perguntou ela.
  "São os nossos manos...graças a deus!" - responderam os dois em uníssono.

Pedro, o mais baixo, com a sua Colt numa mão e caçadeira de canos serrados na outra, Ricardo, o seu irmão, o mais alto do grupo com duas Uzis, Miguel, irmão de Rui, o mais ponderado e penteadinho, com a sua M16 e Bruno, o mais entroncado, com a sua metralhadora peso pesado, M60, tinham chegado para se juntar à festa.


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Death by my Fingertips: Cap. II - Sorriso de morte

  Estou novamente no meu covil, enrolado como um feto no ventre materno e rindo da emoção da noite anterior. Olho a água ensanguentada que resta do meu banho e não contenho o suspiro de prazer. Levanto-me vagarosamente e espreguiço-me enquanto penso em novo deleite para o serão que me aguarda. O meu corpo anseia por mais, muito mais. Todo aquele sofrimento, aquela dor, aquele olhar de agonia que trespassava o meu, o vermelho vivo e doce que me banhava as mãos, desejo tudo de novo mas ainda mais intensamente. Tenho consciência dos erros cometidos e do final horrendo e precoce que me aguarda, mas essa visão apenas consegue aumentar o meu desejo, a minha sede. Ela simplesmente me deixa ansioso pela sua chegada por forma a sentir todo o seu esplendor, toda a dor suprema, proporcionada num fim pelo qual dei tudo e trabalhei arduamente. Saio para o meio do nevoeiro de fim de tarde e percorro vários metros acompanhado pelo som da minha gargalhada sonora, cuja ainda ecoa por entre as paredes do meu antro.

Entro no terceiro café consecutivo sem consumir seja o que for, embora no primeiro estivesse um grupo de três raparigas que guinchariam que nem porcas quando as começasse a mutilar. Sorri discretamente na direcção delas e uma, loira e de olho azul retribuiu-me o gesto. Embora ainda esteja excitado de pensar naqueles olhos fixados em mim, não me sentia com vontade de iniciar para já a minha prática em grupos. Horas passaram e já vejo as pessoas juntarem-se para jantar, no entanto, eu continuo no mesmo café, no mesmo banco, observando tudo e todos. A chuva começa a cair e vejo uma figura aproximar-se, a correr e com uma revista a tapar-lhe a cabeça. Mal entra, joga a revista no lixo e torce os cabelos loiros para expulsar a água. Que movimento tão suave! Porquê? Porquê puta? Porque têm de ser todas tão delicadas? Recupero a visão após o ataque de fúria que me fez tapar a face com ambas as mãos e ela está a olhar para mim. Naquele momento soube que era ela a mulher escolhida, a mulher que me olhara nos olhos pela segunda vez naquele dia com aquele brilho azul. Ela pede um expresso longo, bem quente e com um pouco de natas. Reparo que é canhota quando a vejo mexer o café com a direita e atrapalhar-se, trocando para a esquerda. Aproximo-me e, delicadamente, peço para me sentar. Envergonhada diz-me que sim. Toda aquela beleza me fazia refém, mas não consigo evitar o calor infernal que sinto, tal é a raiva que sinto perante tal pureza e inocência. Acabo de me sentar e ela entorna um pouco do café sobre a mão. O pequeno grito que deu foi tão bom. O potencial que teria para me satisfazer estava mais do que comprovado. Pego-lhe na mão e limpo-a olhando-a nos olhos. Levanto-me e puxo-a até ao lavatório onde lhe coloco a mão debaixo da água corrente. O obrigado que me lançou quase derrubou os frágeis alicerces da minha contenção. De regresso ao nosso lugar, aproveito o momento e sento-me no mesmo banco comprido que ela. Há silêncio. Deixo que se prolongue durante alguns segundos para que o meu olhar seguro e quente faça efeito. Em seguida quebro o silêncio com um discurso elegante, numa linguagem floreada e figurativa, elevando para outro nível o meu típico comportamento enganoso e manipulador. Convenço-a a fazer a minha vontade e cativo-a cada vez mais no sentido de ser selvagem. Faço-a crer que tudo o que faremos será com benefícios mútuos e que, talvez, até seja ela a mais beneficiada. Mentira. Eu como ser superior serei o único beneficiado e tudo me será permitido. Completamente iludida beija-me e eu retribuo com um ódio de morte disfarçado como o amor de uma vida. Saímos os dois para o frio e quase sinto a água da chuva evaporar ao tocar a minha pele que ferve de excitação. Ela manda parar um táxi e ordena o condutor na direcção de um qualquer hotel que desconhecia. Isso não fazia parte dos meus planos e portanto, não iria acontecer. Sem que o taxista se aperceba, aplico um golpe na nuca da minha companhia pondo-a inconsciente e recosto-a no banco como se estivesse a dormir. Aproveito o momento em que estamos a atravessar uma rua deserta e peço-lhe que imobilize a viatura para que eu possa aliviar uma bexiga à beira do colapso. Simulo a intenção de abrir a porta e como um relâmpago, com uma lima enorme tirada da mala da loira, ataco o tipo, furando-lhe a garganta. Repito o movimento várias vezes até que pare de se mexer e deleito-me com o espalhafate, sem retirar a arma do pescoço da vítima. Não paro de rir desde que o tiro do carro até que fecho a bagageira com o cadáver no seu interior. Apodero-me do lugar do condutor e arranco na direcção que realmente quero.

Pouco tempo passado e ela já recuperava. Observo todo o seu estado de confusão pelo espelho enquanto nos aproximo cada vez mais do destino. Atordoada pergunta-me o que se passou, o que foi feito do taxista, o que faço eu ao volante, onde estamos. Estúpida de merda! Como quer que lhe responda se continua com perguntas, umas atrás das outras? Se ao menos a beleza correspondesse ao grau de inteligência, seria quase tão brilhante como eu. Mando-a calar com um berro e digo-lhe que em breve lhe contarei a história do Sr. Condutor, mas que agora estamos a chegar a um lugar bem melhor que a trampa de hotel fino que ela escolhera sem me consultar. Ela olha assustada para mim e repara no sangue que me mancha. Em pânico lança-se ao meu pescoço, apertando-o no preciso momento em que paro o carro. A dor que me estava a infligir e o medo estampado na sua expressão eram uma lufada de ar fresco. O jogo de prazer começou.

