quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sem escape Cap. VI - Submerso

  Não sei por quanto tempo fiquei em transe segurando aquele pedaço de tecido em frente aos meus olhos. Aqueles momentos de aflição foram percorridos de ponta a ponta inúmeras vezes pela minha mente, na incessante busca por algo que me retirasse da escuridão e me revelasse algo que me tivesse escapado. Precisava de algo palpável, algo que me mostrasse o caminho, uma luz que me guiasse na direcção das respostas, respostas essas que eu sabia agora existirem, se na forma de soluções provisórias ou permanentes, não fazia ideia, mas a prova da sua existência balançava por entre os meus dedos, ao sabor da suave, mas gélida brisa da noite.

Um ruído abafado libertou-me daquele transe e prendeu-me a atenção à casa. Avancei em direcção à abertura da frente, onde anteriormente a minha porta tinha feito segurança, enquanto guardava aquele pedaço no meu bolso. Avancei apreensivo, uma passada cadenciada e silenciosa. Encostei-me lateralmente à ombreira, ainda no exterior da casa. Com a maior das cautelas, curvei-me ligeiramente e, esticando e curvando o pescoço, olhei furtivamente o interior. Não via nada nem ninguém e o único ruído audível era o crepitar da minha lareira, cuja se encontrava ainda acesa...estranhamente, visto que quase podia jurar que já se apagara há muito, pela altura da explosão vítrea que quase me ceifara a vida, mas que minutos depois, parecia não ter acontecido. Mas aconteceu! Eu sei que aconteceu! Tal como tudo até então, embora o que quer que provocasse aquelas situações, me quisesse fazer querer o contrário.

Agachei-me e entrei. Um pé e, só momentos depois, o outro, um rastejar até ao sofá e as costas encostadas à parte traseira do mesmo, uma avaliação rápida do espaço...vazio...o fogo como única companhia...erguer e, em bicos dos pés, alcançar o início do corredor, ouvir a melodia eólica que dominava todo aquele comprimento...imperturbável...o som do fogo a diminuir lentamente com a distância e silenciar com a visão da cozinha, escura e fria. Aguardei por momentos, até que a minha visão se habituasse à obscuridade e, certificando-me que a divisória estava vazia, acendi a luz. As luzes brancas piscaram no arranque e sem explicação, estouraram com uma barulheira tremenda. Levei as mãos aos ouvidos e, quando as comecei a afastar novamente, ouvi novo som, como se o fogo tivesse ganho uma dimensão tal que fosse capaz de consumir toda a habitação. Mal regressei à sala de estar, após um sprint breve, mas carregado de tensão, o fogo, quase a tocar o tecto e a atingir mobílias, extinguiu-se bem à minha frente. Incrédulo, mesmo depois de tudo, aproximei-me da lareira. Nada estava danificado. Nem uma minúscula marca chamuscada. Foi quando olhei para cima e vi. No tecto, uma mancha preta parecia crescer para além da zona afectada pelas chamas e o cheiro a queimado começou a entranhar-se-me nas narinas. Era de tal forma intenso que comecei a sentir-me nauseado. Dirigi-me ao exterior para respirar, mas até a rua parecia infestada com aquele odor. Voltei a entrar e corri para a cozinha, para o lavatório, onde abri a torneira em força e joguei a água corrente na face por várias vezes. O alívio fez-se sentir, mas pouco ou nada durou e as náuseas voltaram a imperar devido ao poder cada vez maior daquela olência. Esfreguei a cara com nova quantidade de água e proibi-me de respirar pelo nariz, abrindo a boca para o efeito. O resultado estava a ser satisfatório e a má disposição agonizante, não passava agora de uma ligeira "moinha" no estômago.

Tinha-me dado ao luxo de me sentar por alguns segundos numa das cadeiras brancas da minha branca cozinha, quando o cheiro desapareceu por completo, quase como que assumindo a derrota perante mim. A ideia de um sorriso passou-me pela cabeça, mas não chegou a atingir o mundo real, visto que o ruído abafado se voltou a manifestar, vindo do corredor. Ergui a cabeça, cuja testa tinha apoiada nas palmas das mãos e avancei naquela direcção, armado com a cadeira, como precaução para qualquer eventualidade. Já a meio daquele comprimento, sem ter voltado a ouvir nada e sem ver nada nem ninguém, uma nova pancada seca ecoou. Constatei que, estranhamente, a origem vinha do interior das paredes. Pousei a cadeira e encostei o ouvido à quadrela. De imediato senti como se me quisessem bater na cabeça e por reflexo afastei-me. Fiquei perplexo quando, o som imediatamente a seguir foi o chamar do meu nome pela voz da minha mulher. "Vanda?!", balbuciei em choque. "Vanda, és tu?!", perguntei, encostando novamente o ouvido. "Pedro...Pedro, tira-me daqui, por favor...", se poucas dúvidas me restavam, naquele momento tive a certeza de que aquela era a sua voz. Estupidamente, guiado pelo turbilhão de sentimentos, a primeira coisa que fiz foi usar a cadeira. Escusado será dizer que, após o segundo embate, pouco restava da mesma, tendo-se partido em vários bocados, sem provocar estragos para além de uma lasca aqui e ali. "Eu vou-te tirar daí, amor! Não te preocupes!", disse isto e abalei a correr no sentido da garagem. Sabia ainda lá ter um dos martelos que os tipos da construção haviam usado para derrubar a parede que separava a cozinha do anexo externo, para posteriormente montarem a porta em arco que agora lá se encontrava. Não foi preciso procurar muito e em pouco mais de cinco minutos estava de volta. "Protege-te Vanda! Vou tirar-te daí!". Dito isto, comecei à martelada à parede, desta vez com efeitos bastante satisfatórios. Aquela barreira desmoronava-se rapidamente e não demoraria muito até que conseguisse tê-la nos meus braços. Ainda não sabia como podia aquilo ser real, depois de tudo o que havia visto acontecer, mas isso agora não me importava. Quando o buraco atingiu o tamanho suficiente para a passagem de um adulto, espreitei para o interior e vi-a. Estava afastada para um canto e totalmente encolhida e a tremer, vestindo uma túnica branca com apontamentos dourados nas zonas de costura. Chamei-a e não obtive resposta. Penetrei no espaço até metade do meu corpo e voltei a chamar, desta vez estendendo a minha mão, quando senti algo tocar-me do lado de fora. Saí de um só rápido movimento e ouvi correr na direcção da cozinha. Voltei a colocar as duas mãos no martelo e, pedindo à Vanda que esperasse, fui ver quem ali estava.

