segunda-feira, 28 de abril de 2014

Sonhar acordado

Os olhos de P. focaram-se na vela da sua secretária e foi como se o tempo parasse. O balouçar da caravela havia-o levado para um mundo à parte, o mundo em que sonhava acordado. Via-se a chegar ao próximo porto, todos os comerciantes a chamarem-no de “adorado capitão”, a tratarem-no como sempre faziam, como se de família se tratasse e de repente, algo o fez parar, algo diferente, algo que nunca tinha visto, mas que lhe provocava uma sensação maravilhosa, a melhor que alguma vez sentira. Ao fundo do passadiço de madeira, uma…”CAPITÃO”…aquele grito acordou-o para a realidade e saiu da sua cabina de forma célere, mas irritado por ter sido interrompido na parte em que se preparava para descobrir tão encantadora inspiração.

“Que se passa L. ?”, bradou ao marinheiro à sua frente, que se mostrava completamente apavorado.
“Capitão, olhe!”, disse em voz trémula e apontando na direcção de terra.

Os seus olhos seguiram o movimento daquele braço e focaram-se na direcção do dedo estendido, inundando-se de uma luz laranja aterradora. O porto estava a ser atacado por dois navios de salteadores e não havia estrutura que não se encontrasse em chamas. Os gritos eram cada vez mais audíveis e o terror neles implícito era aquele dos piores pesadelos.

“Prepara todos para o confronto.”, disse de forma decidida. “O quê meu capitão? Não devemos…”, “Cala-te e faz como te digo, não podemos deixar estas pessoa sofrer tão terrível destino. Apressa-te. O tempo urge.”.