Mordo-lhe uma das mãos, enterrando bem os dentes na carne e ela larga-me. Espeto-lhe com a cabeça contra o volante, activando a buzina um par de vezes e saio do carro quando ela já quase não se mexe de tão atordoada. Tiro-a para fora, coloco-a estilo saco de batatas e dirijo-me para o meu barracão de instrumentos, improvisado no que restava de uma casa ardida há muito e bem longe da humanidade distorcida das cidades. A solidão é a única coisa que odeio nestas distâncias e que quase me enlouquece, mas até isso já estou a resolver para que o meu mundo seja perfeito. Já no interior prendo-lhe os pulsos e os tornozelos com os grilhões que tenho numa das paredes. Ela esperneia, chora, grita, implora. Eu sorrio, gozo, chicoteio-a, excito-me. Rasgo-lhe as roupas à bruta e exponho totalmente aquele corpo divinal. Se tivesse capacidade de algum dia sentir culpa, talvez aquela fosse a situação de que me iria recordar por ter estragado tal obra de arte. Abocanho-lhe as mamas e começo a chuchar e a morder. Quando o líquido vermelho dos deuses começa a tocar os meus lábios, a minha língua percorre os mamilos, não desperdiçando uma única gota. Ela chora compulsivamente e guincha com dor e é ai que a penetro. Obrigo-a a ser ela a movimentar-se e quase lhe arranco a pele das costas de tal força que aplico na ponta dos meus dedos. A uma cabra tão boa não possuo, fodo. Começo a aplicar uma força tal e a dar tamanhos esticões, que tanto pulsos como tornozelos se mostram negros e prestes a partir. Não quero perder a oportunidade de ouvir um uivo daquela boquinha e prendo-a pela cintura jogando todo o meu peso para trás. O ruído dos ossos a partir e o som agonizante libertado por ela deixam-me louco e começo a tremer como da primeira vez. A minha sede de sangue triplica, acompanhando a minha necessidade de provocar sofrimento. Tenho fome. Pego numa espécie de bisturi e começo a abri-la à retaguarda ligeiramente abaixo das costelas. Misericórdia. É o que me quer pedir mas a voz perde-se-lhe no meio do terror. Os meus ouvidos quase rebentam, não só do êxtase, mas também da intensidade vocal. O sangue que bolsa por cima das minhas mãos para fora do corpo é uma visão incrível. Com muito cuidado separo a pele com os dedos da esquerda e com a direita procuro o que pretendo. Não é difícil e rapidamente o tenho cá fora. Um rim novinho e fresco, o qual devoro com enorme prazer, mas não sem antes lho mostrar. Os olhinhos dela fixos em mim, ausentes de tudo à excepção de sofrimento e desespero, puseram-me à beira da explosão. Que assombro de prazer. Que sensação tão perfeita. Que tesão. Não posso perder o momento. Aproximo-me dela e dou-lhe dois ligeiros golpes desde os cantos da boca até às orelhas dos respectivos lados e aprecio pela ultima vez e bem de perto aquele azul. Beijo-lhe a testa como sinal de respeito a alguém que está prestes a partir e começo a puxar os grilhões de forma a que fique suspensa no tecto mesmo por cima de mim. Os traçinhos vermelhos que tinha em ambos os lados da face, pareciam quase feitos de maquilhagem, de tão finos e perfeitos que eram. Vou buscar um maçarico e começo a queimar-lhe o tronco. Ela torce-se e tenta não gritar, mas todo o esforço é em vão e o grito surge em simultâneo com o cheiro doce da carne assada. Nesse preciso momento em que a boca se lhe abre, a carne rasga até às orelhas pelo trilho dos golpes. Abre-se um belo sorriso de palhaço à minha frente e ela desmaia com a dor. Cabra de merda! Também tu a deixares-me a meio? Começo a queimá-la entre as virilhas e ela acorda de imediato. Largo então o utensílio que tenho em mãos e vou buscar o bisturi novamente. Solto os grilhões e ela cai desamparada a meus pés. Começo a dar-lhe no rabo à besta e a repuxar-lhe a pela queimada. Apesar da dor excruciante, ela não consegue gritar, mas sinto-lhe os músculos a contrairem-se em espasmos descontrolados. Começo a vir-me dentro dela e nesse momento dou-lhe um corte por baixo do queixo e puxo-lhe a língua para baixo. Fazia uma gravata bem bonita no meio de uma corrente líquida e púrpura. Já satisfeito pontapeei-a e ali a deixei já quase sem vida. Não duraria muito mais tempo com o sangue que perdera e que estava ainda a perder.



 A cheirar a morte e a queimado, volto a entrar no carro. Ia aproveitar o que restava da noite para me ver livre da viatura e voltar a casa para meditar.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sem escape Cap. IV - A primeira vez que morri

  Uma dor de cabeça terrível acompanhou o meu despertar. Lembrava-me de ver a porta a voar na minha direcção e nada mais. Não fazia ideia se tinha ou não sido atingido pois, para além da enxaqueca, apenas sentia uma ligeira impressão nos pulsos e nos tornozelos. Abri os olhos a medo, mas não vi nada. Estava envolto em escuridão e comecei a sentir-me a flutuar. O meu corpo encostou-se a algo que, como tudo o resto, não conseguia ver. Senti braços e pernas a abrirem sem a minha ordem, como se tivesse sido pregado a algo e soube de imediato que estava pendurado, pois tinha de fazer força para que a cabeça não me pendesse. Comecei a debater-me. Esperneava e contorcia-me tentando quebrar o que quer que fosse que me estivesse a prender. Gritava e chorava, perdendo completamente o controlo sobre as minhas emoções. Compreendia cada vez menos o que se estava a passar, ou melhor, tinha cada vez mais a noção da minha ignorância e consequente impotência. Os meus movimentos para me soltar eram totalmente infrutíferos pois, para além de limitados, o aperto aumentava a cada segundo que passava. Apesar disto e de não saber para onde cairia no caso de me soltar, não desisti e forcei o máximo que pude. Prendi a respiração e apliquei toda a minha força, ignorando toda e qualquer dor que advinha do processo. Sentia as veias pulsarem por todo o meu corpo, as gotas de suor a nascerem de todos os meus poros. Repeti o processo até à exaustão e a cabeça pendeu-me. Certamente teria os pulsos e tornozelos feridos, pois sentia algo escorrer até aos dedos e no meio do total silêncio, o som do gotejar. Passou tanto tempo que o cansaço e a dor, juntamente com a perda de sangue, me começavam a retirar a consciência. Era demolidor o esforço para aguentar o peso da cabeça e das pálpebras. Lancei um par de vezes a cabeça para trás para que a dor da pancada me ajudasse a resistir. Tinha que fazer tudo para me manter consciente. Não podia ceder. Não pod...i..a...

Aaarrrgggghhhh...uma dor excruciante fez-me voltar a mim. Sentia a carne a rasgar no meu abdómen e um ar gélido percorrer-me as vísceras. Era de tal forma insuportável que me senti a desfalecer novamente. O meu pensamento toldava para além de qualquer crença quando um puxão no pescoço me colou a cabeça à estrutura que tinha à retaguarda. Sem perceber como, algo me impedia de desmaiar novamente, obrigando-me a suportar toda aquela dor indefinidamente. Tentava dar um ritmo à minha respiração que me permitisse aguentar um pouco melhor a tortura, se é que isso fosse possível, quando um novo golpe, ainda mais violento que o primeiro, me tomou o peito de assalto. Gritei aos soluços ao mesmo tempo que voltei a chorar de desespero e agonia. A vontade de vomitar surgiu, mas depressa se desvaneceu perante a angústia proporcionada por novo corte, este mais lento e profundo na zona da coxa. Ainda antes deste terminar, surgiu outro, e outro, e outro. Não havia zona do corpo intacta e eu já não tinha voz para gritar, limitando-me a chorar compulsivamente. Sentia um intenso cheiro adocicado proveniente de sangue e o gotejar inicial assemelhava-se agora a uma torneira corrente. O meu pensamento divagava entre duas coisas apenas, sem estabelecer qualquer ordem, nexo ou objectividade e essas coisas eram simplesmente, dor e morte. Sem razão, a dor começou a ser acompanhada de um ardor terrível e o meu corpo reagiu com espasmos violentíssimos. Gravemente ferido, os movimentos bruscos e involuntários só contribuíam para aumentar ainda mais o meu sofrimento. Desde o começo que tinha a sensação de estar a evoluir progressivamente na escala da loucura, mas agora, que começara a rir à gargalhada perante tal castigo, sem no entanto expulsar qualquer som da garganta, tinha a certeza absoluta.

