A porta bateu e ele entrou
naquele apartamento. Nojento. Copos imundos, uns com restos secos de uma bebida
qualquer, outros carregados de água castanha e beatas. Até cuecas e meias havia
pelo corredor fora. “Javardo de mer…!
– pensou Vas.”, e deu uns quantos passos na direção da janela à sua direita.
Não havia nada naquele cubículo senão lixo, uma televisão velha, um sofá que
certamente conhecera melhores dias, louça suja e um micro-ondas avariado. Vas
nem queria olhar para a única divisória que existia para além daquela…algo a
que chamam casa de banho. “Nem a porra de
uns cortinados! – murmurou sorrindo.”.
Esperou
horas ali, de pé e junto à janela. De olhos fechados e ouvidos em alerta
durante todo o tempo, encostado à parede e de mão direita apoiada na sua Colt 1911Panama canal, Cal .45 com
silenciador, uma das duzentas e cinquenta produzidas para o mundo.
Um
ligeiro ranger e a porta abriu-se, deixando entrar a fraca figura de um
“palhaço e energúmeno” chamado Cristy. Aqueles óculos à John Lennon a combinar
com um bigodito à Hitler, as camisinhas aos quadrados e calça justa ficavam-lhe
a matar.”Este estilo todo num só careca!”,
era a frase mais comum entre os que o conheciam. Certamente era odiado pelos
pais, que sempre desejaram uma rapariga, daí aquele nome, e, no fim, acabaram
por ver a sua criação não passar de um atrasado mental, influenciável, traidor,
mas acima de tudo, descuidado e muito, muito pouco inteligente. Pobres pais.
Sentiu
uma presença e olhou na direção da janela. Ouviu-se um ligeiro “click” e Cristy
ficou estendido no chão a gritar de dor. Agarrava-se à perna com toda a força e
as lágrimas iam enchendo o seu rosto de brilhos. Uma bala tinha-lhe destruído o
joelho. Conseguia ver os bocadinhos de osso do que há momentos era a sua rótula
e o sangue…o sangue era tanto que lhe trazia o vómito à boca.
“Vas, que tá…que raio te deu? – disse mal
recuperou o fôlego.”.
“Nada! Só faço o que tu e os teus
companheiros me pediram.”
“Quê? Mas ninguém te pediu nada seu
psicopata!”
“Não pediram por palavras. São as vossas
atitudes que me movem. Adeus. “
“Vas que cara…”, ” click “.
Estendido
e a fumegar do centro da testa, Cristy não ia importunar mais ninguém com os
seus esquemas e burrices, mas visto que este tipo de gentinha teima em resistir
a tudo, pelo sim, pelo não, Vas deixou cair mais duas balas sobre os
quadradinhos azuis e brancos daquela camisa e saiu sem fechar a porta. Guardou
a arma enquanto descia as escadas e só parou à entrada do prédio, já com a
porta deste fechada nas suas costas. Tocou às campainhas e, fazendo a voz mais
apavorada que conseguia, alertou os vizinhos para um qualquer acidente no 2º
direito. Esperou o suficiente para ouvir o rebuliço nas escadas e partiu. Uma
figura de casaco preto comprido e óculos escuros misturou-se na multidão que
invadia as lojas de rua numa azáfama típica de compras que antecedem a chegada
do Inverno.
“O primeiro…o fim ainda está longe. – pensou.”.
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