Ao chegar à cozinha gritei em fúria. Mais uma vez, não havia ninguém para ser encontrado. Aquelas situações em constante repetição, pareciam brincadeiras de mau gosto, se é que se podem tratar de forma tão leviana. Virei costas, não sem antes cravar uma martelada num armário, que se desfez em bocados, precipitando uma quantidade considerável de loiças para o chão e provocando uma barulheira infernal. O meu cérebro e consequentemente, a minha capacidade de raciocínio, começavam a ser uma nulidade e, tal como as loiças, acabavam de se desfazer completamente em cacos com a visão que tive. Os pedaços da parede destruída pareciam ter ganho vida e vi os últimos, voarem na direcção das falhas correspondentes, acabando de a reconstruir na totalidade, encontrando-se o chão totalmente limpo...até o pó havia desaparecido. Instintivamente, recomecei à martelada no mesmo ponto e os destroços começaram a amontoar-se novamente, simplesmente para, de repente, voltarem à origem, agregando-se e reconstruindo mais depressa do que eu conseguia contrariar. As forças começaram a abandonar-me e caí de joelhos por momentos. Olhei em frente e nem uma arranhadela para me dar uma esperança. Para piorar o meu desespero e sensação de impotência, ela recomeçou a gritar do interior. Eram gritos de pânico, gritos de dor e desespero. Levantei-me sem o martelo, encostei as palmas das mãos à parede e chorei. Chorei enquanto lhe pedia perdão, enquanto me tentava perdoar a mim próprio por tal inutilidade. Num ataque de histerismo, comecei a bater na parede, a princípio de mão aberta e pouco depois, aos murros, com a maior violência com que se possa imaginar. Esmurrava a parede enquanto expulsava gritos guturais de raiva, enquanto ouvia o som dos ossos dos meus dedos quebrarem, enquanto ignorava o sangue que pingava da pele rasgada. Senti os olhos revirarem e a língua inchar, quase até ao ponto de me impedir de respirar, mas não conseguia parar. Com uma das mãos comecei a puxar também os cabelos até arrancar tufos e a arranhar a cara, com uma intensidade tal que só me faltava arrancar os próprios olhos. Sentia o meu corpo a perder o controlo e, embora eu tentasse fazê-lo parar, não conseguia. Ele reagia de forma autónoma e eu mais parecia um génio preso numa lâmpada. Sentia todas aquelas agressões externas e espasmos musculares, sem nada poder fazer. Era outra vez aquela sensação do sofrimento sem resposta, só que desta vez, era o meu corpo a provocá-lo a ele próprio. Todas aquelas marcas ensanguentadas na parede, formavam uma pintura macabra que simbolizavam a dor e a angústia no seu estado mais puro e descontrolado. Aquele sangue que me corria da cabeça em fios, ensopando-me o cabelo e fazendo-me pestanejar a cada gota que me pendia das pestanas, fez-me lembrar das feridas e peladas que havia feito a mim próprio. Tal era  a minha condição, que me havia esquecido de algo tão doloroso e que tinha feito há não mais de dois ou três minutos. Agora que me lembrara, ardiam-me por toda a cabeça. Por fim e após tempo demais, caí de joelhos no chão, a arfar como um cavalo, ruidosamente como um comboio, de cabeça a pender sobre o peito e braços caídos ao longo do corpo, com as costas das mãos destruídas e tocando o solo. Após alguns segundos, já respirava mais lentamente, mas com a sonoridade do rosnar de um cão, cada vez mais grave, até que, na derradeira investida, o meu corpo decidiu atacar de cabeça...literalmente. Assim que o meu crânio embateu na dura superfície, todo o meu cérebro desligou.

Comecei a recuperar os sentidos lentamente, acompanhado de dores agudas, especialmente nas mãos e cabeça, mas o que mais me afligia era a falta de ar. Sentia-me inexplicavelmente apertado e, abrindo finalmente os olhos na totalidade, tive a explicação de todos os porquês. Estava preso dentro da parede. Foi o pesadelo. A forma como eu abominava e temia lugares fechados e apertados. Comecei a entrar em pânico e a transpirar que nem um louco, o ar a faltar cada vez mais e as forças a esvairem-se ao triplo da velocidade. Tentava desesperadamente por todos os meios conseguir deslocar-me pelo apertado espaço antes que sufocasse, procurar alguma fresta que me proporcionasse ar, melhor luminosidade e, acima de tudo, contacto com o exterior...com o espaço aberto. O meu desespero estava prestes a alcançar um pico histórico e eu pensava que nada pior poderia acontecer, mas estava enganado. Comecei a sentir os pés molhados e a chapinhar e, dentro daquilo que me era permitido pela área disponível, olhei para baixo, somente para constatar que a prisão onde estava encarcerado, se estava a encher de água. O ar abandonou-me os pulmões e tenho a sensação que perdi totalmente a capacidade de respirar. Espalmado como estava naquele espaço, não teria qualquer hipótese de escapar, a não ser que alguém surgisse e me tirasse dali. Com tremendo esforço, consegui absorver uma golfada de ar e gritei por ajuda, mas a minha voz estava fraca...estava diferente. Isto fez-me parar surpreendido, mas não por muito tempo, pois o nível do liquido subia velozmente e já me ultrapassara a cintura. Por muito fútil que fosse, e eu sabia que era, voltei a gritar e a dar pancadas na parede à minha frente. As pancadas soavam secas e até a mim, custavam a ouvir. Estava condenado, ou talvez não. Talvez fosse mais uma daquelas ilusões em que de seguida acordava e tudo parecia normal. Mas podia ser também daquelas situações permanentes, como certos ferimentos dos quais não me livrara. Não me sentia tentado a testar qual delas seria, mas que poderia eu fazer? Que mal podia eu ter feito para merecer o castigo das últimas horas? Porquê eu? Porquê a minha família? Vanda...Rafael...ainda o posso salvar...ainda o posso...! Num acesso de determinação, enchi o peito de ar, que já se encontrava também ele submerso até à zona dos ombros, e procurei uma solução. Já a água me tocava no queixo, quando vi que, acima da minha cabeça, o espaço prolongava-se até perder de vista e estava repleto de tábuas cruzadas em X, o que me permitiria escalar. Estiquei-me o mais que pude e auxiliei com os pés, pressionando a biqueira de um à frente e a planta do outro à retaguarda, enquanto me tentava puxar para cima com as mãos, mas estas estavam tão feridas que vacilavam constantemente. A água já me cobria metade da face, obrigando-me a inclinar a cabeça para trás, mas devido ao constante movimento do meu corpo, esta ondulava e, de quando em quando, entrava-me pelo nariz, fazendo-me fungar e cobria-me os olhos, fazendo-mos arder e atrapalhando ainda mais a difícil missão que era a minha fuga. Porém, consegui finalmente puxar-me para cima e, com os braços em torno de uma das tábuas, apoiar o peito na mesma. Permiti-me a descansar por uns segundos antes de continuar, pois a água não parava de subir, acabando de me submergir novamente os joelhos, quando me preparava para recomeçar.

Estendi o braço direito e fiz força contra a parede, voltei a apoiar os pés da mesma forma, para não cair, e só então, soltei o braço esquerdo e recuei-o para terminar a posição de escalada. Tremia descontroladamente devido às dores provocadas pelos ferimentos, mas, de dentes cerrados, lutava para não me deixar vencer. O frio da água nas partes baixas disse-me que acelerasse e retomei a subida de imediato, afastando todos aqueles pensamentos. Havia subido cerca de um metro, pouca distância em comparação com o que ainda me restava até à zona onde me poderia apoiar, quando senti puxarem-me o pé da retaguarda, um dos meus grandes pontos de apoio, visto não me poder fiar nos membros superiores. As minhas costas rasparam pela parede, rasgando roupa e pele, e um dos meus joelhos estalou com o impacto na superfície dura à sua frente. Não tive tempo de reacção e num ápice encontrava-me submerso, com "O" vulto negro a meu lado, apertando-me o pescoço com uma das suas mãos disformes.


sábado, 1 de dezembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. IV - Right by your side

  "Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"
  "Calma! Não pode ter ido longe. - retorquiu Bruno.
  "Tenho calma?! Eu estou calmíssimo, afinal de contas, o meu irmão só desapareceu sem razão, em escassos segundos e num sítio infestado de merdas que eu pensei que só existiam nos jogos que jogava em puto. Óbvio que me encontro calmo e despreocupado! - disse, elevando a voz sem se aperceber e andando a passos largos na direcção da porta da igreja. - Acho que ouvi qualquer coisa lá dentro!" - Bruno seguia-o de perto.

