quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Alcatraz Cap. V - Indolência

  O vento a bater-lhe na cara e a visão do miúdo morto a invadir-lhe a mente. Agarrava o volante com a mão direita, exercendo uma força enorme e desnecessária, enquanto esfregava a careca com a esquerda. Pensava ao mesmo ritmo do andamento do carro, vezes sem conta, sem nunca conseguir entender o que dera àquele tipo para estourar com a "carola ao puto" daquela forma. A voz daquela "cabra" do Gps, ainda por cima com sotaque "franciú" começava a irritá-lo profundamente com as constantes interrupções à sua reflexão.  Reparou entretanto que Kyle estava estranho. Parecia receoso, o que seria normal, vista a situação em que se encontravam, mas havia ali mais qualquer coisa. O "gajo" parecia perdido, sem conseguir estar quieto ou concentrar o olhar, fosse na estrada ou noutro ponto qualquer.

  "Que se passa contigo pá? Pareces um maluco a abanar a cabeça dum lado para o outro!" - perguntou intrigado.
  "Han? O que é que te dói?"
  "Não te faças de estúpido! Há qualquer coisa de errado contigo! Desembucha."
  "Desembuchar o quê pá? É difícil de entender porque é que um gajo está apreensivo quando vai só com mais dois animais na direcção de um exército? É difícil entender isso quando um gajo tens mais possibilidades de levar um estilho pla cabeça do que o Papa tem de rezar? Fod...-se Jack! Às vezes és burro de car...ho."
  "Epá, vai levar onde levam as galinhas ó maluco! Ainda há pouco távamos rodeados de macacos e não mostraste ponta de receio ou de nervosismo! Agora é que te caiu a ficha de repente e ficaste com os caniços a tremelicar? Não me lixes ó Kyle!" 
  "Agora tu é que sabes como me sinto! Eu não sei sobre mim próprio...quem sabe és tu. Deves ter tirado algum mestrado em adivinhação! Pensa lá o que tu quiseres mas não me chateies a mona."
  " Vá chora lá... - deu-lhe um toque na face em tom de gozo - ...chora maricas! Revolta-te lá por não te dizerem que sim a tudo como tu gostas! - o outro afastou-lhe a mão e deu-lhe um soco no braço - Enervas-te muito pá. Tens de começar a ter cuidado com o coração. Se achas que tás bem, já não te digo mais nada. Não quero que tenhas aí um esgotamento qualquer por minha causa ó menina da mer...a!" - viu o dedo do meio do outro quase e entrar-lhe pelo olho.

O Gps interrompeu o silêncio com o anúncio de chegada ao destino. Acordaram Vincent que dormira toda a viagem bastante encolhido na parte traseira minúscula daquele carro e encontrava-se agora ainda mais dorido que anteriormente. A mansão que tinham pela frente era de cortar a respiração. Construída em estilo gótico, aparentava ter tamanho suficiente para albergar toda uma família com não menos de 30 membros. Os telhados bicudos e a cor pálida davam-lhe um ar sombrio e de extrema imponência. Jack aproximava-se do enorme portão de ferro, apreciando e avaliando em simultâneo o enorme jardim que rodeava o imóvel. Exuberante em todos os aspectos, possuía sebes com uma altura superior a uma pessoa, delineando uma espécie de labirinto com discretos toques coloridos proporcionados aqui e ali por flores coloridas dos mais diversos feitios. As suas mãos agarraram as grades e a sua admiração pelo local, misturou-se com a estranheza de o local se encontrar deserto. Abanou o pesado obstáculo e este abriu-se sem dificuldade. Começava seriamente a cheirar-lhe a armadilha. Olhou para os outros com um esgar de extrema desconfiança.

