segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Alcatraz Cap. VI - Renascer

   "Kyle! Que mer...a é esta? Tás fud...do da cabeça ou quê?! Baixa já essa arma!" - virou-se e levou a mão ao cano da arma para a desviar, mas um pontapé na boca do estômago lançou-o ao chão.
  "Não dificultes as cenas Jack. A sério. Tentei demover-te desta tua vingança durante tempo demais. Até arrisquei ser morto por ti. Antes ainda disto tudo, já eu te tinha avisado para não interferires em assuntos que não te diziam respeito, mas não, tu e a tua mania da justiça. Tu e a mania que és um vigilante que zela pela segurança de tudo e todos. Pensa bem. A tua família tá morta porquê?"
  "Nem te atrevas Kyle." -  berrou do chão agarrado ao abdómen 
  "Não me atrevo? Mas claro que atrevo! A culpa é tua. Quem te mandou meteres-te com o Vas? Quem te mandou andares a intimidar o Cristy para obteres informações? Ninguém te chamou para o barulho! Tu é que te foste lá meter meu atrasado mental. Tu provocaste quem não devias sem nunca se terem metido contigo. Começaste a ter um alvo na testa simplesmente por interferires em algo que achavas errado. Nunca tiveste nada a ganhar, antes pelo contrário, só perdeste. Provocaste mortes atrás de mortes, mas eu sempre tive esperança que o teu altruísmo deixasse de ser totalmente inconsequente e impensado. Sempre pensei que visses a realidade como ela é e chegasses à conclusão que tudo isto é muito superior a ti e que nunca poderias sair vencedor. Mais uma vez me enganei. Acabaste por te aliar ao cab...ão que te matou a família, que matou o Vas, para vires atrás do chefão."
  "Eu só o fiz para...", "Pow", uma bala atingiu Vincent, deixando-o estendido e imóvel no meio do chão.
 "Ninguém te mandou falar palhaço. - Jack tentou mover-se na direcção do companheiro - E tu quietinho aí que a nossa conversa ainda não acabou."
  "Meu monte de esterco!Vou-te desfazer à mocada!"
  "Podes sempre tentar interromper-me novamente e levas o chumbo pra casa mais cedo. Humm? Que me dizes? - Jack fulminava-o com o olhar - Bem me pareceu que íamos chegar a um acordo. Continuando, chegaste próximo demais e eu vi-me obrigado a cessar os avisos e passar à acção. Nunca pensei que fosses esperto o suficiente para entrares no carro e ligares o Gps para a última localização conhecida. Nunca pensei que descobrisses este lugar e muito menos que todos estes atrasados mentais tivessem tão descontraídos ao ponto de teres conseguido avançar tanto."
  "Que raio de monstro és tu? Até os teus próprios companheiros mataste lá em baixo!"
  "Realmente matei uns quantos dos meus, mas tinha de esperar pela hora certa para agir. Chegou o teu fim Jack. A tua caminhada termina aqui."
  "Porque proteges tu esta gente? Que tens tu a ganhar com isto?"
  "Vi o meu sobrinho ser morto por aquele filho da pu..a do Janus, que ainda lhe hei-de arrancar o coração, não vou ver também o meu irmão a ser morto por ti."
  "O teu irmão?! Nunca, durante estes anos todos soube que tinhas um! O teu irmão é o líder desta escumalha?! O responsável pela morte da minha família?! Pela morte da dele?! -  apontou para Vincent que ainda não mostrara qualquer sinal de vida desde que fora alvejado.
  "Parece que sim né? Seja como for, embora não concorde com o rumo que deu à vida dele, não deixa de ser meu irmão, a única família que me resta, e eu defendo-o com tudo o que tenho. Mais uma vez te peço desculpa Jack. Eu tentei. Tentei com todos os meus recursos evitar que chegássemos a isto, mas tu não permitiste. Adeus Jack. Espero que encontres a tua família do outro lado."

