segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sem escape Cap. I - Verdade

    Olho discretamente pela janela. O tempo está assombroso com um frio implacável que tem o auge da sua incrível manifestação, nas folhagens totalmente congeladas e cintilantes como estrelas aquando da incidência das escassas luzes dispostas em grandes intervalos e oscilantes com a força da ventania..No meio deste espectáculo natural, seria de esperar, uma sensação de paz e absoluta admiração, bem junto ao fogo acolhedor da lareira que crepitava numa melodia intermitente mas apaixonante, no entanto, tal não era possível, pois no meio da estonteante beleza, a negra e sombria figura rondava a minha casa. Incospícua durante tanto tempo, assustando o meu pobre filho de apenas cinco anos, do qual duvidei e até castiguei por associar todas aquelas histórias a uma imaginação fértil e típica de criança. Já esqueci o tempo em que o pobre miúdo conseguia lidar com o escuro, em que não chorava pelo simples facto de alguém querer sair de casa após o anoitecer. Levei-o a acompanhamento psicológico após muita discussão com a minha esposa, cuja angelical beleza já começava a sofrer as consequências de inúmeras noites em branco. Ela tanta vez me chamara à atenção para a gravidade da situação pela qual o nosso rebento passava e alertava-me para o seu sofrimento. Como fui eu capaz de ignorar tanto sinal, tanta tristeza, tanto medo? Não sei! Apenas sei que ela sempre tivera razão e que o meu filho não era nenhum mentiroso. Eu é que fui despreocupado, frio e desconexo perante tudo, como nenhum pai deve ser. Agora, confrontado com a realidade que sempre considerara fantasia, não sabia como agir. Não estava minimamente preparado para tal e só fui capaz de os mandar trancarem-se no primeiro andar dentro do quarto do Rafael, cerrando até as janelas. A Vanda estava em pânico e obedeceu-me de imediato, mas não sem antes me jogar na cara o facto de eu ter constantemente ignorado todas as evidências. Ela não me culpava de nada, mas sentia-se magoada pelas minhas atitudes irreflectidas. O nervosismo era tal que afastava os cortinados com a ponta dos dedos, mas não sentia vestígio algum do seu delicado toque de seda que tanto me agradava. A sensibilidade havia abandonado o meu corpo há largos minutos. Nada sentia senão receio, dúvida, indecisão e raiva, mas essa, de mim próprio. Todas e quaisquer outras sensações voltariam a mim, apenas se sobrevivesse àquela noite.

O vulto lá fora movia-se como se estivesse a flutuar. Sempre hirto, de braços caídos e sem qualquer movimento de cabeça, deslocava-se com enorme rapidez de um lado para o outro. Parecia até transportar a escuridão nas suas costas, pois a cada aproximação a um foco de luz, o mesmo extinguia-se sem explicação aparente, envolvendo toda a zona num negro tétrico. Não conseguia vislumbrar quaisquer traços faciais ou pormenores de vestuário por mais próximo que se encontrasse da habitação. Era como se aquilo não fosse mais do que uma simples mancha preta numa pintura paisagística. Era tão sinistro e transpirava tanta ou mais maldade do que toda a que já havia visto nos meus quase 30 anos de vida. Sinto de repente um som estranho, como se algo estivesse sobre pressão e prestes a estalar. Olho em volta e vejo os vidros de todas as janelas da minha sala, completamente cobertos de gelo e a começarem a rachar. Tentei olhar lá para fora novamente pela janela mais próxima e lá estava ela quase encostada ao parapeito. O que seria aquela coisa? Nem a escassos centímetros se lhe via a cara! Era como um buraco, escuro e interminável na minha frente, mas que adoptara uma forma demasiadamente semelhante à humana! Ouvi um ruído estridente que quase me estourou os tímpanos e me jogou ao chão. Ter caído foi a minha sorte, pois de imediato, todos os vidros quebraram como uma única e enorme explosão, enchendo toda a divisória de estilhaços dos mais diversos tamanhos e feitios. Não tinha qualquer ferimento, mas caso tivesse sido atingido, já não estaria a ter aquele pensamento nem teria nunca mais qualquer outro.O assobiar da ventania assolava todo o piso térreo da casa e o frio fazia-me tremer, esfregar os antebraços e bafejar para as palmas das mãos. Olhei atentamente e já não a via em lado nenhum. Após dois profundos ciclos respiratórios, decidi abrir a porta para dar uma volta ao perímetro do jardim, mas estaquei. Estaquei com novo som de um vidro a estilhaçar, um grito de terror da minha mulher e o choro desesperado do meu filho.

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