  "Vamos aproveitar e enfiamos-nos por ai adentro num instante antes que apareça alguém. O chefão deve andar algures lá por dentro." - a convicção era evidente na voz de Vincent.
  "És completamente louco! Isso é o que eles querem que façamos. Vamos tentar procurar um lugar nas traseiras. Provavelmente temos que saltar o muro, mas estas casas têm sempre portas nas traseiras." - Kyle falou asperamente e olhou Vincent com desprezo.
  "Calma pá!Isso tudo pra quê? O homem só tava a dar a opinião. Não é a ele que tens de matar! Eu muito sinceramente não sei o que acho melhor. As traseiras parece-me muito à filme. sarilho por sarilho já tamos metidos nele, por isso talvez ir pela frente discretamente enquanto não há ninguém seja boa ideia."
  "Querem-se matar, matem-se sozinhos! Eu vou pelas traseiras." - virou as costas e começou a andar a passo acelerado.
  "Fod...e Kyle anda cá! - nem sequer olhou - Raios partam este gajo! Vamos com ele antes que dê bronca." - guinou a cabeça na direcção pretendida e Vincent seguiu-o.

 Tanta crítica ao seu comportamento impulsivo e agora fazia o mesmo. Só lhe apetecia partir-lhe o "focinho" e na sua cabeça choviam formas atrás de formas para o fazer mal aquilo terminasse, se terminasse com ambos vivos. Olhava Vince a seu lado e apercebia-se do esforço que fazia para andar. Aquela perna devia estar a matá-lo com dores, mas ele recusava-se a ceder. Pensava no arrependimento que o havia de percorrer para se entregar daquela forma à demanda. Levaram ainda algum tempo a contornar o muro até à retaguarda, mas foram incrivelmente mais rápidos a auxiliarem-se uns aos outros para o treparem e chegarem ao outro lado. Até o "coxo" pareceu um atleta olímpico. Agachados e com Jack na frente, avançaram em direcção a uma das portas mais pequenas. Após se encontrarem encostados à parede e de armas em punho, o líder do desfile olhou para o interior. Dava para a cozinha, mas uma cozinha que mais parecia um anfiteatro, tal era a sua dimensão. Tocou a maçaneta e girou-a ao de leve. Estranhamente estava aberta. Ele ficava cada vez mais desconfiado. Era tudo bom demais para ser verdade. Guarda inexistente e agora portas abertas. Algo estava para acontecer e não era bom. Olhou para trás e fez sinal para que o seguissem para o interior.

  "Eu bem disse que as traseiras eram a melhor abordagem. Nem as portas têm trancadas!" - sussurou Kyle nas costas de Jack enquanto entravam.
   "Isto a mim não me cheira nada bem! Está tudo a ser fácil demais." - comentou Vincent no fim da fila.
   "Ave de mau agoiro!"
   "Sshhhtt!" -  o "careca" olhou bruscamente para eles com o indicador na ponta do nariz.

Olhou discretamente por cima do balcão que lhes servia de protecção e viu três indivíduos aproximarem-se. Repetiu o toque no nariz para os companheiros, mas desta vez sem qualquer som. Mantiveram-se encostados e em silêncio total até que os tipos se encostaram ao outro lado da bancada onde se encontravam. Dois deles até se sentaram nela. Falavam sobre assuntos sem qualquer interesse, mostrando-se completamente relaxados e ignorantes face à sua presença ou possibilidade de tal.  

  "Que porra é esta? Não consigo acreditar nisto! Sem notícias sobre os seus homens nas docas há tanto tempo e nem se mostram um pouco agitados?! Não interessa agora. Temos de agir rápido antes que voltem todos os que não matámos." - disse para si próprio antes de olhar para os outros e começar a gesticular lentamente mostrando o que pretendia que fosse feito.