Jack, que já se encontrava em pé, avançou e encostou o peito ao cano da arma. Todo o movimento foi feito de cabeça baixa, só a erguendo quando parou, para olhá-lo bem nos olhos. Foi um olhar completamente ausente de qualquer emoção ou sentimento que não ódio, mas Kyle não vacilou por um segundo que fosse. Manteve-se inabalável e o seu dedo começou a pressionar o gatilho, mas no último instante algo o fez falhar o alvo. Um encontrão vindo do nada derrubou-o. Jack guinchou ao ser atingido de raspão no braço e ouviu-se o estilhaçar de um candeeiro que se encontrava em cima de uma pequena mesa no outro lado da sala, devido ao impacto da bala, o que abafou a queda do atirador. O careca agarrou-se ao braço e olhou para a besta derrubada, vendo-o já desarmado e embrulhado com o tipo que matara o puto loiro. Preferiu não intervir e dirigiu-se ao companheiro caído. Ao chegar verificou que não estava morto e que nem sequer tinha sido atingido. Tinha sim desmaiado ao bater de cabeça no chão com demasiada força ao tentar desviar-se da linha de fogo. Deu-lhe umas chapadas na cara até o acordar, mas vigiando sempre os dois brigões.

  "Vincent...Vincent...ouve-me. - ele já abrira os olhos, mas estava meio abananado - O Kyle tá à bulha ali com outro gajo e eu preciso que me ouças com atenção. Se não fosse esse tal tipo aparecer, eu já tava morto por esta altura, mas não sei o que resultará dali, nem tão pouco sei se ele tá ou não do nosso lado, portanto é assim, tenho aqui a tua arma... - deu-lha para a mão - ...e tu, agora que a tens de volta, vais continuar aqui a passar por morto e, caso o que vou fazer der para o torto, tu limpas o sebo a qualquer um daqueles animais que reste de pé, entendido?"
  "Perfeitamente Jack. Perfeitamente."

Ergueu-se no preciso momento em que Kyle pontapeou Janus em cheio na cara, fazendo estatelar-se contra uma estante e em seguida contra o chão. O sangue espirrou e salpicou tudo em volta em sintonia com a queda. O grisalho recuperou então a sua arma e apanhou a do seu agressor. Apercebendo-se da aproximação de Jack, recuou e apontou as armas a ambos.

  "Quietos os dois já! Janus, meu filho da p..ta! Agora juntaste-te a ele? Depois do meu irmão te ter tirado da pobreza das ruas onde vivias? É este o teu agradecimento? Vais ter uma morte muito triste e dolorosa meu cab...ão...vais, vais...vais pagar bem caro por isto e especialmente pela morte do Brian. Levanta-te car...lho!"
  "O Brian era a me...da de um puto mimado... - dizia com esforço enquanto se levantava e limpava o sangue do nariz e boca - ...só teve o que há muito andava a pedir."
  "Tu não fales dessa maneira."
  "Não queres ouvir não perguntes meu estúpido de merda.", "Pow", uma bala furou-lhe o joelho de um lado ao outro e voltou a colocá-lo por terra.
  "Eu avisei. Da próxima é na testa."
  "Covarde de meia tigela. Não tens col...ões para enfrentar ninguém sem armas? Hahaha...ninguém pode negar a família a que pertences. Cambada de hipócritas, chulos, assassinos...não passam de carneirinhos que se escondem por detrás de uma grande fortuna. Realmente tiraram-me das ruas, mas com o que vi durante todos estes anos, preferia ter continuado pobre, pois teria simultaneamente continuado íntegro e honesto. São várias as razões que me levam a partilhar da demanda deste homem... - guinou a cabeça na direcção de Jack - ...e que me levaram a ajudá-lo. Nas docas, quando te vi a ajudá-lo, pensei que estavas mudado e que realmente te preocupavas com alguém, que eras amigo de alguém, mas isso não faz parte de ti... - tossiu um pouco - ... não faz parte de ninguém desta família disfuncional. Jack..."
  "Sim...Janus..." - aproveitou para baixar os braços enquanto respondeu.
  "Não desistas de fod...r estes cab...ões todos pa azeite, ouvi...", "Pow", desta vez foi atingido na testa, ficando de costas no chão, boca aberta e olhos esbugalhados. O sangue escorreu do buraco ainda fumegante quando a cabeça tocou o solo.