Senti algo extraordinariamente forte que me fez abrir os olhos há muito cerrados e vi-me no quarto do Rafael. A escuridão havia desaparecido e não tinha quaisquer ferimentos, mas as dores permaneciam. A minha mente contorcia-se em tormento, mas o corpo estava renovado. Comecei a ver o quarto alterar-se lentamente e a voltar ao caos de quando entrei pela janela. As paredes pareciam escamar enquanto voltavam ao tom amarelado. O meu instinto levou-me a virar as costas a este acontecimento e a olhar o corredor. Os ferimentos que não paravam de me relembrar da sua existência, agora somente psicológica, deram-me uma tontura momentânea, o que quase me derrubou, mas quando realmente vislumbrei todo aquele comprimento e aquele tecto, isso sim me faria tombar, não tivesse eu aproveitado o amparo da parede mais próxima. Não queria acreditar no que via. As dúvidas face à minha sanidade mental aumentavam a cada segundo e aquela segunda visão de morte, completamente diferente da primeira, só piorava a situação. Esfreguei os olhos e aproximei-me para ver melhor. Novamente a estúpida atitude de confirmar aquilo que sabemos ser certo. Aquilo não era possível. Não podia ser. Quis vomitar mas não consegui. Estrebuchei e a boca nem se me abriu. Aquela coisa que se assemelhava ao meu corpo não respondia a ordens nenhumas a não ser para se deslocar de um lado para o outro e a minha mente contorcia-se cada vez mais sem a capacidade de se exprimir e libertar. Aquilo que se deslocava pelo corredor não era eu, ou melhor, não era eu fisicamente. Enraivecido comecei a bater em mim próprio mas não sentia nada. Corri feito louco jogando-me contra as paredes, por vezes embatendo violentamente de cabeça, mas o resultado era nulo. Não sentia nem a mais pequena picada até que se deu uma explosão no meu cérebro e me estatelei no soalho. Fiquei mesmo por baixo da criatura pregada ao tecto. Criatura essa que era eu. Via-me a mim próprio no lugar que pertencera à minha esposa, também eu gravemente ferido e pintando o chão de vermelho...pintando-me a mim de vermelho. Tremi de medo, de raiva, de frustração. Olhei novamente e em simultâneo com a dor que aumentava no meu âmago, via novos golpes abrirem, pedaços da minha carne caírem-me em cima e o cheiro da camada gorda da pele, cada vez mais exposta. Mordi os lábios até sangrarem e senti uma ínfima parte da minha alma retornar ao verdadeiro eu. Sabendo o que fazer ergui-me de um só golpe e voltei ao quarto. Peguei num pedaço de vidro que mais parecia uma lâmina e preparei-me para aquela espécie de suicídio. Sabia que não iria sentir fosse o que fosse, mas a falta de coragem não deixou de se manifestar. Prendi a respiração e apliquei o primeiro golpe, deixando um risco púrpura sobre os peitorais. O segundo, lento e profundo sobre o abdómen, abriu uma cavidade que deixou um pouco do intestino de fora e me fez desviar o olhar. Senti algo a querer jorrar do interior do meu estômago mas voltei a não conseguir expelir. De olhos fechados, sentia a agonia dos constantes golpes no meu corpo legítimo e a dificuldade cada vez maior em lidar com o sofrimento. Soltei então o que seria o derradeiro golpe, de bico, em direcção ao pescoço, mas este não chegou ao destino. Uma força inexplicável bloqueou-me o movimento a milímetros da fatalidade. Dei tudo o que tinha e resisti, mas por pouco tempo. As minhas mãos não avançaram nem recuaram durante um par de segundos mas as minhas forças eram uma miragem. O meu psicológico estava de rastos devido à tortura e, mesmo num corpo sem chagas, isso reflectia-se, sendo o objecto arrancado com facilidade das minhas mãos ensanguentadas. Tinha que fazer algo rapidamente antes que atingisse o colapso e ficasse para sempre preso naquele invólucro. Corri em todas as direcções vezes sem conta, mas era como se uma barreira invisível me confinasse ao espaço do corredor e do quarto. Sentia a minha tensão aumentar e ficava cada vez mais enervado e ofegante. Precisava de deitar tudo cá para fora sob a pena de rebentar. Precisava de chorar, de gritar, de me exprimir fosse de que forma fosse. Corri de volta ao quarto e peguei em novo pedaço de vidro para tentar a mesma manobra, mas fui novamente impedido, no entanto, desta vez tinha um truque na manga. Mal senti o puxão, deixei-me ir e cair naquele sentido. Foi tão rápido que só reparei que o cortante me havia trespassado a garganta, quando levei a mão à nuca e senti o seu bico. Os meus olhos fecharam por instantes e quando abriram, a escuridão tinha regressado, assim como o todo da minha alma ao local de origem. O ar escapou-se-me dos pulmões quando voltei a sentir na sua totalidade, todos os buracos e falhas que tinha pelo corpo, mas mal voltei a inspirar, notei que a minha voz estava de volta e gritei. Gritei de tal forma que todos os mártires que existiram até então, se reviraram nas suas campas. Foi então que me pendeu um braço, seguido de uma perna. Fiquei surpreendido de tal forma que nem pensei se seria bom ou mau sinal. Soltou-se-me o outro braço e aí sim comecei a dar voltas à cabeça sobre onde iria parar quando caísse, pois não fazia ideia de onde estava e se aquilo que vira na experiência extracorpórea era ou não real. Quando finalmente comecei a cair, não houve tempo para pensar, pois os sentidos começaram a fugir-me a uma velocidade assustadora. A única coisa que recordo é o formigueiro no estômago.

Comecei a acordar e senti luzes fortes ferirem-me a vista ainda sensível de tanto tempo de escuridão. Quando abri finalmente os olhos, reparei que eram apenas as luzes do meu hall de entrada. Endireitei-me assustado e ainda sentado encostei-me à parede. Olhei primeiro para mim e estava incólume. Nem uma pequena marca, nem uma pequena dor. Apenas a lesão do sobrolho se mantinha. Dirigi então o olhar a tudo em redor e ali bem a meu lado estava a minha porta da frente completamente destruída. Pensei imediatamente nas criaturas que me perseguiam e em como teria escapado ao impacto. Onde estariam eles? Haviam desaparecido sem deixar rasto e o silêncio imperava. Dei por mim, com o que começou por ser um simples soluçar, a rir à gargalhada enquanto as lágrimas me lavavam a face.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Death by my Fingertips: Cap. I - Virgem

  Abandono a minha casa, o meu refúgio, a minha masmorra. Ando lentamente de costas viradas para aquele armazém completamente consumido pelo fogo onde descanso sem dormir, nas várias reentrâncias que vou descobrindo enquanto o exploro e deliro envolto na minha própria demência. O ambiente húmido, triste e doentio, rodeado de tons cinzentos e negros, faz-me sentir feliz, enquanto os ecos de morte pelo fogo que ouço a percorrerem o vazio me excitam de uma forma quase idêntica ao cheiro e sabor do sangue. Já me afastei o suficiente para que me parecesse minúsculo no meio daquele lamaçal provocado pela chuva que caía abundantemente acompanhando a noite sem lua, dando um ambiente ainda mais satisfatório ao lar que tanto adorava e às árvores mortas que o rodeavam em grande número. Aperto um pouco mais o capuz da minha gabardina preta e acelero o passo em direcção à distante cidade de Lover´s Yard. Levaria duas horas a chegar ao meu campo de caça, o que me dava tempo para pensar na prova de amor que daria à minha presa.

