quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sem escape Cap. IV - A primeira vez que morri

  Uma dor de cabeça terrível acompanhou o meu despertar. Lembrava-me de ver a porta a voar na minha direcção e nada mais. Não fazia ideia se tinha ou não sido atingido pois, para além da enxaqueca, apenas sentia uma ligeira impressão nos pulsos e nos tornozelos. Abri os olhos a medo, mas não vi nada. Estava envolto em escuridão e comecei a sentir-me a flutuar. O meu corpo encostou-se a algo que, como tudo o resto, não conseguia ver. Senti braços e pernas a abrirem sem a minha ordem, como se tivesse sido pregado a algo e soube de imediato que estava pendurado, pois tinha de fazer força para que a cabeça não me pendesse. Comecei a debater-me. Esperneava e contorcia-me tentando quebrar o que quer que fosse que me estivesse a prender. Gritava e chorava, perdendo completamente o controlo sobre as minhas emoções. Compreendia cada vez menos o que se estava a passar, ou melhor, tinha cada vez mais a noção da minha ignorância e consequente impotência. Os meus movimentos para me soltar eram totalmente infrutíferos pois, para além de limitados, o aperto aumentava a cada segundo que passava. Apesar disto e de não saber para onde cairia no caso de me soltar, não desisti e forcei o máximo que pude. Prendi a respiração e apliquei toda a minha força, ignorando toda e qualquer dor que advinha do processo. Sentia as veias pulsarem por todo o meu corpo, as gotas de suor a nascerem de todos os meus poros. Repeti o processo até à exaustão e a cabeça pendeu-me. Certamente teria os pulsos e tornozelos feridos, pois sentia algo escorrer até aos dedos e no meio do total silêncio, o som do gotejar. Passou tanto tempo que o cansaço e a dor, juntamente com a perda de sangue, me começavam a retirar a consciência. Era demolidor o esforço para aguentar o peso da cabeça e das pálpebras. Lancei um par de vezes a cabeça para trás para que a dor da pancada me ajudasse a resistir. Tinha que fazer tudo para me manter consciente. Não podia ceder. Não pod...i..a...

Aaarrrgggghhhh...uma dor excruciante fez-me voltar a mim. Sentia a carne a rasgar no meu abdómen e um ar gélido percorrer-me as vísceras. Era de tal forma insuportável que me senti a desfalecer novamente. O meu pensamento toldava para além de qualquer crença quando um puxão no pescoço me colou a cabeça à estrutura que tinha à retaguarda. Sem perceber como, algo me impedia de desmaiar novamente, obrigando-me a suportar toda aquela dor indefinidamente. Tentava dar um ritmo à minha respiração que me permitisse aguentar um pouco melhor a tortura, se é que isso fosse possível, quando um novo golpe, ainda mais violento que o primeiro, me tomou o peito de assalto. Gritei aos soluços ao mesmo tempo que voltei a chorar de desespero e agonia. A vontade de vomitar surgiu, mas depressa se desvaneceu perante a angústia proporcionada por novo corte, este mais lento e profundo na zona da coxa. Ainda antes deste terminar, surgiu outro, e outro, e outro. Não havia zona do corpo intacta e eu já não tinha voz para gritar, limitando-me a chorar compulsivamente. Sentia um intenso cheiro adocicado proveniente de sangue e o gotejar inicial assemelhava-se agora a uma torneira corrente. O meu pensamento divagava entre duas coisas apenas, sem estabelecer qualquer ordem, nexo ou objectividade e essas coisas eram simplesmente, dor e morte. Sem razão, a dor começou a ser acompanhada de um ardor terrível e o meu corpo reagiu com espasmos violentíssimos. Gravemente ferido, os movimentos bruscos e involuntários só contribuíam para aumentar ainda mais o meu sofrimento. Desde o começo que tinha a sensação de estar a evoluir progressivamente na escala da loucura, mas agora, que começara a rir à gargalhada perante tal castigo, sem no entanto expulsar qualquer som da garganta, tinha a certeza absoluta.