O marinheiro desatou a correr na direcção dos outros homens e P. perdeu-se novamente em pensamentos. Apoiou as mãos no corrimão de madeira brilhante e trabalhada que rodeava o seu navio e fechou os olhos, baixando o semblante. O seu chapéu ornamentado com uma pena de cor azul voou no sentido do porto até se perder nas águas do oceano infinito, não merecendo a atenção do seu dono, nem sequer um último olhar. O suor corria-lhe pelas fontes, pingava-lhe suavemente as mãos, gotejava ao ritmo do batimento cardíaco que batalhava por acalmar sem sucesso, as pernas tremiam com o pensamento de que tanto lhe faltava na vida para que se sentisse completo, realizado, feliz. Seria de esperar que aquela alta patente, todo o reconhecimento e respeito, o preenchessem de alguma forma, mas não era suficiente, nem sequer perto disso. Os dedos encresparam na madeira com a ideia de proximidade com a morte, mas não podia abandonar aquela gente que sempre o tratara tão bem, não podia desprezar tanto carinho e bondade. Pelo menos morreria a lutar, morreria de forma altruísta e assim seria lembrado, e isso, isso já o deixava feliz, já o deixava a sentir-se útil.
O som das velas, um som que tanto adorava, alertou-o para a movimentação de abordagem ao porto e também ele se preparou para o confronto. Era como se a espada no seu flanco esquerdo e a pistola no direito, se fundissem com ele e se tornassem um só. Sentia a adrenalina correr-lhe nas artérias, fazendo-lhe fervilhar o sangue, mas simultaneamente permitindo-lhe um nível de concentração que lhe consentia isolar-se de tudo o resto, até de todo o ruído, que lhe parecia cada vez mais distante e imperceptível.
Sem demoras e confiando que os seus treinos seriam suficientes para que os seus homens não necessitassem da sua presença, saltou do navio de pistola em punho e disparou dois tiros certeiros durante a queda, cujos acertaram na nuca de dois salteadores que espancavam um grupo de mulheres. Ajudou-as a erguerem-se e com um gesto de cabeça ordenou-lhes que saíssem dali, ao que elas acederam de imediato após uma pequena vénia de agradecimento. O seu sonho inicial estava longe daquela realidade e a sua tristeza era cada vez maior, mas tinha de continuar, não podia perder a concentração.
Correu que nem um desvairado até à praça central, onde todas as modestas bancadas de madeira, encimadas por montes de palha para sombra, tinham deixado de existir para darem lugar a montes de cinza e, a igreja que as vigiava e protegia, não passava de uma gigante pira.
Estacou e olhou em redor. À sua direita, um grupo de bandidos corria na direcção de um beco, perseguindo alguém e ele seguiu o mesmo caminho. Perdeu-os por momentos quando estes entraram no beco, mas não demorou a reencontra-los, desta vez a escalarem a fachada de um dos edifícios em busca da presa. Apressou-se a fazer o mesmo e atingiu o telhado praticamente em simultâneo com os malditos ladrões. Gritou e postou-se no meio dos quatro que o olharam embasbacados. Estrebucharam algo numa língua que desconhecia, gargalharam e atacaram.
Mergulhou para a frente, escapando por pouco a uma espada que lhe zuniu por baixo dos pés e a uma outra por cima da cabeça, que lhe deixou uma madeixa de cabelo a menos. Após uma cambalhota, ergueu-se e encarou todos de frente. O mais próximo caiu repentinamente com um movimento impetuoso da sua ágil lâmina, que lhe perfurou o abdómen, provocando um passo à retaguarda dos restantes, agora já mais medidos. Pensou em pegar na arma de fogo, mas ao se aperceberem desse gesto, o trio atacou. Bloqueou o ataque do primeiro com um movimento ascendente da espada, o segundo com um esticão descendente e por fim, com um movimento lateral do corpo, desviou-se do terceiro, cujo rasteirou, jogando-o por terra e arrancando algumas telhas. Tomou a iniciativa e atacou os que estavam de pé, pontapeando o primeiro no estômago e abrindo o pescoço ao outro, que caiu abruptamente. Ofegante e agarrado à barriga, o outro malandro nem soube o que lhe aconteceu, até se ver a cair de cabeça ao encontro de um duro chão de pedra.
Deu a si próprio um mero segundo para respirar, mas havia-se esquecido do rasteirado. Engoliu em seco e rodou sobre si próprio para tentar corrigir o seu erro idiota, mas era tarde. O tipo abalroou-o para fora do telhado, mas ainda conseguiu agarrar-se ao rebordo para não cair. Segurou-se só com uma e levou a mão à pistola, mas esta não estava lá. Havia caído durante o ataque e agora estava condenado. O bandido forçava-lhe as mãos para fora da orla, pisava-lhas e pontapeava-lhe a face constantemente. As dores começavam a ser insuportáveis, as forças a abandonarem-lhe o corpo e a sua mente já só pensava em desistir, soltar-se, evitar mais sofrimento e dor, até que se ouviu um tiro e o corpo do salteador caiu do telhado já sem vida. Arregalou os olhos quando viu uma rapariga estender-lhe a mão e ficou preso no seu olhar carinhoso. Conseguiu subir e ficou caído com a cabeça perto do pescoço dela. O cheiro era de tal forma agradável que pensou em nunca mais dali sair, até que ouviu a voz suave dizer-lhe “Obrigado”. Olhou-a novamente e respondeu, “Eu é que agradeço, salvaste-me a vida. Posso saber o teu nome?”
Um barulho estridente e horrível acordou-o de sobressalto e viu-se em frente ao seu computador com o telemóvel a tocar. Ignorou a chamada. Tinha adormecido a olhar para o seu candeeiro de secretária e a pensar na vida. Voltou a pensar no sonho que tivera e naquela rapariga, no seu olhar, no seu cheiro. Fechou os olhos e voltou a vê-la, voltou a ver aquilo que queria, que lhe fazia falta, aquela companhia, aquela presença e, sentiu-se bem pela primeira vez em muito tempo. Ao reabrir os olhos, parou de respirar. Afinal de contas, tudo tinha sido um sonho, mas ela não. 

Ele conhecia-a, ela era real e ele sabia perfeitamente o nome dela.

Sem comentários:

Enviar um comentário