quarta-feira, 2 de maio de 2012

Alcatraz: Prólogo


                A porta bateu e ele entrou naquele apartamento. Nojento. Copos imundos, uns com restos secos de uma bebida qualquer, outros carregados de água castanha e beatas. Até cuecas e meias havia pelo corredor fora. “Javardo de mer…! – pensou Vas.”, e deu uns quantos passos na direção da janela à sua direita. Não havia nada naquele cubículo senão lixo, uma televisão velha, um sofá que certamente conhecera melhores dias, louça suja e um micro-ondas avariado. Vas nem queria olhar para a única divisória que existia para além daquela…algo a que chamam casa de banho. “Nem a porra de uns cortinados! – murmurou sorrindo.”.
                Esperou horas ali, de pé e junto à janela. De olhos fechados e ouvidos em alerta durante todo o tempo, encostado à parede e de mão direita apoiada na sua Colt 1911Panama canal, Cal .45 com silenciador, uma das duzentas e cinquenta produzidas para o mundo.
                Um ligeiro ranger e a porta abriu-se, deixando entrar a fraca figura de um “palhaço e energúmeno” chamado Cristy. Aqueles óculos à John Lennon a combinar com um bigodito à Hitler, as camisinhas aos quadrados e calça justa ficavam-lhe a matar.”Este estilo todo num só careca!”, era a frase mais comum entre os que o conheciam. Certamente era odiado pelos pais, que sempre desejaram uma rapariga, daí aquele nome, e, no fim, acabaram por ver a sua criação não passar de um atrasado mental, influenciável, traidor, mas acima de tudo, descuidado e muito, muito pouco inteligente. Pobres pais.
                Sentiu uma presença e olhou na direção da janela. Ouviu-se um ligeiro “click” e Cristy ficou estendido no chão a gritar de dor. Agarrava-se à perna com toda a força e as lágrimas iam enchendo o seu rosto de brilhos. Uma bala tinha-lhe destruído o joelho. Conseguia ver os bocadinhos de osso do que há momentos era a sua rótula e o sangue…o sangue era tanto que lhe trazia o vómito à boca.

                “Vas, que tá…que raio te deu? – disse mal recuperou o fôlego.”.
                “Nada! Só faço o que tu e os teus companheiros me pediram.
                “Quê? Mas ninguém te pediu nada seu psicopata!
                “Não pediram por palavras. São as vossas atitudes que me movem. Adeus.
                “Vas que cara…”, ” click “.

                Estendido e a fumegar do centro da testa, Cristy não ia importunar mais ninguém com os seus esquemas e burrices, mas visto que este tipo de gentinha teima em resistir a tudo, pelo sim, pelo não, Vas deixou cair mais duas balas sobre os quadradinhos azuis e brancos daquela camisa e saiu sem fechar a porta. Guardou a arma enquanto descia as escadas e só parou à entrada do prédio, já com a porta deste fechada nas suas costas. Tocou às campainhas e, fazendo a voz mais apavorada que conseguia, alertou os vizinhos para um qualquer acidente no 2º direito. Esperou o suficiente para ouvir o rebuliço nas escadas e partiu. Uma figura de casaco preto comprido e óculos escuros misturou-se na multidão que invadia as lojas de rua numa azáfama típica de compras que antecedem a chegada do Inverno.

O primeiro…o fim ainda está longe. – pensou.”.

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