Estavam prestes a tentar abrir a porta do local sagrado, quando uma meia dúzia de novas aberrações surgiu e correu na sua direcção. Tinham todo o corpo em carne viva, eram extremamente magros e apresentavam, para além dos normais membros superiores, dois braços abdominais, algo atrofiados. Independentemente da sua débil constituição, eram incrivelmente rápidos e as estruturas ósseas, semelhantes a lâminas, que lhes saíam das palmas das mãos, para além de serem do tamanho de um ante-braço, tornavam-nas absurdamente perigosas.

Com um tiro de caçadeira, Pedro desfez a cabeça do "Queimado" mais próximo, mas este não caiu, nem tão pouco diminuiu a velocidade da sua corrida, passando simplesmente a atacar de uma forma ainda mais agressiva e aleatória, devido à privação de visão. Foi obrigado a atirar-se para o chão e a rebolar para a sua esquerda e para longe. Bruno chegou-se perto e ajudou-o a erguer-se com uma mão, enquanto mantinha a sua metralhadora a disparar com a outra. 

  "Mas que...? Mas que porra é esta?" - perguntou o grandalhão enquanto o puxava para cima.
  "Boa pergunta, mas lamento informar que a minha ignorância é idêntica à tua! Esta bicharada dum cabr...o faz de tudo um pouco! Agora até lhes rebentamos a bolha e não morrem!"
  "Então despedaçamos os animais. Hun?"
  "Concordo...e gosto!"

Já com alguns um pouco mal tratados pelas constantes rajadas de Bruno, os dois começaram a correr em círculos, confundindo os adversários e separando braços e pernas dos corpos disformes.
***

Filipe foi o primeiro a reagir, girando rapidamente o corpo para escapar ao salto de um dos lobos na sua direcção e, em simultâneo, aplicar-lhe um valente murro em cheio no focinho, fazendo-o ganir e estatelar-se contra um jarrão de quase um metro de altura, despedaçando-o. Ângela esquivara-se habilmente e corria escadas acima, perseguida por dois canídeos, enquanto Miguel, estendido no chão, com um animal em cima, afastando-se do fio de baba constante e evitando as tentativas de mordida, encostou o cano da sua arma ao seu agressor e lhe desfez completamente a zona abdominal, enchendo de sangue a zona torácica do seu uniforme negro e fazendo a criatura sair projectada contra um dos corrimões da escadaria, onde, depois de cair, ficou inerte. O sniper aproximou-se do lobo que o havia atacado e, antes que este se recuperasse e saísse do meio dos cacos de porcelana que o rodeavam, encostou-lhe o cano longo e frio à cabeça, enquanto lhe pisava um dos flancos e disparou. Aquela cabeça, ao ser atingida por uma bala daquela dimensão a uma distância quase inexistente, reagiu com uma espécie de explosão, não restando nada a não ser, pedaços de osso, pele, sangue e cérebro espalhados pela área em redor. Ele sacudiu ainda a bota para se ver livre de um bocado de massa cinzenta que parecia pulsar na sua biqueira.

Já  no varandim do andar de cima, Ângela tentava ganhar distância em relação aos dois perseguidores. Algumas fintas de corpo, uns agachamentos para lhes escapar quando saltavam, mas no fim, pareciam estar coordenados na perfeição, pois nunca conseguia ter espaço para reagir devido à proximidade constante de pelo menos um. Foi então que realmente prestou atenção ao lustre gigante que dominava o espaço sobre a cabeça dos colegas. Completamente composto de cristal, estrutura férrea e sólida, com 1,80m de altura e 1,20m de diâmetro, proporcionava-lhe a plataforma perfeita para se ver livre dos mordedores. Correu na direcção do precipício e, com um rápido e ágil impulso com os pés no corrimão de madeira escura, saltou na direcção do trono dourado. O barulho que fez ao chocar com a estrutura, fez com que os companheiros olhassem para cima, mesmo a tempo de a verem pendurada e um dos lobos, que saltara atrás dela, ganir antes de quebrar o pescoço no violento embate que teve com o solo. Não fosse tão grande o ruído do lustre balouçante e o estalar daquela coluna ter-se-ia ouvido por todo o espaço, em todo o seu arrepiante esplendor. Ela ergueu-se, equilibrou-se e voltou a saltar para o varandim, para uma zona afastada do inimigo, onde, empunhando as suas gémeas, aguardou pela aproximação deste. Quando o achou à distância certa, disparou dois tiros, um em cada pata dianteira. A velocidade do canídeo era tal que caiu de focinho no chão, mas o seu corpo continuou a avançar de arrasto, até ser travado por uma bala, habilmente colocada no topo do seu crânio. O silêncio restabeleceu-se ao final de alguns segundos, quando o eco do último tiro se calou.

***

Os "Queimados" estavam espalhados por todo o lado. Braços aqui e ali, pernas além e acolá. Os dois amigos olhavam em redor, com as suas armas ainda fumegantes, certificando-se de que não restava nenhuma daquelas coisas viva. Haviam-se apercebido durante a contenda, de que aquele tipo de bicharoco, era extremamente sensível ao desmembramento e que os tiros à cabeça não produziam grande efeito. Guardavam as armas no preciso momento em que um grito de raiva e dor se fez ouvir, vindo do interior da igreja.

  "Ricardo!" - gritou Pedro, desatando a correr para a porta.

A porta era de madeira sólida e foram necessários uns três cartuchos da pequena caçadeira, para que esta se abrisse. Bruno aplicou-lhe um forte pontapé e esta escancarou-se, dando passagem a um acelerado e preocupado irmão.

  "Ricardo! -  olhou em volta e viu-o à sua direita, agarrado ao braço esquerdo, olhando o que parecia ser um soldado morto numa poça de sangue - "Estás ferido! Que..." - Bruno chegou perto no exacto momento em que ele soltara o irmão de um abraço e lhe agarrava cuidadosamente no braço, por forma a ver a extensão do ferimento. 
  "Eu estou bem maninho, calma! O mesmo não se pode dizer deste filho da pu...a! - interrompeu Ricardo - Apanhou-me à traição e puxou-me cá para dentro durante a vossa distracção com os "Rodinhas". Custou-lhe cara a gracinha. Auu..." - o irmão tocara-lhe na ferida ao de leve.
  "Fico descansado por ver que estás bem, mas o golpe ainda é fundo. - ele avaliava minuciosamente o corte enquanto abria a pequena bolsa com desinfectante e material de sutura - "Vamos sentar para eu te tratar disso. Rápido e sem discussão!"
  "Eu não vou ficar a ver essa mer...a! Estou ali à porta de vigia." - Bruno não suportava agulhas e afastou-se deles assim que se sentaram.

***

Ela acabara de descer as escadas e se juntar a eles, quando Filipe perguntou:
  
"Não é por nada, mas onde está o Rui?"

Todos se sobressaltaram. Com a incursão de lobos, ninguém tinha dado por falta dele. Chamaram por ele e reviraram a totalidade daquele hall, ambos os pisos, mas sem qualquer tipo de resposta ou pista do seu paradeiro.