Voltou a apontar a pistola a Jack e um sorriso cínico desenhou-se-lhe no semblante. Olhou de relance para Vincent, com o careca a seguir-lhe o olhar.

  "Vamos lá terminar o que comecei ali com o aleijado. - carregou a bala na câmara - No entanto, acho que contigo vou descarregar os tiros todos, só para ter a certeza que não te levantas. Dá os meus cumprimentos à tua família."

Vincent sentou-se de repente e disparou dois tiros naquela direcção, com um deles a atingir o braço do traidor. "Arghhhh.", deixou cair a arma e, em simultâneo com o uivo de dor, jogou a mão ao ferimento. Sem que houvesse tempo de reacção, Jack aproveitou e correu na direcção do grisalho, sacando da faca que recuperara da nuca de um pobre coitado daqueles. Chegado junto ao outro, projectou-o por cima das suas costas para o chão, enrolou-lhe as pernas em torno do tronco, imobilizando-o, e encostou-lhe a lâmina ao pescoço, exercendo alguma pressão, a suficiente para que um pequeno fio de sangue iniciasse a sua caminhada descendente.

  "Então? Já não tamos tão confiantes agora, tamos?"
  "Jack, meu panhonha! Tu não és nenhum assassino. Nunca serás capaz de o fazer!"
  "Tens a certeza meu merd...so?"
  "Total e absoluta maricas de mer...a!"
  "Resposta errada companheiro. Os meus cumprimentos ao teu sobrinho. Ah...e espero que a tua única família te encontre quando a mandar ir ter contigo." - um golpe tenso e rápido abriu-lhe a pele expondo-lhe os músculos e parte da traqueia, cuja foi ocultada pelas contínuas golfadas de sangue que se iniciaram quase de imediato. Não o largou até ele cessar com os espasmos e com o gorgolejar. Ao levantar-se, Vincent poisou-lhe a mão sobre o ombro e ele olhou para as suas próprias. Estavam cheias de sangue, bem como os braços, a camisola e certamente a sua face. Olhou o cadáver e respirou fundo perante o nó na garganta. Os passos de retorno ao corredor foram dos mais pesados da sua vida. Sentira-se demasiado perto da morte mas, a maior tristeza e revolta, derivavam da morte do seu "suposto" melhor amigo. Tinha consciência de que não tivera outra escolha senão matá-lo, mas mesmo assim culpava-se por nunca lhe ter dado ouvidos e o ter obrigado a agir daquela forma extrema. Não era culpado, mas certamente, também não inocente.