Ele e Kyle, visto encontrarem-se com maior mobilidade, tinham a responsabilidade de imobilizar os dois que estavam sentados, enquanto Vincent, deitado no chão, eliminaria o terceiro alvejando-o com a sua arma, a única com silenciador no grupo, outra das razões para o papel que lhe havia sido dado. Terminadas as instruções, ergueu o punho e começou a levantar os dedos numa lenta e tensa sequência.Um...dois...três dedos e ergueram-se os dois como feras sobre as suas presas. O "grisalho" partiu de imediato o pescoço ao da esquerda, enquanto o "careca" puxou o outro para trás, deitando-o no balcão e atingindo-o de imediato com o cotovelo no pescoço, antes de o atirar para o chão. Deitado, o "coxo" não permitiu que o alvo de pé se apercebesse sequer da desgraça que se abatia sobre os companheiros, aniquilando-o instantaneamente com um tiro certeiro no meio da testa. Sem articularem palavra, o autor do plano tomou a dianteira e, deixando os corpos escondidos, abandonaram a cozinha. A saída que tomaram levou-os a uma gigantesca sala de jantar, digna de realeza. Mobiliário, todo ele em mogno, distribuído pelo espaço com inteligência e bom gosto. Os cortinados cinza enormes, quase chegando ao tecto, encontravam-se semicerrados, proporcionando ao espaço, uma luminosidade sinistra, mas extremamente cativante e agradável. Avançaram cautelosamente, sem notarem qualquer ruído ou movimentação, até à portada dupla que os levou ao hall. Nova divisória impregnada de classe e personalidade. A cor dourada imperava no todo da escadaria, candeeiros, pilares de sustentação do varandim e pequenas mesas que se apresentavam cobertas de luxuosos naperons bordados à mão, bem como vistosos castiçais e vasos, mas o mais impressionante era a cúpula central em vitral, simulando parte da Capela Sistina. Olhavam para cima admirando o local, quando ouviram vozes vindas do andar de cima. Era impossível no entanto, detectar a direcção das mesmas, visto o eco que era produzido entre aquelas paredes. Subiram lentamente e com todos os sentidos em alerta máximo. Na chegada ao topo, mal pisaram o último degrau, as vozes calaram-se. Alarmados pelo sucedido e à espera de verem surgir de qualquer lado no varandim um número indeterminado de hostis, Jack rolou pelo chão escondendo-se atrás de um móvel que servia de expositor a um número enorme de armas antigas, enquanto os outros dois se sentaram no chão, ocultados pela lateral da escadaria. Aguardaram por momentos sem ouvir nem ver nada, até que Kyle se começou a preparar para avançar.

  "Que fazes tu pá? Tá quieto!" - grunhiu detrás do móvel ao mesmo tempo que Vince também lhe jogava a mão impedindo-o de progredir.
  "Eu sei o que estou a fazer. - sacudiu a mão que o segurava - Não ouviram os passos dentro daquela sala? Há ali alguém e estão a movimentar-se lentamente demais para o meu gosto! Para mim já nos toparam e temos de os apanhar antes que nos apanhem a nós."
  "Passos onde meu? - perguntou enquanto esfregava a mão da "latada" que levara - Ouviste alguma coisa Jack? Isto tá aqui um silêncio tão ensurdecedor que ainda não consegui de deixar de estar arrepiado!"
  "Pois, eu também não ouvi nada! Tás a alucinar velho. Além disso, como podem eles saber que estamos aqui?Não há câmeras e ninguém nos viu, ou pelo menos quem viu tá morto. Qual é a tua lógica?"
  "Fiquem onde estão então, que o maluco vai sozinho." - dito isto arrancou em direcção à primeira porta da correnteza e abriu-a, sem dar qualquer hipótese de intervenção por parte dos outros.
  "Outra vez?Kyle...eu parto-te o focinho hoje!Parto!" - Saiu detrás do móvel no encalço do desvairado, seguido de imediato pelo "coxo".

Estavam a um passo de entrar, quando a porta se fechou com estrondo. Tentaram abri-la, acompanhados pelo som de uma enorme rixa no interior da divisória, mas estava trancada.

  "Afasta-te!" - o careca afastou-se no preciso momento em que ele cravou uma bala na fechadura, destruindo-a.