  "Separados ou juntos, não me interessa, mas vamos procurá-lo e já!" - a voz totalmente alterada.
  "Calma, calma! - interviu Ângela, colocando-lhe uma mão no peito, obrigando-o a parar - Sabemos que é o teu irmão, mas não vamos agir de cabeça quente e cair em alguma armadilha mortal, porque ai, não lhe serviremos de nada. Vamos manter-nos juntos como até aqui."
  "Tens razão! Desculpem. - olhou para baixo e sacudiu a cabeça antes de voltar a olhar em frente - "Vamos começar então por este lado. Ângela, toma a frente do grupo. O teu discernimento está bem mais apto que o meu neste momento!" - ela acedeu e tomaram o caminho da direita, a partir do piso térreo.

***

Já há vários corredores que seguia aquele vulto, mas sempre sem se conseguir aproximar o suficiente para constatar o que era, ou quem. Sabia que se estava a arriscar em demasia ao ter abandonado o grupo, mas pretendia fazer as coisas de forma que lhe fosse possível reunir-se com eles e ainda, ouvir a descompustura do irmão ao saber o que ele tinha feito. Avançava a passo de caracol devido ao compasso extremamente lento que a figura assumira desde há poucos minutos, quando todas a luzes se apagaram. A escuridão era total, visto não existirem janelas no sítio onde se encontrava e, para piorar a situação, o silêncio era também ele absoluto, o que o preocupava determinantemente, visto que, fosse o que fosse que perseguia, ter produzido um som de arrasto a cada movimento até então. Deixou-se ficar quieto e à espera por alguns minutos, mas como nada aconteceu, decidiu avançar, lenta e cautelosamente. Mal deu o primeiro passo, o som de arrasto voltou. Estava mesmo a seu lado.



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Death by my Fingertips: Cap. III - Realização

  Vejo-me na frente de mais uma bela mulher. A minha terceira paixão, na minha terceira noite de libertação, loucura e realização. Adormeci na noite anterior, ainda extasiado com o odor a carne queimada que permanecia nas minhas roupas e sonhei. Sonhei com a mulher que agora tenho nas mãos, como se previsse o futuro. Vi-me a afogar na sua doce carne, os seus tendões a explodirem entre os meus dentes. O seu mel vermelho a fluir suavemente, docemente, calorosamente, pela minha garganta. Sonhei com o arrancar daquele escalpe, numa demonstração plena do meu amor, as minhas unhas cravando memórias nas suas costas. O sabor dos seus gritos na ponta da minha língua. Sonhei que estava apaixonado e constato agora que estou.

O que começou por ser uma simples troca de olhares, tornou-se uma atracção carnal como nunca havia sentido antes. Até quando ela se aproximou de mim no cinema, o meu coração a tocar-me o céu da boca, não soube como reagir. Não foi daquelas meigas ou cheias de etiqueta, mas sim rude, agressiva gestualmente e na forma de falar. Foi amor à primeira vista. Era aquela a mulher do meu sonho. Quando o filme terminou, puxou-me de forma bruta para fora do edifício e, antes de nos pormos a caminho para o seu apartamento, beijou-me e trincou-me o lábio inferior. Senti o sangue a correr e limpei-o com o polegar, para vê-la em seguida lamber os seus próprios lábios e o meu dedo, deliciando-se com o sabor daquele doce elixir púrpura. O espaço livre no interior das minhas calças encurtou rápida e consideravelmente. Não consegui evitar e ela reparou, jogando a mão e passando a apertar e puxar como se de uma trela se tratasse. Deixei-me levar com um sorriso nos lábios. A mão dela provocava uma dor incrivelmente aguda e ela sabia, mas era também notória a satisfação no meu semblante. Estava mais duro e volátil que nunca quando entrámos no apartamento dela, carregado de pinturas doentias e obscenas, na minha opinião românticas, e de espelhos incrustados em paredes escuras. Chegámos então à minha vez de jogar.

Já a tinha feito guinchar que nem um porco no matadouro e implorado que continuasse a montá-la vezes sem conta. Já a tinha feito vir-se um par de vezes e misturar uma gargalhada com um grito quando lhe trinquei o clitóris, esguichando sangue. Fui violento o quanto quis, porco a meu bel-prazer e sádico acima do absurdo, mas ela continuava a acompanhar. Ela estava a gostar tanto como eu, engolindo até e esfregando-se com o meu sémen.

Peço-lhe então que me arranje um fio de seda ou semelhante, para amarrar algo e ela, sem questionar, obedece e levanta-se para ir buscar. Levanto-me também e toco no botão Play da aparelhagem, fazendo ecoar por toda a casa uma música demasiado barulhenta para o meu gosto, mas com um étimo de violência extraordinário. Aumento o volume e ela olha-me de soslaio sorrindo, mas volta de imediato à sua busca nas gavetas. Aproveito o barulho e a distracção e, enrolando as calças de ganga no braço, parto um dos vidros, do qual apanho um dos maiores e mais bicudos fragmentos. Vou até à cama novamente e antes que ela se vire, oculto o objecto contundente no meio da roupa enrodilhada. Olho-a enquanto se dirige para mim, sorridente e ansiosa por saber qual a minha ideia. Insulto-a de cabra, puta, besta e javardona, fazendo com que não repare no espelho partido na ponta oposta da divisória e me salte para cima, prendendo-me os pulsos e esfregando, provocadora, com o traseiro, os meus genitais. Sem aviso, ela olha em frente e, através do reflexo, vê os danos por mim causados, esboçando surpresa e desconfiança na sua expressão. Atinjo-lhe rapidamente a zona da glote com um golpe seco da lateral da minha mão. Ela agarra a garganta, aflita devido à repentina falta de ar e privação da voz. Não adiantaria, no entanto, gritar, pois com o volume exageradíssimo da música, ninguém a ouviria. Pego-lhe pelos ombros e puxo-a para o lado, assumindo de imediato a posição superior. Rapidamente, com as amarras que me entregou, amarro-lhe os pulsos acima da cabeça e os tornozelos. Em seguida, machuco os seus collants e preencho-lhe a cavidade bocal com os mesmos. Paro por momentos e ouço os seus gemidos, ignorando o pânico naquele olhar. Nada tão doce como o sabor do medo, cujo sinto a cada passagem da minha língua pelos seus peitos. Volto a pegar no pedaço de vidro que havia escondido e olho para ele pensativo. Quando me decido, giro-o na palma da minha mão e olho para ela sorrindo, tanto pela minha decisão, como pelas súplicas silenciosas que lhe acompanhavam as lágrimas. Pensei que gostavas de dor, minha vaca! Estiveste a mentir todo este tempo? Vamos tirar a prova! Lentamente esculpo-lhe um D no lado direito da face, fazendo um fio vermelho desenhar uma linha irregular pelo pescoço, até terminar no lençol branco, numa mancha que aumentava lentamente, muito lentamente. "Esta é a inicial de dor...a minha palavra preferida, tal como o teu corpo.", sussurro ao seu ouvido, lambendo-lhe a ferida em seguida. Ainda sem erguer a cabeça de junto da dela, espeto o aguçado objecto na base da sua mama, do mesmo lado da letra. O seu soluçar passa a uma espécie de guincho, no meio de um choro compulsivo e um espernear quase esquizofrénico. Aquilo deu-me vontade de rir e ri. Ri à gargalhada enquanto usava a arma como uma faca e lhe cortava a mama, separando-a por fim do corpo. Ela treme em choque e a pequena mancha de sangue no lençol, foi consumida por um rio que lhe escorria pelo tórax e abdómen. Pego-lhe no queixo e enquadro os seus olhos com os meus. Estão revirados e ela já nem produz qualquer som, mas mantêm-se consciente. Finalmente uma que consegue aguentar. Sinto-me feliz, realizado. Consegui elevar o nível de adrenalina desta gaja de tal forma que, nada do que fiz a fez desmaiar. Já me sinto livre para tomar a sua vida, sem frustrações como anteriormente.