O ruído de vários carros alertou-os e dirigiram-se a uma janela para verificar o que se passava. Todos os tipos que haviam ficado para trás nas docas, estavam de volta e rodeavam toda a área frontal da casa. Alguns saíram dos carros a correr e dirigiram-se às traseiras. Sentaram-se no chão a pensar no que fazer, quando viram, sair a correr de uma porta quase junto às escadas, um tipo de cara tapada e óculos escuros. O indivíduo tinha a cara completamente coberta de ligadura, não dando para perceber sequer o seu tom de pele e, do seu cabelo preto, apenas um tufo ou outro se via espigado por entre o tecido. Precipitou-se rapidamente em direcção ao andar inferior e eles seguiram-no o mais rápido que conseguiram, visto estarem ainda bastante afastados da escadaria. Na sua correria descendente de perseguição, as narinas de ambos foram assaltadas por um cheiro extremamente intenso e adocicado que nunca haviam sentido antes. Era tão forte que até dava a volta ao estômago. Antes que o conseguissem alcançar, o suspeito abriu a porta da frente e saiu para o exterior. Espreitaram discretamente e viram-no ter todas as atenções daqueles homens, cujos lhe prestavam total vassalagem. Tanto um como outro souberam de imediato que era ele. Era o chefe, o irmão de Kyle, o alvo a abater. Mas como? Como, contra tanta gente e sendo eles só dois? Tinham de dar a volta a dezasseis "gajos" e certificarem-se de que o décimo sétimo sofria a bom sofrer. Correram na direcção da sala de onde o chefe havia saído e fecharam a porta atrás de si. Não viam absolutamente nada pois a sala tinha todas as janelas cerradas e por mais que carregassem nos interruptores, guiados pela lanterna do telemóvel, não havia luz que se manifestasse. Arrancaram todos os cortinados negros e abriram uma ou outra portada, mas de forma a gerar apenas o nível de luminosidade suficiente para que pudessem ver o que os rodeava. Quando a luz lhes iluminou o caminho, constataram que naquela sala não existia nada para além de um cadeirão almofadado ao centro, também ele de cor preta. Não havia ali nada que lhes pudesse dar fosse que vantagem fosse. Furioso, Jack aplicou um pontapé no mesmo, derrubando-o e fazendo uma barulheira imensa, muito ampliada devido ao eco. De imediato se ouviram passos acelerados pelas escadas acima.

  "Fod...se Jack! Já sabem que aqui estamos. Qual é o teu plano agora?"
  "Cala-te e improvisa!"
  "Bom plano..."

