5 minutos. 5 minutos era tudo o que precisava para apanhar aquele alucinado. Não seria fácil apanhá-lo em velocidade com o motão em que ele se deslocava, mas não era essa a intenção. Ia segui-lo, ver onde se escondia, aproximar-se, apertar-lhe o gargalo e, antes de o matar, cortar-lhe mais um dedinho ou dois. Talvez 7, 7 minutinhos para ter a certeza que fazia tudo certinho e não haveria arrependimentos por ter deixado algo por fazer ao menino.
Estava parado em frente ao estacionamento para onde o tinha visto entrar e interrogava-se sobre o que o teria levado ali, mas era simples curiosidade, pois na verdade não queria saber de mais nada senão daquele pescoço nas suas mãos. Dentro do seu Peugeot RCZ 2.0 HDi GT Coupé preto, observava atentamente as cancelas que demarcavam a entrada e a saída do edifício. “Nunca mais sais daí chouriço? Já tou a ficar impaciente!”, dizia em voz alta enquanto abria o vidro do carro. “Tão a olhar para onde seus rotos de merda?”, gritou para dois tipos que por ali passavam e olharam para ele por estar a falar sozinho. “Vejam lá se querem ser pendurados pelos túbaros no poste mais próximo!”, dito isto, os rapazes começaram a fugir como o diabo da cruz, tal era a agressividade e incivilidade daquela voz.
Passados alguns minutos, o ruído de sirenes invadiu a zona. Primeiro ao de leve, mas apresentando um crescendo algo estranho. Pensava no que poderia ser quando o “alucinado dos cotos” saiu disparado do parque. Ao vê-lo até se esqueceu das sirenes arrancando à campeão e pisando o traço contínuo na derrapagem que fez para inverter o sentido. Ainda estava a meio da habilidade quando os carros da polícia chegaram ao local e viram o caos que aquela manobra provocava, fazendo alguns carros travarem bruscamente e dois condutores chocarem por uma mudança de direção brusca provocada pelo susto. Visto terem sido chamados ao local por um casal que afirmara ter presenciado um confronto entre dois suspeitos, metade dos veículos do aparato policial iniciaram uma perseguição ao Peugeot, enquanto os restantes ficavam para isolar e investigar o perímetro.
Olhou pelo espelho retrovisor e viu os cinco carros que o seguiam de sirenes ligadas e se aproximavam cada vez mais. Reduziu a mudança e acelerou bruscamente, o que fez com que a sua nuca tocasse o encosto de cabeça do banco. Ganhou uma curta distância, dando-lhe tempo para ver o seu alvo virar à esquerda a dois quarteirões de distância. No entanto os polícias já lhe “beijavam” a traseira e a necessidade de inverter a situação tornava-se emergente. Olhou em volta por um segundo em busca de soluções, mas nada lhe ocorria. Não se lembrava muito bem daquela zona da cidade e, embora não quisesse ser apanhado, também não queria deixar o “alucinado” escapar. Olhou novamente em frente e o sangue gelou por momentos. Um velhote atravessava a estrada naquele preciso instante e não havia hipótese de travar a tempo. Tirou o pé do acelerador e guinou o volante para a esquerda, entrando em sentido contrário e seguindo até ao passeio para evitar o choque frontal com os veículos que ai circulavam. Um deles travou a fundo, fazendo outro espetar-se-lhe na retaguarda e um terceiro entrar em despiste e enfeixar-se na frente de um carro patrulha que ficou automaticamente fora da perseguição. Fora da jogada ficou também um segundo carro patrulha que ficou totalmente para trás devido à travagem a que foi obrigado para não ficar a fazer parte dos acidentados. Seguia pelo passeio, levando na frente toldos, cadeiras, mesas, caixas de fruta e tudo quanto lhe aparecesse à frente. Os transeuntes refugiavam-se no interior dos cafés e lojas ou saltavam desesperados para fora do alcance do veículo desgovernado. Era óbvio para ele que enquanto por ali circulasse, os três perseguidores que restavam, não se aproximariam demasiado, então manteve-se assim até virar à esquerda na mesma rua do motard. De volta à estrada, acelerou a fundo e viu os três terminarem a curva e pisarem o acelerador em consonância consigo. A reta era enorme e embora tivesse uma maior capacidade de aceleração, eles tinham maior velocidade de ponta e iriam apanhá-lo na certa. Com um mero golpe de sorte, vislumbrou à sua direita um café que frequentou durante algum tempo com os colegas de escola e foi como se um mapa se desenhasse na sua mente. O tipo lá na frente virou à direita e ele já sabia como o tramar e ver-se livre da “mona” o tempo suficiente para se esconder. “Tão todos fud… comigo, seus con… de sabão!” e riu-se pela primeira vez em longos meses. Com os patrulhas a escassos metros de o apanharem, desenhou um ligeiro slalom para que abrissem espaço entre eles e travou bruscamente fazendo-os passar por si a alta velocidade. Foi tão brusco a travar como foi a arrancar novamente por um sentido proibido à sua direita. Os polícias derrapavam e provocavam uma nuvem de fumo gigante com as travagens, não conseguindo disfarçar a atrapalhação com que se debatiam na tentativa de recuperar. Tinha a sua janela de oportunidade ali, mas tinha que ser rápido, pois não tardaria até que dessem com ele novamente. O “alucinado” já circulava calmamente e a baixa velocidade quando o vira pela última vez, então, olhando pelas ruas transversais, acabou por vê-lo e ultrapassá-lo. Não ia esperar que ele chegasse ao destino como planeado. Era ali e agora. Virou à esquerda e reduziu a velocidade para uns 20 km/h, avançando lentamente à espera que ele surgisse na intersecção em frente. Mal lhe viu a “put…da focinheira” acelerou a fundo e atravessou-se-lhe na frente. O tipo não teve tempo pra nada. A mota ficou cravada na lateral traseira do Peugeot e ele voou por cima deste até ao encontro do alcatrão. Saiu de dentro do carro e dirigiu-se a ele. “Agora vens comigo e bem caladinho meu panele…o!”, dizia enquanto o levantava pelos colarinhos e lhe apontava o “Caga Pólvora” como lhe chamava. Uma multidão assistia pasmada a todo aquele circo, mas ele não se atrapalhou. Ergueu a carteira e abriu-a, mostrando o cartão de identidade, mas que à distância a que estava das pessoas, podia muito bem ser qualquer outra coisa. “Sou da autoridade, queiram circular por favor. Está tudo sob controlo.”. Muitos curiosos ainda ficaram a olhar, mas assim tinha a certeza de que ninguém os iria seguir. Empurrou então, o mais rapidamente que pode, o agora coxo motard até um beco e daí, mais calmamente seguiram caminho por ruelas e outros becos até à segura distância a que se encontravam as docas abandonadas. As sirenes não demoraram a fazer-se ouvir chegar ao local do acidente, mas com a distância, começavam a fazer parte do passado. Iria ter tempo para o seu ajuste de contas.

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