Pego no último atilho que resta e prendo o vidro ao meu pénis. Quando o sinto seguro, abro-lhe bem as pernas e encaixo-me. A primeira penetração foi tão lenta que fui capaz de sentir as vibrações da carne que rasgava. Certamente a ouviria também, não fosse a barulheira musical. O sangue que saía da minha virilha, provocada por um dos bicos que me pontuava a cada impacto, misturava-se com o dela, fornecendo-me o calor mais vivificante que alguma vez sentira. O corpo dela tem espasmos cada vez mais fracos, após alguns violentíssimos aquando da minha entrada. A vida abandona-lhe o corpo a uma velocidade incrível. Antes que aconteça na totalidade, saio daquilo que há minutos atrás se poderia chamar de vagina, agora um mero trapo de pregas de pele desfeita, sangue e carne viva, e passo novamente a arma para as minhas mãos. O corpo quase inerte, reage com alguns esticões intervalados e pouco convictos, enquanto lhe abro o ventre, expondo-lhe as entranhas. Suavemente, encosto-lhe o corpo à cabeceira da cama, em posição sentada, e assisto ao derradeiro suspiro. Só pelo gozo, puxo-lhe os intestinos para fora e coloco-lhos como se de uns suspensórios se tratassem.

Já estou vestido e penso numa recordação que possa levar daquela paixão. Olho para o quadro de minha autoria e lembro-me da mama. Pego nela e embrulho-a na camisola da ex-dona, levando-a comigo ao sair.

A chuva acaricia-me a pele agora que caminho pelas ruas, arrefecendo o meu termóstato natural. Olho as autênticas multidões que circulam naquela noite de fim de semana, quase como se fosse um período de ponta. Continuo a ouvir em todo o lado que passo, que a polícia já me apanhou, mas isso ainda não é bem verdade. Rio-me deles, armados em espertos, quando dizem que estão no caminho certo. Obviamente que estão! Vistos todos os erros por mim cometidos, o facto de ainda não me terem apanhado revela toda a estupidez, incompetência e desleixo envolvido. Começo a ficar farto de putas e a minha paciência está a esgotar. Espero que os azuis cheguem antes que me vire para mulheres decentes, com maridos e filhos. Não é que vá sentir coisas fúteis e lamechas como remorsos, mas se já estou farto destes falatórios que por ai andam, quanto mais, dos que se gerarão se isso acontecer. No fundo não quero, mas a minha razão deseja ardentemente que me apanhem da forma mais célere possível. Eu amo o meu trabalho e quero começar tudo de novo.      

 

terça-feira, 13 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. III - Not so Holy Place


  Atordoado, Ricardo começava a erguer-se. Tinha ambas as mãos e os joelhos apoiados no chão enquanto abanava a cabeça, tanto para sacudir os pedaços de madeira, como para dissipar o nevoeiro que lhe assolava a mente. Ouviu passos e, afastando o olhar daquele chão ladrilhado, semelhante a pedra antiga e desgastada, olhou para a sua esquerda. Viu alguém que envergava calças de camuflado verde-folha e botas de biqueira de aço pretas, avançar na sua direcção a passo largo e desferir-lhe um pontapé, de baixo para cima, em cheio no ventre. Soltou um grunhido surdo e levou a mão direita à zona atingida, enquanto sentia um pouco de saliva escapar-lhe por entre os lábios. Sem tempo de reacção, foi novamente atingido, mas desta vez na face, fazendo-o girar sobre si mesmo no ar e rebolar um par de vezes após voltar a tocar o solo. Sentiu o sabor adocicado do sangue na boca e uma explosão de adrenalina percorrer-lhe o corpo. Ainda caído, apanhou o pé que o atingiria pela terceira vez e deslizou a sua perna no chão para rasteirar o agressor, cujo se libertou e se esquivou com um mortal à retaguarda. Sem perder tempo, ergueu-se de um pulo e encarou, olhos nos olhos, o adversário. Aquele olhar imerso em tensão durou alguns instantes, enquanto os dois se avaliavam, descrevendo, em relação um ao outro, um círculo a passo lento. Ricardo soprava de forma zombeteira as pontas do seu cabelo ligeiramente comprido, enquanto o outro retirava lentamente a sua boina vermelha e a atirava para o chão em tom desafiador. Pararam de repente e ambos retiraram a faca de combate que tinham presa ao cinto, quase como se tivessem lido os pensamentos um do outro. O sopro do vento fez-se ouvir nos instantes que antecederam o início do confronto.

Ricardo deu dois passos largos e saltou, estocando o adversário em pleno ar, obrigando-o a mover-se lateralmente para se escapar. No entanto, este tipo não lhe conhecia os golpes de assinatura e, mal se julgou seguro, ele esticou a perna esquerda e atingiu-lhe violentamente a cabeça, derrubando-o. O careca levou as mãos à cara e esfregou-a com força, levantando-se de seguida, mas dando dois passos laterais que mostraram o quanto havia ficado atordoado. Os cabelos compridos dele esvoaçavam enquanto se esquivava dos contínuos golpes que lhe eram dirigidos, mas estes golpes eram tão rápidos e precisos que requeriam toda a sua concentração, o que não o deixou ver que o espaço à sua retaguarda começava a ser inexistente. Quando reparou, sofreu um ligeiro desequilíbrio que teve como sacrificado o seu braço esquerdo e teria tido também o seu pescoço, não tivesse sido tão rápido a levar a sua faca acima, fazendo a lâmina do adversário deslizar sobre a sua, perdendo a trajectória. Num ápice, atacou-lhe o abdómen com o cabo da sua arma e, girando a lâmina sobre a sua mão, aplicou um golpe ascendente que fez o outro urrar de dor e recuar prontamente. Nesta aberta, aproveitou para olhar o seu braço. Por entre um pedaço de tecido negro rasgado, via-se agora um golpe bastante fundo e corrente. "Filho da p...a", pensou, avançando para ele. Este por sua vez ergueu a face e deixou ver a real extensão dos danos. Um corte enorme, quase da boca até à testa, passando por um olho direito, do qual jamais voltaria a ver. Gritou enraivecido e lançou-se sobre o jovem que pensara a início, ser "um trabalho fácil". Alguns golpes rápidos de cintura, uns poucos bloqueios com a lâmina à altura de coxas, abdómen e tórax e por fim, um golpe com a base do pé, centrado ao joelho, fazia o vilão cair por terra com a articulação partida. Antes que este caísse totalmente, Ricardo apanhou-o e prendeu-o pelo pescoço, com a faca a roçar o mesmo. Quase não se debateu, sabendo que a situação não lhe era favorável e que caíra nela, muito devido ao seu ataque impensado e cego de raiva.

  "Quem és tu meu cab...o? É melhor começares a falar e dizeres-me também quem te mandou aqui e o que se passa neste maldito fim do mundo!?"

Não obteve resposta, porém, o careca, num derradeiro esforço, tentou projectá-lo por cima de si por forma a fazê-lo cair de costas. Ele não permitiu, partindo-lhe um dos braços e, quando este o tentou apunhalar com o outro, também não perdoou, torcendo-lho e perfurando-lhe a traqueia com a própria faca. O tipo começou a gorgolejar e deixou cair o braço. Então ele, pegou na faca e retirou-a, rodando a lâmina sobre si própria. O corpo caiu inerte e as golfadas de sangue começaram a formar um pequeno lago em torno daquela cabeça.