O primeiro a tentar entrar, abriu a porta apenas o suficiente para espreitar e do interior só se lhe via a ponta do nariz, mas rapidamente desapareceu. Um violentíssimo pontapé, pior do que o que aplicara na cadeira, foi dirigido à porta, provocando uma ligeira planagem do indivíduo no exterior, que na sua passagem do estado consciente para um de inconsciência total, cuspiu uma mistura de sangue com saliva para cima dos que estavam mais próximos. As metralhadoras iniciaram o seu acto de destruição, enchendo a porta de buracos. No interior, eles afastaram-se para lados opostos da sala para se afastarem da linha de fogo e taparam os ouvidos enquanto o cântico de pólvora durou. O silêncio chegou bruscamente e apenas era interrompido por alguns pedaços de madeira que ainda estalavam ou caíam. Os escassos segundos que durou pareceram uma eternidade assolada de tensões negativas. A entrada que se seguiu foi brusca, mas eles estavam preparados. Prenderam os dois da frente pelo pescoço, usando-os como escudo e premiram os gatilhos das semi-automáticas dos mesmos, despachando os restantes quatro que os acompanhavam. Ficaram com as armas e deixaram cair os corpos que agora mais pareciam passadores, de tanto buraco que tinham. O sangue que molhava chão e ensopava carpetes já escorria pelos primeiros degraus quando Vincent se aproximou do tipo inanimado e lhe partiu o pescoço de um só golpe, mostrando uma frieza incalculável. Desceram com extrema cautela e ouviram ruídos vindos da cozinha. Aproximaram-se e viram três "macacões" de volta dos corpos que haviam lá deixado. Vince pôs a metralhadora de lado e fez pontaria com a silenciadora enquanto Jack avançava agachado por entre os balcões. Um tiro certeiro e silencioso atingiu um na garganta. Os olhos esbugalharam e a boca encheu-se de sangue fazendo-o soluçar, as mãos perderam a força e abriram deixando cair a arma e a vida abandonou o corpo, fazendo-o cair sobre os joelhos e seguidamente para o lado. Os outros hesitaram por momentos devido ao choque antes de começarem a disparar e a correr em busca de cobertura, mas só um chegou ao destino. Sem que o da frente visse, Jack apanhou o outro e, encostando-lhe o cano ao abdómen, disparou uma rajada, furando-o de um lado ao outro repetidamente, fazendo-lhe em farrapos as costas da camisola e salpicando o tecto de vermelho. Não era um assassino mas, depois de todas aquelas mortes, já se sentia como tal. Olhou para a última vítima e viu-a a tremer por detrás de um balcão. "Meus montes de mer...a, nunca vão sair daqui vivos!", gritava ele de forma a disfarçar o medo que o invadia. Do outro lado do balcão já estava Vince, contornando-o calmamente. Quando se encontrava na esquina, a uma mera distancia de um braço, parou e esperou que  o alvo se aproximasse ainda mais, o que não tardou a acontecer. Nessa altura colocou-se na frente do desgraçado e encaixou-lhe a arma bem por baixo do maxilar inferior. Este, com o susto, largou a arma e mijou-se. Via-se perfeitamente que era um maçarico. "Podemos não sair vivos, mas tu também não.", disse antes de lhe deixar o maxilar pendurado por uma prega de pele e a "mioleira" a enfeitar chão e balcão. O som do corpo inerte a bater de costas no balcão e de seguida no granito do soalho, foi a última  coisa a ser ouvida antes de novo sossego aterrador. Voltaram então a juntar-se e, estranhando toda aquela calmaria tão duradoura, aproximaram-se da porta das traseiras, pela qual haviam também entrado, mas sem pressa alguma e com todos os sentidos alerta. Jack rodou lentamente a maçaneta e olhou para Vincent mantendo a porta fechada. Gestualmente pediu-lhe que se baixasse e não fizesse barulho. Começou então a abrir a porta muito lentamente e quando aproximou a cabeça para espreitar, uma saraivada de balas assolou o local. Só tiveram tempo de saltar cada um para seu lado e procurar abrigo por entre os balcões. Os restantes seis "marmanjos" estavam lá fora à sua espera. No entanto, Vince ficou em posição privilegiada e de onde se encontrava conseguia ver dois deles pela janela. Ia tentar a sua sorte e tentar "martelar" ambos. Dois tiros bem medidos e os tipos caíram. Um deles morreu de imediato com o impacto a ser ao nível da fonte esquerda, enquanto o outro se ficou a contorcer de dores por a bala lhe ter atravessado a boca da esquerda para a direita através das bochechas. Houve dentes do pobre desgraçado que estilhaçaram como vidro. Os outros, surpreendidos, afastaram-se e tomaram posições demonstrativas de maior cautela e de abandono do excesso de confiança. Lá dentro o atirador aproveitou para se juntar ao colega.

  "Jack, afugentei-os por momentos e agora temos a nossa oportunidade. Já me vi livre de dois pelo menos. Vamos embora daqui! Rápido!" 
  "Fod...se Vincent...não consigo!"
  "Não acredito nisto...Jack...mer...a...mer...a..." - Ele tinha sido atingido. Viu o sangue a sair-lhe abundantemente de um enorme ferimento na zona do fígado.
  "Vai-te tu embora daqui pá. Vai...!"
  "Vou agora deixar-te aqui! Deves ser é maluco!"
  "Já te disse que te ponhas a andar. Vai-te embora daqui cara...ho! Não quero ser visto neste estado, além disso, preciso de alguém lá fora que dê um rumo à vida do meu puto. Vai, faz isso e redime-te de vez."
  "Ok, mas se eu conseguir chegar ao carro, chamo uma ambulância para te vir buscar."
  "Não. Limita-te a fazer o que te disse, ouviste?"
  "Podes tentar impedir-me." - levantou-se a afastou-se.
  "Cab...ão de mer...a..."