Chego e encosto-me a um candeeiro alto enquanto observo. Porcos imundos, guiados pela falsidade a que chamam amor. Desprezível. Dão-me vontade de vomitar, de matá-los a todos, de retirar-lhes as vísceras e  enfiar-lhas pela garganta abaixo. Vejo-os a todos como carneiros em espera na fila para o matadouro no qual eu sou o carrasco. A cada abraço e beijo a que assisto, imagino uma faca naquele pescoço, uma corda envolvendo o outro, o sangue de um misturando-se com a saliva do que sufoca. Tenho que me concentrar, tenho de controlar estes impulsos e guardá-los para a altura certa. Mordo o interior das bochechas para que o aroma sanguíneo me acalme. Como um animal com sarna, arranho brutalmente os meus próprios braços, na tentativa de acalmar os tremores de ansiedade que me assolam.Tinha de ser calmo, discreto, agir como um daqueles nojentos. Iria perder a minha virgindade naquela noite e tudo tinha de ser perfeito.

Perdi a conta ao tempo que estive com aquela puta no bar. Como se não bastassem aquelas luzes coloridas que quase me faziam salivar de raiva, ainda ela andava de volta de mim com festas e beijos. Queria era que ela me mordesse, que me batesse, que fizesse algo que realmente me agradasse e estimulasse. Assim, a única coisa que conseguia era irritar-me. Sinto-me a perder o controlo. Talvez por ser a minha primeira vez, não esteja a conseguir por estes pensamentos de lado. Tinha de agir rápido antes que a fúria me vencesse. Jogarei o jogo dela. Levo-a para um canto e começo a beijá-la, levanto-lhe um pouco a saia e discretamente uso os meus dedos para humedecê-la. Ela geme e eu já começo a ficar duro só de imaginar aquele gemido tornar-se um grito. Completamente doida empurra-me e arrasta-me para fora do bar.

Em menos de dez minutos estávamos no apartamento dela, com ela a tirar-me a roupa. Não a deixo tirar-me as luvas e dou-lhe uma bofetada fazendo-a sorrir. Já nú sento-me no sofá branco de pele, rodeado de vasos com flores e peluches. Aquela sala, para além do móvel com a televisão, não possuía qualquer mobiliário. Faço-lhe sinal para que se dispa. Eu queria assistir, avaliar bem todos os contornos, imaginar o que faria mal lhe tocasse. Completamente nua aproxima-se e põe-se de joelhos. Com uma sede enorme começa a massajar-me o pénis, aumentando cada vez mais a intensidade com que o fazia. Em seguida, sinto-lhe o quente da boca e o arranhar das extremidades dos dentes. Tanto cuidado e doçura excitavam-me, mas acima de tudo irritavam-me profundamente. Sentia falta da violência, da agressividade, das feridas, dos cortes, do sangue. Estava farto de toda a lamechice. Aquilo tinha que mudar. Agarro-lhe os cabelos e puxo-a para trás de forma a que parasse. Levanto-me e jogo-a sobre o sofá colocando-a de quatro. Pego-lhe nas ancas e possuo aquele rabo, fazendo-a guinchar de prazer e quase rasgar o sofá com as unhas. Não quero que tenhas prazer vaca! Quero que sofras! Começo a exercer toda a minha força, a ir o mais fundo que me é possível, ao que ela me grita que pare. Que pena para ela que não tenciono fazê-lo, antes pelo contrário, insisto e começo a puxar-lhe os cabelos enquanto lhe dou chapadas na cara e por todo o corpo. Ela está desesperada e chora compulsivamente, mas já lhe tapei a boca para que não grite. começo a ver o sangue dela a correr-me pelas pernas abaixo e não me consigo controlar de tal excitação e quero fazer o mesmo ao buraco imundo que me aguarda do outro lado do corpo. Viro-a ao contrário e ela mostra-se sem força nas pernas. Não quero saber e, enquanto estou a lamber o sangue que lhe escorre, forço toda a minha mão para o interior da vagina dela. Quase que ouço o som da pele a rasgar e é tão bom. Ela, com os dedos da minha outra mão na boca morde-me para se soltar, mas a dor provocada só serve para me acender ainda mais. Tiro a mão do interior dela e começo-lhe as murros. Não sei porquê, mas não consigo parar. Mordo-lhe os mamilos e quase lhos arranco, tal é a adrenalina que me preenche. Ela desvanece e fica inconsciente devido à dor e eu passo-me. Como pode ela fazer aquilo? Puta de merda a cortar-me todo o prazer na altura em que quase me estava a vir! Possuído lanço-a ao chão e começo a bater-lhe com a cabeça no mesmo. Vejo tudo vermelho e a cara dela cada vez menos reconhecível. Puxo por ela e mesmo assim não me responde. Puta! Puta! Não admito que me ignorem! Vou buscar uma faca à cozinha e enfio-lha pela barriga adentro, puxando em seguida, com toda aquela força demoníaca que me possuía, para cima, abrindo-a desde a cintura até quase às mamas. Que visão linda. Acalmei-me com isto. Começo a tirar tudo do interior e a esfregar-me. Os olhos esbugalhados da gaja a penetrarem nos meus. Que êxtase. Começo a sentir-me com espasmos e, levanto-me rapidamente, ejaculando na boca dela. Satisfeito sento-me e fumo um cigarro. Acabado atiro-o para dentro da cavidade abdominal vazia dela e visto-me sem me lavar. Àquela hora, envolto em escuridão e com aquela gabardina, ninguém veria o meu estado.


Já a caminho de casa, debaixo de uma chuva torrencial penso em como foi bom, em como...tinha de repetir.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Alcatraz Cap. VI - Renascer