Começaram a ouvir-se tiros contra a porta e ele pôs-se em sentido, mas quando esta se escancarou, ouviu a voz do irmão a gritar pelo seu nome. Relaxou e jogou a faca ensanguentada do adversário para o chão, lançando-lhe um último esgar de desprezo.


quarta-feira, 7 de novembro de 2012

The Way Of Fear: Cap. II - Different Paths

  Procuravam aqueles três há imenso tempo, mas sem qualquer tipo de sucesso. Inúmeros corredores, anteriormente transitáveis, encontravam-se agora bloqueados por detritos e tornava-se muito difícil circular no interior do edifício. Miguel tentara inúmeras vezes comunicar com eles através do rádio, mas apenas obtinha estática.

  "Não vamos obter nada ficando aqui e estamos a perder o nosso valioso tempo. Eu vou ligar o meu rastreador e eles hão-de acabar por nos encontrar, além de que, eles sabem bem tomar conta de si próprios."
  "E como sabes tu que estão vivos sequer?" - replicou Rui, perante o que o irmão dissera.
  "Conheço-os bem. Não há praga nenhuma, nem maldição, que seja capaz de me livrar daqueles atrasados mentais! Confia em mim e vocês também. Vamos pôr-nos a caminho e eles acabarão por se juntar a nós em breve." - virou costas e começou a caminhar na direcção da saída.

Ninguém ficou muito convencido ou agradado com aquela decisão, mas na falta de melhores ideias, todos o seguiram, embora as trocas de olhares e comentários silenciosos entre eles se mantivessem até atingirem os limites da cidade. Estavam todos apreensivos e mantinham os sentidos em alerta total, protegendo a retaguarda uns dos outros e cobrindo todos os ângulos dos quais pudessem surgir surpresas. Desde o toque daquela buzina sombria, que não se via qualquer movimento. Acabaram por penetrar no bosque e até mesmo aí, o silêncio e ausência de monstruosidades era total. Avançaram quase sempre em silêncio, intercalando com períodos de passo acelerado ou corrida, quando se deparavam com clareiras, nas quais se encontravam expostos e, ao final de cerca de duas horas sem encontros imediatos, alcançaram o perímetro do manicómio.

***

  "Fod...e! Que é isto? Não há a mer...a de uma saída em lado nenhum!" - praguejava Pedro.
 "Calma Zé. Havemos de encontrar uma forma, nem que tenhamos de mandar isto abaixo." - respondeu um muito mais calmo Bruno.
  "Claro, nem que seja daqui a três meses!" - retorquiu Ricardo, recebendo um olhar reprovador de Bruno que parecia dizer, "Não piores esta mer...a.".

Pedro, com o seu ódio colossal a períodos prolongados passados em espaços fechados, disparava, pontapeava e esmurrava tudo. Ricardo reparou a dada altura, quando o seu irmão tirou por momentos uma das luvas, nos nós dos dedos ensanguentados deste. Aproximou-se e, sem dizer nada, agarrou-lhe a mão, que já se dirigia a uma nova área de betão, olhando-o de forma a que entendesse que tinha de parar com aquilo. Ele pareceu acalmar e Ricardo, após lhe dar duas ligeiras palmadas no ombro, retomou a caminhada com Bruno. Após respirar fundo para se tentar acalmar, seguiu-os. Sabiam que tinham de encontrar uma saída rápida ou aquele membro do grupo ia começar a entrar em paranóia e acabar por cometer alguma atrocidade, coisa que no seu dicionário possuía muitas vertentes de incomparável imaginação e dimensão. No meio de tanto corredor igual, acabaram por conseguir sair da espiral em que andavam há uma eternidade e enveredaram por um bem mais curto, mais largo e que viam pela primeira vez. Ao se aproximarem do fundo, começaram a ouvir Pedro a rir aos soluços. O porquê era óbvio. Havia uma janela enorme, apenas bloqueada por inúmeras tábuas.

  "Tu arrebenta-me já com isso, meu bandalho, senão eu próprio arrebento as tábuas com a tua cabeça." - disse Pedro com um sorriso aparvalhado no rosto.
  "Andas a sonhar acordado! Andas, andas!" - assim que acabou de dizer esta frase, a sua metralhadora gigante já fazia saltar madeira por todos os lados. 
  "Bora. Vamos sair desta casa de banho gigante e rápido." - disse Ricardo que acabou o serviço de demolição com as próprias mãos, arrancando o que restava das tábuas.

Já no exterior, enquanto avançavam cautelosa e furtivamente, mantiveram uma conversa em sussurros acerca da criatura que os havia perseguido. Obviamente não chegaram a conclusão nenhuma, excepto uma, ou seja, aquela criatura ia pagar por quase os ter feito borrar as calças. Ninguém fazia uma coisa dessas e saía incólume. Entretanto, atingiram a entrada de uma igreja e pararam por momentos. Pedro, aquele que conhecia melhor Miguel e há mais tempo, alertou os outros para a possibilidade de este ter liderado o outro grupo em direcção ao objectivo, confiando nas capacidades deles os três para se voltarem a reunir. Ligou então o localizador e a sua teoria confirmou-se. As coordenadas colocavam o companheiro no meio daquele bosque.

***

O grupo mantinha-se unido enquanto explorava as redondezas do edifício. Os jardins que circundavam o imóvel encontravam-se completamente degradados, com bancos partidos, baloiços estragados, alguns com o assento suspenso e balouçante em apenas uma corrente, a relva não existia, tendo sido substituída por um solo lamacento e possuidor de um cheiro pútrido, árvores despidas e mortas e uma vedação da qual, só algumas barras metálicas de suporte restavam de pé. O edifício em si possuía um número absurdo de janelas, todas elas bloqueadas com barras de aço extremamente largas, a pedra que o constituía tinha um aspecto rude, desgastado e a sua coloração dava-lhe um aspecto doentio, que juntando aos sinistros telhados bicudos e à escuridão da noite, tornavam o local num dos menos convidativos que se possa imaginar. Ao terminarem a batida à área, visto não encontrarem qualquer sinal de perigo, decidiram entrar e avançaram em direcção ao alpendre mais próximo. A porta deste encontrava-se trancada, tal como tantas outras que experimentaram em seguida em torno de todo o edifício. Chegaram à altura em que só a porta da frente restava. Ângela rodou a maçaneta e, surpreendentemente, esta estava destrancada, mas mal pisaram o seu interior, a buzina voltou a ouvir-se, bem como o som da porta pela qual haviam entrado a trancar.


