segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Alcatraz Cap. IV - Equidade

    Vincent olhava o chão com satisfação. Sentimento estranho, tendo em conta a situação em que se encontrava, mas até esboçou um ligeiro sorriso. Esperava a qualquer momento, o cano frio de uma arma na sua cabeça, mas o medo encontrava-se totalmente ausente no seu âmago. "Não faças isso Jack! Não estou a defender ninguém, mas tu melhor que ninguém deves saber o que este homem passou!" - ouvia a voz firme - "Achas que sou capaz Kyle? Cara...o, ainda há pouco dizias que não era nenhum assassino e agora já sou? Mer...a pra ti meu atrasado mental! Sei bem o que ele fez, mas poupou o meu filho e, por causa disso, perdeu tudo! Continuo a odiá-lo pelo que fez, mas tenho pena dele pelo que sofreu. Se lhe devo a morte da minha mãe e da minha mulher, também lhe devo a vida do meu filho. Não vou matá-lo...vou deixar...tentar...perdoá-lo com o tempo." - sentia a resposta dada com um sentido de justiça em vias de extinção e o outro ficar completamente surpreendido com tamanho discurso. Olhou para cima espantado e Jack estendeu-lhe a mão por forma a ajudá-lo a caminhar. Kyle acompanhou-os em silêncio.

Encostado ao carro, com os seus quase dois metros de altura, perna cruzada em quatro e remexendo a barba aparada ao queixo, Janus aguardava a chegada do "betinho", para prosseguirem com a sua invasão às docas. Estava nervoso quanto a abordagem pretendida por este, pois sabia o quão burro e estúpido era aquele projecto falhado de homem e, para piorar tudo, o pai do "pedaço de estrume" tinha-o ameaçado de morte em caso de fracasso. Este dilema lembrava-lhe a missão, que nunca passou de uma brincadeira para crianças, em que o excesso de confiança e ilusão de imortalidade daquele tipo, lhe deu como recordação a enorme cicatriz que tinha na face esquerda. Libertou-se daquele receio por momentos mesmo a tempo de ver chegar o  Lamborghini Murcielago LP 650 - 4 descapotável do finório, e a mancha amarela e comprida que era aquele cabelo a esvoaçar enquanto o automóvel parava. Brian saía do carro como sempre. Ar convencido e fedor insuportável a importância, que tinham como função, disfarçar o cãozinho obediente que era e o seu verdadeiro cheiro, a leitinho.  

  "Janus, vamos a mexer esse cú. Manda os teus homens avançarem e matar tudo aquilo que se mexa dentro das docas."
  "É esse o teu plano? Era pa dizeres isso que querias que esperasse por ti? Não foi nada disto que disseste ao telefone! Agora é nada de precauções nem movimentações pensadas! Simplesmente entrar a matar! Parece-me um plano excelente para o qual transpuseste todo o teu brilhantismo." - disse em tom de gozo mas totalmente possesso.
  "Mudei de ideias. Agora vê como falas senão mando-te pendurar plas bolas. Tratas-me por você e não por tu como fazias com o lixo do Vas." - a bazófia da criatura era palpável - "Agora limita-te a guardar as tuas opiniões para alguém que se interesse e faz como te digo. Rápido." - gesticulou com a mão como que a enxotá-lo.
  "Puto dum cab...ão! Sei que provavelmente não me escapo desta e se assim for, não chegas a fazer os 22 anos, cabeçudo de merd...!"  - sussurrou de si para si.

Escassos minutos passados e todos os homens já se encontravam no interior das docas. Sem qualquer organização ou planeamento de actuação, movimentavam-se sem cuidado ou preocupação. Haviam tomado aquela intervenção como fácil, visto que lhes fora dito que eram vinte contra apenas três e que não deviam deixá-los sair dali vivos. Só o simples facto de serem apenas três, mas numa luta pela sobrevivência, deveria ser mais do que motivo de cautela. Um só homem excede-se na demanda pela preservação da sua vida, logo, seria óbvio o que esperar de três.