   "Kyle! Que mer...a é esta? Tás fud...do da cabeça ou quê?! Baixa já essa arma!" - virou-se e levou a mão ao cano da arma para a desviar, mas um pontapé na boca do estômago lançou-o ao chão.
  "Não dificultes as cenas Jack. A sério. Tentei demover-te desta tua vingança durante tempo demais. Até arrisquei ser morto por ti. Antes ainda disto tudo, já eu te tinha avisado para não interferires em assuntos que não te diziam respeito, mas não, tu e a tua mania da justiça. Tu e a mania que és um vigilante que zela pela segurança de tudo e todos. Pensa bem. A tua família tá morta porquê?"
  "Nem te atrevas Kyle." -  berrou do chão agarrado ao abdómen 
  "Não me atrevo? Mas claro que atrevo! A culpa é tua. Quem te mandou meteres-te com o Vas? Quem te mandou andares a intimidar o Cristy para obteres informações? Ninguém te chamou para o barulho! Tu é que te foste lá meter meu atrasado mental. Tu provocaste quem não devias sem nunca se terem metido contigo. Começaste a ter um alvo na testa simplesmente por interferires em algo que achavas errado. Nunca tiveste nada a ganhar, antes pelo contrário, só perdeste. Provocaste mortes atrás de mortes, mas eu sempre tive esperança que o teu altruísmo deixasse de ser totalmente inconsequente e impensado. Sempre pensei que visses a realidade como ela é e chegasses à conclusão que tudo isto é muito superior a ti e que nunca poderias sair vencedor. Mais uma vez me enganei. Acabaste por te aliar ao cab...ão que te matou a família, que matou o Vas, para vires atrás do chefão."
  "Eu só o fiz para...", "Pow", uma bala atingiu Vincent, deixando-o estendido e imóvel no meio do chão.
 "Ninguém te mandou falar palhaço. - Jack tentou mover-se na direcção do companheiro - E tu quietinho aí que a nossa conversa ainda não acabou."
  "Meu monte de esterco!Vou-te desfazer à mocada!"
  "Podes sempre tentar interromper-me novamente e levas o chumbo pra casa mais cedo. Humm? Que me dizes? - Jack fulminava-o com o olhar - Bem me pareceu que íamos chegar a um acordo. Continuando, chegaste próximo demais e eu vi-me obrigado a cessar os avisos e passar à acção. Nunca pensei que fosses esperto o suficiente para entrares no carro e ligares o Gps para a última localização conhecida. Nunca pensei que descobrisses este lugar e muito menos que todos estes atrasados mentais tivessem tão descontraídos ao ponto de teres conseguido avançar tanto."
  "Que raio de monstro és tu? Até os teus próprios companheiros mataste lá em baixo!"
  "Realmente matei uns quantos dos meus, mas tinha de esperar pela hora certa para agir. Chegou o teu fim Jack. A tua caminhada termina aqui."
  "Porque proteges tu esta gente? Que tens tu a ganhar com isto?"
  "Vi o meu sobrinho ser morto por aquele filho da pu..a do Janus, que ainda lhe hei-de arrancar o coração, não vou ver também o meu irmão a ser morto por ti."
  "O teu irmão?! Nunca, durante estes anos todos soube que tinhas um! O teu irmão é o líder desta escumalha?! O responsável pela morte da minha família?! Pela morte da dele?! -  apontou para Vincent que ainda não mostrara qualquer sinal de vida desde que fora alvejado.
  "Parece que sim né? Seja como for, embora não concorde com o rumo que deu à vida dele, não deixa de ser meu irmão, a única família que me resta, e eu defendo-o com tudo o que tenho. Mais uma vez te peço desculpa Jack. Eu tentei. Tentei com todos os meus recursos evitar que chegássemos a isto, mas tu não permitiste. Adeus Jack. Espero que encontres a tua família do outro lado."

Jack, que já se encontrava em pé, avançou e encostou o peito ao cano da arma. Todo o movimento foi feito de cabeça baixa, só a erguendo quando parou, para olhá-lo bem nos olhos. Foi um olhar completamente ausente de qualquer emoção ou sentimento que não ódio, mas Kyle não vacilou por um segundo que fosse. Manteve-se inabalável e o seu dedo começou a pressionar o gatilho, mas no último instante algo o fez falhar o alvo. Um encontrão vindo do nada derrubou-o. Jack guinchou ao ser atingido de raspão no braço e ouviu-se o estilhaçar de um candeeiro que se encontrava em cima de uma pequena mesa no outro lado da sala, devido ao impacto da bala, o que abafou a queda do atirador. O careca agarrou-se ao braço e olhou para a besta derrubada, vendo-o já desarmado e embrulhado com o tipo que matara o puto loiro. Preferiu não intervir e dirigiu-se ao companheiro caído. Ao chegar verificou que não estava morto e que nem sequer tinha sido atingido. Tinha sim desmaiado ao bater de cabeça no chão com demasiada força ao tentar desviar-se da linha de fogo. Deu-lhe umas chapadas na cara até o acordar, mas vigiando sempre os dois brigões.

  "Vincent...Vincent...ouve-me. - ele já abrira os olhos, mas estava meio abananado - O Kyle tá à bulha ali com outro gajo e eu preciso que me ouças com atenção. Se não fosse esse tal tipo aparecer, eu já tava morto por esta altura, mas não sei o que resultará dali, nem tão pouco sei se ele tá ou não do nosso lado, portanto é assim, tenho aqui a tua arma... - deu-lha para a mão - ...e tu, agora que a tens de volta, vais continuar aqui a passar por morto e, caso o que vou fazer der para o torto, tu limpas o sebo a qualquer um daqueles animais que reste de pé, entendido?"
  "Perfeitamente Jack. Perfeitamente."

Ergueu-se no preciso momento em que Kyle pontapeou Janus em cheio na cara, fazendo estatelar-se contra uma estante e em seguida contra o chão. O sangue espirrou e salpicou tudo em volta em sintonia com a queda. O grisalho recuperou então a sua arma e apanhou a do seu agressor. Apercebendo-se da aproximação de Jack, recuou e apontou as armas a ambos.

  "Quietos os dois já! Janus, meu filho da p..ta! Agora juntaste-te a ele? Depois do meu irmão te ter tirado da pobreza das ruas onde vivias? É este o teu agradecimento? Vais ter uma morte muito triste e dolorosa meu cab...ão...vais, vais...vais pagar bem caro por isto e especialmente pela morte do Brian. Levanta-te car...lho!"
  "O Brian era a me...da de um puto mimado... - dizia com esforço enquanto se levantava e limpava o sangue do nariz e boca - ...só teve o que há muito andava a pedir."
  "Tu não fales dessa maneira."
  "Não queres ouvir não perguntes meu estúpido de merda.", "Pow", uma bala furou-lhe o joelho de um lado ao outro e voltou a colocá-lo por terra.
  "Eu avisei. Da próxima é na testa."
  "Covarde de meia tigela. Não tens col...ões para enfrentar ninguém sem armas? Hahaha...ninguém pode negar a família a que pertences. Cambada de hipócritas, chulos, assassinos...não passam de carneirinhos que se escondem por detrás de uma grande fortuna. Realmente tiraram-me das ruas, mas com o que vi durante todos estes anos, preferia ter continuado pobre, pois teria simultaneamente continuado íntegro e honesto. São várias as razões que me levam a partilhar da demanda deste homem... - guinou a cabeça na direcção de Jack - ...e que me levaram a ajudá-lo. Nas docas, quando te vi a ajudá-lo, pensei que estavas mudado e que realmente te preocupavas com alguém, que eras amigo de alguém, mas isso não faz parte de ti... - tossiu um pouco - ... não faz parte de ninguém desta família disfuncional. Jack..."
  "Sim...Janus..." - aproveitou para baixar os braços enquanto respondeu.
  "Não desistas de fod...r estes cab...ões todos pa azeite, ouvi...", "Pow", desta vez foi atingido na testa, ficando de costas no chão, boca aberta e olhos esbugalhados. O sangue escorreu do buraco ainda fumegante quando a cabeça tocou o solo.

Voltou a apontar a pistola a Jack e um sorriso cínico desenhou-se-lhe no semblante. Olhou de relance para Vincent, com o careca a seguir-lhe o olhar.

  "Vamos lá terminar o que comecei ali com o aleijado. - carregou a bala na câmara - No entanto, acho que contigo vou descarregar os tiros todos, só para ter a certeza que não te levantas. Dá os meus cumprimentos à tua família."

Vincent sentou-se de repente e disparou dois tiros naquela direcção, com um deles a atingir o braço do traidor. "Arghhhh.", deixou cair a arma e, em simultâneo com o uivo de dor, jogou a mão ao ferimento. Sem que houvesse tempo de reacção, Jack aproveitou e correu na direcção do grisalho, sacando da faca que recuperara da nuca de um pobre coitado daqueles. Chegado junto ao outro, projectou-o por cima das suas costas para o chão, enrolou-lhe as pernas em torno do tronco, imobilizando-o, e encostou-lhe a lâmina ao pescoço, exercendo alguma pressão, a suficiente para que um pequeno fio de sangue iniciasse a sua caminhada descendente.