***

A buzina ecoava pelas ruas e os três entreolharam-se, ainda encostados à porta principal da igreja. Se aquele som tinha afastado o grandalhão anteriormente, agora que não havia "bicharada" na rua, que quereria dizer? Não podia ser bom! Começaram a ouvir ao longe e a aproximar-se, o que parecia o rosnar de cães e o chiar de rodas no alcatrão. Puseram-se em posição. Pedro e Bruno avançados em relação ao mais novo, Ricardo, que se manteve junto à porta. Viram então surgir quatro criaturas, as responsáveis por ambos os sons. Todas elas pareciam cães,mas, a meio, o seu corpo tornava-se mecânico e, ao invés de patas traseiras, tinham duas rodas pequenas e largas, assentes no chão. As estranhas criaturas, para além de possuírem dentes gigantesco, salientes e afiadíssimos, numa boca enorme, onde as gengivas se encontravam totalmente expostas, no meio de uma cabeça sem olhos, possuíam umas patas que pareciam tiradas de um rinoceronte. O seu aspecto combinava na perfeição com o seu comportamento agressivo e, sem demoras, investiram. Os três começaram a disparar e a arma de Bruno mostrou-se de grande eficiência, fazendo um passador da cabeça do que se encontrava mais próximo. O sangue escorreu dos diferentes orifícios e era roxo, libertando fumo no contacto com o chão. Um segundo abriu a boca decidido a arrancar as pernas a Pedro, mas falhou o alvo e deu de caras com as duas Uzis de Ricardo que lhe enfiaram uma infinidade de balas pela garganta abaixo antes que tivesse tempo de fechar a boca. Caiu morto e, devido à velocidade que trazia da corrida, o seu corpo ainda deslizou um bom bocado pelo solo, embatendo contra a porta da igreja. Enquanto estava no ar, devido ao salto que dera para se esquivar do ataque às suas pernas, Pedro disparou um tiro de caçadeira e um de Colt, bem em cheio no alto da cabeça de um outro que lhe passava por baixo em direcção a Bruno. O sangue roxo escorreu-lhe de imediato por entre os dentes e ainda foi visível o impacto da bala por baixo deste a embater no alcatrão após lhe furar o crânio. O último estacou e rosnou ao ver-se cercado por Bruno e Pedro e foi autenticamente feito numa papa roxa na qual só a parte metálica mantivera minimamente a forma original. Ricardo via-os a disparar contra o pobre infeliz quando sentiu uns braços envolverem-lhe o pescoço, puxarem-no para dentro da igreja e projectarem-no contra e através de uns quantos bancos da nave principal, deixando-o atordoado no meio de inúmeros pedaços de madeira despedaçada. Sorridentes, os dois no exterior olharam e já não o viram, alterando de imediato o seu semblante.

  "Onde está o meu irmão? Ricardo! Ricardoooo! Fod...e! Fod...e! Onde é que ele está?"

***


Tentaram em vão abrir a porta e não queriam fazer barulho com as armas, logo não as utilizaram. Olharam em redor e o hall era realmente imponente, com luzes claras de tom ligeiramente amarelado, uma grande escadaria, que a meio se dividia em duas, uma para cada lado do enorme varandim que tinham acima das cabeças, enormes e caras tapeçarias no chão e paredes, bem como, uma excelente decoração composta de quadros e vasos que aparentavam ser de extremo valor. O mais intrigante é que ali, em contraste com a degradação externa, tudo se encontrava em óptimas condições, para não se levar ao extremo de dizer novas. Tinham duas portas duplas, uma à esquerda e outra à direita e a subida até ao andar de cima, como hipóteses para iniciarem as investigações. Falavam entre eles para decidir a abordagem quando as portas laterais se abriram, para se voltarem a fechar de seguida, mas não sem antes deixarem passar uma matilha de lobos a salivarem abundantemente e a tresandarem a podre da carne putrefacta de que eram feitos. Todas as pústulas  e chagas que os cobriam pareceram brilhar no momento em que se lançaram na direcção do grupo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Perdido num olhar

  Os teus olhos hipnotizam todo e qualquer pensamento meu, levando-me a lugares que não deveriam. O meu coração bate com uma cadência diferente na tua proximidade, na esperança, sem medo, de te ter. Tento por tudo encontrar o meu caminho, mesmo sem qualquer certeza de que possa ganhar. Sem nunca ter a certeza se deva ou não afastar-me, os teus olhos dizem, obrigam, imploram-me para ficar. No meio da beleza desse olhar, sinto-me perdido entre marés, pedindo apenas que me mantenhas junto a ti. Não posso no entanto dizer-te isto...guardo-o para mim sem saber o que fazer, fingindo que brinco simplesmente enquanto escorrego sobre gelo fino. Espero que não repares, que não saibas o quanto estou fragilizado na tua presença, mas espero também, que inadvertidamente ou de livre vontade, dês um passo ou me dês a mão auxiliando-me no meu.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Sem escape Cap. V - A um palmo de distância


  Continuava com aquela risada descontrolada e sem sentido quando comecei a enxugar a vista e a face, ambas completamente encharcadas em lágrimas. Respirei fundo e olhei na direcção do exterior ainda esboçando um pequeno esgar sorridente, mas que num ápice foi substituído por uma expressão mista de espanto e pavor. Vira de relance aquele vulto negro passar ao fundo do meu jardim com o meu filho envolto num abraço pouco amigável. Ergui-me rapidamente e corri na sua direcção, rezando para que não houvesse uma qualquer barreira de forças que me impedisse a saída. Nada aconteceu e fui capaz de correr livremente até à beira da estrada, onde parei olhando para o lado onde os vira desaparecer. Vislumbrei-os ao fundo, com ele flutuando calmamente e o Rafael esperneando violentamente mas sem qualquer efeito. Comecei a correr na sua direcção e gritei quando vi que, subitamente, o meu filho havia pendido a cabeça e os braços, ficando totalmente imóvel. O breu virou ligeiramente o pescoço vendo-me por cima do ombro e acelerou a marcha. Acompanhei-o na acção. Corria que nem um louco quando comecei a sentir uma inércia imensa na zona da minha face. Continuava a correr mas tinha de fazer uma força incrível para manter o pescoço direito, até que de repente, senti o que me pareceu uma mão invisível agarrar-me a cabeça e impulsionar-me de costas para o chão. Tive a percepção de todas as pedras e pedrinhas pertencentes à gravilha, enquanto estas me cortavam a pele durante a violenta queda. Ignorei tudo e, no segundo seguinte já corria novamente, apenas levando uma das mãos às costas por forma a descolar a camisola colada à pele devido ao sangue, cuja me incomodava profundamente.

Já perdera a conta ao tempo que durava a minha perseguição. A coisa fazia-me correr cada vez mais, mas sempre sem conseguir ganhar terreno. Parecia que me gozava, vista a descontracção com que se movimentava. O cansaço começava a apoderar-se de mim e o meu controlo sobre a respiração começava a aproximar-se da nulidade, quando os vi enveredar pelo meio do arvoredo. Embrenhei-me por lá e comecei a ver que tomavam o caminho da vegetação mais densa. A luz da lua era cada vez menos eficaz na missão de me guiar por tais caminhos e a tensão aumentava no meu âmago de forma galopante. Chegou o momento em que só via os obstáculos quando estes se encontravam a escassos centímetros, mas não desisti. Desviava-me para a esquerda, para a direita, saltava e agachava-me. Com as mãos afastava as ramagens e com os pés partia ramadas e espezinhava a vegetação mais rasteira. Apercebi-me que o percurso começava a tomar uma rota descendente quando, sem esforço algum, senti a velocidade da minha marcha aumentar exponencialmente. A essa altura, os meus pulmões ameaçavam colapsar e o meu coração lutava contra uma explosão eminente, mas desistir não era uma opção. O meu filho estava quase ao meu alcance e não o ia deixar escapar por nada. Envolto nestes pensamentos moralizadores face à salvação do meu rebento, nem me apercebi de um monte de silvas que, sem explicação, se gerou na minha frente. Nos milésimos de segundo que antecederam o meu violento impacto contra os espinhos, olhei o demónio, vendo-o parar e virar-se na minha direcção de forma a apreciar o acidente.