  "Esperem!" - Kyle estendeu a mão em frente ao peito de Vincent, fazendo-o parar a ele e a Jack que o ajudava a caminhar - "Que porra de barulho vem a ser este? Não era suposto isto tar fechado e abandonado?" - todos olhavam em redor em busca da origem, mas o som era disperso e vinha de várias direcções diferentes.
  "Isto não me cheira bem. Acho melhor sairmos de campo aberto e termos cuidado enquanto não sabemos o que se passa. Vincent, tu ficas dentro daquele primeiro contentor ali e esperas por nós. Juro-te, pela vida do meu filho que salvaste que voltamos pa te vir buscar. Tornei as minhas contas a ajustar contigo numa dívida de gratidão. Ainda não sei muito bem porquê nem como, mas o importante agora é que confies em mim." - não havia nada nele que levantasse dúvidas quanto à veracidade do que dizia e o outro assentiu com um gesto de cabeça  - "Kyle, nós vamos ver o que se passa, mas temos que nos manter juntos. Bora." - dito isto deixaram Vincent escondido no local designado e, agachados, arrancaram em corrida por um dos intermináveis corredores de contentores. Avançaram silenciosos, encostados às laterais dos montes de ferro e aço até que começaram a ouvir vozes e o som distinto de passos. "Vou apanhar os cab..es antes de ti. Hahaha!", "A ver vamos! O primeiro tiro é meu e vai ser em cheio na mioleira.". As conversas eram todas em torno do mesmo tema, o que de imediato lhes mostrou que estavam a ser literalmente caçados, quase como se de um jogo se tratasse. Tinham de ser silenciosos e despachar da mesma forma somente aqueles necessários para criarem uma linha de fuga. Eram demasiados para os "limparem" a todos. Jack ajudou Kyle a chegar a um ponto mais alto de onde este avistou quatro mortes necessárias e inevitáveis, pois os restantes encontravam-se bem afastados ou a andarem em sentido oposto à sua localização. Desceu e prepararam-se para o início das "limpezas". Aproximaram-se dos primeiros dois e Jack apanhou do chão um ferro bicudo e ferrugento. Propositadamente tocou com ele no solo de forma a provocar um ligeiro ruído que atraiu os alvos. Enquanto estes avançavam cautelosamente para investigar, deram rapidamente a volta aos contentores mais próximos e surgiram-lhes nas costas. A arma improvisada trespassou o peito de um que tombou de imediato, ficando de joelhos, cabeça pendente para a frente e uma papa de sangue e ferrugem escorrendo das pontas do tubo, enquanto o segundo, sem tempo de reacção, viu o grisalho esmagar-lhe a traqueia com uma pancada seca. Ficou a olhar para ele enquanto sufocava. Um sinal de cabeça de um e os dois avançaram no encalço da próxima vítima. Escassos segundo depois e estavam a pouco mais de dois ou três metros do tipo. Escondidos, cada um na quina de um contentor diferente, observavam e pensavam na melhor forma de o eliminar. Jack teve uma ideia e sinalizou o amigo para que este se preparasse. Então, colocou o seu braço à vista e fez barulho de passos. O outro, ouviu, viu e começou a deslocar-se pé ante pé para apanhar quem ali rondava. Ao aproximar-se da quina, de um só movimento, rodou e apontou a metralhadora., apanhando Jack de costas. "Quietinho ai ó palhaço!" - gritou, fazendo com que o careca começasse de imediato a erguer os braços. Kyle já se aproximava pela retaguarda. Num ápice agarrou-lhe na cabeça e fê-la embater contra o aço de um contentor uma meia dúzia de vezes. A violência das duas primeiras foi tal, que era quase certo de que o rapaz teria morrido sem sequer saber como. A careca reluziu-lhe com as primeiras luzes lunares enquanto cumprimentava o amigo com uma palmadinha na nuca. Viravam-se para a última abordagem quando o último "gajo" que faltava matarem, ficou com a cabeça cravada no contentor por uma enorme faca de mato. Vincent aproximou-se a coxear violentamente e com esforço retirou a faca. A saída da lâmina fez os olhos da vítima revirarem antes de o corpo cair no chão. Ficaram de tal forma embasbacados que nem articularam palavra.

  "Eu vim avançando devagar atrás de vocês e peço desculpa por ter ido contra o combinado, mas ainda bem que o fiz. Este cab...ão viu-vos e vinha à socapa para vos limpar plas costas. Não pensei duas vezes antes de lhe proporcionar uma limpeza de ouvidos à moda do belo do cotonete!" - quebrou assim ele próprio o silêncio.
  "Bem...obrigado!" - disse ainda meio atrapalhado enquanto passava a mão pela cabeça desprovida de cabelo.

Kyle aproximou-se do coxo e, pondo-lhe o braço por cima do seu pescoço, ajudou-o a caminhar em direcção à saída agora de caminho livre. "Vamos embora pá! Tás à espera que apareçam os outros é?" - com estas palavras o outro acordou e seguiu-os. De passo o mais acelerado possível, passaram o portão degradado das docas, rumo à liberdade e olharam para todos aqueles carros ali estacionados ao acaso sem parar um segundo sequer. Atrás de todos aqueles SUV´s negros, depararam-se com um estonteante Lamborghini  em tons de cinza e laranja e com uma arma apontada a si. O tipo armado ria à gargalhada e a sua loucura era de uma evidência extrema. Nenhum deles arriscou sequer chegar às suas armas. Apareceu então um segundo à retaguarda do primeiro. O gigante de cicatriz na cara aproximava-se numa passada pesada e com um ar misto de satisfação e arrependimento. Era algo assustador. Parou ao lado do louco sorridente. "Apanhei-os! Vês? Eu bem te disse meu grandessíssimo atrasado mental.". O grande olhou para baixo - "E de que te servirá isso?". "Hun??" - o minorca não teve tempo de dizer mais nada, pois mal olhou para cima com o seu toque absurdamente enjoativo de importância, o outro espetou-lhe com uma bala através dos miolos. O corpo caiu direito como uma tábua e de olhos esbugalhados. "Vocês três!" - olharam apreensivos - "Ponham-se a andar daqui pra fora. Rápido antes que eu mude de ideias. A chave do carro" - apontou para o Lamb - "está no bolso dele." - virou costas e afastou-se assim que acabou de falar. Os primeiros passos deles foram cautelosos, mas depressa voltaram ao passo acelerado. Apanharam a chave e os olhos do cadáver pareciam olhá-los numa súplica chorosa por socorro. Afastaram-se rapidamente e meteram-se no carro, arrancando à pressa com o volante ao encargo de Jack. Ligaram o Gps e activaram a ligação à última localização conhecida.

  "Aquele cabelo loiro e carinha de bebé já nestas andanças. Estas mer...as lixam-me a cabeça toda. Tão novo para morrer." - calou-se e levou o pé do acelerador ao fundo.


  



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