Jack pontapeou a porta violentamente, abrindo-a com estrondo, mas, ainda o seu pé estava a caminho da porta, a barulheira no interior cessou. Entraram os dois de armas erguidas, cada um varrendo os diferentes lados da sala. A barafunda era total, com praticamente tudo partido ou espalhado pelo chão. Apenas o sofá de pele preta não se encontrava virado. Jack aproximou-se deste e um tipo, que estava deitado no mesmo à espera, saltou-lhe ao pescoço, derrubando-o e fazendo com que a arma deslizasse pelo chão através do varandim e fosse cair no piso inferior. Vince reagiu rapidamente e espalhou-lhe a mioleira pela parede. Ajudou-o a erguer-se e entregou-lhe a sua arma.

  "Então e tu?"
  "Não te preocupes. - enquanto abria o casaco e tirava algo - Eu tenho a minha bebé. - sorriu ao exibir a sua lâmina, jogando-a ao ar e apanhando-a novamente - Bora."

Passaram por baixo de um arco que dava acesso à divisão seguinte. Não se via ninguém e continuavam sem sinal de Kyle. Esta sala já não estava de pernas para o ar como a anterior, muito antes pelo contrário, estava arrumadíssima. Era uma sala carregada de móveis e estantes por todo o lado, logo, poderia-se mostrar um enorme problemas para eles, pois os possíveis esconderijos eram mais que muitos. Pensaram em voltar para trás e evitar aquela sala, passando pelo varandim, mas três tipos bloquearam-lhes a saída. Voltaram a olhar para a zona dos móveis e mais quatro saíram de dentro dos mesmos. Um tiro certeiro e um dos três primeiros ficou logo com um buraco na garganta, voando os outros dois para trás do sofá para se protegerem visto estarem desarmados. Do outro lado, os quatro começaram a largar chumbo e eles esconderam-se nas laterais do arco. Jack apontava para o sofá para não dar hipótese de movimento aos que lá se escondiam, mas os outros aproximavam-se e Vince não tinha fogo com ele e era só um.

  "Jack...Jack! - o outro olhou de soslaio - Aponta ao candeeiro! Aponta à porra do candeeiro...rápido!"

Desviou a atenção para o dito candeeiro e disparou, fazendo aquele pesadelo cair com estrondo atingindo três deles em cheio. Dois foram derrubados pela força do impacto e o terceiro foi atingido por uma das pontas bicudas que se lhe espetou no topo do crânio. O único sobrevivente escondeu-se sem que vissem onde. Entretanto, Vince, aproveitando a aberta, saltou por cima do sofá caindo no meio dos dois que lá estavam. O espanto foi tal que um deles caiu de "cú" e, perdendo toda a capacidade de reacção, tombou de imediato. O sangue espirrou-lhe da boca com o movimento descendente da lâmina a sair-lhe por baixo do maxilar inferior. O segundo caiu-lhe em cima e segurou-lhe os pulsos. Tentava resistir, mas o tipo tinha mais força que um touro e o bico da faca estava cada vez mais próximo do seu olho direito. Quando já se julgava condenado, conseguiu libertar uma perna e com um esticão, atingiu-o nos "tomates". O "gajo"  soltou-o de imediato e rebolou-se com dores enquanto ele se recompôs e pegou de novo na sua "bebé". Ia para matá-lo, mas antes olhou na direcção do companheiro que procurava a sua quarta vítima. O "cab..ão" saíra do esconderijo sem ser notado e estava nas costas de Jack, pronto a ceifar-lhe a vida. Um som sibilante e ele olhou para trás. Estendido a seus pés estava o homem que procurava com a faca de Vince cravada na nuca. Olhou para o outro e estendeu-lhe o polegar, sendo retribuído com um movimento de continência. Bruscamente ergueu a arma e disparou. O "coxo" encolheu-se e olhou para trás. As dores tinham aliviado e o brutamontes já se estava a preparar outra vez para o esganar. Foi a sua vez de mostrar o polegar a Jack que, por sua vez, lhe devolveu a continência.

  "Jack!" - a sua expressão passou de aliviado para aterrorizado quando gritou.

"Click.". O som da bala a entrar na câmara acompanhou aquele chamamento e Jack sentiu de imediato o frio do cano na parte de trás da sua cabeça.

  "Sinto muito meu." - aquela voz ribombou como um trovão nos ouvidos de Jack.

  "Kyle!!!"

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