A dor e o ardor percorriam o meu corpo na sua totalidade. Sentia espinhos misturados com a carne por todo o lado, mas em especial nas mãos e na cara. A cada tentativa de movimento, estes pareciam enterrar-se ainda mais e as dores passavam de enormes a lancinantes. Tentei levantar-me vezes sem conta, encolhendo-me a cada uma delas nos primeiros segundos, até que, numa dessas tentativas, fiquei com o vulto no meu campo de visão. Com os olhos semiabertos, vi-o retomar a caminhada e começar a ganhar ainda mais distância. Nesse mesmo instante, enraivecido, enchi o peito com ar e prendi a respiração, para me erguer de seguida, num único e rápido movimento. Os golpes ganharam o triplo do tamanho, perdi pedaços de pele nas zonas sem protecção de roupa, o ardor intensificou-se ao ponto de me fazer correr as lágrimas, que por sua vez me faziam franzir a testa ao sentir o seu sal misturar-se com o sangue que me corria pela face e infiltrar-se nas inúmeras feridas de onde este saía. Coxeei nos primeiros passos e gemi nos segundos, mas a força de vontade e a convicção venceram e voltei a correr, desta vez como se aqueles ferimentos fossem algo renovador e me encontrasse totalmente reestabelecido de vitalidade. Agora sim, sentia-me a ganhar terreno.

Estava quase a apanhá-lo, pensando até em esticar a mão para agarrar aquele capote negro, mas o bosque terminou para dar lugar a uma via rápida com bastante movimento. Fui obrigado a parar bruscamente para não ser atropelado, obrigando o veículo envolvido a desviar-se e ouvindo a respectiva buzinadela do mesmo. No entanto, a criatura continuou a avançar. Era como se os carros não a vissem, nem a ela nem ao meu filho. O Rafael, ainda desmaiado, foi erguido acima da cabeça do captor e os veículos passavam livremente por dentro do corpo imaterial da figura. Eles atingiram o separador central e nesse instante, toda a minha hesitação foi expulsa por uma mentalização avassaladora que me dizia que, desse por onde desse, terminasse como terminasse, eu tinha que atravessar aquela estrada. Três passos rápidos e um encolher do abdómen, acompanhado de um movimento ascendente dos braços para fugir ao primeiro veículo. Uma pirueta para escapar à frente do segundo. Uma correria tremenda até ao separador central em sintonia com uma orquestra de buzinas e travagens. Saltei para a segurança do separador e apoiei as mãos no rail, baixando a cabeça por entre os braços na tentativa de recuperar rapidamente o fôlego. Não me permiti perder muito tempo e dirigi o meu olhar na direcção do fugitivo e constatei que ainda não atravessara a estrada na totalidade, talvez por ter ficado surpreso com a visão de um pai louco prestes a ser atropelado inúmeras vezes. Iria ficar ainda mais surpreendido com a visão de um pai louco a cair-lhe em cima, embora ainda não soubesse como, vista a sua existência imaterial. Saltei do centro para a via completamente cego e surdo para o que me rodeava, voltando a mim quando um retrovisor se partiu contra o meu braço, não sendo atropelado por milagre. Levei a mão à zona atingida e apertei, largando de imediato devido às dores que senti. Olhei e vi que as mesmas provinham na sua maior parte dos inúmeros vidros que se haviam incrustado na carne, bem como uma enorme lasca de plástico, cuja arranquei de imediato e de dentes cerrados. Em seguida voltei a calcular mal a minha arrancada e enquanto o carro travava a fundo, vi-me obrigado a saltar e a deslizar com a minha anca sobre o capõ. Mal coloquei os pés no chão novamente, uma outra viatura embateu na traseira da que travara, ficando de imediato entalada por uma terceira que se juntou ao desfile de destruição. Olhei esparvoado e aterrorizado pelo que estava a causar, mas não podia ficar ali a perder tempo, em primeiro pelo meu filho e, também bastante importante, para não sofrer a ira dos condutores lesados. Rapidamente, virei as costas ao aparato e acelerei a passada para os últimos metros de asfalto que ainda me separavam da segurança, vendo o vulto embrenhar-se na escuridão que se espraiava para lá da berma. O trânsito havia parado devido ao acidente, pelo que descurei qualquer tipo de cuidado naquele último troço do meu percurso, incorrendo estupidamente em novo erro. Um qualquer tresloucado a alta velocidade, sem possibilidade de travar a tempo, guinou o volante em direcção à berma e eu passei a encontrar-me na sua trajectória. O chiar dos pneus aumentou exponencialmente quando o condutor levou o pé a fundo ao travão, a viatura começou a derrapar, com a traseira a bailar de um lado para o outro, mas a distância que nos separava diminuía a uma velocidade demasiado elevada e constante. Sem hipótese para mais nada, saltei em desespero na direcção do breu e, embora tenha escapado por um triz à morte, embati violentamente com as pernas nos rails, o que me fez dar meia pirueta no ar e estatelar-me de cabeça no chão duro e coberto de pedras, quase partindo o pescoço. Estava de tal maneira atordoado que não tinha sequer noção de onde estava, ou para onde estava virado, mas nem isso impossibilitou que tivesse plena percepção do estrondo provocado pela explosão que se seguiu ao despiste daquele último automóvel com que me confrontei. Forcei-me a levantar, iluminado por um intenso brilho laranja proveniente do incêndio no asfalto e, ignorando-o, lancei-me novamente na perseguição, desta vez às apalpadelas.

Aquela escuridão não podia ser normal. Após vários minutos, quando já me encontrava recuperado dentro dos possíveis e a minha visão já se deveria ter habituado à ausência de luz, tudo continuava a ser totalmente negro. Era como se fosse cego. Embatia vezes sem conta contra coisas que não distinguia o que eram, tropeçava e caía devido a obstáculos que desconhecia em todos os termos e cada vez me encontrava mais à deriva, guiando-me apenas pelo som de um choro, o que me dizia que o Rafael havia acordado e não estava muito longe. Do nada, o choro tornou-se um grito único de aflição, o que me fez desatar a correr que nem um louco e gritar pelo nome dele vezes sem conta. Comecei a ouvir gritar "Pai...Pai..."! Ele ouvira-me e chamava-me com a voz carregada de medo. Corri ainda mais, mais do que alguma vez correra, até no meu auge de juventude. Ouvia o som cada vez mais perto e quando este me pareceu estar ao meu alcance, um clarão infinitamente maior que um relâmpago cegou-me completamente. Levei as mãos e os braços à cara para proteger os olhos, mas a luz era demasiado intensa. Comecei a ficar tonto e decidi desacelerar o passo e parar, pois não me conseguia equilibrar e deixara também de ouvir fosse o que fosse. Não tive no entanto, tempo para nada, pois enquanto pensava, dei ainda meia dúzia de passos acelerados e o chão desapareceu-me de debaixo dos pés. Comecei a cair e a perder os sentidos, mas antes fui ainda capaz de rodar no ar e olhar para cima. A iluminação havia regressado ao normal e eu caía de uma ravina abaixo em direcção à morte, tendo como espectadores, aquele demónio negro e, ao seu colo, o meu filho lavado em lágrimas. Antes de desmaiar ainda vi o pequenote estender a mão aberta na minha direcção.

Senti-me gelado até aos ossos e comecei a acordar. Encontrava-me deitado no meio do meu jardim, totalmente encharcado e carregado de espinhos em várias zonas do corpo. Procurei os restantes ferimentos provocados pelos carros, ou vestígios de algo que remetesse para a minha queda da falésia, mas nada. Esses ferimentos não existiam, mas os espinhos estavam lá. Algo diferente tinha acontecido daquela vez. Ao me preparar para levantar, reparei que tinha algo preso à minha aliança de casamento. Ao ver o que era gelei ao mesmo tempo que me rejubilei. Tinha na minha posse, um pedaço de tecido preto.