domingo, 5 de agosto de 2012

Alcatraz Cap. III - Libertação

   "Cum caral...!", pensou quando viu Jack a arrastar um coxo qualquer de capacete para o meio dos corredores intermináveis de contentores abandonados. "Que problema arranjou este cabeça de autoclismo desta vez?". Sabia que aquele gajo tinha predisposição para a angariação de todo e qualquer tipo de problemas desde que lhe haviam morto a mulher e a mãe, mas a frequência começava a atingir números realmente preocupantes. Isto para não mencionar a lacuna terrível que tinha em relação à capacidade de passar despercebido. Era barraca atrás de barraca e sabia que daquela vez não tinha sido excepção, pois havia passado há relativamente pouco tempo pelo acidente entre o Peugeot e a mota, bem como, pelo aparato policial que o rodeava. "Perdemos o suspeito de vista por breves momentos durante a perseguição, mas foi o suficiente para que fugisse! Quando encontrámos a viatura, esta já se encontrava vazia e o suspeito, nem vê-lo!", estes comentários de um dos agentes no local, dispensava qualquer necessidade de explicação face ao sucedido.

Desabafos à parte, a decisão foi concentrar-se naquilo que tinha de fazer e aproximar-se dele sem ser visto, sob pena de entrar num beco sem saída e perder Jack ou até a sua própria vida. Subiu ao contentor mais próximo e silenciosamente foi saltando de um para outro até onde lhe foi permitido. As fileiras de contentores terminavam ainda a uns bons 10 metros de onde eles haviam parado. Viu o tipo de capacete ser encostado à parede sul do maior armazém das antigas docas e até lá, a cobertura era escassa. Não tinha quase onde se esconder entre o local onde se encontrava e o destino e para piorar tudo, ainda nem começara a escurecer.

Jack estava de cabeça perdida. O motard, já sem capacete via a sua cabeça atingir a parede, com uma delicadeza muito pouco característica, a sua face ser bofeteada e o seu abdómen, esmurrado como se o amanhã não fosse existir. Não fazia a mínima ideia de onde vinha aquela fúria, mas era perfeitamente visível que a vítima tentava dizer algo, mas não lhe era permitido, embora a pergunta "Porque o fizeste?", fosse repetida a cada golpe do agressor. Tinha que pará-lo o mais rapidamente possível, pois não queria que aquele desgraçado acrescentasse homicídio à sua lista de violações da lei. Saltou de cima do contentor e avançou até ao que restava do casco de um barco pesqueiro, uma das duas coberturas que tinha à sua disposição. Olhou-os novamente e nada se havia alterado, portanto, continuava incógnito. Agachado, em passada rápida e com uma cambalhota no final, parou atrás dos restos mortais de uma empilhadora, proveniente certamente de algum dos antigos armazéns. Moveu-se ligeiramente para olhar na direcção daqueles dois, quando a sorte lhe virou as costas. Um dos braços do veículo cedeu e caiu no chão com estrondo. Amaldiçoou-se mesmo sabendo que os únicos culpados do sucedido eram o tempo e a ferrugem. Ambos ficaram a olhar na sua direcção e Jack colocou o outro na sua frente e, prendendo-o pelo pescoço, sacou de uma arma escondida na zona do tornozelo e apontou-lha à cabeça. "Quem está ai?", perguntou ele bem alto e de forma fortemente hostil. Tentava raciocinar rápido e pensar em alguma forma lógica e segura de actuar. Já tentara ir contra as loucuras de Jack várias vezes e por duas delas, ele quase o matara por, fora de si e incapaz de qualquer raciocínio lógico, o acusar de também conspirar contra ele. Tendo em conta as anteriores circunstâncias, a cautela era peça indispensável ao plano. "Mostra-te!", continuava ele a gritar repetidamente e cada vez mais impaciente. Começou a pensar que talvez o melhor a fazer seria mostrar-se simplesmente, de braços no ar, e falar com ele apelando-lhe à razão, pois se tentasse algo que o fizesse sentir ameaçado, ai sim, a situação poderia tornar-se ainda mais complicada.  

