Corri escadas acima sem sequer sentir que os meus pés tocavam algo sólido. A porta do quarto estava aberta e viam-se duas sombras, uma mais pequena e outra maior e de mulher, que se debatiam com uma terceira presença, como se estivessem a ser puxados, mas cuja sombra não era visível. Acelerei por aquele corredor em seu auxílio, mas mal me preparava para entrar na divisória, na precisa altura em que os gritos e o choro haviam deixado de ser de desespero para passarem a terror profundo, a porta fechou-se-me na cara com uma violência tremenda, quebrando-me a cana do nariz. Não consegui entender, ou talvez não quisesse, a razão da porta ter fechado daquela forma, visto não ter sido movida por ninguém e a corrente de ar não ser suficiente para tal brusquidão. Ignorando a dor e o sangue que me corria por cima dos lábios, ergui-me e percorri novamente os dois metros que a pancada me tinha feito recuar. Bati na porta como um louco, completamente decidido a parti-la se assim fosse necessário, mas nada acontecia. Sentia no interior o pânico, mas o barulho havia cessado. Para além das minhas investidas contra a madeira, apenas se ouvia um ligeiro soluçar e uma respiração ofegante. Gritei por eles sem obter resposta alguma. Sentia-os encostarem-se à porta e parei de lhe bater. Agachei-me e chamei-os novamente com o silêncio a esbofetear-me de volta. Saí dali a correr para me dirigir ao exterior, deixando pingas do sangue, que já gotejava do meu queixo, pelo corredor fora. A pressa era tal que escorreguei, caindo pelas escadas abaixo. Nada senti, tanto que, no segundo seguinte estava a contornar a casa pelo lado de fora.
Olhei para cima e vi a janela partida com os cortinados a esvoaçarem ao sabor do vento. Não perdi tempo e trepei por ali acima com uma agilidade que julgava perdida há muito. Segurei o parapeito e preparei-me para dar o último impulso quando a Vanda gritou completamente desesperada pelo meu nome. "Pedroooo!". Aquele grito foi a coisa mais assustadora que alguma vez ouvira. Galguei para o interior acompanhado por novo som, mas desta vez de algo a estourar e a partir. Toquei com os pés no chão e de imediato me apercebi da origem do estrondo. A porta tinha sido arrancada das dobradiças e não havia sinal dela no quarto, mas isso era a menor das minhas preocupações, visto que também não havia sinal da minha família. Os peluches do meu filho encontravam-se espalhados por todo o lado, alguns deles completamente desfeitos. Todo o mobiliário se encontrava revirado e o azul turquesa das paredes parecia ter ganho um tom amarelado e doentio. Fiquei ainda mais em pânico quando reparei na colcha coberta de sangue e jogada ao acaso num canto. Gritei um não profundo e a plenos pulmões antes de avançar em direcção ao corredor, mas de forma imediata e brusca voltei para o quarto. Não acreditei no que vi e ganhava coragem para olhar novamente e ter a certeza. Olhar novamente para quê? O que me adiantaria? Aquele segundo vislumbre com a mísera desculpa de ser a confirmação, apenas me faria sofrer ainda mais, se é que isso era possível.
De costas apoiadas na parede, fechei os olhos e ergui a cabeça. As lágrimas correram-me pela face e quando finalmente respirei fundo e abri os olhos, o tecto mostrou-se-me turvo devido à quantidade de água na minha vista, cuja me apressei a secar. Aguardei por alguns segundos, batendo ligeiramente com a parte de trás da cabeça na parede, antes de me desencostar e encarar novamente a saída. Parecia ter umas mãos invisíveis a segurarem-me os tornozelos ou um monte de pregos a pregarem-me ao chão, pois os meus membros inferiores recusavam-se a mexer e latejavam a cada tentativa minha de os obrigar. Por fim, a minha teimosia venceu e, enchendo-me de coragem, avancei para enfrentar de vez o quadro de terror que se encontrava exposto no meu corredor. Iniciei o confronto com a situação e comigo mesmo, inundado em determinação, mas num ápice passei a chamar-lhe o nome real, ilusão. A força que pensei que teria após aquela introspecção devido ao primeiro impacto, não existia, a coragem que vi crescer em mim, não passava de uma miragem e, tudo o mais que tenha sido pensado por mim naqueles instantes criava no seu todo a maior fantasia alguma vez imaginada. Cada passo que dava ameaçava a integridade dos meus joelhos, de tanto que tremiam e doíam, cada inspiração tomava de mim uma infinidade de energia, para na expiração parecer incendiar-me os pulmões. A cascata proveniente do tecto parecia entoar uma melodia alegre durante o seu incessante contacto com o solo. Uma melodia marcada pela cor vermelha e em tom de chacota para com a minha pessoa. Coloquei-me quase debaixo dela, deixando que me salpicasse os pés e olhei fixamente para cima, coisa que até agora não havia sido capaz devido a toda a concentração necessária para vencer a insubordinação do meu corpo, mas, acima de tudo, ao medo. O corpo despido colado ao tecto de pernas e braços abertos, com inúmeros e profundos cortes por toda a sua extensão. Chorei. As falhas na carne de um encarnado que parecia ter vida e os seus contornos amarelados devido à camada de gordura da pele. Não consegui conter o vómito. Os seus olhos aterrorizados, presos eternamente a um pedido mudo de socorro, faziam-me chorar ainda mais. Saltei e agarrei um dos braços para tentar retirar o corpo do tecto e segurá-lo num último abraço, mas, mesmo sem estar preso por nada, pelo menos visível, nem se movia. Puxei com todas as forças e nem o braço que agarrava descolava, mantendo-me suspenso enquanto o agarrava. Desisti. Estava exausto e destruído por dentro. Caí de joelhos e puxei os cabelos enquanto gritava. Gritava coisas sem nexo, talvez até, simplesmente sons de desespero e agonia. A minha mulher estava morta, sofrera até ao seu último suspiro com toques de malvadez e eu não tinha feito nada para o impedir. Nem sequer a conseguia segurar junto ao meu peito e beijar-lhe a testa em despedida. Num ataque de histerismo mergulhei as minhas mãos na poça feita do seu sangue e comecei a espalhá-lo por todo o lado.
