Sentado no quarto olho o horizonte através da minha janela. Os veios que demarcam os quadrados em vidro fazem-me imaginar uma prisão. Envolto em pensamentos da vida e existência, a visão de encarceramento não me faz qualquer sentido. Então ergo-me e caminho em direcção à porta, libertando-me. Os meus pés já no solo calcetado e a chuva iniciou as suas carícias na minha face. Aquele toque suave e meigo era confortante e calmante como o abraço de uma mãe. Iniciei uma passada lenta aproveitando as ruas desertas e o som da água em queda para divagar em pensamentos que por norma tendo a interiorizar e esconder. Lembro-me de todas as vezes que pensei nisto, na forma atroz em que colocava o rótulo de cobarde ou medroso em mim próprio e até nos momentos em que estava completamente decidido a contrariar a situação. Óbvio que tal nunca aconteceu e faltou-me sempre o equilíbrio nas horas da verdade. Mas digamos que isto não era culpa minha nem de ninguém que o faça tal como eu. A culpa é sim de uma geração completamente inundada em estereótipos e manias de grandeza. Lembro-me de quando ser honesto e directo era uma coisa boa. Hoje mais vale mentir ou esconder, pois todos parecem compreender e aceitar melhor, ou seja, viverem na ignorância da verdade, do que se sentirem diferentes ou inferiores. Sim, porque tal como disse anteriormente, existem clichés que fazem com que pessoas desprezem ou se afastem de outras, simplesmente por serem diferentes...honestas...directas. Mas que é isto? A maioria dessa gentinha partilha dessas diferenças mas recusa-se a confessar porque quer parecer bem, quer continuar a inserir-se no grupo de parvalhões que dizem viver numa democracia, mas não passam de amantes de ditadura. Onde é que alguém escreveu alguma vez que a diferença é má, ou a mudança? Os telemóveis de ecrã verdinho também mudaram para cores e touch! Porque não fazer uma manifestação sobre isso? Chamar de nerds a gajos que passam metade da vida agarrados a computadores e livros para criarem tais avanços? Não, esses são bons porque nos dão as tecnologias caras, que nós como tios e tias tanto gostamos de bambear para nos armarmos aos cucos. Queria relaxar e deixei que a chuva me limpasse de tais pensamentos. Comecei a pensar nos amigos, naqueles que estão sempre lá quando precisamos, aqueles que não pedem nada em troca. Pensei nos momentos dos copos, das viagens de carro a ouvir músicas de há tantos anos atrás que todos acabavam envoltos em recordações e risadas, das jogatanas na casa de um e de outro. Lembrei os petiscos, as viagens, as conversas de esplanada. Vejo como se fosse hoje, o meu irmão crescer entre os meus amigos e, hoje em dia, maior do que eu, acompanhar connosco em todas as loucuras e brincadeiras. que prazer tenho na sua companhia...que orgulho tenho na sua pessoa. Mais uma de mil e uma coisas que os meus pais me proporcionaram e da qual não me posso esquecer de agradecer. Sei que não necessitam de obrigados, não pedem nada em troca e que tudo fazem de livre vontade e por amor, mas não posso nunca deixar de lhes agradecer. Sou o que sou, sou quem sou, graças a eles. Nunca nada me faltou ou faltará no que deles depender. São ambos baixinhos, mas como pais, são os maiores. Terminei a volta ao quarteirão e volto a estar em casa. Sento-me novamente e, encharcado, olho o horizonte chuvoso e cinzento através da minha janela. Os veios que demarcam os quadrados do vidro já não me dizem nada. Tenho amigos, família e recordações. Vivo com intensidade e aproveito tudo o que a vida me proporciona. Sou diferente e gosto de o ser. Bens materiais não importam. São as experiências que nem a morte nos pode tirar. Sou um e não mais um. Recuso-me a ser como todos, a ser como querem que eu seja.

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