A visão turva transformava as minhas mãos em dois meros borrões encarnados. Tudo em volta parecia estar a derreter. Voltava a cabeça em todas as direcções como um louco, de olhos esbugalhados, boca aberta, ofegante e emanando um gemido de dor. Tentava focar a visão, erguer-me para procurar o meu filho, mas por muita vontade que instilasse na minha mente, o corpo não reagia. A muito custo estendi os braços na direcção da parede e comecei a forçar-me a levantar. As minhas pernas pareciam mortas, ignorando todas as ordens de movimento que lhes lançava. Com um esforço assombroso arrastei-me até perto das escadas e lancei as mãos ao corrimão de madeira. Gritei com a força que fiz para me puxar para cima, mas os meus membros inferiores continuaram sem corresponder até que os meus braços vacilaram e tombei, caindo pelas escadas abaixo. Fiquei estendido ao fundo da escadaria e não me mexi durante algum tempo. Não sentia dor alguma, nem o sangue que me corria do enorme lenho que abrira acima do sobrolho durante a queda, mas chorava compulsivamente. Aumentara naquele momento a intensidade de um choro que não conseguia parar e que me consumia por completo a cada instante passado. O coração batia-me descontroladamente dentro do peito quando comecei a sentir espasmos. Senti os olhos a revirarem e a espuma sair-me da boca enquanto todos os músculos do meu corpo gritavam em agonia e se contorciam em busca da libertação. A dor foi demais e perdi a consciência.
Acordei não sei quanto tempo depois, mas ainda era noite. Já não sentia dores e o meu coração estava mais sereno. Forcei a sentar-me a sacudi a cabeça antes de olhar em redor. Fiquei estupefacto. O espalhafate de vidros partidos por toda a sala já não existia e as janelas estavam intactas sem excepção. Olhei as minhas roupas e mãos e, embora o vazio que aquela morte me tinha provocado ainda lá estivesse, todo o sangue havia desaparecido. Encontrava-me totalmente limpo e de forças renovadas. Levantei-me de impulso e corri escadas acima gritando pela Vanda e pelo Rafael. Sem obter resposta cheguei ao andar de cima e tudo estava incólume. Nem sinais do corpo ou do lago de sangue no qual eu mergulhara há momentos atrás. Mais uma pequena corrida e entrei no quarto abrindo a porta que eu vira destruída e arrancada dos seus suportes. O interior estava como o resto. Normal. O azul inalterado, todos os bonequinhos arrumados e o pijama direitinho e estendido sobre a cama pronto a vestir.
Que se passa aqui? Isto não é possível! O que eu vi foi real! Não há forma de não o ser! Eu não estou louco! Onde estão eles? Arrgghh...tenho que descobrir o que se passa aqui!
Invadi bruscamente todas as divisórias da casa e não se via nada nem ninguém. Corri para o telefone para tentar ligar aos meus pais ou aos pais dela, mas o aparelho estava mudo. Tudo aquilo era demasiado inimaginável e parecia estar a ser gozado e observado a todo o momento. Num acesso de raiva desfiz o telefone contra a mesa e a parede. Peguei nas chaves do carro que estavam em cima do balcão da cozinha e preparei-me para sair e ir ao encontro dos meus pais em busca de ajuda. Mal cheguei perto da porta da rua ouvi uns ruídos estranhos vindos de fora e estaquei. Espreitei discretamente por entre os cortinados e, como um relâmpago, corri para trancar a porta. Já trancada comecei a dar voltas à cabeça em busca de uma forma de sair daquela embrulhada. De costas contra a porta, comecei a sentir os impactos, fracos a início, mas a aumentarem exponencialmente, tanto em número como em intensidade. Afastei-me da porta e vi-a começar a vergar. Olhei em volta para as janelas e as sombras já invadiam todo o perímetro em torno da casa. Uma multidão de vultos negros e encapuçados rodeavam toda a habitação e, enquanto uns rebentavam com a porta, outros, exibindo os seus dedos compridíssimos e disformes, raspavam as unhas nos vidros, provocando um som incompreensivelmente alto e arrepiante. Levei as mãos aos ouvidos por já não estar a aguentar mais e dirigi-me às escadas, onde senti como se tivesse embatido em algo invisível. Uma dor na zona do sobrolho fez-me esfregá-lo e constatar que a ferida devido à minha queda das escadas ainda lá estava. Afinal não tinha desaparecido como tudo o resto. Olhei para cima e outro daqueles encapuçados aguardava no topo, bloqueando-me a passagem. Lembrei-me da garagem, carregada de objectos arremessáveis e contundentes. Podia não servir de muito, mas era melhor do que ficar ali à espera da morte. Tinha acabado de iniciar a corrida quando um estrondo me fez olhar no sentido da porta da frente. Esta acabara de ceder e voava na minha direcção, sem qualquer hipótese para mim de a evitar.
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