Vincent, já com uma frigideira na mão, que agarrou no caminho até à porta, abriu a mesma uma nesga e jogou o objecto para o lado contrário à posição dos homens. Estes alertaram-se com o barulho e, ao olharem para descortinarem a origem, revelaram as suas posições. Quando se voltaram a esconder por completo novamente, já ele estava lá fora no seu encalço. Arrastando-se pelo relvado, alcançou o primeiro, que se encontrava escondido por detrás do enorme barbecue do jardim. Este nem teve hipótese de estrebuchar com os três tiros que levou pelo peito. Lateralmente via o segundo, mas pouco atrás deste sabia estarem os restantes. No entanto, a sorte sorriu-lhe, ou assim pensava ele. O tipo ao qual havia perfurado a face, ainda gemia com dores e arrastava-se agora na direcção da sua próxima vítima, cuja se expôs numa tentativa de o ir ajudar. "É o momento perfeito.", pensou enquanto apontava a arma, desconhecendo que os mais recuados vigiavam o auxílio ao colega. Não era normal esquecer-se de tais possibilidades, mas por norma, quando ia em missões, nem chegavam a saber que ele lá tinha estado até darem com os mortos ou começarem as explosões. Disparou em cheio contra o ouvido do tipo, que se entendeu de imediato nas proximidades do que se arrastava, para se imediato começar a ser bombardeado pelos outros. As balas tilintavam de forma constante contra a armação férrea que lhe servia de escudo e ele não descortinava uma forma de sair dali. Olhou para a sua direita e viu uma carrada enorme de papelada, pinhas, acendalhas e ervas secas. De forma a não se expor, começou a juntar tudo num monte e pegou-lhe fogo com um isqueiro que se encontrava encaixado no "grelhador sobre o efeito de hormonas". A quantidade de comburentes era tal que o fogo depressa tomou enormes proporções, provocando por acréscimo, uma nuvem de fumo imensa. Tão próximo estava das chamas que sentia a pele a estalar. Tinha que sair dali rápido aproveitando a cobertura da "fumarada". Correu como se fosse o último dia da sua vida, ou melhor será dizer, o mais rápido que as suas mazelas permitiram e só deram por ele, já ele estava muito perto. Tentaram disparar mas a janela de oportunidade fechou-se antes que o pudessem fazer. Vince atingiu o mais próximo com um soco descendente, fortalecido pelo balanço do salto que deu e, com dois movimentos dignos dos melhores heróis do cinema, de esquerda puxou da sua faca, recuperada a Jack, cortando a mão ao que sobrava e, passando a lâmina para a sua direita, enterrou-a profundamente e em seguida, na lateral do pescoço do mesmo. Voltou a virar-se para o socado e lançou-o ao chão, batendo-lhe tão violenta e cegamente que quando parou já o tipo não respirava há muito e seria impossível reconhece-lo pelas feições, de tão desfeitas que estavam. Respirou fundo e conseguiu acalmar-se pela primeira vez desde que ali chegara. Ergueu-se mais relaxado, mas extremamente cansado.

  "Meu corno! Olha para o que fizeste! Vou acabar o que a porcaria do Vas e dos restantes meus homens não foram capazes...mandar-te para junto da tua família."

