segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um dia na vida de...


       Levanto-me da cama e vou às apalpadelas até à janela. No percurso ainda sinto o malfadado efeito da bebida nos joelhos que ainda tremem e ameaçam ceder a qualquer momento. A noite anterior tinha sido diabólica para a minha pessoa, que saída de casa apenas para um café e de retorno planeado para as 23h, acabara por se pôr a recordar velhos tempos com os amigos, mas desta vez, ao invés de se divertirem a beber sumo, bebiam whisky. “Quatro garrafas pra cinco? Nem chega a uma pa cada um, por isso…”, por isso, não deveria ser nada demais, mas foi! Entrei quase de gatas para dentro do carro e o taxista muito simpático, o que estranhei imenso visto serem 4h da madrugada e todos os que trabalham a essa hora serem uns atrasados mentais da pior espécie, mas também no estado em que me encontrava, não era nada que me fizesse realmente diferença, ajudou-me a entrar e até me apertou o cinto. Grande erro o do senhor, pois isso evitou que me conseguisse mover rápido o suficiente para abrir a janela e me debruçar. Resultado? Frango assado em estado irreconhecível e com cheirinho a Cardhu por todo o lado. Não será preciso dizer que a simpatia do senhor taxista mudou para algo bem diferente a partir daquele momento. Subi a escada de uma forma que ainda não sei bem como foi, mas pelos gritos de ódio que ouvi de forma distorcida, calculo que tenha sido algo épico, de meter inveja a coisas como Star Wars ou Blade Runner.

Abri finalmente as cortinas e os joelhos vacilaram-me novamente. A minha vizinha deve ter pensado que me estava a fazer a ela enquanto dançava a lambada, visto que se meteu para dentro a uma velocidade estonteante mal me viu. Estava um tempo horrível. Chovia a cântaros e o abraço do vento era de tal forma intenso que ameaçava arrancar árvores e postes do chão. Lá em baixo, o café do Sousa estava cheio e isso fez com que arregalasse os olhos e focasse a atenção no relógio da mesinha. Tal como tinha pensado, o café do Sousa enche com o pessoal que sai do trabalho ali na zona às 18h e já eram 18:23! Eu tinha dormido 14h de seguida! Era inacreditável para um tipo como eu, que por acaso devia ter chegado às 17:30 a casa dos futuros sogros. Já não era tao inacreditável assim, o facto de ter 18 chamadas não atendidas da namorada no telemóvel. Vesti-me com a velocidade de um relâmpago e saí a correr porta fora. Se a dormência nos joelhos havia desaparecido como por milagre, a queda que dei em seguida, varrendo quase um lanço completo de escadas, trouxe-me novamente à memória as abençoadas articulações que agora pulsavam de dor. Tentei esquecer e saí para a rua. Não se via ninguém a pé, pois os que não estavam encafuados em cafés era porque tinham carro e não estavam sujeitos às cataratas da terra do Nosso Senhor. Foi por essa razão que decidi ser o único maluco a andar debaixo de água, pois assim ninguém me havia de chatear pelo caminho, mas acima de tudo, pensemos bem, seria de utilidade extrema o facto de chegar encharcado a casa dos pais da menina, senão vejamos, em vez de ouvir sermões e ver caras em vias de derreter, terei toda a solidariedade devido ao meu flagelo e consequentemente, todas as atenções para que consiga ultrapassar os danos causados pelo dito cujo. Perfeito!