Tudo se encheu de vermelho à minha volta, incluindo a minha face, quando a cobri com ambas as mãos e gritei novamente até se me gastar a voz.
De costas apoiadas na parede, fechei os olhos e ergui a cabeça. As lágrimas correram-me pela face e quando finalmente respirei fundo e abri os olhos, o tecto mostrou-se-me turvo devido à quantidade de água na minha vista, cuja me apressei a secar. Aguardei por alguns segundos, batendo ligeiramente com a parte de trás da cabeça na parede, antes de me desencostar e encarar novamente a saída. Parecia ter umas mãos invisíveis a segurarem-me os tornozelos ou um monte de pregos a pregarem-me ao chão, pois os meus membros inferiores recusavam-se a mexer e latejavam a cada tentativa minha de os obrigar. Por fim, a minha teimosia venceu e, enchendo-me de coragem, avancei para enfrentar de vez o quadro de terror que se encontrava exposto no meu corredor. Iniciei o confronto com a situação e comigo mesmo, inundado em determinação, mas num ápice passei a chamar-lhe o nome real, ilusão. A força que pensei que teria após aquela introspecção devido ao primeiro impacto, não existia, a coragem que vi crescer em mim, não passava de uma miragem e, tudo o mais que tenha sido pensado por mim naqueles instantes criava no seu todo a maior fantasia alguma vez imaginada. Cada passo que dava ameaçava a integridade dos meus joelhos, de tanto que tremiam e doíam, cada inspiração tomava de mim uma infinidade de energia, para na expiração parecer incendiar-me os pulmões. A cascata proveniente do tecto parecia entoar uma melodia alegre durante o seu incessante contacto com o solo. Uma melodia marcada pela cor vermelha e em tom de chacota para com a minha pessoa. Coloquei-me quase debaixo dela, deixando que me salpicasse os pés e olhei fixamente para cima, coisa que até agora não havia sido capaz devido a toda a concentração necessária para vencer a insubordinação do meu corpo, mas, acima de tudo, ao medo. O corpo despido colado ao tecto de pernas e braços abertos, com inúmeros e profundos cortes por toda a sua extensão. Chorei. As falhas na carne de um encarnado que parecia ter vida e os seus contornos amarelados devido à camada de gordura da pele. Não consegui conter o vómito. Os seus olhos aterrorizados, presos eternamente a um pedido mudo de socorro, faziam-me chorar ainda mais. Saltei e agarrei um dos braços para tentar retirar o corpo do tecto e segurá-lo num último abraço, mas, mesmo sem estar preso por nada, pelo menos visível, nem se movia. Puxei com todas as forças e nem o braço que agarrava descolava, mantendo-me suspenso enquanto o agarrava. Desisti. Estava exausto e destruído por dentro. Caí de joelhos e puxei os cabelos enquanto gritava. Gritava coisas sem nexo, talvez até, simplesmente sons de desespero e agonia. A minha mulher estava morta, sofrera até ao seu último suspiro com toques de malvadez e eu não tinha feito nada para o impedir. Nem sequer a conseguia segurar junto ao meu peito e beijar-lhe a testa em despedida. Num ataque de histerismo mergulhei as minhas mãos na poça feita do seu sangue e comecei a espalhá-lo por todo o lado.
Tudo se encheu de vermelho à minha volta, incluindo a minha face, quando a cobri com ambas as mãos e gritei novamente até se me gastar a voz.
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