Aqueles olhos abriram-se
e tudo em seu redor era preto e branco, velho, deteriorado e assustador. Olhou
o seu corpo, pálido e sujo, coberto apenas por uma mera bata hospitalar. Ergueu-se
e, ao mesmo tempo que apertava melhor a bata atrás das costas, os pés nus
tocavam o chão gelado. O seu estado mental e físico era equivalente ao de
alguém acabado de acordar de uma anestesia. Frágil, atordoada e de raciocínio
entorpecido caminhou até à porta daquela divisão quadrada e só ao toque da sua
mão e do seu flanco na ombreira é que se apercebeu que não fazia a mínima ideia
de onde se encontrava. Em sua volta tudo era decrépito e doentio, vazio e frio,
desconhecido e ameaçador. Decidiu não ficar parada e saiu do quarto, mas o exterior
não se apresentava menos áspero.
Corredores enormes,
largos e escassamente iluminados, estendiam-se infinitamente até a fraca luz
desaparecer para dar lugar a uma escuridão que parecia ter vida. A ausência de
som era ensurdecedora. A inexistência de vida, incapacitante. O seu cérebro
pulsava em pânico e o coração parecia amedrontado demais para se deixar sentir.
Apoiada com a mão direita na parede, seguiu a passo lento para esse mesmo lado,
em busca de uma saída, em busca de alguém.
Após alguns metros viu
surgir a primeira das fontes da parca luz existente e, cambaleante,
aproximou-se. Era uma pequena janela que lhe revelou algo desconcertante. No
exterior existia apenas neblina. Impenetrável ao olhar, a bruma era tão densa
que engolia tudo, tornando belo e quase hipnotizante o mistério que encerrava. Estava
fixada neste cenário quando ouviu um pequeno ruído. Deixou-se cair até ficar
sentada no chão e, de costas fortemente encostadas à parede, olhava em redor
procurando o responsável. “Quem…quem…alguém…está ai?”. Este era o único
sussurro balbuciado que lhe saía repetidamente da boca, mas que não obtinha
qualquer tipo de resposta, embora o som se continuasse a manifestar e cada vez
mais alto, como que em aproximação. Levantou-se e começou a afastar-se o mais
rapidamente possível na direcção daquela porta que vira enquanto perscrutava o
local em busca da origem do barulho. Entrou e encostou a porta até restar
apenas uma nesga que lhe permitisse espiar o corredor em segurança. No entanto,
esta sensação de segurança não passou de um mero pensamento, uma vez que aquela
divisão se encontrava inundada numa obscuridade tenebrosa e dentro da qual não
conseguia deixar de se sentir observada e de olhar para trás.
Um enorme som de arrasto
fê-la despertar e concentrar a atenção no corredor e, através daquela frincha,
viu duas sombras passar. Um arrepio enorme na espinha e uma terceira sombra
atravessou-a a ela e à porta, juntando-se ao par circulante. As sombras não
pertenciam a pessoa alguma, mas era como se elas mesmas fossem pessoas. Embora
negras, as silhuetas apresentavam traços distintos, distinguindo-as na
perfeição.
Ao ver que estava a ser
ignorada, abandonou o refúgio e começou a segui-las. Seguiu-as lentamente
durante alguns metros até que estas, sem motivo aparente, começaram a mover-se
como se estivessem a preparar-se para combater algo e logo de seguida, surgidas
do nada, outras duas sombras se lançaram ao grupo com uma postura hostil,
atacando-o. As duas novas intervenientes eram ferozes e assustadoras, com
silhuetas de aspeto infernal e, no meio daquele quadro de guerra, pareciam
estar na mó de cima, esmagando as outras três com relativa facilidade. Era como
se estivesse a ver demónios a subjugarem anjos.
Som de ácido sobre um
pedaço de pele, foi o que ouviu na queda do primeiro anjo e, segundos depois,
na ruína do segundo. O desespero do terceiro era evidente pela sua
movimentação, que lhe permitia ser o único sobrevivente de tão absurdamente
rápida que era, quase como se de um raio se tratasse. Escapava como podia às
garras dos seus inimigos, até que apenas um o seguiu pela escuridão dentro. O
demónio que ficara para trás havia parado bruscamente e virava-se agora para a
encarar. Era horrível, o mais arrepiante dos dois, a sua presença paralisante,
e agora vinha na sua direcção guinchando de forma ressonante.
Pensou no estado em que
estava e em como seria impossível escapar se não recuperasse totalmente as suas
capacidades motoras. A tremer, fechou os olhos e cerrou os punhos, rangia os
dentes e aceitava a morte, sabendo ser impossível tal recuperação milagrosa.
Sentiu o frio emanado pelo demónio percorrer-lhe a pele, arrepiando-a, a
respiração esbofeteá-la, fazendo esvoaçar cabelo, e as lágrimas surgirem como
uma última caricia à sua face. O gelo da proximidade era tão intenso que uma lágrima
gelou e se precipitou do seu queixo até ao chão onde se desfez em mil pedaços
com um som que marcou o fim de tudo. O silêncio regressou e com ele tudo o
resto se dissipou. Abriu os olhos e o demónio jazia atordoado junto à fronteira
entre luz e escuridão, a longos metros de distância, quase como se tivesse
embatido num escudo invisível que o projetara para trás.
Tinha de aproveitar ao
máximo aquele episódio e o tempo que este lhe proporcionara para fugir dali. Tanto
à sua retaguarda como na sua frente, o destino era um manto negro face ao
desconhecido, mas um deles não tinha aquelas criaturas pela frente, fossem elas
o que fossem, logo, a escolha era óbvia. Olhou para trás e começou a correr e
com uma expressão de espanto em como o estava a conseguir fazer, entrou nas
trevas. A expressão manteve-se quando se viu a sair do outro lado com apenas um
passo e se deparou com uma sala bem iluminada apenas com um elevador. A sala
era quadrada e no sítio onde deveria estar o manto negro, existia agora uma
parede. Por muito estranho que tudo aquilo fosse, pelo menos sabia que não
seria seguida. Dirigiu-se ao elevador e carregou no único botão existente, para
subir.
As portas abriram-se e o
interior era fantástico. Continuava a ser totalmente a preto e branco, mas tudo
era almofadado e revestido a veludo com um número enorme de quadros de peças de
teatro antigas a servirem de decoração. Até um quadro de Macbeth, por William
Shakespeare, na encenação datada de 1820 na Royal House Opera lá se encontrava,
imponente, ao fundo em posição de destaque. Não parou de tocar em tudo a partir
do momento em que entrou. Era como se tivesse esquecido tudo o resto. As portas
fecharam e o elevador começou a subir. Um andar, dois, dez, vinte. Não parava e
ela não reparava. De repente, tudo se começou a desfazer como se fosse lama e
toda aquela beleza deu lugar de volta ao doentio. Este ao instalar-se, trouxe
consigo um cheiro fétido que a fez ajoelhar-se nauseada e a tossir. A
dificuldade em se controlar aumentava e o ar era um bem cada vez mais escasso
nos seus pulmões. Sem que houvesse tempo para qualquer tipo de reacção, um barulho
seco tornou a subida do elevador numa queda descontrolada e o seu corpo foi projectado
contra o tecto, deixando-a inconsciente.
P.S - Os meus agradecimentos ao meu amigo Luís Duarte pelo excelente trabalho na criação da imagem que aqui vos apresentei com o texto.

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