sexta-feira, 12 de maio de 2017

Sem escape Cap. VII - Subtérreo

Aquela mão ossuda, através da sua aparência débil e deformada, não revelava a verdadeira força que possuía. Apertava-me o pescoço com tal intensidade que todo o meu corpo se encontrava paralisado e incapaz de lutar para escapar ao afogamento. A única coisa que conseguia fazer era olhar aquele vazio circundado pelo capuz negro da criatura e, com um emanar de energia inexplicável que sentia tocar-me a face, sentir-me observado com ódio, mas em simultâneo com regozijo por me ver a morrer sobre o seu domínio. Foi somente quando os espasmos provocados pela ausência de oxigénio começaram que me consegui libertar. Os meus pés, num movimento quase perfeito na sua sincronização, estenderam-se para diante e atingiram o que seria a zona abdominal do meu carrasco, cujo me largou de imediato e desapareceu. Os espasmos incontroláveis continuavam, e eu, nada mais era que um simples espectador, assistindo ao sofrimento do seu corpo e ao fim da sua existência.

Já quase a entrar no sono perpétuo, a minha visão suplantada e audição aniquilada, senti algo a mover o meu corpo, quase como se estivesse a ser embalado. Deixei-me levar com um sorriso imaginário nos lábios, acreditando que, após o oceano de lágrimas por mim derramadas e a infindável odisseia de sofrimento vivida, a paz estaria finalmente a exercer a sua influência sobre mim.

A velocidade do movimento do meu corpo aumentou bruscamente e senti-me a embater contra algo sólido por duas vezes e a rebolar sobre algo repetidamente, cada vez mais devagar até à imobilização. Neste mesmo instante, sobrepondo-se à satisfação pela total ausência de dor, surgiu na minha mente um flash do meu filho chamando por mim e com a mão estendida na minha direção, tal como da última vez que o tinha visto. Acordei de imediato, tossindo compulsivamente e regurgitando toda a água que havia ingerido. Após esta aflição inicial e de respirar profundamente um par de vezes, olhei em volta e vi que estava de regresso ao meu corredor e na parede que anteriormente tinha tentado destruir, estava um buraco enorme de onde gotejava profusamente. A parede não deve ter aguentado a pressão de tanta água no seu interior e cedeu, fazendo com que eu fosse cuspido contra a parede oposta. Ergui-me com a ajuda do meu braço esquerdo, vacilando um pouco a meio do movimento, mas sem perder o equilíbrio. Mal acabei de me pôr de pé, ouvi um grito proveniente da abertura na parede. Aproximei-me ainda meio entorpecido e olhei para o interior, simplesmente para no segundo seguinte, sentir o meu maxilar inferior ficar pendurado de espanto. O espaço diminuto onde tinha estado, dava agora lugar a umas escadas metálicas e ferrugentas que terminavam numa enorme porta de aço.

O som de uma violenta pancada acabou com os gritos, o que me levou a descer rapidamente as escadas e a usar todas as minhas forças para abrir aquela porta pesadíssima. “Óbvio que não estava trancada.”, pensei eu, já antecipando a chegada do meu próximo infortúnio. Cheguei ao outro lado e, ainda ruborizado do esforço, olhei em redor. Parecia um matadouro de filme de terror. Apresentava-se com um espaço amplo na minha frente e com dois corredores, um para cada um dos meus lados. A iluminação era débil, doentia e intermitente, sendo os focos de luz meras lâmpadas penduradas do teto e extremamente espaçadas, o que deixava áreas imensas na escuridão. Azulejos brancos cobriam as paredes e o chão, estando a maioria deles lascados e manchados de vermelho. A maioria dessas manchas eram mãos, adultas e de criança, marcadas a sangue e com sinais de arrasto até perder de vista. O teto parecia coberto de uma ferrugem viva, uma vez que esta parecia pulsar de tão brilhante e viscosa. O cheiro…o cheiro era nauseabundo. Cheirava a lixo, a sangue, a carne putrefacta e a vómito, tudo junto. Cheirava a morte. Não havia sinais de qualquer tipo de maquinaria ou ferramentas mas, existiam espalhadas aleatoriamente, uma infinidade de jaulas para animais, mas a julgar pelas ossadas no interior destas, não eram animais que as habitavam.

Não aguentei aquele ataque visual e olfativo e comecei a vomitar. Agachei-me e apoiei as mãos nos azulejos de parede imundos. O sabor ácido inundava-me a boca à medida que expelia líquidos. Sujei sapatos e camisola, ficando esta última com uma goma absolutamente nojenta e esverdeada devido à quantidade de bílis. Ia iniciar o meticuloso processo de a tirar sem a deixar tocar-me a cara, quando ouvi um sibilar acompanhado de um som de arrasto, cujo me levou a olhar para o corredor que se estendia à minha direita, por sinal o mais iluminado dos dois existentes. O monstro, possivelmente atraído pelo barulho que fizera ao vomitar, vinha no meu encalce. Sem pensar arranquei para o meio da obscuridade do corredor à minha esquerda.


As poucas e débeis lâmpadas exerciam a sua função de iluminação de forma muito displicente e ineficaz. A luz que providenciavam era tão fraca que mal conseguia ver onde punha os pés. Senti-me escorregar por mais que uma vez, as minhas mãos ensopadas de algo líquido e espesso que cobria o chão, não mais olhadas pela minha pessoa por não querer saber o que as revestia, os meus ombros doridos de chocar contra paredes que não conseguia descortinar no meu caminho de fuga, o meu coração prestes a explodir com tamanha descarga de adrenalina e tanto tempo a correr como se estivesse num corredor sem fim, mas no entanto, a aberração continuava perigosamente perto. As minhas pernas ameaçavam vacilar e a mão ossuda já se estendia na minha direção para me agarrar quando senti o chão a terminar debaixo dos meus pés. Caí desamparado pelo que me pareceu ser uma enorme rampa e, após guinchar de dor e praguejar uma série de palavras menos próprias, ergui-me e reparei que o meu perseguidor tinha desaparecido.

Completamente esquecido da imundície que era a minha camisola, levei a mão ao peito devido a uma picada de dor. Amaldiçoei a minha estupidez ao sentir aquela pasta asquerosa espalmar-se entre a minha mão e o meu peito. Num acesso de raiva rasguei a camisola e atirei-a ao chão em pedaços. Maldita sorte a minha, que nada corria bem. Sem camisola, o gelo que se fazia sentir no local onde estava era implacável, mas não me ia deixar vencer por tal infimidade.

Olhei em volta e encontrava-me agora numa pequena sala circular com apenas uma porta, não muito bem iluminada, mas tendo em conta a situação anterior, era deveras satisfatória. Dirigi-me à porta. Estava trancada, mas tinha uma pequena vigia que usei para espreitar o interior. Com aquilo que vi, as minhas unhas cravaram-se nas palmas das minhas mãos com a força que fiz ao cerrar os punhos. A minha mulher estava no interior e felizmente, aparentava não ter qualquer ferimento. Ela saltou na direção da porta e estendeu a sua mão direita pela abertura para me tocar a face. Segurei-lhe e beijei-a. Senti o seu cheiro e inspirei profundamente ao mesmo tempo que fechei os olhos. Ela falou e disse, “Rápido Pedro. Procura o Rafael. Ele está lá em cima.”. “Lá em cima onde Vanda? Aquilo é enorme…escuro. Não sei o que fazer.”, disse-lhe em desespero. Vi a sua mão afastar-se da minha face, com um pequeno corte ensanguentado na sua palma delicada, e os olhos esbugalharem enquanto gritava uma única palavra, “Djinn”.

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