  "Muita calma Jack! Vou sair de trás desta cangalha e vamos falar. Levo os braços no ar para te garantir que não pretendo fazer nada para te prejudicar.".
  "Kyle?! És tu?!" - recebeu de imediato a resposta ao ver surgir, de braços no ar, o amigo de longa data. Aquele cabelo ligeiramente grisalho e penteado para o lado dissipava qualquer dúvida que o timbre de voz tivesse deixado.
   "Jack, vais ter de largar esse gajo ou ainda o matas! Ambos sabemos que não és nenhum assassino. Vamos ao menos ouvir o que ele tem para dizer.".
  "O que ele tem para dizer? Como sabes que ele tem alguma coisa para dizer?E Vamos?Vamos?Que merda de discurso de equipa é esse? Tu que sempre me tentaste demover e atrapalhar em vez de ajudares!". - a careca brilhava com o suor que corria e o nervosismo era evidente no tremelicar negro dos seus olhos.
  "Sabes que sou verdadeiramente teu amigo e os amigos por norma tentam que os outros não se matem ou se prejudiquem por estarem cegos de raiva! Além disso tu não és nenhum exemplo de auto-controlo para achares estranho que te chamem à atenção pras cagadas que fazes, que só por acaso são mais que muitas. Por mais que uma vez me ias limpando o sebo e mesmo assim continuo aqui! Que diz isso sobre mim? - notou a raiva na sua voz mas não o conseguiu dizer de outra forma.
  "Que queres tu..." - tentou interromper.
  "Cala a boca que ainda não acabei. Pensa com a cabeça em vez dos pés pelo menos por uma vez que seja. Tu é merda atrás de merda, barraca atrás de barraca. Que tal fazeres as coisas bem feitas e começares realmente a tentar resolver as coisas em vez de as complicares? - via o careca cada vez mais nervoso, mas a sua expressão de raiva fora substituída por uma pensativa, logo, decidiu continuar - "Queres obter respostas às inúmeras perguntas que tens, mas não dás hipótese nenhuma a ninguém pa falar! Vê esse gajo que aí tens por exemplo. Eu a uma distância do caral...reparei que ele tava a querer dizer alguma coisa e tu não? Raios partam que, ou és muita cego ou muita estúpido! Pões-te a gritar tipo prostituta "Porquê? Porquê?", mas não deixas que te respondam! Pra quê a pergunta então? Explicas-me? Fod...-se que o animal é parvo!".

Jack estava sem palavras e ele ia aproveitando para se aproximar, um passo de cada vez. O conflito de ideias era evidente no olhar que ora lhe lançava, ora lançava ao chão. Conseguia ver perfeitamente que tinha sido bem sucedido no derrubar daquele muro de teimosia e ódio, mas ainda faltava convencê-lo a largar o outro e a ouvir o que teria para dizer. Estava a uns meros três passos dele e assim ficou por alguns minutos em que não deixou de ser observado. Uma brecha e diminuiu a distância para dois. Outra e apenas um os separava. "Afasta-te! Pensas que sou parvo?", ia a meio do avanço decisivo quando o grito o fez voltar a uns quatro de separação.

  "Que achas que vou eu fazer desarmado contra ti com um canhão desses pronto a disparar? Pensas que sou o quê? Algum James Bond cheio de truques? Só quero ajudar-te a interrogar esse gajo como realmente deve ser. Persuadi-lo a falar, nem que seja à força, mas dar-lhe realmente a chance de falar! Tás a perceber? Aquilo que tanto queres que ele faça desde o início, mas nunca lhe deste a oportunidade pra tal? Para além de te querer ajudar não quero mesmo mais nada, por isso, se me queres realmente daqui pra fora e te achas capaz de tudo sozinho diz-me já, que eu viro costas e borrifo-me pra isto tudo, porque já tou farto das tuas birras e ameaças. Então? Como vai ser?".

Ele hesitava em responder e era claramente evidente a confusão que lhe afogava o pensamento. A expressão do prisioneiro ia variando de receoso para apavorado conforme a intensidade dos apertos que o seu pescoço sofria. Também ele notara há muito a instabilidade emocional do seu captor.