  "Então? Já não tamos tão confiantes agora, tamos?"
  "Jack, meu panhonha! Tu não és nenhum assassino. Nunca serás capaz de o fazer!"
  "Tens a certeza meu merd...so?"
  "Total e absoluta maricas de mer...a!"
  "Resposta errada companheiro. Os meus cumprimentos ao teu sobrinho. Ah...e espero que a tua única família te encontre quando a mandar ir ter contigo." - um golpe tenso e rápido abriu-lhe a pele expondo-lhe os músculos e parte da traqueia, cuja foi ocultada pelas contínuas golfadas de sangue que se iniciaram quase de imediato. Não o largou até ele cessar com os espasmos e com o gorgolejar. Ao levantar-se, Vincent poisou-lhe a mão sobre o ombro e ele olhou para as suas próprias. Estavam cheias de sangue, bem como os braços, a camisola e certamente a sua face. Olhou o cadáver e respirou fundo perante o nó na garganta. Os passos de retorno ao corredor foram dos mais pesados da sua vida. Sentira-se demasiado perto da morte mas, a maior tristeza e revolta, derivavam da morte do seu "suposto" melhor amigo. Tinha consciência de que não tivera outra escolha senão matá-lo, mas mesmo assim culpava-se por nunca lhe ter dado ouvidos e o ter obrigado a agir daquela forma extrema. Não era culpado, mas certamente, também não inocente.

O ruído de vários carros alertou-os e dirigiram-se a uma janela para verificar o que se passava. Todos os tipos que haviam ficado para trás nas docas, estavam de volta e rodeavam toda a área frontal da casa. Alguns saíram dos carros a correr e dirigiram-se às traseiras. Sentaram-se no chão a pensar no que fazer, quando viram, sair a correr de uma porta quase junto às escadas, um tipo de cara tapada e óculos escuros. O indivíduo tinha a cara completamente coberta de ligadura, não dando para perceber sequer o seu tom de pele e, do seu cabelo preto, apenas um tufo ou outro se via espigado por entre o tecido. Precipitou-se rapidamente em direcção ao andar inferior e eles seguiram-no o mais rápido que conseguiram, visto estarem ainda bastante afastados da escadaria. Na sua correria descendente de perseguição, as narinas de ambos foram assaltadas por um cheiro extremamente intenso e adocicado que nunca haviam sentido antes. Era tão forte que até dava a volta ao estômago. Antes que o conseguissem alcançar, o suspeito abriu a porta da frente e saiu para o exterior. Espreitaram discretamente e viram-no ter todas as atenções daqueles homens, cujos lhe prestavam total vassalagem. Tanto um como outro souberam de imediato que era ele. Era o chefe, o irmão de Kyle, o alvo a abater. Mas como? Como, contra tanta gente e sendo eles só dois? Tinham de dar a volta a dezasseis "gajos" e certificarem-se de que o décimo sétimo sofria a bom sofrer. Correram na direcção da sala de onde o chefe havia saído e fecharam a porta atrás de si. Não viam absolutamente nada pois a sala tinha todas as janelas cerradas e por mais que carregassem nos interruptores, guiados pela lanterna do telemóvel, não havia luz que se manifestasse. Arrancaram todos os cortinados negros e abriram uma ou outra portada, mas de forma a gerar apenas o nível de luminosidade suficiente para que pudessem ver o que os rodeava. Quando a luz lhes iluminou o caminho, constataram que naquela sala não existia nada para além de um cadeirão almofadado ao centro, também ele de cor preta. Não havia ali nada que lhes pudesse dar fosse que vantagem fosse. Furioso, Jack aplicou um pontapé no mesmo, derrubando-o e fazendo uma barulheira imensa, muito ampliada devido ao eco. De imediato se ouviram passos acelerados pelas escadas acima.

  "Fod...se Jack! Já sabem que aqui estamos. Qual é o teu plano agora?"
  "Cala-te e improvisa!"
  "Bom plano..."

O primeiro a tentar entrar, abriu a porta apenas o suficiente para espreitar e do interior só se lhe via a ponta do nariz, mas rapidamente desapareceu. Um violentíssimo pontapé, pior do que o que aplicara na cadeira, foi dirigido à porta, provocando uma ligeira planagem do indivíduo no exterior, que na sua passagem do estado consciente para um de inconsciência total, cuspiu uma mistura de sangue com saliva para cima dos que estavam mais próximos. As metralhadoras iniciaram o seu acto de destruição, enchendo a porta de buracos. No interior, eles afastaram-se para lados opostos da sala para se afastarem da linha de fogo e taparam os ouvidos enquanto o cântico de pólvora durou. O silêncio chegou bruscamente e apenas era interrompido por alguns pedaços de madeira que ainda estalavam ou caíam. Os escassos segundos que durou pareceram uma eternidade assolada de tensões negativas. A entrada que se seguiu foi brusca, mas eles estavam preparados. Prenderam os dois da frente pelo pescoço, usando-os como escudo e premiram os gatilhos das semi-automáticas dos mesmos, despachando os restantes quatro que os acompanhavam. Ficaram com as armas e deixaram cair os corpos que agora mais pareciam passadores, de tanto buraco que tinham. O sangue que molhava chão e ensopava carpetes já escorria pelos primeiros degraus quando Vincent se aproximou do tipo inanimado e lhe partiu o pescoço de um só golpe, mostrando uma frieza incalculável. Desceram com extrema cautela e ouviram ruídos vindos da cozinha. Aproximaram-se e viram três "macacões" de volta dos corpos que haviam lá deixado. Vince pôs a metralhadora de lado e fez pontaria com a silenciadora enquanto Jack avançava agachado por entre os balcões. Um tiro certeiro e silencioso atingiu um na garganta. Os olhos esbugalharam e a boca encheu-se de sangue fazendo-o soluçar, as mãos perderam a força e abriram deixando cair a arma e a vida abandonou o corpo, fazendo-o cair sobre os joelhos e seguidamente para o lado. Os outros hesitaram por momentos devido ao choque antes de começarem a disparar e a correr em busca de cobertura, mas só um chegou ao destino. Sem que o da frente visse, Jack apanhou o outro e, encostando-lhe o cano ao abdómen, disparou uma rajada, furando-o de um lado ao outro repetidamente, fazendo-lhe em farrapos as costas da camisola e salpicando o tecto de vermelho. Não era um assassino mas, depois de todas aquelas mortes, já se sentia como tal. Olhou para a última vítima e viu-a a tremer por detrás de um balcão. "Meus montes de mer...a, nunca vão sair daqui vivos!", gritava ele de forma a disfarçar o medo que o invadia. Do outro lado do balcão já estava Vince, contornando-o calmamente. Quando se encontrava na esquina, a uma mera distancia de um braço, parou e esperou que  o alvo se aproximasse ainda mais, o que não tardou a acontecer. Nessa altura colocou-se na frente do desgraçado e encaixou-lhe a arma bem por baixo do maxilar inferior. Este, com o susto, largou a arma e mijou-se. Via-se perfeitamente que era um maçarico. "Podemos não sair vivos, mas tu também não.", disse antes de lhe deixar o maxilar pendurado por uma prega de pele e a "mioleira" a enfeitar chão e balcão. O som do corpo inerte a bater de costas no balcão e de seguida no granito do soalho, foi a última  coisa a ser ouvida antes de novo sossego aterrador. Voltaram então a juntar-se e, estranhando toda aquela calmaria tão duradoura, aproximaram-se da porta das traseiras, pela qual haviam também entrado, mas sem pressa alguma e com todos os sentidos alerta. Jack rodou lentamente a maçaneta e olhou para Vincent mantendo a porta fechada. Gestualmente pediu-lhe que se baixasse e não fizesse barulho. Começou então a abrir a porta muito lentamente e quando aproximou a cabeça para espreitar, uma saraivada de balas assolou o local. Só tiveram tempo de saltar cada um para seu lado e procurar abrigo por entre os balcões. Os restantes seis "marmanjos" estavam lá fora à sua espera. No entanto, Vince ficou em posição privilegiada e de onde se encontrava conseguia ver dois deles pela janela. Ia tentar a sua sorte e tentar "martelar" ambos. Dois tiros bem medidos e os tipos caíram. Um deles morreu de imediato com o impacto a ser ao nível da fonte esquerda, enquanto o outro se ficou a contorcer de dores por a bala lhe ter atravessado a boca da esquerda para a direita através das bochechas. Houve dentes do pobre desgraçado que estilhaçaram como vidro. Os outros, surpreendidos, afastaram-se e tomaram posições demonstrativas de maior cautela e de abandono do excesso de confiança. Lá dentro o atirador aproveitou para se juntar ao colega.

