quinta-feira, 17 de maio de 2012

Alcatraz: Cap. I - Karma


                    Estava ali encostado ao marco do correio com a sua Kawasaki Ninja ZX – 14 de 2006. Tinha 1300 cc, fazia 2,5 segundos dos 0 km/h aos 100 km/h e atingia uma bela velocidade máxima de 300 km/h. O sol estava meio encoberto devido às pequenas nuvens que teimam em anunciar as primeiras chuvas, mas nem isso tirava o brilho ao preto daquele veículo e o esplendor aos pormenores laranja escuros dos amortecedores e discos de travões. Sentia-se orgulhoso da sua menina, mas não era altura para se distrair. Voltou a focar o olhar na porta daquele prédio que ficava do outro lado da estrada. Tinha de apanhar aquele tipo hoje. Tinha que lhe “limpar o sebo” de forma dolorosa. Fazê-lo sofrer o triplo do que tinha sofrido por causa dele. Baixou o olhar na direção da sua mão esquerda e relembrou o momento em que este lhe cortara o anelar e o mindinho

“ E pensar que isto foi a parte menos má! Filho de p…”.

                Esperou horas no mesmo sítio. Já lhe doíam as pernas e começava a ficar irritado com os transeuntes que o olhavam como se ele fosse um espantalho. Não seria de admirar, visto ao tempo que ali estava parado no mesmo local. Chamou bezerro a uns e cabra a outras, entre outros nomes bem mais ordinários do que convém especificar, mas nunca arredou pé, nem perdeu a atenção. 

“Vou ficar com os pés em chaga por causa deste panasca! Só pioras o teu castigo amigo…só pioras!”.

                De repente viu o seu “camarada” sair do prédio e parar na entrada, deixando a porta fechar nas suas costas. Viu-o tocar às campainhas, aproximar-se do altifalante, fazer um compasso de espera e acelerar para o meio da multidão. Sentou-se e ligou a mota, preparando-se para seguir o traste, mas não sem antes ouvir a gritaria histérica que se instalou no edifício donde este saíra.  

“Já te esticaram não é careca? Enfim…também não fazias falta! – pensou ele enquanto arrancava.

                Avançou sempre devagar para não o perder de vista e não chamar à atenção, excetuando as alturas em que ele se metia por becos ou zonas somente pedestres e tinha de acelerar para lhe cortar caminho, mas não teve de se esforçar muito. Mais um quarteirão e viu-o entrar num parque de estacionamento daqueles com dois ou três andares e estradas em caracol a ligar os pisos. A partir dali tinha de ser mais cauteloso.

                Chegado ao terceiro piso, que era a céu aberto, perdeu-o de vista. Tinha dado distância a mais e sabia-o, mas também sabia que a dada altura, no último quarteirão percorrido, já tinha sido “topado” e tomara as devidas precauções colocando a sua “bebé” por baixo do casaco e presa no cinto, com 22,8 cm de lâmina, 6,5 cm de espessura e serrilha no dorso…era adorável.

                Saiu calmamente da mota e começou a deambular, adotando a postura mais insegura e desamparada possível. Olhava para baixo dos carros e por cima destes, virava-se para trás de repente e até espreitava pelos parapeitos. Queria parecer “bronco” e inexperiente para que o adversário se sentisse confiante e se mostrasse. Nessa altura, apanhá-lo-ia com a guarda em baixo.

                “Andas à procura de alguma coisa amigo? – aquela pergunta foi-lhe quase sussurrada ao ouvido.”.
                “Sim meu senhor! Das minhas chaves de casa. – respondeu com uma voz propositadamente trémula.”.
                “Das chaves de casa?! Engraçado! Mais engraçado ainda é que a tua voz não me é estranha! – levou a mão à pistola enquanto falava.”.
                 “Coincidência do cara… - com um golpe rápido da sua bebé sacou-lhe dois dedos da mão e a pistola caiu no chão.”.
                “Dassss… - um pontapé em cheio no joelho, um rangido da articulação a rachar e o tipo do capacete estava no chão.”.
                “Raios te partam… - um impulso tão rápido como inesperado e aquela lâmina enterrou-se por completo na coxa do seu alvo, fazendo com que ficassem agora os dois por terra.”.

                Um casal dirigia-se para a sua viatura quando se deparou com aquele cenário. Dois homens caídos, sangue espalhado pelo chão, olhares de raiva e palavrões atrás de palavrões. Afastaram-se rapidamente e pegaram no telemóvel para chamar a polícia.

                “Quem és tu? Tira de vez esse capacete e mostra a cara! – dizia Vas por entre gemidos, não sabendo o que lhe causava mais dor, se a mão ou a coxa.”.

                Com um esforço enorme conseguiu contrariar o joelho e ergueu-se. Apanhou a pistola do inimigo, guardou-a, certificou-se que já ali não estava ninguém para além deles e começou a tirar o capacete.

             “Tu! Eu sabia que havia de pagar pelo que te fiz.”
             “Adeus. – olhou Vas fixamente e cravou-lhe a faca pelo meio dos olhos até sentir a ponta da lâmina tocar o chão.”.

                Tirou o casaco jogando-o para o chão, para perto do capacete e antes de se ver livre das luvas, retirou a faca daquela cabeça e limpou o sangue e os miolos que vinham agarrados. O som da lâmina a sair foi algo nojento até para ele. Coxeou até à mota com um esforço monstruoso e cheio de dores. Deu à chave e absorveu aquele som como se fosse um analgésico, arrancando de seguida, deixando para trás uma nuvem de fumo e o som de sirenes a aproximarem-se.

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