Senti algo extraordinariamente forte que me fez abrir os olhos há muito cerrados e vi-me no quarto do Rafael. A escuridão havia desaparecido e não tinha quaisquer ferimentos, mas as dores permaneciam. A minha mente contorcia-se em tormento, mas o corpo estava renovado. Comecei a ver o quarto alterar-se lentamente e a voltar ao caos de quando entrei pela janela. As paredes pareciam escamar enquanto voltavam ao tom amarelado. O meu instinto levou-me a virar as costas a este acontecimento e a olhar o corredor. Os ferimentos que não paravam de me relembrar da sua existência, agora somente psicológica, deram-me uma tontura momentânea, o que quase me derrubou, mas quando realmente vislumbrei todo aquele comprimento e aquele tecto, isso sim me faria tombar, não tivesse eu aproveitado o amparo da parede mais próxima. Não queria acreditar no que via. As dúvidas face à minha sanidade mental aumentavam a cada segundo e aquela segunda visão de morte, completamente diferente da primeira, só piorava a situação. Esfreguei os olhos e aproximei-me para ver melhor. Novamente a estúpida atitude de confirmar aquilo que sabemos ser certo. Aquilo não era possível. Não podia ser. Quis vomitar mas não consegui. Estrebuchei e a boca nem se me abriu. Aquela coisa que se assemelhava ao meu corpo não respondia a ordens nenhumas a não ser para se deslocar de um lado para o outro e a minha mente contorcia-se cada vez mais sem a capacidade de se exprimir e libertar. Aquilo que se deslocava pelo corredor não era eu, ou melhor, não era eu fisicamente. Enraivecido comecei a bater em mim próprio mas não sentia nada. Corri feito louco jogando-me contra as paredes, por vezes embatendo violentamente de cabeça, mas o resultado era nulo. Não sentia nem a mais pequena picada até que se deu uma explosão no meu cérebro e me estatelei no soalho. Fiquei mesmo por baixo da criatura pregada ao tecto. Criatura essa que era eu. Via-me a mim próprio no lugar que pertencera à minha esposa, também eu gravemente ferido e pintando o chão de vermelho...pintando-me a mim de vermelho. Tremi de medo, de raiva, de frustração. Olhei novamente e em simultâneo com a dor que aumentava no meu âmago, via novos golpes abrirem, pedaços da minha carne caírem-me em cima e o cheiro da camada gorda da pele, cada vez mais exposta. Mordi os lábios até sangrarem e senti uma ínfima parte da minha alma retornar ao verdadeiro eu. Sabendo o que fazer ergui-me de um só golpe e voltei ao quarto. Peguei num pedaço de vidro que mais parecia uma lâmina e preparei-me para aquela espécie de suicídio. Sabia que não iria sentir fosse o que fosse, mas a falta de coragem não deixou de se manifestar. Prendi a respiração e apliquei o primeiro golpe, deixando um risco púrpura sobre os peitorais. O segundo, lento e profundo sobre o abdómen, abriu uma cavidade que deixou um pouco do intestino de fora e me fez desviar o olhar. Senti algo a querer jorrar do interior do meu estômago mas voltei a não conseguir expelir. De olhos fechados, sentia a agonia dos constantes golpes no meu corpo legítimo e a dificuldade cada vez maior em lidar com o sofrimento. Soltei então o que seria o derradeiro golpe, de bico, em direcção ao pescoço, mas este não chegou ao destino. Uma força inexplicável bloqueou-me o movimento a milímetros da fatalidade. Dei tudo o que tinha e resisti, mas por pouco tempo. As minhas mãos não avançaram nem recuaram durante um par de segundos mas as minhas forças eram uma miragem. O meu psicológico estava de rastos devido à tortura e, mesmo num corpo sem chagas, isso reflectia-se, sendo o objecto arrancado com facilidade das minhas mãos ensanguentadas. Tinha que fazer algo rapidamente antes que atingisse o colapso e ficasse para sempre preso naquele invólucro. Corri em todas as direcções vezes sem conta, mas era como se uma barreira invisível me confinasse ao espaço do corredor e do quarto. Sentia a minha tensão aumentar e ficava cada vez mais enervado e ofegante. Precisava de deitar tudo cá para fora sob a pena de rebentar. Precisava de chorar, de gritar, de me exprimir fosse de que forma fosse. Corri de volta ao quarto e peguei em novo pedaço de vidro para tentar a mesma manobra, mas fui novamente impedido, no entanto, desta vez tinha um truque na manga. Mal senti o puxão, deixei-me ir e cair naquele sentido. Foi tão rápido que só reparei que o cortante me havia trespassado a garganta, quando levei a mão à nuca e senti o seu bico. Os meus olhos fecharam por instantes e quando abriram, a escuridão tinha regressado, assim como o todo da minha alma ao local de origem. O ar escapou-se-me dos pulmões quando voltei a sentir na sua totalidade, todos os buracos e falhas que tinha pelo corpo, mas mal voltei a inspirar, notei que a minha voz estava de volta e gritei. Gritei de tal forma que todos os mártires que existiram até então, se reviraram nas suas campas. Foi então que me pendeu um braço, seguido de uma perna. Fiquei surpreendido de tal forma que nem pensei se seria bom ou mau sinal. Soltou-se-me o outro braço e aí sim comecei a dar voltas à cabeça sobre onde iria parar quando caísse, pois não fazia ideia de onde estava e se aquilo que vira na experiência extracorpórea era ou não real. Quando finalmente comecei a cair, não houve tempo para pensar, pois os sentidos começaram a fugir-me a uma velocidade assustadora. A única coisa que recordo é o formigueiro no estômago.

Comecei a acordar e senti luzes fortes ferirem-me a vista ainda sensível de tanto tempo de escuridão. Quando abri finalmente os olhos, reparei que eram apenas as luzes do meu hall de entrada. Endireitei-me assustado e ainda sentado encostei-me à parede. Olhei primeiro para mim e estava incólume. Nem uma pequena marca, nem uma pequena dor. Apenas a lesão do sobrolho se mantinha. Dirigi então o olhar a tudo em redor e ali bem a meu lado estava a minha porta da frente completamente destruída. Pensei imediatamente nas criaturas que me perseguiam e em como teria escapado ao impacto. Onde estariam eles? Haviam desaparecido sem deixar rasto e o silêncio imperava. Dei por mim, com o que começou por ser um simples soluçar, a rir à gargalhada enquanto as lágrimas me lavavam a face.

2 comentários:

  1. Fiquei completamente estupefacta... A maneira como escreves é muito boa! Envolvente e faz-nos concentrar na história e visualizar tudo o que dizes, acho que isso é muito importante quando estamos a escrever.. Bem mas resumindo, parabéns! Gostei imenso!

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