  "Jack, afugentei-os por momentos e agora temos a nossa oportunidade. Já me vi livre de dois pelo menos. Vamos embora daqui! Rápido!" 
  "Fod...se Vincent...não consigo!"
  "Não acredito nisto...Jack...mer...a...mer...a..." - Ele tinha sido atingido. Viu o sangue a sair-lhe abundantemente de um enorme ferimento na zona do fígado.
  "Vai-te tu embora daqui pá. Vai...!"
  "Vou agora deixar-te aqui! Deves ser é maluco!"
  "Já te disse que te ponhas a andar. Vai-te embora daqui cara...ho! Não quero ser visto neste estado, além disso, preciso de alguém lá fora que dê um rumo à vida do meu puto. Vai, faz isso e redime-te de vez."
  "Ok, mas se eu conseguir chegar ao carro, chamo uma ambulância para te vir buscar."
  "Não. Limita-te a fazer o que te disse, ouviste?"
  "Podes tentar impedir-me." - levantou-se a afastou-se.
  "Cab...ão de mer...a..."

Vincent, já com uma frigideira na mão, que agarrou no caminho até à porta, abriu a mesma uma nesga e jogou o objecto para o lado contrário à posição dos homens. Estes alertaram-se com o barulho e, ao olharem para descortinarem a origem, revelaram as suas posições. Quando se voltaram a esconder por completo novamente, já ele estava lá fora no seu encalço. Arrastando-se pelo relvado, alcançou o primeiro, que se encontrava escondido por detrás do enorme barbecue do jardim. Este nem teve hipótese de estrebuchar com os três tiros que levou pelo peito. Lateralmente via o segundo, mas pouco atrás deste sabia estarem os restantes. No entanto, a sorte sorriu-lhe, ou assim pensava ele. O tipo ao qual havia perfurado a face, ainda gemia com dores e arrastava-se agora na direcção da sua próxima vítima, cuja se expôs numa tentativa de o ir ajudar. "É o momento perfeito.", pensou enquanto apontava a arma, desconhecendo que os mais recuados vigiavam o auxílio ao colega. Não era normal esquecer-se de tais possibilidades, mas por norma, quando ia em missões, nem chegavam a saber que ele lá tinha estado até darem com os mortos ou começarem as explosões. Disparou em cheio contra o ouvido do tipo, que se entendeu de imediato nas proximidades do que se arrastava, para se imediato começar a ser bombardeado pelos outros. As balas tilintavam de forma constante contra a armação férrea que lhe servia de escudo e ele não descortinava uma forma de sair dali. Olhou para a sua direita e viu uma carrada enorme de papelada, pinhas, acendalhas e ervas secas. De forma a não se expor, começou a juntar tudo num monte e pegou-lhe fogo com um isqueiro que se encontrava encaixado no "grelhador sobre o efeito de hormonas". A quantidade de comburentes era tal que o fogo depressa tomou enormes proporções, provocando por acréscimo, uma nuvem de fumo imensa. Tão próximo estava das chamas que sentia a pele a estalar. Tinha que sair dali rápido aproveitando a cobertura da "fumarada". Correu como se fosse o último dia da sua vida, ou melhor será dizer, o mais rápido que as suas mazelas permitiram e só deram por ele, já ele estava muito perto. Tentaram disparar mas a janela de oportunidade fechou-se antes que o pudessem fazer. Vince atingiu o mais próximo com um soco descendente, fortalecido pelo balanço do salto que deu e, com dois movimentos dignos dos melhores heróis do cinema, de esquerda puxou da sua faca, recuperada a Jack, cortando a mão ao que sobrava e, passando a lâmina para a sua direita, enterrou-a profundamente e em seguida, na lateral do pescoço do mesmo. Voltou a virar-se para o socado e lançou-o ao chão, batendo-lhe tão violenta e cegamente que quando parou já o tipo não respirava há muito e seria impossível reconhece-lo pelas feições, de tão desfeitas que estavam. Respirou fundo e conseguiu acalmar-se pela primeira vez desde que ali chegara. Ergueu-se mais relaxado, mas extremamente cansado.

  "Meu corno! Olha para o que fizeste! Vou acabar o que a porcaria do Vas e dos restantes meus homens não foram capazes...mandar-te para junto da tua família."

Virou-se bruscamente perante o som da voz familiar. Mais um erro que cometera, mais um esquecimento. Esquecera-se que não eram dezasseis, mas sim dezassete. Provavelmente este seria o seu último grande erro. Olhou a figura enrolada em ligadura à sua frente. Apenas lhe conhecia a voz, pois nem ele nem ninguém que ele soubesse, o tinham visto alguma vez sem aquele disfarce. A Colt de Vas estava na mão dele e apontava à sua cabeça. Era notória a facilidade daquele monstro em matar um ser humano. Nem um ligeiro tremor se notava nos seus membros. Vince fechou os olhos e preparou-se para o inevitável. Não sairia dali vivo e a sua morte seria um misto de pólvora, sangue e perfume doce. Ouviu o primeiro tiro e o segundo veio quase sem demora, mas não sentiu dor. Abriu os olhos e viu que a múmia não disparava para si. Girou para ver o que se passava e o queixo caiu-lhe. Jack caminhava lentamente e começara a disparar a metralhadora que trazia consigo, mas o seu abdómen já não tinha apenas um ferimento...tinha três. As suas calças já estavam ensopadas em vermelho até aos joelhos. Atirou-se para o chão e começou a olhar alternadamente para os dois atiradores. O chefão, já prestes a cair, completamente trucidado pelas balas, ainda disparou uma última vez, acertando por sorte na garganta do seu salvador.A fonte púrpura localizada no seu pescoço não cessava a corrente, mas nem assim ele parava. Ainda deu meia dúzia de passos, sempre disparando, até ver o seu adversário tombar e também ele cair de joelhos. Fechou então os olhos, a mão abriu-se-lhe suavemente deixando a arma pousar da mesma forma na relva e a cabeça pendeu-lhe, tocando o peito com o queixo. Vincent levantou-se de tal forma aflito que escorregou, vendo-se obrigado a levar as mãos ao chão para não cair novamente. Chegou esbaforido perto de Jack e chamou-o em voz alta. Ele abriu muito ligeiramente e a tremelicar o olho esquerdo, tentou falar mas não conseguia, ergueu a mão com lentidão e tremendo compulsivamente, tocou-lhe o peito. Agarrou-lhe a mão ensanguentada com a sua e sentiu-o usar as últimas e poucas forças que tinha para apertá-la. O seu corpo começou a balançar com maior intensidade a cada segundo passado e ele debatia-se por forma a manter-se direito e vivo, mas o fim acabou por chegar. Agarrou-o para que não tombasse desamparado e deitou-o no manto verde, fazendo o gesto na cruz antes de se erguer. Agora que tudo estava calmo, os passos pesavam-lhe mais do que nunca, o corpo doía como não havia memória e o vazio que sentia parecia poder tirar-lhe a vida a qualquer momento. Passou pelo corpo do chefe e parou por um breve momento para olhar. O cheiro doce do traste contrastava agora com o fedor a sangue de uma forma intensa e algo perturbante na sua opinião, mas isso eram pormenores. Sentia-se regozijado com o destino, mas visto ter vivido os últimos tempos preso a um desejo de vingança contra aquele homem, a sua morte não estava a ter o efeito que tinha pensado. Continuava prisioneiro na sua própria mente. Tinha que escapar, mas para isso precisava de um novo objectivo na sua vida, um objectivo ausente de armas, violência e morte. Tinha visto tanta gente boa tombar, tanto prisioneiro como ele próprio inundar-se em sofrimento e morrer afogado no mesmo. Sentia-se destroçado por todos eles, mas a vida tinha-lhe dado um nova oportunidade e ele não podia desperdiça-la, logo estava feliz. Soubera em tempos o que era a felicidade, esquecera-a, mas agora, queria voltar a aprende-la. Numa derradeira demonstração de raiva, "como última atitude de um prisioneiro que abandona os corredores da morte na direcção da saída para o mundo exterior", pontapeou a cabeça do morto e cuspiu-lhe. Olhou para trás, para onde havia deixado Jack e sorriu. Já sabia qual seria o seu objectivo, o seu libertador, a sua luz ao fundo do túnel.

