Uma mulher está desaparecida.
A
minha camisola está larga e sinto a brisa gelada atravessá-la. Olho na direção
das árvores. As folhas terminaram a sua metamorfose e esperam para cair. Penso
nelas grudadas, bem cedo pela manhã, no vidro da frente da minha viatura…serão
na maioria vermelhas. Os meus para-brisas vão empurrá-las dali para fora…e eu
vou esquecê-las. No entanto, no meio de tais pensamentos, o meu cérebro lateja
incansável. Uma mulher está desaparecida e não consigo esquecer.
Há
duas semanas atrás as folhas eram na sua maioria verdes e amarelas. Há duas
semanas atrás uma mulher desapareceu. Não a conhecia, não faço ideia de como
ela era, mas sei como se chamava. Dou por mim frente a velas, pronunciando o
nome dela e a refletir. Estou a refletir e a rezar, mas sem rumo nem esperança.
Uma
mulher desapareceu; uma mulher está desaparecida.
Contínuo
a trabalhar, a erguer-me todos os dias pela manhã. Saio de casa de dentes
lavados, penteado, pequeno-almoço tomado, entro no carro e conduzo. Consigo
passar eternidades sem pensar nela, mas existem alturas em que deixo de
conseguir. Sinto a pele arrepiar e tremo, tal e qual como quando tenho aquela
camisola larguíssima e o vento a atravessa sem pudor. Os dez ou quinze metros
que separam o estacionamento da porta do prédio, parecem tornar-se quilómetros.
Por vezes ponho-me tanto no lugar desta mulher que parece que me vou desvanecer
em pleno ar e desaparecer também. Dói.
Daqui
a duas semanas, quando as árvores estiverem despidas, a polícia encontrará o
corpo dela e eu vou voltar às velas e rezas para pensar na mulher que
desapareceu e foi encontrada, mas não realmente encontrada. Haverá um buraco no
meu peito e não consigo perceber o porquê, porque não a conhecia, mas imagino
que estou a ouvi-la rir, a ver o seu sorriso, e nessa altura vou pensar em
todas as mulheres da minha vida e chorar.
Uma
mulher está morta e eu…não consigo esquecer.
Muito Bom.
ResponderEliminarCatarina B.