terça-feira, 1 de maio de 2012

Quod Sentio


                  Uma mulher está desaparecida.
                A minha camisola está larga e sinto a brisa gelada atravessá-la. Olho na direção das árvores. As folhas terminaram a sua metamorfose e esperam para cair. Penso nelas grudadas, bem cedo pela manhã, no vidro da frente da minha viatura…serão na maioria vermelhas. Os meus para-brisas vão empurrá-las dali para fora…e eu vou esquecê-las. No entanto, no meio de tais pensamentos, o meu cérebro lateja incansável. Uma mulher está desaparecida e não consigo esquecer.
                Há duas semanas atrás as folhas eram na sua maioria verdes e amarelas. Há duas semanas atrás uma mulher desapareceu. Não a conhecia, não faço ideia de como ela era, mas sei como se chamava. Dou por mim frente a velas, pronunciando o nome dela e a refletir. Estou a refletir e a rezar, mas sem rumo nem esperança.
                Uma mulher desapareceu; uma mulher está desaparecida.
                Contínuo a trabalhar, a erguer-me todos os dias pela manhã. Saio de casa de dentes lavados, penteado, pequeno-almoço tomado, entro no carro e conduzo. Consigo passar eternidades sem pensar nela, mas existem alturas em que deixo de conseguir. Sinto a pele arrepiar e tremo, tal e qual como quando tenho aquela camisola larguíssima e o vento a atravessa sem pudor. Os dez ou quinze metros que separam o estacionamento da porta do prédio, parecem tornar-se quilómetros. Por vezes ponho-me tanto no lugar desta mulher que parece que me vou desvanecer em pleno ar e desaparecer também. Dói.
                Daqui a duas semanas, quando as árvores estiverem despidas, a polícia encontrará o corpo dela e eu vou voltar às velas e rezas para pensar na mulher que desapareceu e foi encontrada, mas não realmente encontrada. Haverá um buraco no meu peito e não consigo perceber o porquê, porque não a conhecia, mas imagino que estou a ouvi-la rir, a ver o seu sorriso, e nessa altura vou pensar em todas as mulheres da minha vida e chorar.
                Uma mulher está morta e eu…não consigo esquecer.

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