"Adeus Jack. Tenho uma criança para ir buscar."













P.S - Aproveito esta altura para pedir um favor a todos que me acompanham. Quero iniciar em breve uma nova série, mas gostava que não fosse algo escolhido por mim. Peço então que postem no espaço dos comentários, algo que gostassem de ver escrito/trabalhado por mim. Obrigado.
Por fim, mas não menos importante, quero agradecer a todos os que leram e me foram dando as suas opiniões sinceras. Ajudaram-me bastante no desenvolvimento desta série e deram-me motivação para continuar. Espero que tenham gostado do final, mas especialmente do todo.

Pedro C.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Sem escape Cap. III - Inimaginável

   A visão turva transformava as minhas mãos em dois meros borrões encarnados. Tudo em volta parecia estar a derreter. Voltava a cabeça em todas as direcções como um louco, de olhos esbugalhados, boca aberta, ofegante e emanando um gemido de dor. Tentava focar a visão, erguer-me para procurar o meu filho, mas por muita vontade que instilasse na minha mente, o corpo não reagia. A muito custo estendi os braços na direcção da parede e comecei a forçar-me a levantar. As minhas pernas pareciam mortas, ignorando todas as ordens de movimento que lhes lançava. Com um esforço assombroso arrastei-me até perto das escadas e lancei as mãos ao corrimão de madeira. Gritei com a força que fiz para me puxar para cima, mas os meus membros inferiores continuaram sem corresponder até que os meus braços vacilaram e tombei, caindo pelas escadas abaixo. Fiquei estendido ao fundo da escadaria e não me mexi durante algum tempo. Não sentia dor alguma, nem o sangue que me corria do enorme lenho que abrira acima do sobrolho durante a queda, mas chorava compulsivamente. Aumentara naquele momento a intensidade de um choro que não conseguia parar e que me consumia por completo a cada instante passado. O coração batia-me descontroladamente dentro do peito quando comecei a sentir espasmos. Senti os olhos a revirarem e a espuma sair-me da boca enquanto todos os músculos do meu corpo gritavam em agonia e se contorciam em busca da libertação. A dor foi demais e perdi a consciência.

Acordei não sei quanto tempo depois, mas ainda era noite. Já não sentia dores e o meu coração estava mais sereno. Forcei a sentar-me a sacudi a cabeça antes de olhar em redor. Fiquei estupefacto. O espalhafate de vidros partidos por toda a sala já não existia e as janelas estavam intactas sem excepção. Olhei as minhas roupas e mãos e, embora o vazio que aquela morte me tinha provocado ainda lá estivesse, todo o sangue havia desaparecido. Encontrava-me totalmente limpo e de forças renovadas. Levantei-me de impulso e corri escadas acima gritando pela Vanda e pelo Rafael. Sem obter resposta cheguei ao andar de cima e tudo estava incólume. Nem sinais do corpo ou do lago de sangue no qual eu mergulhara há momentos atrás. Mais uma pequena corrida e entrei no quarto abrindo a porta que eu vira destruída e arrancada dos seus suportes. O interior estava como o resto. Normal. O azul inalterado, todos os bonequinhos arrumados e o pijama direitinho e estendido sobre a cama pronto a vestir. 

Que se passa aqui? Isto não é possível! O que eu vi foi real! Não há forma de não o ser! Eu não estou louco! Onde estão eles? Arrgghh...tenho que descobrir o que se passa aqui!

Invadi bruscamente todas as divisórias da casa e não se via nada nem ninguém. Corri para o telefone para tentar ligar aos meus pais ou aos pais dela, mas o aparelho estava mudo. Tudo aquilo era demasiado inimaginável e parecia estar a ser gozado e observado a todo o momento. Num acesso de raiva desfiz o telefone contra a mesa e a parede. Peguei nas chaves do carro que estavam em cima do balcão da cozinha e preparei-me para sair e ir ao encontro dos meus pais em busca de ajuda. Mal cheguei perto da porta da rua ouvi uns ruídos estranhos vindos de fora e estaquei. Espreitei discretamente por entre os cortinados e, como um relâmpago, corri para trancar a porta. Já trancada comecei a dar voltas à cabeça em busca de uma forma de sair daquela embrulhada. De costas contra a porta, comecei a sentir os impactos, fracos a início, mas a aumentarem exponencialmente, tanto em número como em intensidade. Afastei-me da porta e vi-a começar a vergar. Olhei em volta para as janelas e as sombras já invadiam todo o perímetro em torno da casa. Uma multidão de vultos negros e encapuçados rodeavam toda a habitação e, enquanto uns rebentavam com a porta, outros, exibindo os seus dedos compridíssimos e disformes, raspavam as unhas nos vidros, provocando um som incompreensivelmente alto e arrepiante. Levei as mãos aos ouvidos por já não estar a aguentar mais e dirigi-me às escadas, onde senti como se tivesse embatido em algo invisível. Uma dor na zona do sobrolho fez-me esfregá-lo e constatar que a ferida devido à minha queda das escadas ainda lá estava. Afinal não tinha desaparecido como tudo o resto. Olhei para cima e outro daqueles encapuçados aguardava no topo, bloqueando-me a passagem. Lembrei-me da garagem, carregada de objectos arremessáveis e contundentes. Podia não servir de muito, mas era melhor do que ficar ali à espera da morte. Tinha acabado de iniciar a corrida quando um estrondo me fez olhar no sentido da porta da frente. Esta acabara de ceder e voava na minha direcção, sem qualquer hipótese para mim de a evitar.