  "Ok Kyle. Fazemos à tua maneira. Acho que já perdi o controlo de mim próprio há muito tempo, por isso, acho que ter-te como apoio é a melhor solução. Aproxima-te." - baixou a guarda em simultâneo com a última palavra proferida - "Desculpa." - disse quando o grisalho lhe apoiou a mão no ombro.
  "Esquece isso por agora e vamos ao que interessa." - respondeu enquanto virava a sua atenção para o cativo. 
  "Chamo-me Vincent, porra!" - gritou mal levou uma galheta acompanhada da pergunta do nome.

O seu joelho esquerdo estava completamente arruinado. Tanto que quase não se aguentava de pé. As dores que sentia estavam claramente expressas na sua face e olhar verde. O cabelo curto e castanho davam-lhe um aspecto de adolescente, somente perturbado pelas rugas de expressão muito evidentes.
  "Para quem só usaria a força em último caso, começaste bem, não Kyle?".
  "Tavas a tentar fazer uma piada? Não sei então porque não me tou a rir!" - virou-se para o outro - "Agora explica-me. Se não trabalhavas para o Vas e nunca tiveste nada a ver com esse cabr..., porque foste atrás da família do Jack? Porque os mataste? Sim, porque nós conhecemos todos os associados desse gajo e tu não fazes parte deles! O único que ainda não sabemos quem é, é o chefão, mas havemos de descobrir, com ou sem a tua ajuda."
  "Não faço parte dos vassalos dele, nunca fiz e, só por acaso, já ninguém faz, porque eu matei o filho de pu...ainda há pouco!" - ficaram os dois esparvoados com o que acabavam de ouvir -  "A única coisa que ainda preciso de fazer é pedir desculpa ao Jack...desculpa de algo que eu sei que não pode ser desculpado! Desculpa Jack, mas fui obrigado a matar a tua família para salvar a minha. O Vas apanhou-os numa altura em que eu trabalhava como assassino a contrato e me recusei a trabalhar para ele por querer envolver inocentes, por querer que eu matasse a tua mulher, a tua mãe, o teu filho! Fê-los reféns e ameaçou matá-los se não fizesse o que me mandava! Acabei por ceder!" - Jack tremia e cerrava os punhos enquanto ouvia - "Nunca te perguntaste o porquê de o teu filho ter sobrevivido? Vi nele o meu próprio e não fui capaz! Fechei-o no quarto para que não visse a barbaridade que faria em seguida! Que idade tem ele agora? Cinco anos, certo? O meu teria a mesma idade se fosse vivo. - olhou para o chão enquanto pronunciou as últimas três frases e em seguida olhou Jack. Ambos tinham as lágrimas nos olhos - "O Vas descobriu que eu mentira e que o teu filho estava vivo, então enviou metade dos seus homens atrás de mim. Apanhado de surpresa pouco pude fazer, embora ainda derrubasse um ou dois. Levaram-me para um barracão que não faço ideia de onde fica, pois fui vendado, e amarraram-me a uma cadeira. Trouxe a minha família para a minha frente e obrigou-me a vê-lo matá-los. Gritou o tempo todo comigo a dizer "Vês como se faz? Vês?" e depois ria-se com a maior das satisfações. Para ele, inocente ou não, é fácil matar. Matou a minha mulher e o meu filho de quatro anos. No fim, enquanto eu gritava e chorava de desespero, ele aproximou-se e cortou-me estes dois dedos." - ergueu a mão para que eles vissem - "Disse que era um dedo por cada membro da minha família que eu condenara." - Kyle estava duplamente impressionado, em primeiro, com o auto-controlo de Jack que quase não movera um músculo desde o início e com o imenso sofrimento que ecoava daquele homem com cada palavra proferida - "Agora não há mais nada que me prenda a este mundo. Matei o assassino da minha família e pedi desculpa pelo maior sofrimento a que se pode sujeitar alguém. Libertei-me e tou pronto pra morrer. Força Jack! Faz o que tens a fazer! Liberta-te tu também!".



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