quarta-feira, 10 de maio de 2017

Um próximo projecto?? Digam-me vocês.

Aqueles olhos abriram-se e tudo em seu redor era preto e branco, velho, deteriorado e assustador. Olhou o seu corpo, pálido e sujo, coberto apenas por uma mera bata hospitalar. Ergueu-se e, ao mesmo tempo que apertava melhor a bata atrás das costas, os pés nus tocavam o chão gelado. O seu estado mental e físico era equivalente ao de alguém acabado de acordar de uma anestesia. Frágil, atordoada e de raciocínio entorpecido caminhou até à porta daquela divisão quadrada e só ao toque da sua mão e do seu flanco na ombreira é que se apercebeu que não fazia a mínima ideia de onde se encontrava. Em sua volta tudo era decrépito e doentio, vazio e frio, desconhecido e ameaçador. Decidiu não ficar parada e saiu do quarto, mas o exterior não se apresentava menos áspero.
Corredores enormes, largos e escassamente iluminados, estendiam-se infinitamente até a fraca luz desaparecer para dar lugar a uma escuridão que parecia ter vida. A ausência de som era ensurdecedora. A inexistência de vida, incapacitante. O seu cérebro pulsava em pânico e o coração parecia amedrontado demais para se deixar sentir. Apoiada com a mão direita na parede, seguiu a passo lento para esse mesmo lado, em busca de uma saída, em busca de alguém.
Após alguns metros viu surgir a primeira das fontes da parca luz existente e, cambaleante, aproximou-se. Era uma pequena janela que lhe revelou algo desconcertante. No exterior existia apenas neblina. Impenetrável ao olhar, a bruma era tão densa que engolia tudo, tornando belo e quase hipnotizante o mistério que encerrava. Estava fixada neste cenário quando ouviu um pequeno ruído. Deixou-se cair até ficar sentada no chão e, de costas fortemente encostadas à parede, olhava em redor procurando o responsável. “Quem…quem…alguém…está ai?”. Este era o único sussurro balbuciado que lhe saía repetidamente da boca, mas que não obtinha qualquer tipo de resposta, embora o som se continuasse a manifestar e cada vez mais alto, como que em aproximação. Levantou-se e começou a afastar-se o mais rapidamente possível na direcção daquela porta que vira enquanto perscrutava o local em busca da origem do barulho. Entrou e encostou a porta até restar apenas uma nesga que lhe permitisse espiar o corredor em segurança. No entanto, esta sensação de segurança não passou de um mero pensamento, uma vez que aquela divisão se encontrava inundada numa obscuridade tenebrosa e dentro da qual não conseguia deixar de se sentir observada e de olhar para trás.
Um enorme som de arrasto fê-la despertar e concentrar a atenção no corredor e, através daquela frincha, viu duas sombras passar. Um arrepio enorme na espinha e uma terceira sombra atravessou-a a ela e à porta, juntando-se ao par circulante. As sombras não pertenciam a pessoa alguma, mas era como se elas mesmas fossem pessoas. Embora negras, as silhuetas apresentavam traços distintos, distinguindo-as na perfeição.
Ao ver que estava a ser ignorada, abandonou o refúgio e começou a segui-las. Seguiu-as lentamente durante alguns metros até que estas, sem motivo aparente, começaram a mover-se como se estivessem a preparar-se para combater algo e logo de seguida, surgidas do nada, outras duas sombras se lançaram ao grupo com uma postura hostil, atacando-o. As duas novas intervenientes eram ferozes e assustadoras, com silhuetas de aspeto infernal e, no meio daquele quadro de guerra, pareciam estar na mó de cima, esmagando as outras três com relativa facilidade. Era como se estivesse a ver demónios a subjugarem anjos.
Som de ácido sobre um pedaço de pele, foi o que ouviu na queda do primeiro anjo e, segundos depois, na ruína do segundo. O desespero do terceiro era evidente pela sua movimentação, que lhe permitia ser o único sobrevivente de tão absurdamente rápida que era, quase como se de um raio se tratasse. Escapava como podia às garras dos seus inimigos, até que apenas um o seguiu pela escuridão dentro. O demónio que ficara para trás havia parado bruscamente e virava-se agora para a encarar. Era horrível, o mais arrepiante dos dois, a sua presença paralisante, e agora vinha na sua direcção guinchando de forma ressonante.
Pensou no estado em que estava e em como seria impossível escapar se não recuperasse totalmente as suas capacidades motoras. A tremer, fechou os olhos e cerrou os punhos, rangia os dentes e aceitava a morte, sabendo ser impossível tal recuperação milagrosa. Sentiu o frio emanado pelo demónio percorrer-lhe a pele, arrepiando-a, a respiração esbofeteá-la, fazendo esvoaçar cabelo, e as lágrimas surgirem como uma última caricia à sua face. O gelo da proximidade era tão intenso que uma lágrima gelou e se precipitou do seu queixo até ao chão onde se desfez em mil pedaços com um som que marcou o fim de tudo. O silêncio regressou e com ele tudo o resto se dissipou. Abriu os olhos e o demónio jazia atordoado junto à fronteira entre luz e escuridão, a longos metros de distância, quase como se tivesse embatido num escudo invisível que o projetara para trás.
Tinha de aproveitar ao máximo aquele episódio e o tempo que este lhe proporcionara para fugir dali. Tanto à sua retaguarda como na sua frente, o destino era um manto negro face ao desconhecido, mas um deles não tinha aquelas criaturas pela frente, fossem elas o que fossem, logo, a escolha era óbvia. Olhou para trás e começou a correr e com uma expressão de espanto em como o estava a conseguir fazer, entrou nas trevas. A expressão manteve-se quando se viu a sair do outro lado com apenas um passo e se deparou com uma sala bem iluminada apenas com um elevador. A sala era quadrada e no sítio onde deveria estar o manto negro, existia agora uma parede. Por muito estranho que tudo aquilo fosse, pelo menos sabia que não seria seguida. Dirigiu-se ao elevador e carregou no único botão existente, para subir.

As portas abriram-se e o interior era fantástico. Continuava a ser totalmente a preto e branco, mas tudo era almofadado e revestido a veludo com um número enorme de quadros de peças de teatro antigas a servirem de decoração. Até um quadro de Macbeth, por William Shakespeare, na encenação datada de 1820 na Royal House Opera lá se encontrava, imponente, ao fundo em posição de destaque. Não parou de tocar em tudo a partir do momento em que entrou. Era como se tivesse esquecido tudo o resto. As portas fecharam e o elevador começou a subir. Um andar, dois, dez, vinte. Não parava e ela não reparava. De repente, tudo se começou a desfazer como se fosse lama e toda aquela beleza deu lugar de volta ao doentio. Este ao instalar-se, trouxe consigo um cheiro fétido que a fez ajoelhar-se nauseada e a tossir. A dificuldade em se controlar aumentava e o ar era um bem cada vez mais escasso nos seus pulmões. Sem que houvesse tempo para qualquer tipo de reacção, um barulho seco tornou a subida do elevador numa queda descontrolada e o seu corpo foi projectado contra o tecto, deixando-a inconsciente.

P.S - Os meus agradecimentos ao meu amigo Luís Duarte pelo excelente trabalho na criação da imagem que aqui vos apresentei com o texto.

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