Virou-se bruscamente perante o som da voz familiar. Mais um erro que cometera, mais um esquecimento. Esquecera-se que não eram dezasseis, mas sim dezassete. Provavelmente este seria o seu último grande erro. Olhou a figura enrolada em ligadura à sua frente. Apenas lhe conhecia a voz, pois nem ele nem ninguém que ele soubesse, o tinham visto alguma vez sem aquele disfarce. A Colt de Vas estava na mão dele e apontava à sua cabeça. Era notória a facilidade daquele monstro em matar um ser humano. Nem um ligeiro tremor se notava nos seus membros. Vince fechou os olhos e preparou-se para o inevitável. Não sairia dali vivo e a sua morte seria um misto de pólvora, sangue e perfume doce. Ouviu o primeiro tiro e o segundo veio quase sem demora, mas não sentiu dor. Abriu os olhos e viu que a múmia não disparava para si. Girou para ver o que se passava e o queixo caiu-lhe. Jack caminhava lentamente e começara a disparar a metralhadora que trazia consigo, mas o seu abdómen já não tinha apenas um ferimento...tinha três. As suas calças já estavam ensopadas em vermelho até aos joelhos. Atirou-se para o chão e começou a olhar alternadamente para os dois atiradores. O chefão, já prestes a cair, completamente trucidado pelas balas, ainda disparou uma última vez, acertando por sorte na garganta do seu salvador.A fonte púrpura localizada no seu pescoço não cessava a corrente, mas nem assim ele parava. Ainda deu meia dúzia de passos, sempre disparando, até ver o seu adversário tombar e também ele cair de joelhos. Fechou então os olhos, a mão abriu-se-lhe suavemente deixando a arma pousar da mesma forma na relva e a cabeça pendeu-lhe, tocando o peito com o queixo. Vincent levantou-se de tal forma aflito que escorregou, vendo-se obrigado a levar as mãos ao chão para não cair novamente. Chegou esbaforido perto de Jack e chamou-o em voz alta. Ele abriu muito ligeiramente e a tremelicar o olho esquerdo, tentou falar mas não conseguia, ergueu a mão com lentidão e tremendo compulsivamente, tocou-lhe o peito. Agarrou-lhe a mão ensanguentada com a sua e sentiu-o usar as últimas e poucas forças que tinha para apertá-la. O seu corpo começou a balançar com maior intensidade a cada segundo passado e ele debatia-se por forma a manter-se direito e vivo, mas o fim acabou por chegar. Agarrou-o para que não tombasse desamparado e deitou-o no manto verde, fazendo o gesto na cruz antes de se erguer. Agora que tudo estava calmo, os passos pesavam-lhe mais do que nunca, o corpo doía como não havia memória e o vazio que sentia parecia poder tirar-lhe a vida a qualquer momento. Passou pelo corpo do chefe e parou por um breve momento para olhar. O cheiro doce do traste contrastava agora com o fedor a sangue de uma forma intensa e algo perturbante na sua opinião, mas isso eram pormenores. Sentia-se regozijado com o destino, mas visto ter vivido os últimos tempos preso a um desejo de vingança contra aquele homem, a sua morte não estava a ter o efeito que tinha pensado. Continuava prisioneiro na sua própria mente. Tinha que escapar, mas para isso precisava de um novo objectivo na sua vida, um objectivo ausente de armas, violência e morte. Tinha visto tanta gente boa tombar, tanto prisioneiro como ele próprio inundar-se em sofrimento e morrer afogado no mesmo. Sentia-se destroçado por todos eles, mas a vida tinha-lhe dado um nova oportunidade e ele não podia desperdiça-la, logo estava feliz. Soubera em tempos o que era a felicidade, esquecera-a, mas agora, queria voltar a aprende-la. Numa derradeira demonstração de raiva, "como última atitude de um prisioneiro que abandona os corredores da morte na direcção da saída para o mundo exterior", pontapeou a cabeça do morto e cuspiu-lhe. Olhou para trás, para onde havia deixado Jack e sorriu. Já sabia qual seria o seu objectivo, o seu libertador, a sua luz ao fundo do túnel.

"Adeus Jack. Tenho uma criança para ir buscar."













P.S - Aproveito esta altura para pedir um favor a todos que me acompanham. Quero iniciar em breve uma nova série, mas gostava que não fosse algo escolhido por mim. Peço então que postem no espaço dos comentários, algo que gostassem de ver escrito/trabalhado por mim. Obrigado.
Por fim, mas não menos importante, quero agradecer a todos os que leram e me foram dando as suas opiniões sinceras. Ajudaram-me bastante no desenvolvimento desta série e deram-me motivação para continuar. Espero que tenham gostado do final, mas especialmente do todo.

Pedro C.

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