Já andava há 10 minutos e metade do caminho já estava feito. Já lá teria chegado não fosse aquela chuvada terrível que não me deixava ver bem e o vento que teimava em me empurrar para trás. As minhas calças preferidas com boca-de-sino e ganga preta mais pareciam leggings de tao coladas que estavam às pernas. Nem a gabardina comprida que tinha impedia a água de entrar e o meu gel já era, bem como o meu penteado mal feito. Cada vez estava com um aspeto mais deplorável, o que era precisamente o meu objetivo. “Coitadinho…”,era capaz de dizer que já os ouvia a falar enquanto me levavam para ao pé da lareira e me traziam uns chinelinhos. Vou para virar a última esquina e vejo dois tipos a arrastar uma rapariga para fora de casa. Um puxava-a pelos cabelos enquanto o outro lutava contra o debater das pernas dela. “Que merda é esta?”, pensei eu, “Vou ter de lhes arrear!”, e avancei na direção dos energúmenos. Eles viram que me aproximava e o que estava à cabeça deu uma cacetada de tal forma na rapariga, que a deixou inconsciente. “Quem és tu? Desaparece daqui imbecil! Vai antes que te magoes seriamente!”, diziam eles alternadamente enquanto se colocava um na minha frente e outro atrás. Não resisti muito tempo à tentação e preguei uma bolachada no da frente fazendo-o curvar-se todo. Rapidamente me virei e espetei uma pisadela épica no outro, aproveitando quando se encolheu para lhe pregar uma murraça no alto do cachimbombo, uma expressão que não sei porque carga de água, acho perfeita para descrever uma cabeça que mais parece um tambor de fanfarra e que até o som que faz é semelhante a tal. O primeiro recuperava da primeira festinha quando lhe cravei a segunda fazendo-o cair de vez. O segundo ainda coçava a carola quando lhe dei razões para se agarrar a outro sítio com a biqueirada que lhe aviei nas canelas. Aproveitei os saltinhos que ia dando para ser solidário com o senhor e continuei a coçar-lhe a cabeça com umas belas dumas calduças. Entretanto fartei-me e arreei-lhe uma de tal forma intensa que o coitado adormeceu. Ajudei o que sobrava a levantar-se ainda tonto dos bilhetes que tinha levado nas fuças e comecei a abanar-lhe a cabeça puxando-a pelas orelhas. Cada vez que reclamava eu fazia-lhe mais uma festinha para o acalmar. Antes de o pôr a dormir com a minha estalada à Belzebu, chegámos a um consenso e a excelentíssima pessoa contou-me tudo o que estavam a fazer. Iam raptar a rapariga porque o estupido do irmão desta lhes devia fortunas, mas a coitada nem fazia ideia dos negócios que para ali andavam. Chamei a polícia e fui até ao pé da rapariga. Acordei-a com suavidade para que se assustasse o mínimo possível ao acordar. “Calma, calma! Está tudo bem! Estás segura e já chamei a policia!”, dito isto ela até se acalmou e já não gritou mais. Levei-a para dentro e voltei para a rua, para baixo do alpendre, deixando-a à vontade para se recompor e trocar as roupas encharcadas. Quando chegaram as autoridades, apresentei-lhes as belas adormecidas que foram continuar o seu sono de beleza algemadas dentro de um dos carros e posteriormente, eu e a rapariga, de nome Cristina, explicámos o sucedido. Após alguns minutos despedi-me dela. Ela abraçou-me e agradeceu-me por tudo com as lágrimas nos olhos. Olhei-a e pensei nela como sendo minha irmã também. Peguei-lhe no rosto e com os polegares limpei a água que já corria. Abandonei a zona num carro da polícia, pois o agente insistiu que me levaria ao meu destino. Olhei uma última vez para a casa e ela acenou-me. Retribuí com um orgulho enorme. A meio do caminho voltaram os pensamentos normais do meu dia-a-dia, “Agora a desculpa para o atraso ainda vai ser melhor! Agora para além de coitadinho, ainda vou ser o herói! Haha…”, e acabei a rir para dentro.

Bati à porta e a voz irritada da minha Marisa foi o primeiro sinal de vida vindo do interior da casa. Abriu a porta ainda com fumo a sair-lhe das narinas, mas viu o carro da polícia a partir e acalmou o suficiente para falar com a boca e não com as mãos. “Pedro, que se passou para vires com a polícia? Entra rápido para junto da lareira que já te vou buscar uma roupa do meu pai e uns chinelos para tirares esses trapos encharcados.”. A minha menina morena de olhos verdes matava-me com aquelas alterações de humor. Adorava dar-lhe a volta. Vê-la pronta a comer-me vivo e de repente mudar para namorada preocupada, era o meu prato favorito. Os meus sogros vieram-me cumprimentar e visto terem ouvido o comentário sobre a boleia policial, mostraram-se muito preocupados e sentaram-se à espera da história. Depois de trocar de roupa e ter um belo dum chá quentinho nas unhas, contei-lhes tudo ao pormenor, excetuando a bebedeira e as 14h seguidas a dormir. Supostamente havia saído de casa a horas, mas o sucedido tinha sido de muito maior duração do que na realidade fora. Não me senti muito mal, pois não passavam de umas mentirinhas inocentes que iam evitar uma discussão monumental. No fim, os meus sogros sorriam congratulando-me e a Marisa sentou-se ao meu colo aos beijos. Aquele fogo pareceu-me extremamente aliciante e visto ainda serem 20h, eu via avizinhar-se uma noite de boa comida e altos voos, mais uma na minha vida de desempregado e herói…”Hehehe…”

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